Monday, December 2, 2013

Almada Negreiros: profeta do moderno (1)


Aproveitamos este título de Joaquim Vieira para iniciar uma série de crónicas sobre aquele artista que é inseparável e fez o retrato mais famoso do autor de Mensagem. Almada Negreiros e Fernando Pessoa constituem os arautos maiores dessa essência de ser moderno: ser elegante não é uma maneira de vestir mas sim uma “maneira de ser”.

Almada Negreiros foi o homem das sete artes, desde pintor, desenhador, poeta, romancista a dramaturgo, caricaturista, humorista, actor, panfletário, polemista, bailarino, coreógrafo, cenógrafo, figurinista, vitralista, ilustrador, gráfico, ensaísta e filósofo (cf. ARMERO, Gonzalo, in Todo Almada, ed. Contexto, Lisboa, 1994).

Em todas estas áreas José Almada Negreiros – descobertas e divulgadas por Fernando Pessoa – Almada Negreiros deu corpo à inovação que jorrava de um talento fulgurante na literatura, na poesia e nas artes plásticas.
O seu trabalho incessante ao longo de décadas transforma-o no único artista português alguma vez associado às rupturas estéticas operadas no século XX.

Se uns – com inegável valor – tentaram com intervenções pontuais trazer a modernidade para Portugal, de Almada Negreiros se diz, com toda a razão, que ele quis levar Portugal inteiro para a modernidade, essas tal nova “maneira de ser”.

Se este reconhecimento torna Almada Negreiros num português extraordinário, que diremos quando descobrimos que ele foi um autodidacta que nunca frequentou um curso superior em belas artes ou qualquer outra universidade?

Tudo nasce de um comprometimento pessoal de Almada Negreiros na sua juventude, um gesto improvável num Portugal dominado pelo conformismo e pelo academismo.

A vanguarda – liderada por Almada Negreiros – era constituída por um grupo cujos membros se contavam elos dedos das duas mãos, para não sermos muito “mãos-de-vaca” avarentas, porque grande parte deles viviam fora do torrão natal.

O artista que assinava com um ”d” com haste maior que a palavra Almada teve, por isso, de recorrer ao escândalo, ao sensacionalismo, à provocação e à transgressão, ao contrário do seu amigo Fernando Pessoa, seu companheiro de aventura tímido, reservado e introspectivo.

Se Fernando pessoa parecia agradecer o facto de ninguém reparar na sua existência, Almada Negreiros necessitava do contrário para respirar, distinguindo-se claramente de outros cúmplices como Mário de Sá-Carneiro, Amadeu de Souza Cardoso ou Guilherme de Santa Rita, agentes da ruptura estrangeirados que não beneficiaram do dom da longevidade.

É pois num ambiente solitário e pioneira que Almada desenvolve o seu trabalho num mundo adverso, ao longo de quase toda a vida iniciada em S. Tomé a 7 de Abril de 1893.

Nada o fez vacilar nesse percurso escolhido e assumido até final. Incapaz de se fixar numa só área da criação, Almada Negreiros vivia vertiginosamente num vai e vem entre as artes e as letras, ainda mais diversificado que o francês Jean Cocteau.

Construiu uma obra multidisciplinar sem se preocupar com a coesão ou coerência mas apostado na construção de muitas pontes entre elas.

É verdade que é mais reconhecido hoje pelas artes plásticas mas o grande triunfo de Almada Negreiros é o ter conseguido extrair da sua época o seu estilo enquanto outros se limitaram a tentar impor um estilo à sua época. Quantas vezes sucumbiram nessa caminhada sisífica camusiana enquanto ele seguia o paradigma do renascimento.

É no seguimento, sem ficar preso a Leonardo da Vinci, que Almada Negreiros não abandona o rigor racionalista mas dá largas à expressividade emotiva e poética na pluralidade de centros de interesse e formas múltiplas.

Sendo vanguardista, Almada Negreiros vai aos clássicos buscar os seus modelos, sejam gregos ou italianos de Quatrocentos, para buscar a comunhão dos futuristas como Picasso ou Matisse.

Na literatura, é em Almada Negreiros que encontramos os sinais que anunciam a literatura surrealista com A engomadeira, quase uma década antes do manifesto de Breton, com um texto corrido sem pontuação, em Os saltimbancos anunciam a chegada de Jaymes Joice e do seu Ulisses.

No Teatro, Almada bebe em Pirandello della Miranda mas antecipa as peças de Ionescu e de Beckett.

Chega por hoje, para notarmos que estamos perante um dos maiores criadores de sempre da cultura portuguesa? Apesar de ser recebido de mãos abertas na Espanha e em França, ele optou sempre por regressar a Portugal e aqui se fixar, em detrimento do sucesso que granjeara além fronteiras.

O seu país foi a sua missão porque “é preciso criar a pátria portuguesa no século XX”, conforme repetiu tantas vezes.
O seu país nunca se mostrou – nem mesmo hoje – preparado para um criador da sua envergadura. Uns chamavam-lhe demente, devido à extravagância das suas atitudes na juventude.

Em Manifesto Anti-Dantas e por extenso foi violento nos seus ataques aos mandarins culturais, esse “coio d’indigentes, d’indignos, de cegos” ou essa “resma de charlatães e de vendidos” que “só pode parir abaixo de zero”. Essa violência valeu-lhe o isolamento, sem críticas, sem divulgação, editores e público.

Acresce que o patriotismo de Negreiros não se encaixava nos conceitos da monarquia, da República e do Estado Novo. Para ele um povo completo é aquele que “reúna no seu máximo todas as qualidades e todos os defeitos. Coragem, portugueses, só vos faltam as qualidades” – escreveu no Ultimatum futurista.

Quando o Estado novo lhe encomendou os frescos para as novas gares marítimas, Almada deixou de fora as cenas do passado glorioso e escolheu tradições populares e o sofrimento da gente miúda. O autodidactismo percebe-se na “Histoire de Portugal par coeur” que parece um olhar ingénuo de uma criança. A ingenuidade e a infância eram temas caros a Almada Negreiros. A primeira representa um estado de pureza em que é possível a vida do poeta que se considerava um “menino d’olhos de gigante”.

Renascer, reencontrar-se, desaprender, reaver a ignorância, reaver a ingenuidade, recuperar a inocência, aprender outra vez são ideias presentes nos textos de Almada, a começar em “Nome de guerra”, uma obra fulcral da literatura nacional de novecentos.
Almada tentou mostrar sempre a eterna candura de um incendiário inconsciente de o ser que 
larga a cidade masturbadora, febril, 
rabo decepado de lagartixa
labirinto cego de toupeiras,
raça de ignóbeis míopes, tísicos, tarados, 
anémicos, cancerosos e arseniados” (cf. Cena de Ódio).

