Thursday, June 26, 2008

Braga: Dança do Rei David é ímpar



O carro da Dança do Rei David e dos Pastores constituem dois momentos indescritíveis das festas de S. João, em Braga.

O carro do Rei da David, com tocadores e Rei, continua a ser uma responsabilidade herdada por uma família da freguesia de Palmeira, de geração em geração, desde o século XIX.

Ainda hoje, essa família faz questão de manter a tradição. Trata-se de um grupo de pessoas que apenas actua no dia 24 de Junho, em Braga, e uma ou outra vez em programas televisivos. O grupo é constituído por treze pessoas, sendo um Rei, mais dois guias e dez músicos.

É o carro mais conhecido das Festas de S. João, embora o mais enternecedor seja o dos pastores, uma vez que as personagens, quatro anjos cantores, e restantes acompanhantes da dança são crianças.

Todos o conhecem como Rei David, mas poucos sabem que se chama José Alberto Nogueira.
Um comerciante de Braga que pela sétima vez consecutiva dá vida a um tradição familiar, ao encarnar uma personagem bíblica, o Rei David. Trasncrevemos, em seguida, uma entrevista que José Alberto Nogueirra deu ao jornal Correio do Minho, dois dias antes do S. João

Como é que surgiu a ideia de "vestir a pele" do Rei David?

Como disse, e bem, isto é uma tradição que já vem de família, de há muitos anos para cá. Não sei se realmente começou na minha família e quando. Isso não consigo confirmar. Agora, de facto, isso já vem de há muitos anos para cá. Que eu me lembre, vem do meu avô. Estamos a falar de pessoas do grupo que já lá andam há 50 anos, e a minha família já nessa altura fazia parte dos festejos do Rei David.



Já fazem isto há várias gerações, então?

Isto passa de pais para os filhos, neste caso para os filhos mais velhos. Houve uma altura em que entrou um tio meu, depois faleceu esse meu tio e entrou o meu pai.
Tirando aqueles filhos que, por algum motivo não querem participar, isto vai se mantendo.
Depois disso, entrou o meu pai e entrou um irmão meu. Tenho no grupo um irmão meu e um primo meu, e quando o meu pai faleceu, foi quando eu entrei. Tenho um irmão mais velho, mas ele não quis participar, e entrei eu.
O meu irmão que fazia parte do grupo teve, há cerca de 5 ou 6 anos, um problema de saúde, e ficou sem condições para continuar a fazer de Rei David. Aquilo requer algum esforço e algum equilíbrio e ele não teve condições de continuar.
Nessa altura, havia um primo mais velho do que eu, mas que não vinha da família Nogueira. Neste caso era a família Nogueira que trazia a tradição. Portanto, não entrou ele, e passei eu a liderar desde essa altura, e daí para cá tenho feito o papel de Rei David.
Já tenho lá no grupo um outro irmão meu, mais novo do que eu, que quando eu andava de guia ele tocava ferrinhos e passou para o meu lugar, de guia. Digamos que, à partida, se nada de anormal acontecer, penso que as coisas irão continuar.
É evidente que neste papel, a Câmara tem um papel a dizer. Se a Câmara disse que as danças vão parar, as coisas podem mudar, mas penso que não é essa a ideia, já que a Comissão de Festas tem todo o interesse em manter essas tradições, que são uma imagem das festas de São João. Se assim fôr, o legado continua por muitos mais anos.

O Rei David, como sabe, é uma personagem biblica. Conhece o Rei David?

Tenho-me andado a informar há muito tempo.
Aquilo que eu sei, em relação à dança, é que é uma dança mourisca. Inclusivé, depois foi afastada das festas, precisamente por ser uma dança de origem mourisca, e a dada altura foi introduzida novamente. Já não me lembro qual foi a altura.
Tem piada que nós agora voltamos a fazer parte das festas religiosas e participamos, também, nas procissões do dia de São João.

Há uma vertente histórica na personagem do Rei David, ou há uma interpretação pessoal da sua parte?

Eu penso que é mais uma interpretação pessoal. Até porque quando a gente entra para esta personagem, não entra com muito conhecimento da personagem biblica. A gente entra um bocadinho pela tradição de família. Portanto, é natural que seja mais uma questão pessoal, do que uma tradição bíblica. A gente, depois, tenta-se informar como é que foi, como é que não foi, e é só isso.



Como é que vê, actualmente, estes festejos? A Dança do Rei David acontece depois de uma noitada, em que toda sai à rua até tarde... Como é que se sente com isso?

