Friday, December 18, 2009

Franceses em Braga há 200 anos (26)


A Póvoa de Lanhoso possui um testemunho fortíssimo da hostilidade do clero aos invasores, que já foi veemente aquando da primeira invasão.
Na freguesia de Fontarcada, o pároco de então, padre João Afonso Pereira dinamizara festas de louvor e acção de graças pela expulsão das hostes invasoras, no dia 30 de Outubro de 1808, escassos meses antes da segunda invasão, que passou pelas terras de Lanhoso.

Antes da festa, o padre tinha feito levantar no Cruzeiro, em frente da Igreja, uma "luzida bandeira com as Reais Quinas, e aos pés destas as águias francesas". este gesto fez atrair os clérigos e o povo da freguesia e vizinhanças, bem como as famílias e as autoridades da Póvoa de Lanhoso.

No dia da festa, houve música instrumental e recitação de poemas alusivos ao fim da primeira invasão. Quando Soult preparava as suas tropas para a segunda invasão, em Fontarcada festejava-se ainda o fim da entrada mal sucedida de Junot em Lisboa, com cânticos no dia 30 de Outubro de 1808, na igreja engalanada e Eucaristia exposta, para além de uma missa solene e sermão pregado pelo reitor de Antime (Fafe), padre José Teixeira de Carvalho.

Este padre fafense "fez ver tanto ao vivo a nossa triste situação e nova felicidade, que não ficou um só espectador a quem não rebentassem várias vezes as lágrimas" como se pode ler na "Relação das festas do Couto de Fonte-Arcada, no mez de Outubro de 1808", editada pela Real Imprensa da Universidade de Coimbra, na página 3, daquele ano.

Nesta festa de acção de graças pela expulsão dos franceses "estiveram presentes as Câmaras da localidade e do concelho, com os seus presidentes oficiais, e as cerimónias religiosas, abrilhantadas por uma capela de música da região regida por um maestro natural da freguesia, terminaram com uma Procissão, indo o Santíssimo debaixo de um rico pálio, conduzido por seis eclesiásticos vestidos de asseadas alvas e ricas capas, e no meio dela o andor, com as Reais Quinas em triunfo, conduzido também por quatro beneméritos eclesiásticos, acompanhada de uma escolta de cinquenta e três milicianos".

Este texto, citado por João Francisco Marques num artigo sobre "O Clero Nortenho e as invasões francesas — patriotismo e resistência regional", exprime bem a aliança entre Clero e povo (milicianos) na construção da resistência à`segunda invasão que martirizou há 200 anos as terras da Póvoa de Lanhoso, no percurso das tropas francesas entre Chaves e Braga, em direcção ao Porto e na sua fuga por Vieira do Minho em direcção à Galiza, três meses depois do seu fracasso total.

Mas este sentimento anti-gaulês não foi sempre tão constante, uma vez que ele apenas se empertigou quando os clérigos começaram a aperceber-se da perda de algumas regalias, na sequência dos ideais da Revolução Francesa que chegavam até nós com a presença dos franceses, disseminados pela Maçonaria. Num instante, franceses e maçónicos, além de inimigos da Igreja passaram a ser os coveiros da Pátria. Percebe-se o empenho dos párocos e autoridades eclesiásticas no combate aos franceses, mais por interesses que por ideias patrióticos.

Aliás, as primeiras declarações são conciliadoras, por parte do episcopado, destinadas a evitar atritos com o invasor francês, mas a igreja vai evoluir para uma posição diferente que passa pela legitimação do levantamento popular e, inclusivamente, pela abolição da proibição de os eclesiásticos poderem pegar em armas.

O quadro não era fácil de explicar aos fiéis, fustigados pelo analfabetismo e em completa pobreza, pois "se é fácil pintar os franceses como ímpios, não é menos simples fazern esquecer que os britânicos são herejes, protestantes e anglicanos". Com a abertura dos portos do Brasil aos britânicos, o território português torna-se pela primeira vez palco de concorrência entre diferentes religiões cristãs, o que não deixará de causar atritos com o Vaticano.

As Invasões Francesas perturbaram profundamente a vida das instituições eclesiásticas (dioceses, paróquias e congregações) iniciado por influência externa (filosofismo e revolução francesa) e pelo definhamento pessoal e material de muitas casas religiosas. Muitos padres e religiosos que tiveram de deixar igrejas e conventos durante as Invasões quebraram
rotinas que não retomariam facilmente.

Contos de Natal ajudam restauro da Abadia


O salão nobre da Pousada de Santa Maria de Bouro acolhe hoje, às 18 horas, a sessão de lançamento do novo livro de Adelino Domingues, intitulado "A boa estrela na montanha", num sarau musical animado pelo grupo de câmara da Banda daquela localidade.

Para além de um verde de honra, destaque-se que esta edição tem como objectivo de contribuir com as receitas integralmente para restauro do património arquitectónico do Santuário de Nossa Senhora da Abadia.

Os contos apresentados neste livro são definidos pelo autor como "uma mistura de sonho, experiência e imaginação" escritos para o jornal "Geresão" em cada Natal que ganharam novo alento com as ilustrações.

Com prefácio de José Miguel Braga, trata-se do terceiro livro publicado por este professor de Português que se tem dedicado á promoção e divulgação da música filarmónica no distrito de Braga, sendo presidente da Federação do Minho de Bandas de música.

Adelino Domingues apresenta-se, neste livro de contos, depois de "Contra a corrente", como um "escritor da sua terra que, nestes contos, procura escrever sem mácula, suavemente, por amor a um principezinho outra vez nascido para o presépio de uma cidade humanamente aérea, sonhada em pedra e vegetal".

Como as histórias só existem para ser contadas, Adelino Domingues faz "parte de uma geração que conheceu um mundo que se manteve na sua quietude campestre até aos anos setenta, ensombrado pela guerra colonial e a Pide, de que ele não se esquece de falar: os bufos, a delação, as correrias pela fronteira, a passagem da ria seca, o medo e a desconfiança configuram o rastro de sombra que, durante anos, assolou o nosso país" — escreve o prefaciador deste livro com catorze histórias situadas no campo.

De facto, o campo é o lugar do drama onde cabem os sinos e outros sinais que tocam para serem ouvidos: "os animais que chocalham nalgum caminho fazem parte da orquestração" - lembra José Miguel Braga, destacando que a "obra vem nascida de alguém que se dedicou á divulgação e à formação musical e que ainda hoje percorre a serra a estudar a história local, em busca da origem remota dos povos que habitara os vales e serras contíguos ao Gerês".

Assim nestes contos encontramos descrita a magia da montanha que se respira e sente nos contrafortes da cadeia montanhosa ao som do milagre, do encontro e da esperança que sobem o rio Abadia cujas águas da nascente apenas os animais conhecem, caminhando por trilhos onde aparecem as andanças do demónio que explicam actos de traição, desonra entre uma população que sofre o abandono e a pobreza enquanto espera a redenção do nascimento de crianças e acontecimentos felizes.

Quanto mais não seja, estes contos, para ler à luz da moderna candeia, possuem belíssimas ilustrações de Pedro Teixeira, até porque o "lampião ficou lá fora pendurado num galho, tal como a Estrela de Belém".

Ao longo desta obra do mestre de português e francês, intermediados por cinco anos de emigração em França, podemos conhecer pedaços de Santa Maria de Bouro, desde pessoas a lugares, sítios e factos imemoriais escritos por quem possui uma refinada técnica jornalística assente no parágrafo curto que exprime uma ideia clara e directa em cada um deles.

No fim da leitura deste "A boa estrela na Montanha", o leitor conclui que é um erro de Adelino Domingues prometer que não há mais porque não acreditamos que "o recipiente esteja esgotado" ou que tenham caído "todas as folhas que havia naquele cesto". Deve haver por lá uns restos preciosos que o vento deixou no recipiente deste amarense que tanto tem feito pela cultural popular e tradicional, na escrita e na música.

Adelino Domingues nasceu em Santa Maria de Bouro há 62 anos, estudou no Seminário Passionista e completou o segundo ano de Teologia em Santander antes de tirar o diploma superior de estudos franceses na Alliance Française de Paris, enquanto era emigrante.

Acabou por se licenciar pela Universidade do Minho em Ensino de Português e Francês e fez uma especialização em Técnicas Jornalísticas pelo CFJ do Porto. Foi professor de Português e de Francês nas Escolas Secundárias Sá de Miranda, D. Maria Ii, Arcos de Valdevez e Alberto Sampaio, ao mesmo tempo que dedicava os tempos livres ao jornalismo e às filarmónicas, um trabalho que prossegue nos dias de hoje.

Thursday, December 3, 2009

Franceses em Braga há 200 anos (25)




Na crónica anterior falamos sobre algumas tradições originadas pela persença dos soldados de Napoleão no nosso território, mas os sinais das suas pegadas são ainda mais fortes quando falámos das nossas festas, de que é exemplo cimeiro a Festa de S. Sebastião.

O santo a que os portugueses rezam para os proteger da fome, da peste e da guerra ganhou mais relevo na vida das nossas comunidades, reavivando festas que estavam a cair em desuso ou a enfraquecer.

As Invasões Francesas constituíram assim o primeiro abalo do quadro político-eclesiástico anterior, interrompendo os funcionamentos habituais das dioceses e paróquias e perturbando gravemente a vida religiosa e claustral, bem como as práticas devotas da população.

Dos dois abalos que se seguiram e que do ideário “francês” foram algo subsidiários – o liberalismo vintista e o de 1834 – resultaria em meados do século XIX a consolidação dum quadro eclesiástico marcadamente estatal, que condicionou muito a vitalidade religiosa do catolicismo português, com alguma semelhanças com o que aconteceu em França depois da concordata napo-leónica de 1802.

Desde 1806 era arcebispo de Braga D. José da Costa Torres, já idoso. Na segunda invasão, em 1809, ordenou que o clero regular e secular tomasse armas, mas teve de abandonar a cidade de Braga quando os franceses a ocuparam. Saiu ele e grande parte da população, incluindo eclesiásticos, religiosos e religiosas. Faleceria em 1813.

D. Manuel Clemente, no seu livro “Igreja e sociedade portuguesa do liberalismo à República”, dá-nos imensos exemplos dos comportamentos que as Invasões francesas despertaram nos cristãos e nos clérigos.