Surpreender, chocar e contrapor, com ironia no sorriso e a malícia do olhar era tão natural como respirar para Almada Negreiros, a começar com o seu “Manifesto anti-Dantas”. Esta sua divisa contra o conformismo que era personificado por Júlio Dantas acaba por ser assimilada por todos os portugueses ao longo do século passado, sempre que alguma polémica surgia.

É com esse “morra! Pim” que Almada Negreiros foge a qualquer tentativa de classificação – sempre redutora de um génio – seja ela de saudosista, simbolista. Futurista, interseccionista, sensacionista, cubista, expressionista, abstraccionista ou… nada disso e tudo isso.

A sua personalidade versátil levou-o em busca de novas formas de expressão como as múltiplas personalidades do seu Fernando Pessoa, com quem colaborou na “Orpheu”, ao lado de Mário de Sá-Carneiro ou Amadeu de Santa-Rita.

A sua obsessão final foi a tentativa de unificar toda a produção artística, a partir de parâmetros egípcios, gregos, bizantinos e florentinos que apontavam para a eternidade e imutabilidade da arte, visível na análise aos painéis de S. Vicente de Fora. Apogeu da pintura portuguesa do século XV, sob assinatura de Nuno Gonçalves.

Ao contrário de Pessoa, Almada Negreiros conhece a consagração popular em vida a tal ponto que mesmo que os portugueses continuem sem conhecer a obra, a alma da Almada foi por todos amada. Perdão, é por todos amada.

Ninguém como ele sabia que “nascer é vir a este mundo, não é ainda chegar a ser” – como escreveu em 1935 - até porque “um cordão umbilical não se falsifica. Ou há ou não há”.

Almada Negreiros é um dos resultados mais felizes da colonização portuguesa, nascido na Roça da Saudade (que outro nome havia de ser), na Ilha de S. Tomé, em pleno Equador, a 7 de Abril de 1893 – há 120 anos.




Os rostos da República de A a Z (18)


“Não sei o que trará o amanhã”

Nesse ano, António Ferro, seu camarada do Orpheu e seu editor é nomeado para a direcção do Secretariado da Propaganda Nacional. Este democrata fervoroso na sua juventude, escritor e jornalista era um apologista das letras e das artes do  Estado Novo.

Um ano antes, publicara no Diário de Notícias cinco entrevistas a Salazar e um artigo intitulado “Política do espírito”, inspirado em Paul Valéry, em que defendia o "desenvolvimento premeditado, consciente, da Arte e  da Literatura” como necessário ao “prestígio exterior da nação” e ao seu “prestígio interior, à sua razão de existir”.
Uma das suas primeiras iniciativas para fomentar a criação literária e o trabalho intelectual foi a instituição de prémios para livros em cinco áreas: história, ensaio, jornalismo, romance e poesia.

Há mais de vinte anos, concluído, Pessoa tinha um livro d versos a que deu o nome Portugal. Em Setembro de 1034 preenchia os requisitos para se candidatar ao prémio Antero de Quental (“inspiração bem portuguesa e um alto sentido de exaltação nacionalista”). 

Os amigos incentivaram Fernando Pessoa a concorrer e o próprio António ferro adiantou dinheiro para a publicação que à última hora viu  titulo alterado para Mensagem. Posto à venda em Dezembro, não tinha dimensão para o Prémio Antero de Quental mas venceu a segunda categoria (um poema). António Ferro, tendo em conta a simples questão do número de páginas multiplicou por cinco o valor do prémio (mil escudos), o mesmo valor da primeira categoria.

A reacção a Mensagem foi globalmente positiva, ao ponto de Um jornal ter escrito: “a riqueza poética deste livro é tanta que, ainda que o seu autor nunca mais escrevesse um verso, o seu nome  ficaria para sempre ligado à mais rica poesia portuguesa” ( in Diabo, 27 de Janeiro de 1935). Outros acusaram Pessoa de ser “excessivamente intelectual, falho de emoção e sensibilidade” sendo os seus poemas apenas “telegramas” de "um notável poeta (...) que raros decifrarão”.

Quando publicou Mensagem, Fernando Pessoa não tinha perdido inteiramente a esperança no governo de Salazar. Aceitava o Estado corporativista por “disciplina” e concedia-lhe o benefício da dúvida que acabaram de vez em Fevereiro do ano seguinte.

Em Janeiro de 1935, Pessoa indignara-se com um decreto que extinguia as “associações secretas” e no mês seguinte publica um artigo a defender a Maçonaria. Segue-se uma avalancha de artigos que caluniavam os Maçons e censuravam Pessoa por os defender. A lei acabou por ser aprovada a 5 de Abril sem um único voto contra.

Mais determinante para o desencanto de Pessoa em relação ao regime foi  o discurso de Oliveira Salazar na entrega dos prêmios do SPN, um dos quais galardoava  Mensagem

Fernando Pessoa não assistiu à cerimónia e ficou espantado ao ler nos jornais no dia seguinte a recomendação de Salazar: “as produções criativas e intelectuais dos escritores deveriam não só respeitar certas limitações mas também seguir algumas directrizes impostas pelos princípios morais e patrióticos do estado Novo”.

Nada me pesaria que invadissem ou tomassem Portugal, desde que não me incomodassem pessoalmente”, é a frase que ele acrescenta em “Livro do Desassossego” à afirmação “A minha pátria é a língua portuguesa”.

Foi isso que aconteceu. Fernando Pessoa sentiu-se incomodado, ultrajado pelo facto de a sua língua ter sido atacada, invadida, controlada.

Conclui-se agora que a idéia força de Mensagem centrava-se num Portugal não como estado político mas sim como "nação constituída por seres livres, unidos por uma língua, uma cultura e uma história notável”.

A ideologia patriótica de Pessoa era aberta e universalista, ideia que muitos nacionalistas na conseguiam entender de quem defendia a Maçonaria.

Face ao discurso de Salazar, Pessoa deixa de escrever porque “ficamos sabendo, todos nós que escrevemos, que estava substituída a regra restritiva" da Censura, “não se pode dizer isto ou aquilo”, pela regra soviética do poder, “tem que se dizer aquilo ou isto”.

Ele tinha razão. Entregara poemas para a revista Sudoeste (dirigida por Almada Negreiros) e três deles foram omitidos.

A última metade do século XX não confirma o pedido de Pessoa à namorada Ofélia para nunca dizer a ninguém que era poeta (“quando muito, escrevo versos”). A omnipresença do poeta levou muitos a dizer que “tanto Pessoa já enjoa”.
Era o cumprimento da paráfrase de Álvaro de Campos: “cada vez mais perto do mito, cada vez menos perto de mim”.