Eu, sinceramente, acho que essa situação não se põe, porque o que realmente acontece, é que a gente de manhã, quando sai (estamos a falar das nove horas da manhã) tem logo muita gente a ver o cortejo. Se calhar são pessoas que se deitam mais cedo, outras nem se chegam a deitar e vão ver aquilo. Sinceramente, eu até acho que tem muita gente. Se calhar até tem mais gente da parte da manhã do que da parte da tarde.
Ali junto ao Turismo tem sempre muita gente.
O único senão que eu ponho, e que poderia até melhorar (já falamos nisto junto da Comissão de Festas), é que a música, de facto, tem dificuldade em ser ouvida longe do carro e perde-se. Podiam por ali qualquer coisa... algum aparelho de som.
Por acaso é uma das coisas que as pessoas já tinham falado e poderia melhorar nesse aspecto. Uma pessoa que esteja um bocadinho longe do carro, seja do nosso, seja do Carro dos Pastores tem dificuldade em ouvir.
Mas há muita gente a acompanhar pela avenida abaixo.

As músicas que tocam enquadram-se numa determinada época histórica. É fácil ensaiar essas músicas, e ao tipo de instrumentos que se usavam há cerca de dois mil anos atrás?

A gente vai tentando manter os instrumentos. Antigamente havia um violoncelo, e neste momento não existe, existem apenas violinos e uns ferrinhos.
Acredito que nesse aspecto o grupo deveria procurar introduzir mais alguns instrumentos. Ja tivemos a flauta, mas a há dificuldade em arranjar alguém que toque flauta. Já tivemos pessoas que tentamos, mas depois não conseguiram.
A dificuldade de arranjar alguns instrumentos, levam-nos a manter os que temos no grupo. Esses vão passando de ano para ano. Pontualmente, mesmo muito pontualmente substituímos um ou outro.
Em relação aos ensaios, também não há grandes problemas porque as pessoas já se conhecem bem umas às outras. O grupo funciona muito facilmente. A partir do momento que marcamos os ensaios, em três ou quatro ensaios a gente põe as coisas direitas.

Em relação aos instrumentos que faltam, o que é que deveria ser feito.

A gente aqui fica um pouco à nossa responsabilidade. Este é um grupo que só funciona no São João, não funciona noutras ocasiões.
Já tentamos arranjar uma flauta, chegamos a falar com algumas pessoas, mas têm de ser pessoas que toquem com algum à vontade. Ou porque tocam em bandas ou porque essas pessoas querem ganhar dinheiro, não é fácil conseguir que venham tocar conosco. As pessoas já andam nisto há muitos anos, e isto acaba por ser um pouco de carolice. Introduzir uma pessoa nova, porque na parte dos músicos existe um bocadinho a tradição de família. O pai já deixou para o filho, para o tio, para o irmão... Estas coisas vão funcionando assim.

Considera que faltando estes instrumentos, considerados essenciais, poderá ser posta em causa a continuidade desta tradição?

Não, porque estamos a falar de um instrumento só (a flauta) que a gente conseguiu arranjar. Eu tenho a flauta. A gente comprou, também, mais um violino, e dentro desses que a gente tem, neste momento, eu penso que, com maior ou menor dificuldade a gente vai conseguindo sempre arranjar.
Até porque de um momento para o outro pode surgir a hipótese de voltar a meter a flauta. Estas coisas podem surgir a qualquer momento. Neste momento não temos hipóteses de meter a flauta e tirar alguém que toca outro instrumento há muitos anos.

Em relação à indumentária, às vestimentas, usam uns fatos específicos, também têm facilidade em manter e conservar esse material?

A indumentária é tratada pela Câmara. Sempre que é preciso fazer alguma alteração, eles nesse aspecto têm melhorado bastante. As roupas têm sido bastante bem cuidadas. Têm pessoas que as cuidam e que as tratam.

Disse-me que era preciso algum equilibrio. Em termos físicos é preciso alguma preparação para esta dança?

A gente, em termos físicos, não faz grande preparação. Também só são três as pessoas que dançam, os outros só tocam os instrumentos. É evidente que quanto melhor estiver fisicamente, melhor me sinto a executar a dança, mas não há uma preocupação especial nesse sentido.

Que mensagem gostaria de transmitir a quem vai ver a dança do Rei David?

A mensagem é que se desloquem para ver, porque, de facto, é uma tradição da cidade. Eu sei que as pessoas que estão envolvidas na Comissão de Festas fazem um esforço para manter algumas das tradições... Hoje é cada vez mais difícil arranjar patrocínios, arranjar apoios... e se fazem esse sacrifício é precisamente para as pessoas poderem participar.
De facto, o apelo que eu faço é que as pessoas se desloquem ao centro para ver o Rei David e os outros eventos, porque é para as pessoas de Braga, e não só, que isto é criado. Para nós isso já é importante.

2 comments:

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