Assim, um dos exemplos, aponta para o tempo em que o povo ouviu contar que “vinham aí os franceses”, fizeram uma promessa ao seu padroeiro, São Sebastião: Se o Santo fizesse o milagre de os poupar à invasão, todos os anos, no dia do Santo, far-se-ia uma refeição para dar de comer a todas as pessoas que aparecessem na freguesia. Assim, a 20 de Janeiro dia de São Sebastião, é estendida uma mesa ao longo de toda a aldeia, desde o Largo da Igreja Matriz, coberta de panos de linho (tecido nos teares artesanais), com malgas de madeira (algumas ainda originais), onde é servido a todos que nos visitam nesse dia, gratuitamente, broa de milho e centeio, arroz branco e carne de porco cozinhada em grandes potes de ferro.

A mesa é feita de tábuas sobre tijolos e chega a ter mais de um quilómetro de comprimento.

Esta tradição festiva tem o seu maior fulgor numa aldeia recôndita de Cabeceiras de Basto: a festa das Papas de Samão, em honra do Mártir S. Sebastião, “Que nos livre, da fome, peste e guerra….”

Esta festa, celebra-se, ano sim ano não no lugar do Samão. Porque nos anos par, realiza-se no lugar de Gondiães, na mesma Freguesia. A festa, é em honra do Mártir S. Sebastião, mas as tradições são diferentes. No Samão, nos anos ímpar como já foi dito, há missa cantada e sermão na Igreja Paroquial do lugar, caso esteja mau tempo. Segue-se a Procissão, até à casa do santo, ali os alimentos — pão, carne de porco, vinho e papas — são benzidos pelo pároco.

Os alimentos são depois levados em três carros de bois para o campo, chamado campo das «Papas» ou campo de S. Sebastião. Ninguém se lembra do início desta festividade prometida pelos nossos antepassados a S. Sebastião. Todavia, por pralelismo com outras localidades, não é absurdo pensar que este costume medieval tenha sido reavivado com as invasões francesas, uma vez que os soldados trouxeram muita fome e destruição às terras do Minho.

Um lugar que tem boas estradas e onde se pode visitar a Igreja Paroquial que tem por padroeira Nª Sª dos Remédios, local onde anualmente se realiza a 8 de Setembro, uma importante romaria.

Carregavam-se os carros de bois de broas e de malgas com as papas para, mais tarde, transportar para o lameiro onde seria servida a refeição. Na lareira fumegante ainda, dois enormes potes de ferro tinham servido para cozer as papas (farinha de milho cozida com a água de cozer as carnes) e os pedaços de gordura entremeada que serão servidos mais tarde.

Tarefa de que os homens se encarregaram desde o dia anterior, com noitada bem regada e conversada. Ao lado, no armazém e alinhadas em prateleiras que rodeiam o compartimento, as broas – o pão que será benzido. Centenas de broas de pão centeio que as mulheres foram cozendo no forno desde a segunda-feira anterior.

Aguardava-se a procissão. Aí, o padre da freguesia e o pregador incumbiram-se de benzer o pão, as carnes e as papas.

Decência? É tudo igual

Foi afastado em meados de Setembro do cargo de responsável pela assessoria para a Comunicação Social da Presidência da República por decisão de Cavaco Silva.
Ele foi apontado como a fonte da notícia segundo a qual o Presidente suspeitava estar a ser espiado pelo Governo de José Sócrates. Verificou-se, em plena campanha eleitoral que era tudo falso.

Agora, o país ficou estupefacto — ou talvez não — com a manutenção de Fernando Lima na assessoria da Presidência da República, nas mesmas funções que tinha, não no Presidente da República mas no chefe da Casa Civil que fala em nome de Cavaco Silva.

Este assessor foi o responsável — no entender de Cavaco Silva que o afastou do cargo — das acções políticas baixas e das rasteiras que partiram de Belém, com o objectivo de intervir nas eleições para benefício do PSD e descredibilizar José Sócrates e o PS, onde era suposto que reinasse a imparcialidade e respeito pela contenda eleitoral.

Agora, verificamos com a sua manutenção em Belém que somos um País com políticos muito pequeninos, mesmo que encham os discursos solenes em dias especiais com a palavra decência.

Este país fede por todos os lados... porque ao mais alto nível, a asneira é compensada. Citando o dramático apelo de Cavaco Silva, "foram ultrapassados os limites do tolerável e da decência", em finais de Setembro, é legítimo dizer que a decência já não mora no palácio no autor deste desabafo.

Portugal está, por falta de sentido de Estado, de seriedade e de maturidade, num pântano que lhe tolhe os movimentos, incitando os Portugueses à resignação e ao medo. Assim não vamos a lado nenhum.

O Presidente de República devia ter aproveitado o afastamento de Fernando Lima para ser decente, como pediu em Setembro, mas também não cedeu à tentação de entrar nesta farsa que protege e compensa os amigos, quando estes prevaricam gravemente, como foi o caso de Fernando Lima.

Depois deste acto, quantos ainda acreditam que, afinal, não são todos iguais?

Saturday, November 28, 2009

Cândido Pedrosa: BE ignora o elementar



Há pouco mais de um mês, faleceu com 64 anos de idade, o Pe. Cândido Pedrosa e o seu corpo repousa no cemitério da sua terra natal, em Vilar de Figos – Barcelos.

Depois da sua ordenação há 40 anos, é quase unânime afirmar que foi uma vida pontilhada pelo serviço e entrega aos outros, como professor, como pároco de Aguçadoura de 1973 a 1992 e de Santo Adrião, Braga, até ao fim da sua existência.

Nesta comunidade, ao longo de quase duas décadas, foi uma presença animadora dessa obra social maravilhosa para várias centenas de crianças, jovens e idosos que é o Centro Social e Cultural de S. Adrião, liderado pelo dr. João Sousa.
Foi incumbido, entre 1993 e 1998, do cargo de director interno do Lar da Oficina de S. José, ano em que foi nomeado Arcipreste de Braga.

O Pe. Cândido exerceu um trabalho notável enquanto Presidente da Comissão Administrativa da Confraria de Bom Jesus do Monte, desde 2002.

Em Outubro de 2008 foi nomeado cónego do Cabido da Sé de Braga. São apenas alguns elementos de um curriculum que levaram – com toda a justiça — o presidente da Junta de S. Lázaro a sugerir um voto de pesar pelo seu falecimento.

Antes da proposta de João Pires, o Bloco de Esquerda aprovara uma proposta idêntica sobre o falecimento do seu dirigente e militante da UDP. A Assembleia Municipal pronunciou-se por unanimidade (cf. Correio do Minho e Diário do Minho).

Não tenho legitimidade para discutir currícula (até porque fui aluno do padre Cândido Pedrosa). Os membros do Bloco de Esquerda abstiveram-se na votação do pesar proposto pelo presidente da Junta de S. Lázaro.

É caso para dizer que os membros do BE “se sujam por pouco”. O padre Cândido Pedrosa também “nunca se instalou em maiorias sólidas e remuneradas”.

Ele foi um homem de “causas e de lutas”, a maior delas contra a doença, nos últimos quatro anos, que levou mais cedo do meio de nós, sem abandonar as suas comunidades e tarefas.

Como neste caso, a ignorância não é desculpável, a mesquinhez do BE e visão redutora do mundo e dos outros que pensam e agem diferente levaram mais uma lição dos outros partidos na AM de Braga na votação sobre a morte de um dirigente do BE.

Que não tenha sido em vão, essa lição de superioridade democrática e de elegância cívica (que, ou se têm... ).

É elementar, meus caros.

Tuesday, November 24, 2009

Homem e Cávado: rota de Santiago



A qualificação dos trilhos identificados como “Caminho de Santiago”, para que captem utilizadores, são um motor do desenvolvimento económico e o interior do Minho possui um desses motores completamente ignorado.

Trata-se do caminho que sai de Braga e percorre todo o vale do Cávado e do Homem até à fronteira da Portela, seguindo depois para Santiago.

Este motor de desenvolvimento que tem do completamente desprezado bem podia ser posto em andamento, nesta altura em que o mundo ibérico se prepara para celebrar mais um ano jacobeu.

A simples sinalização dos itinerários já não se compadece com as apuradas exigências dos novos caminheiros. Daí que a sua qualificação é cada vez mais uma exigência dos tempos modernos e as autarquias têm aí um papel essencial.

Os ancestrais caminheiros, viajantes e romeiros, os almocreves, mercadores e feirantes que, ao longo dos séculos, trilharam estes vastos itinerários de fé, cultura e riqueza turística, dão lugar a novos utilizadores, com um perfil cultural e nível económico que importa explorar do ponto de vista turístico e, consequentemente, económico.

Os “Caminhos de Santiago” estão a ser encarados como catalizador de um público específico, com exigências claras e expectativas elevadas quanto à qualidade da oferta dos serviços que procuram e necessitam no percurso que estão a utilizar.

Há uma espécie de consciência colectiva em toda a Europa com estes itinerários identificados para a necessidade de apurar a qualidade da oferta cultural, turística, económica e, na sua essência, comercial que não pode ser desprezada numa região que necessita de diversificar a sua oferta turística.

As autarquias minhotas integradas no Eixo Atlântico podiam criar espaços de debate para gerar iniciativas de identificação, qualificação e promoção deste trilhos da região do Homem e Cávado, à semelhança do que se faz, há mais tempo e com mais intensidade, com outros caminhos.


A tradição peregrina teve início no século IX, quando o Rei Afonso II caminhou de Oviedo a Compostela, para prestar homenagem ao Apóstolo Santiago, fundando assim o Caminho Primitivo.

Mais tarde, já no século XI, arrancou o Caminho Francês, existindo actualmente várias rotas que atravessam diversos países europeus. Uma delas, completamente ignorada, é a que sai da Sé de Braga, desce a Amares, segue por Terras de Bouro e sai para Santiago de Compostela pela Fronteira do Homem. No meu humilde, entender, Braga devia assumir-se como cabeça deste projecto, com benefícios evidentes, agora que é sede do pólo religioso do Turismo Porto e Norte de Portugal.

O património construído, a riqueza rural de solares e culturas, a variedade de tradições, a gastronomia e hotelaria e surpreendente riqueza da paisagem são razões mais que suficientes para que os autarcas lancem mãos deste recurso que valoriza e enriquece as populações visitadas outrora pelos peregrinos de Santiago.