Pessoa sentia-se cansado: “tenho estado velho por causa do Estado Novo”. É verdade que as crises hepáticas devidas ao consumo excessivo de álcool massacravam-no, ao ponto de concluir um poema, em meados de Novembro de 1935, assim: “dá-me mais vinho, porque a vida é nada” porque “há doenças piores que as doenças” e “há tanta coisa que, sem existir, /Existe, existe demoradamente, /E demoradamente é nossa, é nós...”.

Oito dias depois sofre mais uma crise que não consegue vencer. Foi em 27 de Novembro, aniversário da irmã, que estava com a família na casa do Estoril.

Estranhando a ausência de Fernando para o jantar comemorativo, o cunhado procurou-m no dia seguinte. Pessoa é internado no dia 29, no Hospital de S. Luís dos Franceses, onde é assistido pelo primo , e escreve as suas últimas palavras: “Não sei o que trará o amanhã”.

O amanhã trouxe-lhe a morte, devida a uma pancreatite aguda. No funeral estiveram umas 50 pessoas. Aberta a herança, o defunto deixava uma arca de madeira, com milhares de textos originais e inéditos, dactilografados ou manuscritos em cadernos, agendas, papel dos cafés, folhas volantes, facturas e pedaços de papel rasgado...

No Jazigo da sua avó Dionísia, o Grande Poeta ficou a aguardar que as suas obras fossem devidamente publicadas e que o tempo passasse, trazendo uma próxima geração de leitores entendesse o seu génio.

A fragmentação da sua obra e o seu viver, no desencantado pós-guerra, acaba por encontrar uma receptividade e compreensão impossíveis em vida de Fernando Pessoa.

João Gaspar Simões é um dos responsáveis ao escrever uma biografia pessoana de 700 páginas, em 1950, contribuindo para o catapultar para o patamar de grande glória das letras portuguesas.
Mas este autor não chegou a compreender totalmente o poeta, especialmente os heterónimos que são hoje a poesia mais rica e original.

Se quase todos consideram Ode Marítima a obra maior, outros consideram de pouco  calor a poesia heteronímica (como José Régio).

Não fora polémica que Pessoa não pressentisse quando revelava a Adolfo Casais Monteiro, em 1935, a intenção de deixar para segundo plano os escritos de Caeiro, Campos, Reis, etc. por recear “nenhuma venda de livros desse género e tipo”, apesar de reconhecer: “pus no Caeiro todo o meu poder de despersonalização dramática, pus em Ricardo Reis toda a minha disciplina mental, vestida da musica que lhe é própria, pus em Álvaro de campos toda a emoção que não dou nem a mim nem à vida” em contraponto a um Fernando Pessoa ”impuro e simples”.

Casais Monteiro faz a primeira edição póstuma da obra poética de Fernando Pessoa, uma recolha com cem poemas e Gaspar Simões continua o trabalho de publicação das obras dos heterónimos nos anos entre 1944 a 1952, que, juntamente com A Mensagem, formam o primeiro núcleo substancial da poesia pessoana ao dispor do grade público.

Apenas em 1960 Maria Aliete Galhoz organiza a primeira grande edição de Pessoa publicada no... Brasil, que serviu de “bíblia” a uma grande geração de leitores de Pessoa.

A divulgação da prosa pessoana é mais lenta e atravessa as décadas de 60 e 70 do século passado. Só em 1974 surge uma mudança cósmica no universo criativo de Pessoa com a publicação do Livro do Desassossego, traduzido em várias línguas. 

É um livro que Pessoa deixou como um amontoado de fragmentos (mais de 500), sem qualquer ordem ou fio organizativo que desencadeou uma febre colectiva sobre tudo o que era pessoano, lançando aquele que “não era nada, nunca serei nada” para a celebridade póstuma em que tinha apostado toda a vida.
Eduardo Lourenço e Richard Zenith (nosso companheiro nestas crónicas) fazem com que Pessoa se afirme, “no crepúsculo do milénio, como o emblema da nossa perda de certezas sobre o ‘eu’ e sobre tudo o mais".

Teresa Rita Lopes, em 1977, dá a pancada final na tarefa e mostrar toda a obra de Fernando Pessoa e facetas pouco conhecidas do poeta levando a toda a Europa uma curiosidade sem precedentes sobre a Língua Portuguesa celebrada com o prémio Nobel de José Saramago.

De facto,  consumava-se o Livro do Desassossego: “Eu, longe dos caminhos de mim próprio, cego da visão da vida que amo (...), cheguei por fim, também, ao extremo vazio da coisas, à borda intransponível do limite dos entes, à porta sem lugar do abismo abstracto do mundo”.

Hoje, Fernando Pessoa é publicado em todos os continentes, em 40 línguas, desde o norueguês ao vietnamita, do afrikaans ao urdu.






Os rostos da República de A a Z (17)


“Nunca dei crença
àquilo em que acreditei”

Fernando Pessoa criava o novo império, ao lado dos grandes impérios grego, romano ou cristão: Portugal, através da língua e da cultura, e sobretudo da sua literatura, dominaria o resto da Europa. Um império de poetas.

Foi em 1923 que Fernando Pessoa se referiu pela primeira vez ao Quinto Império mas a doutrina vinha já de 1912, quando Fernando Pessoa profetizou uma “Renascença portuguesa” que iria nortear toda  a cultura europeia.

Nessa nova ordem cultural, o catolicismo era sepultado pelo "paganismo superior” que incluirá todos os deus e todos os credos e a política devia deixar de existir.

Possuído pela necessidade de sanear a República, ao eliminar todos os vestígios da velha monarquia, varria todos os seus símbolos e rituais.

É em Janeiro de 1928 – pouco antes da entrada de António Oliveira Salazar para o governo, como ministro das Finanças — que Fernando pessoa entende a ditadura militar como um “intervalo” necessário para o caminho de “salvação e renascimento”.

Aguardando a “hora que se prometera” – que há-de concluir A Mensagem (“É a hora!”) — , Fernando Pessoa assume que a existência dele próprio é o primeiro sinal de que o Quinto Império está a chegar, a seguir ao “Estado de transição” ditatorial.

O Quinto  império apenas chegará com a “segunda vinda de Dom Sebastião” — ocorrida em 1888, a darmos crédito às profecias de Bandarra. Nesse Quinto Império de poetas, Pessoa era o Super-Camões, arauto de uma “Nova renascença” destinada a fazer com que Portugal irradiasse nova luz para todo o mundo.

Sentindo tudo de todas as maneiras e aceitando todos os deus e credos, Fernando Pessoa conferia a si mesmo uma universalidade inédita e transformava-se, só por si, em toda a geração literária.
Fernando Pessoa advertia não ser defensor da ditadura – tolerada como medida temporária — até evoluir para a negação completa desta doutrina, dedicando a Salazar um “desprezo irreprimível”. 

Afinal, em 1931, havia de escrever: “nunca dei crença àquilo em que acreditei”. 
Um ano antes, escrevera: “Merda! Sou lúcido”.
Em 1928 cria o último heterónimo, Barão de Teive, e de todas as máscaras inventadas por Fernando Pessoa, esta era a mais transparente e a mais inquietante.

