Thursday, September 29, 2011

Os rostos da República de A a Z: Afonso Costa (10)



A consolidação do Estado Novo marchava sobre rodas mas Afonso Costa não desiste até à morte, súbita, em Paris, em Maio de 1937, sem ver dada nova oportunidade à sua tão amada República.
Com a Liga de Paris formalmente desfeita em 1932, Oliveira Salazar, mais seguro que nunca no poder, dixa de fora da amnistia Afonso Costa.

Por isso, não resta ao velho líder republicano manter a luta contra Salazar, líder do catolicismo conservador, já à frente do Conselho. Fá-la através de várias entrevistas, retomando a defesa do socialismo integral, defendendo um programa reformista de um Estado interventivo, próximo do Estado da social-democracia.

Em Portugal cresciam os grupos anarquistas e comunistas, os únicos disponíveis para a luta depois da “demissão” da Aliança Republicano-Socialista.

No ano de 1933, Num conjunto de entrevistas a um jornal brasileiro, Afonso Costa tenta desmascarar os equilíbrios orçamentais do “papa negro”, Oliveira Salazar, apontando os sucessivos défices das finanças públicas portuguesas e chamando a atenção para a origem do desafogo que datava de 1924, o que não era mentira.

Afonso Costa não se limitava a estes dois pontos, atacando Salazar por ser um “perigoso jesuíta que já pós a funcionar em Portugal a Monita secreta” (cf. JOBIM, José, A verdade sobre Salazar, Entrevistas concedidas em Paris pelo sr. Afonso Costa, Rio de Janeiro, Calvino Filho Editor, 1934, pp. 28-39).

Honestamente, reconhecia a culpa dos republicanos pelo estado de ditadura a que o seu pais chegara: Apontava três razões, sendo a primeira “a criminosa fraqueza e quase covardia em relação aos ataques sucessivos dos reaccionários militaristas” enquanto a segunda era a “falta de comparência em vários ramos da administração”. Mas havia uma terceira, “o descrédito do Parlamento”.

Afonso Costa não conhecia o novo ditador e dele dizia que era “um homem novo e de falas doces, misantropo, apático, frio, esperto, insociável , trabalhador e insofridamente ambicioso. É vaidoso como uma mulher”. (cf. JOVIM, José, op. cit. pp. 53-93).

Salazar responde acusando Afonso Costa de “falsificador da História” e perdia a sua compostura, dinamizando uma polémica violenta que ocultou depois nas suas memórias.

Acusado por Salazar por fazer um exercício abstraccionista — sem tradução na realidade do pais — Costa é comparado a um dos dois alunos que, numa turma são escolhidos para se ocuparem a defender duas posições contrarias. Só servia para avivar a discussão e arquitectar raciocínios.

Nessa perspectiva, dizia Salazar: "o dr. Afonso Costa ficou para sempre amarrado ao se método dedutivo, às sua argumentação abstracta, ao absolutismo de certas proposições, à incapacidade de observar os factos e corrigir com eles uma ou outra das suas atitudes mentais”.

Nas suas “Duas escolhas”, Oliveira Salazar é particularmente violento: “Contra a discussão por hábito, contra a critica por princípio, contra o insulto por sistema, contra o partidarismo por ódio, a ditadura tem afirmado e feito vingar outra escola política” (cf. GUIMARÃES; Alberto, A verdade sobre Afonso Costa, ed. Autor, 1935, pp. 24-232).

Afonso Costa não se conteve e respondeu mas o Estado Novo nunca desistiu de ter a última palavra e Alberto Guimarães é o porta-voz dela ao classificar Afonso Costa como “maquiavélico, sinistro, nefasto, patife, nojento, seco de coração, ambicioso como um negociante judeu, psicologicamente um tirano, sem escrúpulos” até concluir que “Afonso Costa seria homem para vender o próprio pai”.

O Estado Novo encetou então uma campanha que define Áfonos Costa como a personificação do “ódio e crime” e “erguer-se-ia o pais inteiro para o expulsar” para se afundar na sua obra “sinistra de lama e sangue”.

Estava tudo dito, mas a luta era desigual mesmo quando surge uma pequena esperança com a guerra civil espanhola, por parte dos resistentes ao Estado Novo.

As 65 anos, Afonso Costa colabora activamente, na organização da Frente Popular Portuguesa contra a Ditadura, dominada por republicanos, e é indigitado para grão-mestre da Maçonaria Portuguesa. Com a sua morte súbita, em 1937, caem em terra estrangeira as sementes que hão-de germinar em 25 de Abril de 1974. A liberdade, a República e o socialismo constituem o seu tripé ideológico sobre o qual assentam os seus sucessos – muitos – e os fracassos – poucos.

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