Franceses em Braga há 200 anos (24)


Quando procuramos marcas deixadas pelo rasto da presença francesa em terras minhotas, não faltam elementos que atestam a sua presença e malfeitorias.

Damos apenas alguns exemplos alusivos a estas invasões que trouxeram até Portugal os ideais da Revolução francesa, contrariados a ferro e fogo pela resistência rural. É o caso do escudo de vermelho do brasão de S. Pedro d’Este, uma freguesia de Braga, que simboliza o sangue derramado por 23 habitantes desta aldeia , que perderam a vida a 20 de Março de 1809, no episódio da Batalha do Carvalho d’ Este, aquando da segunda invasão francesa.

Pela negativa, os franceses também deixaram muitas marcas da sua presença, a começar pelo santuário de N.ª Sr.ª de Porto de Ave, em Taíde – Póvoa de Lanhoso.

Neste santuário, se é possível contemplar os belos azulejos que revestem a igreja também vemos os órgãos de tubos, danificados nas invasões francesas.

Mais acima, foi recuperada recentemente uma tradição na freguesia de São João da Cova, Vieira do Minho, renascia a capela do Bom Jesus da Paz, erguida para assinalar a assinatura do Tratado de Paz entre Portugal e Castela, em 1668. Também por esta altura foi erguida, junto à capela uma casa de arquitectura céltica, hoje casa-museu.

O passar do tempo, no entanto, foi tirando força à tradição e os monumentos ligados às festividades foram degradando-se. Há anos a população de São João da Cova encetou a recuperação da capela, bem como a casa céltica, transformada numa casa-museu onde se guarda o espólio que restou da altura da edificação e que se salvou das invasões francesas.

Caminhando para Trás-os-Montes, temos os vinhos dos mortos, a tradição data, efectivamente, do tempo das invasões francesas. Foi durante a 2.ª Invasão Francesa (1809) e em face do avanço das tropas comandadas pelo General Soult, que na sua passagem tudo saqueavam, pilhavam e destruíam, que a população de Boticas, decidiu esconder, enterrando, o que tinha de mais valioso. O vinho foi enterrado no chão das adegas, no saibro, debaixo das pipas e dos lagares.

Mais tarde, ao desenterrarem o vinho, julgaram-no estragado. Porém, descobriram com agrado que estava muito mais saboroso, pois tinha adquirido propriedades novas. Era um vinho com uma graduação de 10.º/11.º, palhete, apaladado, e com algum gás natural, que lhe adveio da circunstância de se ter produzido uma fermentação no escuro a temperatura constante.

O Vinho dos Mortos é, por isso, o símbolo de uma guerra de subsistência, não só material e económica, mas também e essencialmente moral. É o exemplo da resistência do Povo de Boticas, “obrigado” a usar das mais inimagináveis formas de preservar o seu património.Certificado o Vinho dos Mortos de Boticas.
O enterro das garrafas ocorre no mês de abril, e a venda inicia-se em junho, apenas em quatro locais de Boticas.

Na próxima crónica falaremos sobre as festas de S. Sebastião, santo a que os nortenhos dedicam particular devoção por causa... dos franceses.

Na gruvura, da CM de Boticas, o Repositório do Vinho dos mortos

Tuesday, November 17, 2009

Um dia sem vergonha... em Berlim


 O mundo europeu esteve em festa para assinalar o 20.º Aniversário da queda do Muro de Berlim, acontecimento que pôs fim à chamada Guerra Fria e alterou o xadrez político mundial.

Antes do acto simbólico, Ângela Merkel atravessou a pé, na companhia dos ex-presidentes da URSS, Mikhail Gorbatchov e da Polónia, Lech Walesa, a ponte no antigo posto fronteiriço da Bornholmer Strasse, que há 20 anos foi o primeiro “rasgão” a abrir-se no Muro.

O ponto alto das festividades é o derrube do “dominó” gigante com uma extensão de cerca de 1,5 quilómetros.

A primeira “pedra” foi derrubada por Lech Walesa, para lembrar que foi na Polónia que se começou a rasgar a chamada Cortina de ferro, após a formação do sindicato independente Solidariedade pelos operários dos estaleiros navais de Gdansk, liderados pelo então electricista Walesa.

O Muro de Berlim, também conhecido por Muro da Vergonha, começou a ser construído a 13 de Agosto de 1961 pelas autoridades comunistas da República Democrática Alemã, para travar o enorme fluxo migratório de leste-alemães para o ocidente, devido ao descontentamento da população pela falta de liberdades e penúria económica.

Desde o fim da II Guerra Mundial, em 1945, cerca de 3,5 milhões de alemães de leste rumaram a Ocidente, virando as costas às promessas igualitárias do partido comunista da RDA.

Mais de 140 pessoas tiveram um destino mais trágico e pagaram com a vida, sob as balas dos guardas da fronteira leste-alemã, as tentativas de fuga rumo ao ocidente.

Numerosos chefes de Estado e de governo dos países membros da União Europeia, nomeadamente do primeiro-ministro português, estão presentes para assinalar esta data num momento em que se erguem novos muros que dividem e escravizam as pessoas.

Os mesmos que hoje se reúnem nesta festa carregada de tanto simbolismo quanta hipocrisia seriam incapazes de se reunir na fronteira entre Israel e a Palestina.

Sim, para derrubarem o muro que os judeus estão a construir para evitar, em nome da defesa da sua integridade nacional, o direito a qualidade de vida e emprego para milhares e milhares de palestinianos que estão a ser sufocados pelos estado israelita.

Este é também um muro da vergonha que os dirigentes ocidentais não têm vergonha de silenciar.é uma “realidade trágica” que continua sem ser resolvida.

A Europa e os estados deve assumir esta vergonha como fundamental para pôr fim a muitas situações que provocam o caos na região do Médio Oriente e que têm sérias repercussões no âmbito mundial.

São numerosos episódios de violência e dos desafios da livre circulação, colocados pelo Muro de Segurança, já reprovado pelas Nações Unidas — como o foi o Muro de Berlim — que violam a liberdade de religião e de consciência aos habitantes e um acesso permanente, livre e sem obstáculos ao trabalho e aos Lugares Santos por parte dos fiéis de toda religião e nacionalidade .

Quando o fizer, forçando o estado de Israel a cumprir o Direito Internacional, podem todos derrubar o dominó gigante dos muros que ainda separam as pessoas dos seus direitos. O muro de Sharon é três vezes maior que o de Berlim e tem oito metros de altura.

Este muro (na foto) confisca parte das terras da Cisjordânia e deixa os palestinianos fechados e fragmentados em três cantões principais subdivididos em diferentes regiões incomunicáveis.

Israel já construiu 400 dos 710 quilómetros previstos da divisória, e já deixou 97 comunidades palestinianas completamente isoladas.

A barreira isola Jerusalém Oriental da Cisjordânia e deixa 360 mil palestinianos desligados de seu povo e rodeados por um muro de 181 quilómetros.

Este muro deixa a Cisjordânia sem recursos hídricos e sem as principais terras agrícolas, como o vale do Jordão, desliga as comunidades e, ainda, dificulta o acesso às escolas, universidades e inclusive aos hospitais.

Mais do que assinalar os vinte anos da queda do Muro de Berlim, em Berlim os dirigentes dos principais países do mundo vivem um dia sem vergonha. Mais um... sem falar do muro da Irlanda do Norte e do que divide Chipre (todos na Europa das liberdades e das democracias).

Saturday, November 7, 2009

Os novos assessores de Sócrates




Os assessores de José Sócrates já foram definidos várias vezes como uma poderosa e eficaz máquina de propaganda, ao ponto de alguns partidos dizerem que o PS não governa, faz publicidade.

Espantosamente, aqueles que mais criticaram o Primeiro ministro constituem agora uma nova parelha de assessores que quer pegar no pálio da propaganda, com um bispo incluído.

Há temas que vão e voltam à agenda política sem que se perceba muito bem ou justifique tamanha insistência que contrasta com a ausência de outros temas como a regionalização, o apoio à maternidade num país em perda de população ou estímulos contra a desertificação deste rectângulo.

Um desses temas é o do casamento dos homossexuais que apenas tem servido para distrair os portugueses dos seus mais aflitivos problemas. Sempre que aparece nos jornais e nas aberturas de telejornais, o nosso primeiro-ministro esfrega as mãos de contente.

Para desgraça nossa e contentamento de José Sócrates, veio agora um senhor deputado do CDS-PP pedir que haja um referendo sobre casamentos homossexuais.

Aquele senhor deputado devia perceber, para além do que antes se disse, que não faz qualquer sentido estar agora a promover um referendo e já se verificou que o referendo é um modelo de decisão política habitualmente pouco participado pelos portugueses.

Para além de não ser original, a proposta daquele deputado democrata cristão, pois vem a reboque do Bispo do Porto, o casamento dos homossexuais constou nos programas de diversos partidos na última campanha eleitoral.

Com o mesmo objectivo de distracção dos portugueses, o bispo do Porto já tinha defendido um referendo e um grande debate nacional, sem pressas.

Como se esta diversão ainda fosse pouca para distrair os portugueses, surge agora a Associação Ateísta Portuguesa a aplaudir a decisão europeia contra a exibição de crucifixos nas salas de aula porque esta viola a liberdade religiosa dos alunos.

São abusos que, para a Europa, restringem os direitos paternos de educarem os seus filhos "em conformidade com as suas convicções". Ora, aí está mais outra caldeirada de bispos e ateus, de democratas cristãos e republicanos laicos para distrair os portugueses.

Quanto ao Governo, podemos ter fé que deve estar a divertir-se. Estes novos assessores — da causa homossexual e da liberdade — estão a prestar-lhe excelentes serviços.

Só falta aparecer um grupelho a divertir-nos com o iberismo e temos a tríade do salazarismo — deus, pátria e família — virada do avesso.

Regionalização: está na hora!





Luís Filipe Menezes tem o mérito de ter agitado as águas mornas em que vive a política portuguesa ao exigir ontem um "avanço sério" na regionalização para que "acabe o centralismo que está a destruir o país e a economia".