O barão, desanimado por não conseguir escrever nada de jeito, queima as prosas no fogão e resolve suicidar-se. Mas, antes de dar este último passo, tenta explicar-se em “A educação do estóico” sobre a “impossibilidade de fazer arte superior”.

O barão, além da frustração literária, era sexualmente frustrado, sendo tão tímido com as mulheres que ficava impotente.
Teive reunia várias condições que o seu criador cobiçava mas as suas obras não saíam como ele sonhava e irritava-se com a tibieza da sua vontade, com a sua castidade e com a sua lucidez, que o leva a matar-se num gesto de orgulho.

Pessoa era mais complicado que o Barão de Teive. Sofria das mesmas frustrações mas não lhe escasseava a fantasia a escrita, o que lhe tirava o gosto do amor e das pequenas glórias mundanas com que os outros homens se iludem. A sua esperança residia na celebridade após a morte. Há que acelerar essa hora, organizando as obras, faze-las bem acabadas, o que não era o seu forte. Tinha medo de as acabar. Continuava inquieto, à procura, mas era urgente para Fernando Pessoa encontrar algo... um sentido, um bom caminho.
Mas ele continua sem saber se 
deitando dados
Se chega a qualquer conclusão. 
Mas também não sei
Se vivendo como o comum dos homens
Se atinge qualquer coisa”.

No começo de 1929, Fernando Pessoa está a escrever O Livro do Desassossego, obra que estivera a cargo de Vicente Guedes, antes de entrar em demência,uns dez anos antes.

Bernardo Soares já existia no universo pessoano mas como autor de contos. Agora pessoa assume a biografia de Vicente Guedes, que trabalhava num escritório e era um diarista muito lúcido.
A expressão dos seus desassossegos era diferente, menos abstracta e impessoal, era sentido na pele, nos factos mais corriqueiros do dia-a-dia.

Bernardo Soares era, segundo Pessoa, meio heterónimo, uma mutilação da sua personalidade, ou seja, um instrumento do qual Pessoa se servia para se auto-exprimir.

Álvaro de Campos, na sua Tabacaria, escrita em 1928, já não se distinguia também do seu criador.

Neste momento da vida, a saudade do passado e de tudo o que não vivera intensifica-se em Fernando Pessoa, perdão, Bernardo Soares. Volta-se para locais de infância como Durban ou Pedrouços e desperta, de novo, as afectividades, ao ponto de querer reatar com Ofélia Queiros, no Outono de 1929, numa tentativa mal sucedida. Para ele era impensável casar mas Ofélia insistia em cartas que se trocaram até Janeiro de 1930.

O último poema de Álvaro de Campos que considera as cartas de amor menos ridículas do que as pessoas que nunca as escreveram é uma alusão a estas cartas para Ofélia.

É por esta altura que Pessoa ressuscita Alberto Caeiro para escrever os seis poemas de Pastor Amoroso a cantar a paixão por uma jovem loura e com dentes que “são limpos como as pedras de um rio”.
Contraditoriamente, Bernardo Soares defende a castidade no Livro do Desassossego num momento e depois admite que as relações amorosas são um “complexo barulho que faço aos ouvidos da minha inteligência, quase para não perceber que, no fundo, não há senão a minha timidez, a minha incompetência para a vida”.

O Desassossego afectivo aliava-se a uma forçada procura espiritual através de escritos sobre Cabala, alquimia e ordens iniciáticas (Rosa Cruz, Maçonaria e Templários), tradições esotéricas e a religião em geral e magia negra.

A simulação do suicídio de Crowley, um editor inglês, mostra que Pessoa não se importava de dedicar tempo e energia a uma burla, ao ponto de elaborar uma novela policial sobre este desaparecimento que nunca aconteceu mas teve amplo eco nos jornais, dada a conivência do jornalista amigo Augusto Ferreira Gomes.

Pessoa acreditava em tudo, sem ter fé em nada. Estava aberto a tudo, absorvia tudo e servia-se de tudo para depois fazer o seu caminho, sem se submeter a nenhum credo ou dogma.

Pessoa preferiu não viver como o “comum dos homens”, passou a vida inteira na procura da verdade, quando não a inventava na sua escrita mas nunca chegou a uma certeza, a não ser que a sua certeza fosse esta:
Tenho o corrimão da escada absolutamente seguro,
Seguro com a mão —
O corrimão que não me pertence
E apoiado ao qual ascendo...
Sim... ascendo...
Ascendo até isto:
Não sei se os astros mandam neste mundo...

No início de 1933, Pessoa parecia mais velho do que os seus 44 anos. Não a-guentava a solidão, mais pesada com a passagem dos anos em que não se preocupara em ser ou não feliz.

Isto reflecte-se na sua po-esia e chega a ser pungente no Livro do Desassossego, numa altura em que contnuava a escrever cartas comerciais em francês e inglês ou dava explicações desta última língua.

Bebia mais, fumava muito e estava cansado e concorre pela primeira vez a um posto de trabalho, no Museu Biblioteca de Cascais. 

Não foi escolhido por falta de perfil e carácter adequados, apesar do extenso curriculum que apresentou.


Os rostos da República de A a Z (16)


A produção poética de Pessoa diminui na década de vinte devido às suas actividades empresarias e desperta com a revista Contemporânea onde revela ser mais multifacetado do que alguém podia imaginar.

Dos 23 poemas ali publicados, incluem-se doze que foram mais tarde a segunda parte de Mensagem e eram assinados por Álvaro de Campos. É a primeira aparição do heterônimo como poeta desde o Orpheu.

Foi também nesta revista e no primeiro dos seus 13 números que Pessoa publicou o Banqueiro Anarquista, uma espécie de dialogo socrático que era muito caro ao autor.

Fernando Pessoa era muito céptico em relação às ideologias anarquista, socialista e comunista chegando mesmo a escrever que esta revolução ia “atrasar dezenas de anos a realização da sociedade livre”, previsão que depois se revela acertada.

A mais importante revelação literária de Pessoa foi, nessa época, Albero Caeiro e Ricardo Reis. É misterioso que os tenha mantido em segredo durante tantos anos, uma vez que a maior parte da poesia de Caeiro foi publicada em 1916.

Aguardou certamente um contexto adequado para o revelar e foi ele quem criou esse contexto com a revista Athena, Revista de Arte, com os cinco números publicados entre 1924 e 1925.

Foi uma revista à Pessoa em que ele desenvolveu a sua campanha pela elevação da cultura portuguesa. Era uma ilustração perfeita da Nova Renascença promulgada por Fernando Pessoa doze anos antes.

É neste ambiente sóbrio, mas clássico, e ao mesmo tempo moderno, português e universal, que Pessoa deu a conhecer Reis e Caeiro, com ampla selecção de poemas de  cada um deles.
O renascimento neogrego que estes dois heterónimos deviam prefigurar baseava-se no neopaganismo, um sistema filosófico e religioso inscrito na sua poesia.

O fenómeno dos heterónimos reflecte a convicção de Fernando Pessoa de que nem no apertado âmbito do eu existe a unidade. Fernando Pessoa rejeitava a visão da unidade última e divina promovida pelo cristianismo e outras religiões monoteístas. Isso não significa que ele não desejasse a unidade. 

Na heteronomia do seu eu fragmentado, o poeta tentou, paradoxalmente, construir um pequeno mas completo universo de partes interligadas que formassem um todo coerente.

A morte da mãe coincide com o quinto e último numero da revista Athena e ninguém tinha reparado nos poemas do mestre triunfal, Alberto Caeiro... Não saiu qualquer critica ou referencia nos jornais. Fernando Pessoa estava mais só do que nunca, humana e literariamente falando. 

Em 31 de Agosto de 1925 escreve a um amigo a dizer que sofria de “loucura psicasténica” e perguntava  que tinha de fazer para requerer o seu próprio internamento num manicómio.

O seu velho receio de enlouquecer ressuscitava e o medo revela o grau de abatimento emocional em que caiu.
Nesse Outono dedica-se a escrever muitos artigos sobre o comercio e gestão de empresas na Revista de Comércio e Contabilidade, dedicando-se à história, teoria do comercio e numerosos preceitos e sugestões para o bom funcionamento de uma empresa.

Pessoa manifesta então o seu desprezo pelo capitalismo, mostrando-se grande defensor do comercio livre e opondo-se a qualquer proteccionismo.

A carreira literária de Pessoa parecia estar em ponto morto, quando nasceu a revista Presença, primeiro órgão a reconhecer o seu estatuto de poeta cimeiro do modernismo em Portugal.

Foram responsáveis por este regorgitar pessoano José Régio, João Gaspar Simões e Adolfo Casais Monteiro. Logo no terceiro numero de Presença, José Régio (na foto) escreve: “Fernando Pessoa tem estofo de mestre e é o mais rico em direcções dos nossos chamados modernistas”. 

No numero seguinte, Fernando Pessoa dá começou a uma longa colaboração que inclui alguns dos seus mais belos poemas: Aniversário, parte de O guardador de rebanhos e Tabacaria.

Ainda não era a “larga celebridade” que Pessoa desejava como “sinónimo psíquico da liberdade” mas o poeta esperava isso.
Entre 1919 e 1931 escreve dezenas de trechos para um ensaio em inglês Erostratus (homenagem ao grego que destruiu o templo de Diana) e argumenta que o "verdadeiro génio, por representar um avanço qualitativo sobre os seus contemporâneos, nunca será devidamente reconhecido pela sua própria geração”.

Explicava-se o escasso renome alcançado por Pessoa em vida, sinal de que podia vir a ser reconhecido pela futura história da literatura universal.

Pessoa era um megalómano – natural num criador artístico que pretende ser usurpador da função divina — desde tenra idade. No entanto, os seus anseios de glória associavam-se ao sonho de um Portugal glorioso e triunfal. Ele queria ser um grande escritor, suplantar Luís de Camões, para engrandecer a cultura portuguesa e coloca-la ao nível da inglesa e da francesa. Sendo Portugal um pais pequeno nunca podia distinguir-se como potencia militar ou económica e tinha de se impor como força interior, pelo espírito, pela cultura.

É a função redentora da cultura, com Pessoa no leme de salvador das letras.
Assim, quando o Marechal Manuel Gomes da Costa inicia em Braga a revolta militar, tem o apoio de Pessoa, cansado, como a maioria dos portugueses, de tanta instabilidade política e desordem social.

Pela mesma razão que foi sidonista, Pessoa apoiou a revolta contra a república parlamentar, que nada representava de novo.
Fazer tabua rasa do sistema para criar algo diferente e melhor em que a cultura era a força governativa.

Era o novo império, ao lado dos grandes impérios grego, romano ou cristão: Portugal, através da língua e da cultura, e sobretudo da sua literatura, dominaria o resto da Europa. 

Um império de poetas.




Os rostos da República de A a Z (15)


Em 1922, publica uma edição aumentada de Canções de António Botto, um livro de versos que celebrizava a beleza masculina. Para promover o livro publica um artigo “António Botto e o ideal de estética em Portugal”. O monárquico Álvaro Maia responde-lhe com “Literatura de Sodoma: o sr. Fernando Pessoa e o ideal estético em Portugal”. Raul Leal contrapõe com “Sodoma divinizada” e surge uma Liga de Acção de Estudantes de Lisboa contra a “literatura de Sodoma”.

O livro de Botto e o artigo de Leal são apreendidos pelo governdor civil de Lisboa enquanto é distribuído um manifesto contra “a inversão da inteligência, da moral e da sensibilidade”.

Pessoa responde, numa folha assinada por Álvaro de Campos: “Ó meninos, estudem, divirtam-se e calem-se”. Enceta depois um combate escrito pela liberdade de expressão que contrasta com o seu sidonismo anterior. Pessoa, após o assassínio de Sidónio Pais, glorificou-o com o poema “À memoria do Presidente-Rei Sidónio Pais”, em 1920, prenúncio do regresso do Desejado D. Sebastião. 

É a primeira manifestação de sebastianismo. Baseado nas profecias do sapateiro de Trancoso (séc. XVI), Pessoa quer afirmar-se como Salvador da literatura de Portugal, o super-Camões, ao mesmo tempo que desejava um super-homem politico, um grande estadista, que pudesse salvar o país do caos em que este se afundara.

Apesar do gosto pelo escândalo, Pessoa já não era visto como um jovem irrequieto, desejoso de dar nas vistas. Tornara-se um homem respeitado, recatado e de hábitos certos,  admitindo, em 1920, a possibilidadde de se casar com Ofélia Queirós, a quem declara um “amor extremo”.

No entanto, nas cartas trocadas entre ambos, Fernando Pessoa falava-lhe de assuntos corriqueiros. Costumavam passear a pé mas Fernando nunca quis ir a casa dela e conhecer os seus familiares. A relação ficou numa caixa, num compartimento, isolada do resto da vida de Pessoa, apesar de ter tido grande importância para ele. 

Guardou as muitas cartas e postais de Ofélia. Ele queria amá-la mas faltava-lhe o essencial: a entrega. Quando o namoro acabou, ele sentiu-se “aliviado e sem vocação" para “outras afeições”.
Com o país em crise, por sete mudanças de governo em 1920, inúmeras greves e manifestações, a vida de Pessoa entra numa fase de estabilidade. 