O autarca, reeleito com maioria absoluta, reivindicou um "reforço da capacidade afirmativa política da área metropolitana do Porto", e justificou a "necessidade de novos investimentos a Norte" como o caso da "ida do TGV ao aeroporto e à Galiza", do "alargamento da rede do Metro do Porto" e da "construção imediata de novos atravessamentos" entre as duas cidades separadas pelo Rio Douro.

O autarca de Gaia promete tudo fazer para que esta legislatura seja aquela em que se fará um avanço sério da regionalização, alertando para a urgência de um trabalho em conjunto dos partidos políticos, dos autarcas, dos deputados e dos órgãos descentralizados da administração.

Luís Filipe Menezes merece ser felicitado por retomar um tema que andou arredio — por causa de temas menores como as escutas e os casamentos de homossexuais — da Campanha eleitoral das eleições legislativas e também não se ouviu nenhum autarca de topo pugnar pela descentralização administrativa do país.

O caminho da regionalização foi apontado por unanimidade pela Constituição da República portuguesa, à boleia da criação das Regiões Autónomas que tão boa conta de si têm dado. Esta reforma fundamental para o desenvolvimento equilibrado do Continente tem sido travada porque grande parte dos seus defensores não conseguem disfarçar os seus interesses pessoais ou corporativos.

Ora, é o erro que, mais uma vez, o autarca de Gaia volta a cometer. A reincidência no erro não nos faz vislumbrar um debate inteligente, racional e sério sobre a descentralização administrativa do país, para alé´m de constituir um argumento a favor dos amigos e cúmplices sentados à mesa do terreiro do Paço.

No discurso de Menezes, mais uma vez o Norte é reduzido a Gaia e Porto. O resto continua a ser paisagem. Esta postura destes senhores que só olham para o umbigo do rio Douro retira-lhes toda a legitimidade para falarem em nome do Norte do país. Este foi, aliás, um dos argumentos que fez fracassar a primeira tentativa de Regionalização feita pelo Governo de António Guterres.

Está demonstrado — por toda a Europa — que a descentralização administrativa resulta num imenso rol de benefícios para as futuras regiões, a começar pela diminuição das desigualdades num país que assiste anestesiado ao fecho das escolas, de serviços de saúde, de serviços postais e culturais.

Apesar de mal colocado o problema — cinturado apenas no Porto e Gaia —, espera-se que este alerta de Filipe Menezes tenha seguimento. José Sócrates deve cumprir o que prometeu no começo da anterior legislatura mas parece ter-se esquecido à medida que o tempo foi passando.

Nós não esquecemos e os socialistas não podem permitir a violação flagrante da Constituição por omissão. Haja coragem para tomar esta decisão fracturante... na óptica do Terreiro do Paço. Com esclarecimento total e sem demagogia sabotadora e umbilical.

Resta esperar que os nossos autarcas do Minho não continuem distraídos com os seus quintais.

Franceses em Braga há 200 anos (23)


Na passagem das tropas francesas pelo Minho há 200 anos, Portugal foi o primeiro território de afrontamento entre dois grandes líderes militares europeus, antes do encontro final de Waterloo. Todos esquecemos que o "peso da mochila do soldado é incomparavelmente mais leve que o peso das algemas do escravo".

Como foi possível isto ter acontecido? Como foi possível sabendo nós que os "soldados portugueses vão a toda a parte e combatem quem se quiser, marcham sujeitos às maiores fadigas, sem um murmúrio, e vivendo apenas de pão e água com um dente de alho de condimento"?

A desorganização do Estado era quase perfeita, derivada de posições contraditórias dos conselheiros do rei, D. Pedro, aconselhado a fugir com a família real para o Brasil. A preparação da fuga foi uma enorme trapalhada a tal ponto de Junot, desesperado, ainda poder avistar os barcos em fuga, quando chegou a Lisboa.

A 24 de Novembro de 1807, Junot já estava em Abrantes, quando os conselheiros reais ainda o julgavam em Salamanca, enquanto o general Tarranco ocupava o norte do país. os dias seguintes foram de completo desvairamento na Corte.

A fuga da família real resultou numa confusão indescritível, levando a que se perdessem muitos bens se preparassem mal os navios que sairam no dia 27 de Novembro, com cerca de 13 mil pessoas.

Uma delegação da maçonaria antecipava-se e ia abraçar Junot a Sacavém, acolhendo-o como libertador e foi o que se viu.
A resistência popular logo se começou a organizar perante a inoperância da Corte e dos que viviam à sua sombra, quando Junot enviava os melhores soldados para combater em França, e ganha novo impulso quando os franceses hasteiam a bandeira de FRança no castelo de S. Jorge e arreiam a Nacional.

De Madrid vinha uma preciosa ajuda no ano seguinte e em trás-os-Montes, o General Sepúlveda dava o primeiro grito pela independência de Portugal. que ecoa em todo o país e perguntava a todos os portugueses: porque não resistimos?

Hoje, podemos perguntar: porque nunca se encarou seiamente a hipótese de resistência e se optoupela fuga?

Basicamente, a resposta encontra-se na falta de liderança, na situação política, na confusão ideológica, na traição de muitos e no medo de alguns acomodados.

D. Pedro não tinha estatura moral, intelectual e psicológica para assumir qualquer liderança nacional: era um pau mandado numa altura em que se exigia decisão, audácia. exemplo, força de vontade. O futuro rei era tíbio, indeciso, sem astúcia, mal aconselhado e dominado pela mulher de quem se veio a afastar depois.

Daí resultou a ausência de uma linha de actuação política, com objectivos definidos e estratégias claras para os alcançar. A economia, a diplomacia, as forças armadas e as informações estavam desarticuladas por causas ideológicas enraizadas nas ideias da revolução francesa. A massa cinzenta dividiu-se entre os ideais franceses e os interesses da aliança inglesa: o 'partido' dos interesses portugueses baqueou, numa altura em que psicologicamente se pensava que as tropas de Napoleão eram invencíveis e o medo se apoderou de muitos.

Nesta confusão ideológica, alimentada pelo medo, todos esqueceram um direito e um dever de cidadania: resistir a quem nos assalta a casa (portuguesa) é uma questão de princípio e uma questão de honra.

A resistência reforça a coesão de uma nação e a alma de uma nação "tempera-se" nos actos praticados em comunidade em momentos difíceis. A resistência ao ladrão garante os nossos direitos e aumenta a autoridade noral.

Na história de Portugal há muitos momentos de resistência: quem consegue fazer as Linhas de Torres, em 1810, com 108 fortes, 151 redutos e baterias e guarnecê-las com 68 mil homens e mais de mil peças de artilharia também teria conseguido organizar a defesa de Portugal em 1808.

Quem possui um punhado de pescadores — como os de Olhão — que atravessa o oceano num pequeno barco de pesca para ir ao Brasil dar a notícia da expulsão dos franceses, não pode encolher os ombros quando invadem este país.

Se Napoleão afirma que a melhor infantaria de toda a Europa é a portuguesa, como se pode entender que Portugal não tenha resistido? Ninguém deu a ordem. É essa ainda hoje a nossa maior fragilidade.

As lições das invasões francesas, infelizmente, não foram apreendidas. Eis algumas delas: um exército não se improvisa do dia para a noite, as ideologias nem sempre se coadunam com a matriz nacional, as leis devem ser adequadas às pessoas a quem se aplicam, o desenvolvimento sustentado é preferível para não se gastar mais do que o que se produz, pois quando dobramos a cerviz, mas depressa mostramos o fundo das costas.

Como há 200 anos, Portugal resiste em aprender a saber estar, a saber fazer e saber prever.

Monday, November 2, 2009

Gondoriz: na margem do rio Homem



"Entre o Homem e a Amarela — Gondoriz" pode significar o regresso de Manuel da Silva Martins à sua terra natal, que deixou ainda criança, realizando uma monografia completa sobre esta freguesia do concelho de Terras de Bouro que a Calidum editou agora.

Integrada na colecção "Cadernos de Cultura", da Câmara Municipal de Terras de Bouro que está empenhada na edição de obras do grande impulsionador da florestação da serra do Gerês e estudioso das tradições e usos dos povos serranos, Tude de Sousa, pretende dar resposta a uma lacuna pois Gondoriz era uma das freguesias cuja história mais se desconhecia e "ninguém imaginava que pudesse dar origem a um volume desta grandeza" — refere António ferreira Afonso.

Com 412 páginas, Manuel Martins — "sem pretensões a arqueólogo ou etnólogo" — assinala da melhor forma o regresso das suas lides de Lisboa à terra Natal, cujo nome germânico significa chefe de combate, estudando os seus lugares e as casas mais importantes, as capelas, as tradições, o património imaterial das lendas e crenças deste povo encarregado de defender a "porta da Amarela", desde o século XIII.

Situada na margem direita do rio Homem, Gondoriz encerra um "passado antiquíssimo de grande importância que valoriza o concelho" de Terras de Bouro e a obra de Manuel Martins faz sair esta terra do "asfixiante anonimato a que tinha sido arremessada", sem receio do erro porque se está sempre pronto a corrigí-lo, como escreve o autor no prefácio.

Esta monografia é o resultado de muitas leituras — devidamente citadas — que contribuem para dar fundamento científico ao autor que se socorre dos grandes historiadores das coisas do Minho, com destaque para Avelino Jesus da Costa, José Marques e Arlindo Cunha, para se situar no antigo Julgado de Regalados, no séc. XII, momento a partir do qual os documentos escritos são mais frequentes.

Só com a reforma de Mouzinho da Silveira, em 1836, Gondoriz integra o concelho de Terras de Bouro.
O texto é acompanhado de documentos e fotografias que credibilizam as palavras de quem prova que conhece bem a sua terra e as freguesias vizinhas, algumas delas absorvidas por Gondoriz, como Gomesende e São Cristóvão.

Gondoriz, intimamente ligada à serra Amarela, está em perda de população depois de já ter sido habitada por 660 pessoas na década de 50 do século passado, estando hoje reduzida a metade que vai conservando alguns usos e tradições seculares. Destacam-se a religiosidade, as tradições pascais, as romarias e os clamores, confrarias e ditados populares, receitas medicinais como colocar um colar de alhos ao pescoço da criança com lombrigas.

Um glossário típico de Gondoriz e documentação (fotos e biografia) diversa concluem este livro escrito por um economista e técnico superior das alfândegas e dos impostos especiais sobre o consumo, actualmente aposentado, que também foi professor em Lisboa.

Franceses em Braga há 200 anos (22)


Não podemos reduzir a passagem das tropas francesas pelo Minho há 200 anos às batalhas ou aos saques e mortes causadas pelas tropas de Soult, durante a segunda invasão, nem separar esta das restantes. Os efeitos destas invasões bem se podem catalogar como um longo calvário para a Nação portuguesa.

Portugal foi o primeiro território de afrontamento entre dois grandes líderes militares europeus, antes do encontro final de Waterloo. O Minho foi também um território onde Wellington praticou - através dos seus chefes militares Wellesley ou Beresford - a política da terra queimada: 50 mil portugueses morreram de fome, durante os cinco meses de cerco de Massena nas linhas de Torres Vedras.

As invasões francesas marcaram de tal forma este país que ainda se mantêm hoje os seus efeitos. A análise demográfica aponta para a perda de dez por cento da população portuguesa, quer pela força das armas, quer pelas doenças, pela fome e frio. Foram cerca de 300 mil portugueses que morreram, um número inimaginável hoje quando somos quatro vezes mais.

A nossa agricultura e pecuária foram arrasadas, os monumentos roubados, as igrejas profanadas, cidades e vilas incendiadas, pontes e outras obras de arte destruídas, população deslocada. Atrás das linhas de Torres estiveram 600 mil portugueses!

A presença de mais de 25 mil militares de Napoleão deixou marcas no nosso Minho, muito para além da destruição e saque de edifícios do nosso património. Basta evocar o ditado "tudo como dantes, quartel em Abrantes" ou aquele que "come à grande e à francesa" ou passa a vida a "ver navios". São expressões que ficaram por cá.

Para além da nossa linguagem, as invasões francesas tiveram profundas consequências na maneira de pensar dos portugueses, especialmente o ideário político liberal e a introdução das bases administrativas de um estado moderno.

Há quem afirme que os exércitos de Soult, Junot e Massena foram os parteiros da modernidade política, organizacional e até constitucional. A monarquia portuguesa, cujo titular se refugiou no Brasil, foi "atacada" por um constitucionalismo moderado, em que a figura do rei vai perdendo terreno. A influência política foi muito mais forte que o descalabro causado pelas armas ou pelos militares.

A imposição das ideias da revolução francesa num país ainda quase feudal, deram origem a divisões profundas na família real e nas elites que derivaram para uma guerra civil de quase cem anos que só terminou em 1933 com uma nova Constituição.

Se é verdade que as invasões semearam ódios profundos do povo contra os franceses, não é menos certo que semearam novas aspirações e ideias, anseios de reivindicações sociais que desabrocharam depois. A revolta da Maria Fonte só pôde ser possível se a entendermos como consequência da invasão francesa.

Mais grave que as malfeitorias dos militares franceses e foram muitas, os ingleses que eram aliados portugueses contribuíram para a desertificação e para o ruinoso tratado comercial de 1810 que concluiu a aniquilação económica de um país, sem rei, nem roque.

Foi um país sem rei nem roque que abriu as portas a estas invasões francesas, sem ter "boas tropas e bons navios" face à ameaça de Napoleão em toda a Europa e depois da aventura desgraçada do Roussilhão que levou à perda de Olivença.

Este país sem ideias e identidade facilmente se atordoou com a dinâmica exportadora de ideologia francesa, após a subida o poder de Napoleão que transformou cada soldado num cidadão e cada cidadão num soldado. Até a amiga Inglaterra nos menorizou quando o primeiro ministro William Pitt respondeu: "O governo de sua Majestade só ajuda os Governos que, em primeiro lugar, se queiram ajudar a si próprios". Era o que Portugal não sabia fazer, ajudar-se a si próprio.

A lição que fica para a história parece não ter sido aprendida: as cúpulas erram e quem paga os erros é o povo porque a Corte fugiu, literalmente, acompanhada de dez a quinze mil nobres e burgueses, com todas as riquezas que puderam transportar.

Como foi possível isto ter acontecido?

A esta e outras perguntas vamos tentar responder na próxima crónica e confirmar que mantêm uma flagrante actualidade, 200 anos depois.

Tuesday, October 27, 2009

Franceses em Braga há 200 anos (21)


Não podemos reduzir a passagem das tropas francesas pelo Minho há 200 anos às batalhas ou aos saques e mortes causadas pelas tropas de Soult, durante a segunda invasão, nem separar esta das restantes. Os efeitos destas invasões bem se podem catalogar como um longo calvário para a Nação portuguesa.

Portugal foi o primeiro território de afrontamento entre dois grandes líderes militares europeus, antes do encontro final de Waterloo. O Minho foi também um território onde Wellington praticou - através dos seus chefes militares Wellesley ou Beresford - a política da terra queimada: 50 mil portugueses morreram de fome, durante os cinco meses de cerco de Massena nas linhas de Torres Vedras.

As invasões francesas marcaram de tal forma este país que ainda se mantêm hoje os seus efeitos. A análise demográfica aponta para a perda de dez por cento da população portuguesa, quer pela força das armas, quer pelas doenças, pela fome e frio. Foram cerca de 300 mil portugueses que morreram, um número inimaginável hoje quando somos quatro vezes mais.

A nossa agricultura e pecuária foram arrasadas, os monumentos roubados, as igrejas profanadas, cidades e vilas incendiadas, pontes e outras obras de arte destruídas, população deslocada. Atrás das linhas de Torres estiveram 600 mil portugueses!
A presença de mais de 25 mil militares de Napoleão deixou marcas no nosso Minho, muito para além da destruição e saque de edifícios do nosso património. Basta evocar o ditado "tudo como dantes, quartel em Abrantes" ou aquele que "come à grande e à francesa" ou passa a vida a "ver navios". São expressões que ficaram por cá.

Para além da nossa linguagem, as invasões francesas tiveram profundas consequências na maneira de pensar dos portugueses, especialmente o ideário político liberal e a introdução das bases administrativas de um estado moderno.

Há quem afirme que os exércitos de Soult, Junot e Massena foram os parteiros da modernidade política, organizacional e até constitucional. A monarquia portuguesa, cujo titular se refugiou no Brasil, foi "atacada" por um constitucionalismo moderado, em que a figura do rei vai perdendo terreno. A influência política foi muito mais forte que o descalabro causado pelas armas ou pelos militares.

A imposição das ideias da revolução francesa num país ainda quase feudal, deram origem a divisões profundas na família real e nas elites que derivaram para uma guerra civil de quase cem anos que só terminou em 1933 com uma nova Constituição.
Se é verdade que as invasões semearam ódios profundos do povo contra os franceses, não é menos certo que semearam novas aspirações e ideias, anseios de reivindicações sociais que desabrocharam depois. A revolta da Maria Fonte só pôde ser possível se a entendermos como consequência da invasão francesa.

Mais grave que as malfeitorias dos militares franceses e foram muitas, os ingleses que eram aliados portugueses contribuíram para a desertificação e para o ruinoso tratado comercial de 1810 que concluiu a aniquilação económica de um país, sem rei, nem roque.

Foi um país sem rei nem roque que abriu as portas a estas invasões francesas, sem ter "boas tropas e bons navios" face à ameaça de Napoleão em toda a Europa e depois da aventura desgraçada do Roussilhão que levou à perda de Olivença.

Este país sem ideias e identidade facilmente se atordoou com a dinâmica exportadora de ideologia francesa, após a subida o poder de Napoleão que transformou cada soldado num cidadão e cada cidadão num soldado. Até a amiga Inglaterra nos menorizou quando o primeiro ministro William Pitt respondeu: "O governo de sua Majestade só ajuda os Governos que, em primeiro lugar, se queiram ajudar a si próprios". Era o que Portugal não sabia fazer, ajudar-se a si próprio.

A lição que fica para a história parece não ter sido aprendida: as cúpulas erram e quem paga os erros é o povo porque a Corte fugiu, literalmente, acompanhada de dez a quinze mil nobres e burgueses, com todas as riquezas que puderam transportar.

Como foi possível isto ter acontecido? A esta e outras perguntas vamos tentar responder na próxima crónica e confirmar que mantêm uma flagrante actualidade, 200 anos depois.

Thursday, October 8, 2009

Antecipar o futuro de Braga: quem tem capacidade?




Nas últimas semanas, uma frase tem sido repetida de forma tão sistemática que constitui um insulto à inteligência de quem a ouve: a gestão de Mesquita Machado e do PS está gasta, cansada e incapaz de antecipar o futuro pois não tem respostas novas para os novos problemas.
Se fosse assim, dizem, há que dar lugar a outros com provas dadas na sua vida profissional, ta-ta-ta, etc. e tal.

Ora, quem assim se atreve a falar ou a escrever, está a esquecer-se de três pormenores.
Em primeiro, os bracarenses vivem numa cidade bimilenar e se há alguma coisa que eles têm entranhada na alma é a memória, uma preciosa ferramenta da sua inteligência.
Em segundo, o anseio íntimo dos bracarenses em viver numa cidade e concelho de Braga que sejam inovadores porque só assim conseguimos todos antecipar o futuro não lhes tolda a consciência nem embrutece a inteligência.

Em terceiro, uma alternativa credível e inteligente constrói-se por propostas positivas e não por um sistemático exercício de maledicência, como se os bracarenses fossem ceguinhos.
Os socialistas têm provas dadas na criatividade de soluções e no pioneirismo de respostas aos novos problemas. Tantas começaram em Braga e depois foram copiadas por outros municípios, mesmo sabendo que as cópias ficam sempre a dever aos originais.

Vamos dar apenas alguns exemplos que ninguém, tenha a cor partidária que tiver, pode desmentir-
São factos concretos, não artigos de economia ou probabilidades. São realidades comprovadas.

Os socialistas foram inovadores com a criação de uma empresa municipal de transportes públicos que aproximasse as populações das freguesias umas das outras e da cidade. É talvez – juntamente com a política de solos para habitação – uma das mais profundas medidas estruturantes do tecido humano de Braga. Impediu que as populações das aldeias engordassem a cidade porque, através dos transportes continuavam próximas da cidade sempre fascinante.

Foram inovadores com a compra dos primeiros autocarros a gás natural, combustível que hoje está vulgarizado por outras empresas de transportes.