Vive na casa de Ourique até ao fim da vida, com pequenas viagens ao Alentejo ou ao Estoril, para visitar a sobrinha, filha do irmão Luís, nascida em 1931.

Abandonada a ideia de emigrar para Londres, Fernando Pessoa convenceu-se a ficar em Lisboa para consolidar a sua obra e pros-seguir a sua missão “civilizadora”.

Ele fazia questão de afirmar que “o imperialismo dos gramáticos dura  mais e vai mais fundo que o dos generais” e interiorizava que “a única compensação moral que devo à literatura é a glória futura de ter escrito as minhas obras presentes”, numa década em que a produção de Pessoa diminuía.





Tuesday, July 30, 2013

Os rostos da República: Fernando Pessoa (14)


O conselho de Henry More apontava para uma mulher desvirginadora no seu caminho, bastando que ele não tivesse medo e há descrições bastante pormenorizadas de mulheres que deviam resolver o “problema” de Pessoa, ao ponto de se apontarem três filhos de três mães diferentes.

Pessoa acreditava nesta previsões do seu alter ego Henry More? Ou eram apenas as suas aventuras astrais que substituíam o amor terrestre para amortecerem uma relação carnal?

Seja o que for, Pessoa continua a escrever até 1930, por entre um ou outro conselho para Pessoa “acasalar”. Estes despertares coincidiram com um acordar espiritual que fazem crescer “aversão às mulheres” ao ponto de se consideram artisticamente incompleto por não ser completo sexualmente.

Afinal, Pessoa vivia assustado pela solidão para não ser o tal Deus suspenso do vazio e começa a interessar-se pela grandes religiões como forma d encontrar a ligação da sua vida aos outros seres humanos.

Daí a té se deixar seduzir pela Cabala, Rosa Cruz ou a Maçonaria foi um pequenino passo, numa fase de grande incerteza e vulnerabilidade intelectual, de alguém pedido que se agarra ao que houve para agarrar.

Passara a grande explosão de Alberto Caeiro e o poeta vivia sozinho, em quartos alugados, confrontando-se consigo mesmo.
Devorando jornais, Pessoa assistia ao descalabro do mundo, com a I Guerra Mundial, em que defendeu a posição alemã, antes de Portugal ter entrado no conflito.

Pessoa era uma personalidade profundamente abalada. À guerra junta-se a trombose que atinge a mãe e ele sentia-se rodeado pela ausência, morte e precariedade. Só o mundo espiritual e religioso lhe davam algum conforto através do contacto com o “mestre” Henry More.

É nesta fase que Pessoas se aborrece com a mediunidade como um menino larga os seus brinquedos, mas é provável que tenha acreditado tanto nela como nos seus heterónimos ou na astrologia.

Pessoa assume-se como a criança que brinca com amigos imaginários – os seus heterónimos – porque fingir para uma criança não é muito diferente de acreditar. Não fosse o poeta um fingidor e não o fosse mais ainda quando perde o dom de acreditar naquilo que ele próprio gerou.

Encomendou horóscopos astrólogos ingleses ou era cliente que queria ser fornecedor? Elaborava horóscopos para desconhecidos ou procurava fontes de receitas alternativas? Há mistérios pessoanos que permanecem indecifráveis.

Nestas distracções da mediundade que “provoca um desequilíbrio mental, nálogo ao produzido pelo alcoolismo”, Pessoa comete um dos seus grandes erros: não se aperceber que o destino ia decapitar o “esfinge gordo”, o seu maior amigo, Mário de Sá-Carneiro.

Explica também que chegados aos 30 anos, Fernando Pessoa não tivesse publicado ainda nenhum livro, ao contrário de tantos amigos menos talentosos? Era um projecto que adiava desde 1913 e anunciava aos amigos mas “nada saía” mesmo que o jornal A Capital considerasse a Ode Marítima como a “trapalhada mais extraordinária” mas “se torna forçoso reconhecer que há nela qualquer coisa de superior ao resto e que o seu auto tem talento apesar da sua maluqueira”?

Pessoa nunca se empenhou seriamente em que lhe publicassem os livros por culpa sua: a sua exigência de perfeição absoluta tornava difícil esse acto. Ele não queria ser mais um daqueles que frequentam cafés, publicam uns versos e se tornam mais ou menos conhecidos e morrem depois.

Publicar-se era para Fernando Pessoa uma “ignóbil necessidade”. Daí que apenas o tenha feito em 1918, com Antinous e 35 sonnets. A edição comprovou o seu receio: ninguém leu. Era na Inglaterra que ele esperava ter êxito e abordara já várias editoras sem sucesso ou sequer uma resposta.

Na Inglaterra, um jornal avalia Antinous e 35 sonnets e coloca em causa a qualidade do inglês do poeta e o escasso interesse “pelo valor do que os poemas têm para dizer”. Outro jornal acusava-o de “excessivo artifício shakespeariano”.

O mesmo destino têm os mil exemplares de “English poems”, inspirados em modelos gregos. Sobraram-lhe 900 exemplares. A sua aposta – ou tentativa de emigrar – londrina falhava completamente. Nesta altura da vida, Pessoa não sabia o que fazer: ficar ou sair de Lisboa para Londres, deixar de escrever e criar uma empresa import-export. As ideias fervilhavam à mesma velocidade que fracassavam no terreno. É no meio desta convulsão pessoal, literária e económica que Fernando Pessoa desencadeia uma polémica de grandes proporções.

Em 1922, publica uma edição aumentada de Canções de António Botto, um livro de versos que celebrizava a beleza masculina. Para promover o livro publica um artigo “António Botto e o ideal de estética em Portugal”. O monárquico Álvaro Maia responde-lhe com “Literatura de Sodoma: o sr. Fernando Pessoa e o ideal estético em Portugal”. Raul Leal contrapõe com “Sodoma divinizada” e surge uma Liga de Acção de Estudantes de Lisboa contra a “literatura de Sodoma”. 

O livro de Botto e o artigo de Leal são apreendidos pelo governdor civil de Lisboa enquanto é distribuído um manifesto contra “a inversão da inteligência, da moral e da sensibilidade”.
Pessoa responde, numa folha assinada por Álvaro de Campos: “Ó meninos, estudem, divirtam-se e calem-se”. Enceta depois um combate escrito pela liberdade de expressão que contrasta com o seu sidonismo anterior. 

Pessoa, após o assassínio de Sidónio Pais, glorificou-o com o poema “À memoria do Presidente-Rei Sidónio Pais”, em 1920, prenúncio do regresso do Desejado D. Sebastião. É a primeira manifestação de sebastianismo. Baseado nas profecias do sapateiro de Trancoso (séc. XVI), Pessoa quer afirmar-se como Salvador da literatura de Portugal, o super-Camões, ao mesmo tempo que desejava um super-homem politico, um grande estadista, que pudesse salvar o país do caos em que este se afundara.