Foi assim com os subsídios de sub-arrendamento de habitação e a aquisição de habitações no mercado paras as disponibilizar no arrendamento a famílias carenciadas. Braga foi o primeiro concelho a rejeitar construir bairros sociais porque os socialistas querem uma cidade para todos e sem “guetos”. Só uma década depois o Estado acabou com essa política e elogiou o modelo de Braga. Já se esqueceram?

Foi assim com o premiado trabalho desenvolvido pela Bragabrinca no enriquecimento educativo das crianças e adolescentes das minorias étnicas ou lançados na rua, envolvendo-os nos livros, nos discos e nos computadores . É mentira?

Foi assim com a criação e entrada em funcionamento das primeiras escolas Profissional e de Educação Rodoviária para ampliar os horizontes profissionais dos jovens e reforçar a educação para a segurança na estrada. Não se lembram?

Foi assim com a inovadora criação de empresas municipais de capitais maioritariamente públicos que agora são recurso de muitos outros autarcas por esse país fora. Concordam ou não?

Foi assim com a construção dos primeiros parques de estacionamento subterrâneo para aumentar a mobilidade de peões e automóveis dentro da cidade e dinamizar o comércio tradicional que agora são construídos em todas as vilas e cidades. É mentira?

Se tantas vezes foi assim, com o PS e Mesquita Machado, não há dúvidas que é esta dupla que oferece melhores garantias para que Braga seja conhecida como a cidade que antecipa o futuro.
O PS e Mesquita Machado fazem Braga antecipar o futuro, com soluções que os outros copiam porque reconhecem que são boas para as pessoas.

Quando o PS e Mesquita Machado antecipam o futuro de Braga, colocam as pessoas em primeiro lugar.

Como as colocam em primeiro lugar? Passem os olhos pelas tarifas de bens públicos (água, saneamento, lixo, transportes) de concelhos vizinhos e depois digam-nos que o PS e Mesquita Machado são incapazes de antecipar o futuro.

Wednesday, October 7, 2009

Braga é fantástico: um texto insuspeito

"Braga é fantástico" é o título de um texto de Miguel Esteves Cardoso, na revista "J" do jornal o jogo que não resisto a partilhar consigo, dada a insuspeição do seu autor.
É uma lição para alguns bracarenses que não encontram nada que lhes sirva na Cidade de Braga.

"Às vezes, fica-se com a impressão que é Braga que deveria mandar neste país. Veio do Sporting de Braga o treinador que está a salvar o Benfica. Mas, mesmo sem esse treinador, o Sporting de Braga está em primeiro lugar.


Acho que o Sporting de Braga é o único clube de que todos os portugueses gostam secretamente. Os benfiquistas acham que eles são do Benfica; os do Sporting apontam para o nome e os portistas, por muito que lhes custe, são nortenhos e não se pode ser nortenho sem gostar de Braga.

Toda a gente tem medo - e com razão - do Sporting de Braga. Há a mania de engraçar com a Académica de Coimbra ou com o Belenenses, mas são amores fáceis, que não fazem medo nem potenciam tragédias.

O Sporting de Braga não se presta a essas condescendências simpáticas. É po ser temido que o admiramos. Mais do que genica, tem brio. É uma atitude com que se nasce; não se pode ensinar nem aprender.

A primeira vez que fui a Braga já estava à espera de encontrar uma cidade grande e diferente de todas as outras. Mas fiquei siderado. Acho que Braga se dá a conhecer a quem lá entra, sem receios ou desejos de impressionar.

A primeira impressão foi a modernidade de Braga - pareceu-me Portugal, mas no futuro. E num futuro feliz. O Porto e Lisboa são mais provincianos do que Braga; tem mais complexos; tem mais manias; tem mais questiúnculas por resolver e mais coisas para provar.

Braga fez-me lembrar Milão. É verdade. Eu adoro Milão mas Milão é (mais ou menos) Italiano, enquanto Braga é descaradamente português. Havia muitas motas; muitas luzes; muita alegria; muito à-vontade.

Lisboa e Porto digladiam-se; confrontam-se; definem-se por oposição uma à outra. Braga está-se nas tintas. E Coimbra - que é outra cidade feliz de Portugal - também é muito gira, mas não tem o poderio e a prosperidade de Braga.

Em Braga, ninguém está preocupado com a afirmação de Braga em Portugal ou no mundo. Braga já era e Braga continua a ser. Sem ir a Roma, só em Braga se compreende o sentido da palavra "Augusta".

Em contrapartida, na Rua Augusta, em Lisboa, não há boa vontade que chegue para nos convencer que o adjectivo tenha proveniência romana. A Rua Augusta é "augusta" como a Avenida da Liberdade é da "liberdade" e a Avenida dos Aliados é dos "aliados", mas Braga é augusta no sentido original, conferido pelo próprio Augusto.

Em Braga, a questão de se "comer bem" ou "comer mal" não existe. Come-se. E, para se comer, não pode ser mal. Pronto. Em Lisboa, por muito bem que se conheçam os poucos bons restaurantes, está-se sempre à espera de uma desilusãozinha.

No Porto, apesar de ser difícil, ainda se consegue arranjar alguma ansiedade de se ser mal servido; de ir a um restaurante desconhecido e, por um cósmico azar, comer menos do que bem. Em Braga isso é impossível.

O problema da ansiedade não existe.
Braga tem tudo.
Passa bem sem nós.
Mas nós é que não passamos sem ela, porque os bracarenses ensinam-nos a não perder tempo a medir o comprimento das pilinhas uns dos outros ou a arranjar termómetros de portuguesismo ou de autenticidade.

É por isso que o Sporting de Braga está à frente. Não é por se chamar Sporting. Não é por ter cedido o treinador ao Benfica. O Benfica ganhou muito com isso. Mas é o Sporting de Braga que está à frente.

É por ser de Braga.

É uma coisa que, infelizmente, nem todos nós podemos ser.

Fique então apenas a gentileza de ficar aqui dito de ter pena de não ser.

Friday, September 25, 2009

Uma campanha sem justiça


Ao analisar os temas que têm marcado a campanha eleitoral para as “legislativas” e tendo em conta a nossa memória dos últimos anos — com casos tão mediáticos — estranha-se que a Justiça tenha sido varrida para debaixo do tapete das caravanas que percorrem o pais à caça do voto dos portugueses.

A valorização da sociedade portuguesa do funcionamento do poder judicial oscila entre o descrédito e a confiança politicamente correcta e assumida por todos os agentes políticos que prezam a separação constitucional dos poderes.

A Justiça continua a ser uma aspiração humana íntima e profunda e assume-se como a última instancia protectora dos direitos e das liberdades dos cidadãos.

Esta aparente contradição — o descrédito à confiança — simboliza a irregularidade que tem norteado as relações entre a Justiça e a sociedade portuguesa. Trata-se de uma irregularidade baseada na indiferença e pouca atenção que o Estado lhe dedica através dos poderes executivo (Governo) e legislativo (Assembleia da República).

Não se fez justiça com a Justiça após 35 anos de democracia.

É estranho que os portugueses se tenham habituado a conviver com a visão negativa, com o funcionamento anómalo do trabalho judicial

Dos casos mediáticos, falámos e escrevemos muito esquecendo o trabalho diário dos Juízos e dos Tribunais. Parece até que o Poder Judicial, no seu sentido lato, não precisa da sociedade, quando devíamos saber que os nossos juízes, trabalhadores e honestos gostam de sentir-se apreciados pela cidadania numa sociedade madura, culta, moderna e justa.

É verdade que vivemos num tempo de reivindicações mas também de diálogo.

É a procura de pontos de encontro que constitui hoje o desafio da sociedade, da democracia e da cidadania para a reforma da justiça, para uma modernização normativa e tecnológica que torne real o que até agora foi impossível: situar os órgãos judiciais no mesmo patamar dos países europeus

Ora, o que se tem visto nas ruidosas caravanas eleitorais é a indiferença e o silêncio.

Thursday, September 24, 2009

Franceses em Braga há 200 anos (20)



Wellesley teve no Marechal William Beresford um dos seus mais eloquentes colaboradores para afastar as tropas de Soult do Minho, apesar da derrota em Braga, na Serra do Carvalho.

Sobre este irlandês, William Beresford, o primeiro dos segundos de Wellesley, há quem escreva apenas loas e quem veja apenas a nódoa do assassinato do General Gomes Freire de Andrade.

William Carr Beresford, marquês de Campo Maior, nasceu na Irlanda em 1768, tendo servido como militar na Nova Escócia e participado em várias campanhas em França, especialmente no célebre cerco da cidade de Toulon, em 1793, que o então jovem capitão Napoleão conseguiu romper com audácia e tiros de canhão.

Mais tarde Beresford esteve também no Egipto e na Índia, tendo comandado as tropas que conquistaram a cidade de Buenos Aires mas perdeu de seguida e foi feito prisioneiro.
Em 1807, era já governador da Madeira, no âmbito da cooperação anglo-portuguesa, para impedir que os franceses se instalassem naquele arquipélago. Em Agosto do ano seguinte vem para Lisboa sendo nomeado comandante da Capital após a batalha do Vimeiro.

No ano seguinte é lhe encomendada a difícil missão de defender a rectaguarda contra as tropas de Soult, que já tinham chegado ao Porto, depois de passarem por Chaves, Montalegre, Póvoa de Lanhoso e Braga.

A forma eficiente como desempenhou essa missão, em estreita colaboração com as tropas portuguesas, como braço direito de Arthur Wellesley. Além de afastar as tropas francesas, mesmo com encarniçadas batalhas — como aconteceu em Amarante — e golpes de genialidade, como a travessia do rio Douro, Beresford é hoje unanimemente considerado o verdadeiro reorganizador do exército português, dando-lhe a eficiência notável que se evidenciou sobretudo na batalha do Buçaco, a 27 de Setembro de 1810.

No âmbito da campanha de expulsou das tropas francesas da Península Ibé-rica, encetada por Wellesley, o marechal Beresford é ferido na batalha de Salamanca e vê-se obrigado a regressar a Inglaterra, diluindo-se a sua importância no seio do exército português onde a sua promoção a Marechal-General tinha causado algumas invejas e atritos com oficiais mais antigos.

Beresford — ao contrário do inacessível Wellesley — desempenhou nas frentes de batalha um importantíssimo papel militar dado o acompanhamento próximo das forças portuguesas, nas suas relações com as inglesas.

O dramatismo da fuga de Soult por terras do Minho, sobretudo na ponte de Misarela, em direcção à Galiza, não foi ainda maior devido a uma pequena indecisão de Beresford em Rui-vães.

Esta indecisão acabou por dar um dia de vantagem às tropas francesas em fuga que foi vital para a salvação de milhares de soldados, apesar de terem perdido centenas de cavalos e pe-ças de artilharia, deixando para trás os despojos do saque feito em terras minhotas. O nome de Beresford fica também ligado à reconquista de Campo Maior, durante a terceira invasão, embora a mais célebre das suas vitórias tinha acontecido em Albuera.

Após a guerra Peninsular, Beresford assumiu as funções de generalíssimo do exército português mas a morte — por assassínio — do general português Gomes Freire de Andrade — marca a sua carreira. Ainda hoje se percebe mal qual foi a participação neste processo em que se viu envolvido.

Para o futuro ficava um conjunto de princípios que marcam a reorganização do exército português.

Ele foi o pioneiro de um conjunto de procedimentos que contribuíram para fazer das tropas portuguesas um dos corpos militares mais apreciados no mundo, à semelhança da eficácia britânica.

Wednesday, September 23, 2009

A última oportunidade


O jornal espanhol “El mundo” publicava no início desta semana um excelente artigo de José Manuel Durão Barroso, recém reeleito para a presidência da Comissão Européia. Porque o tema tem sido silenciado na campanha eleitoral portuguesa, atrevo-me a citar aqui alguns dos parágrafos mais emblemáticos.

As mudanças climáticas estão a produzir-se mais rapidamente do que esperávamos há dois ou três anos atrás. Daí que os dirigentes mundiais, europeus e portugueses não possam continuar a assobiar para o ar como se nada significassem para si.

Estamos perante o desfio mais importante para a actual geração de políticos do mundo e reina um estranho silêncio em Portugal, desde a direita à esquerda.

A Cimeira de Copenhaga está a suscitar justificadas inquietações e tudo aponta para um buraco sem saída, face ao adivinhado afrontamento entre os países desenvolvidos e as nações em vias de desenvolvimento.

No entender de Durão Barroso, a nossa geração e a dos nossos filhos não pode tolerar “um resultado desastroso”.

Os líderes mundiais são desafiados a “contemplar o abismo que se abre sob os seus pés” e incitados a fazer alguma coisa para avançar as negociações porque o momento “não é de jogar póquer, mas de colocar os trunfos sobre a mesa e os trunfos devem chegar ao limite das suas possibilidades políticas”.

Em primeiro lugar, os paises mais desenvolvidos devem tornar claros os seus planos para reduzir as emissões de Dióxido de Carbono (CO2) a médio prazo, alem de darem provas concretas da sua liderança.

Só assim é possível reduzir em 80 por cento as emissões de CO2 até ao ano 2050. Deste modo, possuem autoridade moral para exigirem aos paises em vias de desenvolvimento uma redução entre os 25 e 40% até ao ano 2020.

São necessários cem mil milhões de euros para uma resposta eficaz à destruição da camada de Ozono que protege e permite a existência de vida na Terra. Uma parte é financiada pelos países mais avançados e outra parte deve ser obtida com o mercado do Carbono.

A parte que toca à Europa, nos cálculos de Durão Barroso, ascende a quinze mil milhões de euros.

Se fracassar a cimeira de Copenhaga, dentro de dois meses e meio, Durão Barroso afirma que os dirigentes mundiais estão a escrever a carta de suicídio maior e mais global da história.

E a opção é simples mas dramática. Simples porque só há acordo com dinheiro, mas sem acção não há dinheiro. Dramática porque o mundo está a sair de uma enorme depressão financeira mas pode cair numa dramática agonia mortal se nada fizer pelo ar que respiramos.

Mas nada disto parece inquietar os portugueses e muito menos os seus políticos em campanha eleitoral.

Friday, September 18, 2009

Duas pérolas de fim de Verão



São duas pérolas, uma em prosa (abaixo) e outra em gravura (acima).
mas não posso resistir a partilhá-las convosco.

TVI - A Minha Leitura (José Niza)


Fui director de programas da RTP e depois seu administrador. E garanto-vos que, se alguma vez algum apresentador ou jornalista desse uma entrevista a chamar-me "estúpido", a primeira coisa que aconteceria seria o cancelamento imediato do seu programa, independentemente de haver ou não eleições em curso.

Por isso me parece incompreensível que, embora rios de tinta já se tenham escrito sobre o cancelamento do jornal nacional que Manuela Moura Guedes (MMG) apresentava na TVI, todos os analistas e comentadores tenham ignorado a explosiva e provocatória entrevista que MMG deu ao Diário de Notícias dias antes de a administração da TVI lhe ter acabado com o programa.

Em meu entender essa entrevista, realizada com antecedência para ser publicada no dia do regresso de MMG com o seu jornal nacional, foi a gota de água que precipitou a decisão da TVI. É que, o seu conteúdo, de tão explosivo e provocatório que era, começou a ser divulgado dias antes. E se chegou ao meu conhecimento, mais cedo terá chegado à administração da TVI.

Nessa entrevista MMG chama "estúpidos" aos seus superiores. Aliás, as palavras "estúpidos" e "estupidez" aparecem várias vezes sempre que MMG se refere à administração.

É um documento que merece ser analisado, não somente do ângulo jornalístico, mas sobretudo do ponto de vista comportamental. É uma entrevista de uma pessoa claramente perturbada, convicta de que é a maior ("Eu sou a Manuela Moura Guedes"!) e que se sente perseguida por toda a gente. (Em psiquiatria esse tipo de fenómenos são conhecidos por "ideias delirantes", de grandeza ou de perseguição).

MMG diz-se perseguida pela administração da TVI; afirma que os accionistas da PRISA são "ignorantes"; considera-se "um alvo a abater"; acusa José Alberto de Carvalho, José Rodrigues dos Santos e Judite de Sousa de fazerem "fretes ao governo" e de serem "cobardes"; acusa o Sindicato dos Jornalistas de pessoas que "nunca fizeram a ponta de um corno na vida"; diz que o programa da RTP 2, Clube de Jornalistas, é uma "porcaria"; provoca a ERC (Entidade Reguladora da Comunicação Social); arrasa Miguel Sousa Tavares e Pacheco Pereira, etc.

E quando o entrevistador lhe pergunta se um pivô de telejornal não deve ser "imparcial", "equidistante", "ponderado", ela responde: "Então metam lá uma boneca insuflável"!

Como é que a uma pessoa que assim "pensa" e assim se comporta, pode ser dado tempo de antena em qualquer televisão minimamente responsável?

Ao contrário do que alguns pretendem fazer crer - e como sublinhou Mário Soares - esta questão não tem nada a ver com liberdade de imprensa ou com a falta dela. Trata-se, simplesmente, de um acto e de uma imperativa decisão administrativa, e de bom senso democrático.

Como é que alguém, ou algum programa, a coberto da liberdade de imprensa, pode impunemente acusar, sem provas, pessoas inocentes? É que a liberdade de imprensa não é um valor absoluto, tem os seus limites, implica também responsabilidades. E quando se pisa esse risco, está tudo caldeirado. Há, no entanto, uma coisa que falta: uma explicação totalmente clara e convincente por parte da administração da TVI, que ainda não foi dada.

Vale também a pena considerar os posicionamentos político-partidários de MMG e do seu marido.

J. E. Moniz tem, desde Mário Soares, um ódio visceral ao PS. Sei do que falo. MMG foi deputada do CDS na AR.Até aqui, nada de especialmente especial.

O que já não está bem - e é criminoso - é que ambos se sirvam de um telejornal para impunemente acusarem pessoas inocentes, sem quaisquer provas, instilando insinuações e induzindo suspeições.

Ainda mais reles é o miserável aproveitamento partidário que, a começar no PSD e em M. F. Leite, e a acabar em Louçã e no BE, está a ser feito. Estes líderes políticos, tal como Paulo Portas e Jerónimo de Sousa, sabem muito bem, que nem Sócrates nem o governo tiveram qualquer influência no caso TVI. Eles sabem isto. Mas Salazar dizia: "O que parece, é"!

E eles aprenderam.




- 1984. Eu era, então, administrador da RTP. Um dia a minha secretária disse-me que uma das apresentadoras tinha urgência em falar comigo: - "Venho pedir-lhe se me deixa ir para a informação, quero ser jornalista"! Perguntei-lhe se tinha algum curso de jornalismo. Não tinha. Perguntei-lhe se, ao menos, tinha alguma experiência jornalística, num jornal, numa rádio... Não tinha. "O que eu quero é ser jornalista"! Percebi que estava perante uma pessoa tão determinada quanto ignorante. E disse-lhe: "Vá falar com o director de informação; se ele a aceitar, eu passo-lhe a guia de marcha e deixo-a ir". A magricelas conseguiu. Dias depois, na primeira entrevista que fez - no caso, ao presidente do Sporting, João Rocha - a peixeirada foi tão grande que ficou de castigo e sem microfone uma data de tempo.

P.S.

A jovem apresentadora chamava-se Manuela Moura Guedes.

E se eu soubesse o que sei hoje...



Ribatejo - Portugal

Tuesday, September 8, 2009

Franceses em Braga há 200 anos (19)


Quando se encontrava no cativeiro na ilha de Santa Helena, Napoleão, nas suas memórias, escreveu que "a Guerra peninsular perdeu-me. Destruiu a minha moralidade, complicou os meus embaraços e abriu uma escola para os soldados ingleses".

Anteriormente, falamos de três valentes portugueses que dominaram as segunda invasão de Soult que quis tomar Portugal entrando pelo Minho, em direcção ao Porto: Freire de Andrade, assassinado em Braga, Silveira de Brito, grande responsável pela derrota de Soult e o eng. Vilas Boas.

O trabalho sobre a Invasão francesa que devastou as terras de Lanhoso, antes da batalha de Braga, e na retirada, até Misarela, ficava incompleto se não falássemos de três estrangeiros: o marechal Soult, o tenente-general irlandês Wellesley e o seu compatriota Beresford que comandou os portugueses por terras de Lanhoso e Braga.