Apesar do gosto pelo escândalo, Pessoa já não era visto como um jovem irrequieto, desejoso de dar nas vistas. Tornara-se um homem respeitado, recatado e de hábitos certos,  admitindo, em 1920, a possibilidadde de se casar com Ofélia Queirós, a quem declara um “amor extremo”.

No entanto, nas cartas trocadas entre ambos, Fernando Pessoa falava-lhe de assuntos corriqueiros. Costumavam passear a pé mas Fernando nunca quis ir a casa dela e conhecer os seus familiares. A relação ficou numa caixa, num compartimento, isolada do resto da vida de Pessoa, apesar de ter tido grande importância para ele. Guardou as muitas cartas e postais de Ofélia. 

Ele queria amá-la mas faltava-lhe o essencial: a entrega. Quando o namoro acabou, ele sentiu-se “aliviado e sem vocação para outras afeições”.





Os rostos da República: Fernando Pessoa (13)


Pode ter perpassado a ideia, nas últimas crónicas, que Fernando Pessoa passou pela miséria, mas a verdade é que nunca esteve à beira dela, apesar de todos os percalços.

No entanto, é verdade que Fernando Pessoa foi afligido, durante toda a sua vida adulta, a começar na adolescência, por crises de depressão, devidas ao seu exacerbado sentimento de solidão.
Já em criança sentia necessidade de se isolar dos outros e mais tarde reconhece que apenas Mário de Sá-Carneiro era “o maior e mais íntimo amigo”.

Em que consistia essa intimidade, na troca de poemas para serem comentados reciprocamente.
Estranhamente nunca se tratam por tu, mas falam das suas angústias, receios e depressões, mas quase sempre num tom literário, elevado, com recurso a metáforas, imagens requintadas e recurso a passagens das suas obras.

Sá-Carneiro queixava-se mais vezes da falta de dinheiro e pedia a Pessoa para ir pedir ou cobrar dívidas a amigos em Lisboa.
Quando Sá- Carneiro caminhava para o suicídio, Fernando pessoa escreve-lhe que “há barcos para muitos portos, mas nenhum para a vida não doer, nem há desembarque onde se esqueça. Tudo isto aconteceu há muito tempo mas a minha mágoa é muito antiga”.

Sá-Carneiro era o mais inseguro dos dois, com receio de ofender ou incomodar o outro mas sempre aflito quando as cartas de Pessoa tardavam a chegar. Pessoa tinha uma irresistível capacidade para se distanciar das suas emoções, algo impessoais, como se fosse um observador de si próprio… até ao dia em que o seu amigo Mário se entregou numa aventura sem retorno com uma “personagem feminina”.

Pessoa reagiu com ciúmes face à prostituta Helena ou estava a reagir ao afastamento definitivo – o suicídio de Mário, a 26 de Abril de 1916?

Pessoa entendia o sexo como “elementos de obscenidade” que eram um “estorvo a certos processos mentais superiores” mas estava ainda vivo, como demonstra numa carta publicada em 1915, embora com uma orientação pouco clara.

Em Agosto desse ano escreve Antinous, em que o imperador canta a sua dor e o seu amor perante o cadáver do jovem amante, que morrera afogado no Nilo. É o mais belo poema de amor que Fernando escreveu, com muito desejo sublimado, com a expressão repetida “Ai de mim!” perante uma rapariga a quem fez olhinhos mas não teve atrevimento para mais.

O jovem poeta estava confuso e baralhado. Queria relacionar-se com mulheres (entre 1914 e 1920) ou colocar-se em causa sexualmente devido à sua timidez com as mulheres? Em parte, era assim, como demonstra uma carta que escreve a João Gaspar Simões. Nessa carte, Pessoa reconhece ter duas sexualidades à parida, representadas pelos poemas Epithalamium e Antinous.

Em 1916 ainda confessa ser virgem, enquanto Mário de Sá-Carneiro se desenvencilhava desse problema com uma prostituta, em Paris. Na gravura, o seu poema Aquele outro.

Um dia, um dos seus heterónimos, Henry More, avisa-o a 28 de Junho de 1916: “não deves continuar a manter a castidade. És tão misógino que te encontrarás moralmente impotente e, dessa forma, não produzirás nenhuma obra completa na literatura”.

Esta inquietação sexual coincide com o despertar espiritual de Fernando Pessoa, entre 1915 e 1918: “um génio inteiramente só, por mais genial que seja, é tão carente de sentido como um Deus suspenso no vazio”.

Fernando Pessoa necessitava de ligar a sua vida com outros seres humanos, no plano afectivo, ou seres superiores, no plano espiritual. A verdadeira busca começa agora para ao autor de “A Mensagem”.

Os rostos da República: Fernando Pessoa (12)


A ‘heterocracia’ de Fernando Pessoa chegou ao ponto de criar um Thomas Crosse, suposto tradutor e crítico inglês, criado depois para distinguir Alberto Caeiro, Ricardo Reis e Álvaro Campos, chegando ao ponto de planear, em 1916, uma Antologia dos poetas sensacionistas portugueses.

O Thomas Crosse não “cumpriu” essa tarefa e apenas escreveu parte do prefácio dessa obra.
Pessoa ou Thomas Crosse chegou a traduzir para inglês alguns versos de um poema de Alberto Caeiro, dois poemas inteiros de Álvaro Campos e o início da Ode Marítima.

O ano de 1914 marca também uma viragem na poesia do ortónimo Fernando Pessoa (outro que “vivia” com a tia Anica) ou seja o verdadeiro Pessoa que, ao conhecer Alberto Caeiro, “teve naquele momento a sua libertação" ao dar a conhecer qualquer coisa diferente nos seus poemas que têm datas posteriores a 8 de Março de 1914.

Que confusão, dirá o leitor. A esta observação camiliana, devemos lembrar que pessoa encarnava outras pessoas, com nomes diferentes, mas que eram a mesma pessoa que escreveu 
Ó sino da minha aldeia,
Já lenta na tarde calma,
Cada tua badalada
 Soa dentro da minha alma

Ou então:
A cada tua pancada,
Vibrante no céu aberto,
Sinto mais longe o passado,
Sinto a saudade mais perto”.

É uma verdadeira ficção em torno de si próprio que Pessoa urde ao longo deste período de desdobramento dos seus “eu”, numa caminhada de despersonalização – e de desresponsabilização? – porque todos eles estavam artisticamente vivos, com vida própria, verdadeira e responsabilidade nenhuma.

Mas é neste ano de 1914 que desponta uma Primavera triunfal, a explosão de Pessoa como um grande escritor que resulta de uma mistura da escola inglesa, os estudos de Latim e das literaturas clássicas, os românticos e simbolistas franceses em que ele mergulhara oito anos antes.