Se é certo que os militares franceses não contavam com a força da resistência do povo, também é verdade que a Inglaterra enviou para Portugal um punhado de oficiais, alguns dos quais perderam a vida aqui, que ajudaram a libertar o país e se cobriram de glória em todas as campanhas levadas a cabo no Minho e no resto do país.

“O DUQUE DE FERRO”

Acima de todos, brilha com grande luminosidade o duque de Wellington, hoje considerado como um dos maiores chefes militares de sempre. Ele foi o chefe que soube conduzir, em condições muito difíceis e em completo isolamento, sempre doloroso, os exércitos aliados ao triunfo.
É a ele que Napoleão dedica as palavras com que iniciamos esta crónica.
O tenente-general Artur Wellesley, nasceu em Dublin, a 1 de Maio de 1769.

Depois de estudar em França, iniciou a sua carreira militar com a batalha da Flandres e foi ferido na Índia, onde se tornou um militar exímio e um organizador ponderado e eficiente.

PORTUGAL TALISMÃ

Em 1808 já se opusera com glória a Junot, nas batalhas da Roliça e Vimeiro. Volta a Portugal, um ano depois, para expulsar Soult da cidade do Porto, através de uma manobra bem concebida e bem coordenada com o comandante do exército português Beresford.

No ano seguinte é ele quem obriga Massena a deixar Portugal, derrotando-o no Buçaco. Vencidos os franceses em Portugal, em três anos consecutivos, Wellesley persegue os franceses em território espanhol, ao ponto das Cortes espanholas o nomearem Generalíssimo.

Em 1813 perseguiu as tropas de Napoleão até ao território gaulês, chegando à cidade de Toulouse.

Com a destituição de Napoleão, regressa a Londres onde é triunfalmente recebido e agraciado com o título de Duque de Wellington, mas faltava-lhe vencer o próprio Napoleão e esse triunfo aconteceu na última e decisiva batalha de Waterloo, sendo nomeado comandante supremo das forças de ocupação de França.

Os documentos que nos deixou mostram-nos um chefe militar sóbrio, perseverante, intransigente na disciplina e prudente nas decisões, características que lhe valeram o cognome de "Duque de Ferro".

De facto, ele não captava a simpatia dos seus soldados que, na manhã de uma batalha diziam que "a presença da sua figura imponente valia por muitos homens". Os soldados respeitavam-no mais do que o amavam, por causa dos insultos que dirigia às vezes aos súbditos.

Centralizador, sem dar iniciativa aos seus subordinados, Wellesley era brilhante na táctica e eficaz na estratégia contrariando a afirmação de Napoleão segundo a qual "a sorte fez mais por ele do que ele fez pela sorte".

DUPLA COM BERESFORD

Sabia fazer retiradas quando lhe parecia peri-goso não o fazer (como em Talavera ou Madrid), por-que gostava de atacar com eficácia (como na Roliça e Vimieiro) e ser arrasador como foi em Vitória aproveitando as falhas do adversário, como sucedeu em Salamanca.

A perseguição a Soult no fim da segunda invasão — pelo Minho — até aos Pirinéus revelam-nos um general confiante e determinado até à aniquilação total do inimigo em fuga e a sua rendição.

Adepto incondicional da formação em linha, Wellesley teve no Marechal Beresford um dos seus mais eloquentes colaboradores, apesar da derrota em Braga, na Serra do Carvalho.

Sobre este irlandês, William Beresford, escreveremos na próxima crónica.

Saturday, August 29, 2009

Um ataque para distrair os cidadãos

Veio de onde não se esperava um dos mais violentos ataques ao mandato de Cavaco Silva enquanto Presidente da República.
É a ele que a Constituição da República Portuguesa atribui a missão de ser o garante do regular funcionamento das instituições democráticas.

Ora, o seu mandato acaba de ser posto em causa por um vice-presidente do PSD, quando este vem acusar o Governo socialista de ter uma visão “sovietizada” da sociedade ao querer intervir em “todos os sectores da sociedade portuguesa”.

Cavaco Silva é acusado, desta forma, de apadrinhar um Governo que tem uma “visão clientelar do Estado, não para servir os portugueses mas para servir o próprio Partido Socialista”, desde a banca à comunicação social.

O presidente da República foi também acusado de fechar os olhos e ser cúmplice de um Governo que se encontra “sob suspeita” e permitir que seja minada a autoridade do Estado, corroendo, desta forma as instituições democráticas de cujo regular funcionamento é o primeiro responsável.

O PSD acusou ainda o Presidente da República alimentar uma cooperação estratégica com um primeiro-ministro que mente e tem falta de carácter.

Além de serem afirmações graves, mesmo percebendo que são feitas no contexto pré-eleitoral, inquietam porque são o sintoma de uma estratégia de recurso à insinuação, à maledicência, ao combate político ao seu mais baixo nível, colocando em causa o trabalho e a missão constitucional do Presidente da República.

As dificuldades reconhecidas de apresentar um programa político não justificam o regresso à política da difamação, dos ataques de carácter, que colocam em perigo a acção política de forma elevada com que instituições democráticas como a Presidência da República merecem ser tratadas.

Usar esta linguagem é iniciar um caminho inaceitável para dar resposta eficaz e positiva que os portugueses esperam e merecem face aos desafios e problemas que os portugueses enfrentam.

Os portugueses merecem e exigem um debate sério e responsável, e educado porque o tempo do vale-tudo não consegue estimular os portugueses a vencer a mais séria crise económica do último meio século.

A resposta passa apenas por políticas sérias que devem ser apresentadas neste período pré-eleitoral. Ataques pessoais só podem servir para distrair os portugueses para a ausência de propostas de quem os faz. E esse é mais um truque para ajudar o Governo e esquecer os dramas dos portugueses.

Franceses em Braga há 200 anos (18)



Já aqui falamos de três valentes portugueses que dominaram as segunda invasão de Soult que quis tomar Portugal entrando pelo Minho, em direcção ao Porto: Freire de Andrade, assassinado em Braga, Silveira de Brito, grande responsável pela derrota de Soult e o eng. Vilas Boas.

O trabalho sobre a Invasão francesa que devastou as terras de Lanhoso, antes da batalha de Braga, e na retirada, até Misarela, ficava incompleto se não falássemos de dois estrangeiros: o marechal Soult e o general inglês Wellesley.

Falemos hoje do marechal Francês que alguns bracarenses chegaram a aclamar com príncipe de Portugal: Jean de Dieu Soult, duque da Dalmácia (1769-1851). Nasceu no mesmo ano que o seu Imperador Napoleão Bonaparte, tendo-se alistado em 1786, passando por todos os postos inferiores até achegar a capitão, em 1793.

No ano seguinte consegue ser graduado em comandante de batalhão, coronel e General de brigada, ao colaborar de forma notável na conquista da Bélgica.

General de divisão em 1799, pelos seus feitos no cerco de Luxemburgo, Soult inicia uma colecção fantástica de sucessos militares, ao ponto de Bonaparte, fracassada a primeira invasão, perceber que ele era o único capaz de anexar este rectângulo da Península Ibérica.

Por isso, é enviado para a campanha de Itália, em 1804, acabando por ser um dos 44 elevados ººa categoria de Marechal. No ano seguinte já comandava o quarto corpo do Grande Exército de Napoleão, quando fez capitular Memmington e está na base da batalha de Austerlitz, antes de ter uma acção gloriosa durante a campanha da Prússia, em Iena e Eylau, nos anos seguintes.

Após o desaire de Junot, na primeira invasão, reforçada com a revolta dos espanhóis, torna-se parceiro de Napoleão no comando do segundo corpo, impondo-se notavelmente ao conquistar a cidade de Burgos e ocupar a Corunha, depois de perseguir o exército inglês, obrigado a retirar-se em condições trágicas em Janeiro de 1809.

Era o militar com todos os pergaminhos capazes de invadir com sucesso o pequeno reino e entra em Portugal a 7 de Março de 1809, chegando ao Porto 20 dias depois, deixando no caminho entre Chaves, Braga e a Cidade Invicta um rasto de destruição e morte.

A sua competência militar rivalizava com a sua vaidade e ambição, copiando o sonho de Junot ao desejar ser rei de Portugal, mas a contra-ofesiva portuguesa, delineada pelos ingleses e apoiada na fortíssima e surpreendente resistência dos povos nortenhos obrigaram-no a retirar do Porto em Maio de 1809.

Mesmo na retirada, como já recordamos em crónicas anteriores, ele demonstrou todas as capacidades do seu génio militar, protegendo até à exaustão a vida dos seus homens.

Na retirada para Espanha, por Montalegre, desce depois até Sevilha que conquista naquele ano para aí instalar o seu quartel-general, ocupando toda a Andaluzia, sendo apenas derrotado dois anos depois pelo mesmo general que o afastara no Minho, Beresford, na batalha de Ambuera, uma das mais sangrentas da Guerra Peninsular.

Após a vitória de espanhóis, portugueses e ingleses em Salamanca, no ano 1812, toma conhecimento que Wellington se prepara para conquistar Madrid. Soult sai de Sevilha e com outros corpos franceses força á retirada dos portugueses e ingleses.

Depois da ofensiva vitoriosa dos portugueses e ingleses em Vitória, no ano 1813, Napoleão atribui-lhe o comando de todo os exército francês na Península Ibérica, com o qual encetou uma retirada notável, tendo ainda tentado defender a cidade gaulesa de Toulouse.

Soult mostrou, em circunstâncias difícílimas, ser um militar de eleição, ao ponto de Napoleão o considerar o "primeiro estratega da Europa".

Só descansou quando os Bourbons chegaram ao poder em França e lhe confiaram o comando do 13.º Exército, combatendo ao lado do Rei contra Napoleão na batalha de Waterloo, ascendendo depois a Ministro da Guerra, em 1830.

Era tão elevado o seu talento que os próprios ingleses — que tantas vezes o derrotaram na Península — o homenagearam, sendo aclamado de forma notável em Londres. Possui a mais alta distinção militar do, Marechal-General de França, atribuída apenas a mais três militares até então, em 1847.

Soult morreu em 21 de Abril de 1851, desaparecendo assim, provavelmente, um dos melhores marechais do grande imperador Napoleão. O seu perfil, a sua capacidade e o seu génio valorizam muito mais a resistência minhota na segunda invasão.