O rastilho foi um poeta americano – Walt Whitman — , a chave que abriu Pessoa para ‘O Canto de Mim mesmo’ que é um hino ao cosmo inteiro e galvaniza Pessoa a libertar-se dos heterónimos de forma progressiva, sem que deixe de os criar, como António Mora (continuador de Caeiro) ou Rafael Baldai (astrónomo de barbas longas que filosofava no seu Tratado de Negação).

Também temos os irmãos de Thomas Crosse (I. I. Crosse ou A. A. Crosse) que assinava ensaios a favor de Alberto Caeiro (I. I.) ou concorria a prémios literários (A. A.). Estes heterónimos comentavam entre si as obras dos anteriores Ricardo Reis e Álvaro de Campos, críticos um do outro e envolvendo-se numa discussão acalorada que respeitava a grandeza incondicional do mestre Caeiro… Devem ter sido divinais estes anos para Fernando Pessoa no diálogo com os seus outros “eu” (alter ego).

O único conhecedor destas multifacetadas personagens era Mário de Sá-Carneiro e daí que se entenda que tenha definido Pessoa como “Homem-Nação – o Prometeu que dentro do seu mundo interior de génio arrastaria toda uma nacionalidade: uma raça e uma civilização”.

Pessoa gerou a sua própria civilização sem sair de casa e nutria a esperança de impor esta civilização - dos heterónimos – no mundo real.
Álvaro de Campos assinava cartas para os jornais e dava entrevistas. Há dezenas de páginas elogiosas que Pessoa queria publicar em jornais portugueses e estrangeiros para Lançar Caeiro, enquanto Frederico Reis escreveu um longo folheto sobre a escola de lisboa que era constituída por Caeiro, Reis e campos e se opunha a Teixeira de Pascoais e aos saudosistas do Porto. Sozinho, desdobrando-se em muitos autores, Pessoa estava pronto a transformar a literatura nacional.

Era uma ambição desmesurada. Sejamos simpáticos: era uma forte desejo de afirmação pessoal ou o maior monumento conhecido ao narcisismo na Europa, pelo menos.

Uns dividem para reinar, Fernando Pessoa “dividia-se para reinar” e afirma-o ousadamente em Ultimatum pela pena de Álvaro de Campos, onde condena a época de então por “incapacidade de criar grandes valores” e luta pela “abolição do dogma da personalidade” quando afirma que nenhum artista deve ter “só uma personalidade” uma vez que o maior artista é aquele que “menos se define, escreve em mais géneros com mais contradições e dissemelhanças”.

Em 5 de Junho, o poeta fingidor escreve à mãe: “os meus amigos dizem-me que eu serei um dos maiores poetas contemporâneos”. É uma altura de inquietude que procura o regaço da mãe e o reconhecimento público que receava e o levava a refugiar-se nos “Hetero”.

Os rostos da República: Fernando Pessoa (11)


O maior artista, escreve Campos (perdão, Pessoa) terá múltiplas personalidades (quinze ou vinte), exactamente como Fernando Pessoa (um poeta fingidor) que tinha dias “monotamente agradáveis” em que se consolava “com o pensamento astrológico de que não podia acontecer nada realmente grave”.

Mesmo que acabasse o dia “sem jantar porque não tinha dinheiro” nada se comparava à “mistura de megalomania e ideias religiosas (que de modo algum atacaram a lucidez)”…porque a astrologia era uma das razões mais úteis para ocupar o seu tempo de leituras. Fernando Pessoa chegou mesmo a fazer o horóscopo de Álvaro de Campos e de Ricardo Reis.

Nesse mesmo ano, Fernando Pessoa escreve uma frase que deixa o mundo português escandalizado: “o desdobramento do eu é um fenómeno em grande número de casos de masturbação” só possível explicar por um adulto que “nunca fui senão uma criança que brincava” – conforme palavras postas na boca de Alberto Caeiro, a 7 de Novembro de 1915. 

Melhor dito, Fernando Pessoa foi um bebé crescido num corpo adulto que jogava xadrez onde as peças eram personagens criadas por si.
Em JUnho de 1914, no momento do parto de Álvaro de Campos e de Ricardo Reis, Fernando Pessoa escreve à mãe, em Pretória, onde afirma: “os meus amigos dizem-me que eu serei um dos maiores poetas contemporâneos”.

Apesar disso, Pessoa sentia-se inquieto, apesar de consciente do seu génio invulgar que ansiava pelo reconhecimento público que receava.
Sentia que o rumo da sua vida estava a mudar, o que era terrivel para quem entendia que “mudar é uma morte parcial; morre qualquer coisa de nós” bem como “mudar é mau, é sempre mudar para pior”.

Pessoa falava muito das saudades de infância e estas aumentaram com a idade, em reacção à morte que lentamente se aproximava dele, dele como de toda a gente.

Pessoa tinha um medo de crescer. Podia viver para a celeridade póstuma mas não se sentia preparado para a vida que o comum dos homens leva “casado, fútil, quotidiano e tributável”.

Não era um homem de família, que justificava com as suas ambições literárias e por ter um lugar seguro na família que o trouxera ao mundo. Contudo, essa família desmoronara-se com o correr dos anos, passando então a viver sozinho, numa série de quartos alugados todos eles entre os bairros da Estfânia e dos Anjos.

Os apuros económicos – sem apoio familiar — não eram novidade mas começaram a ser maiores, manifestando-se especialmente na década de 1910. Para poder dedicar mais tempo à sua escrita, Pessoa recusava trabalhos com horário fixo numa altura em que todos os amigos e familiares lhe tinham emprestado dinheiro, às vezes montantes elevados.

Acrescem a estas dificuldades, a aflição durante toda a sua vida adulta por crises de depressão, derivadas do seu exacerbado sentimento de solidão, neceesidade sentida desde a infância. “Um amigo íntimo é um dos meus ideais, um dos meus sonhos, mas um amigo íntimo é algo que nunca terei” – confessava Fernando Pessoa, em 1917, profetizando está dolorosa estranha forma de vida.

Numa carta escrita à mãe, em 1914, Fernando Pessoa referia-se a Mário de Sá-Carneiro como o “meu maior e mais íntimo amigo” traduzida em mais de 200 cartas e postais desta e quase nenhuma de Fernando Pessoa. Era uma amizade literária  de troca de poemas e de textos ou a pedir a Pessoa que visitassem amigos lisboetas que lhe deviam dinheiro.

Raramente Fernando Pessoa era banal nas poucas cartas que restam para Sá-Carneiro que se revelava o mais inseguro dos dois e neceesitava da aprovação de Pessoa para se libertar das suas depressões em que “me dói a vida aos poucos, a goles, por interstícios. Tudo isto está impresso em tipo muito pequeno num livro com a brochura a descozer-se”. 

Antecipava-se um momento dramático para Fernando Pessoa: a morte do seu amigo.