Saturday, March 1, 2008

Braga: capital da... axxónia


Depois do fantástico mimetismo da comunicação social que começou a escerever Estádio Axxa em vez de Estádio Municipal de Braga, o seu verdadeiro nome e no qual são confirmados tantos prémios de arquitectura que fazem passar para segundo plano aquela maravilhosa obra de engenharia, Braga está a tornar-se na capital da parolice, "non-sense" e num sítio queirosiano e cada vez mais mal frequentado.

Em tudo quanto é rotunda, se vão colocando postes de informação a quem vem de fora e quer circular e chegar ao destino que procura, como se presumiam, a avaliar pelos concursos públicos municipais. Mas não. O destaque — que devia ser dado à informação — foi dado à seguradora: o seu nome aparece em caracteres e cores (maiores e mais vistosas) que aqueles que possuem o nome das ruas e das instituições.

Os escuteiros indignaram-se com o anúncio da parvónia e muito bem, porque a criatividade publicitária tem os limites do respeito pela dignidade dos outros.

Mas os bracarenses não. Passam indiferentes diante desta miríada de atentados perpetrados à paisagem visual da cidade. Limitam-se a dizem umas palavras impublicáveis e seguem viagem...

O que se passa por exemplo, na rotunda frente à Igreja de Maximinos é de uma parvoíce confrangedora.
Um aprendiz de marketing devia saber — e também — perceber que a saturação da mensagem e da imagem provoca náusea no destinatário.

O astuto criativo desta sinalização — aprovada pelo Município que também não tem perdão pois o dnheiro não pode ser o primeiro critério a nortear as políticas — não terá noção do mau gosto? O mau gosto mesmo que aprovado por uma maioria não deixa de ser mau gosto.

Segundo os responsáveis municipais, a ideia era uniformizar a sinalética com mobiliário urbano apelativo.

Alguém pode dizer-nos que aqueles 'chapéus' de publicidade são apelativos ou estão a enfiar-nos um barrete com o qual a cidade tem de aguentar durante 15 anos?

M’Espanto às vezes, outras m’avergonho — como diria o grandes escritor Sá de Miranda se um dia destes se levantasse do sepulcro em Amares e viesse vistar Braga por estes dias.

Espantava-se que existisse uma Câmara a aprovar esta campanha de mau gosto e avergonhava-se por terem transformado a capital do Conventus Bracaraugustanus na capital da... axxónia.

Religiões: a candeia para a aliança



O comité conjunto da Conferência das Igrejas Europeias e o Conselho das Conferências Episcopais Europeias estiveram reunidas em Londres para avaliaram a caminhada conjunta nos últimos meses, e aprovaranm um programa de trabalho sobre o relacionamento com os muçulmanos na Europa.

Este comité anunciou para Outubro, em Bruxelas, uma conferência europeia entre cristãos e muçulmanos, subordinada ao tema “Ser cidadãos europeus e católicos. Cristãos e muçulmanos como parceiros activos nas sociedades europeias”.

Trata-se de uma iniciativa nascida num contexto cristão cujo objectivo é envolver os muçulmanos na preparação do encontro, porque todos devem falar de igual para igual e confrontar as vozes de todos.

Foi programado também um encontro de preparação, em Abril, na cidade húngara de Budapeste, com a presença de alguns muçulmanos representantes das diversas áreas e tradições muçulmanas da Europa.

A intenção das Igrejas é encorajar a consolidação de um “Islão europeu” para colher os sinais que nos são enviados pelo mundo muçulmano.

Este encontro de Londres vem na sequência da III Assembleia Ecuménica Europeia realizada em Sibiu (Roménia), na qual ficou demonstrado que os cristãos da Europa estão comprometidos num testemunho comum a vários níveis e podem contribuir com originalidade para a construção da casa comum europeia nulti-cultural e multi-religiosa.

Num tempo em que se pede — a nível mundial — um maior diálogo entre civilizações, é bom verificar que as estruturas religiosas estáo na dianteira da construção dessa aliança.

É verdade que — em muitos casos — as guerras que devastaram a Europa e o médio Oriente tiveram as religiões como estandartes da frente, por isso, alguns dirão que as várias religiões não fazem mais do que reconstruir aquilo que destruíram.

Mas também é justo afirmar que, nesta tarefa de reconstruir uma aliança de cooperação das civilizações, das culturas e das religiões, são a candeia que vai à frente, com acções e não apenas com discursos.

O passado não deixava antever uma luz tão forte destas candeias humanas. Espera-se que outros intervenientes não se limitem apenas a ficar à sua sombra ou a tapar a luz que irradiam.

Thursday, February 28, 2008

Alberto Vieira: a simplicidade não é simples de fazer



É ceramista desde há 21 anos e todos os anos executa, pelo menos, um presépio, mas Alberto Vieira é um artista com imensa actividade espalhada através de uma dezena de exposições individuais e cerca de quarenta mostras colectivas.

A simplicidade deste vilaverdense, nascido em Pico de Regalados mas radicado em Braga desde a Juventude, não contradiz a qualidade atestada por inúmeras distinções, das quais destacamos o primeiro prémio em várias edições do Concursos de Design Cerâmico nas Caldas da Rainha, ou o primeiro lugar no concurso para a escolha da mascote do Europarque, na Vila da feira, há 12 anos.

Da Coreia guarda gratas recordações devidas à menção honrosa no World Ceramic Biennale 2003, enquanto a Valência foi buscar o Prémio Deputació na VI Bienal Internacional de Cerâmica Manises. No ano passado arrebatou o prémio especial do júri da VI Bienal de Artes plásticas da Marinha Grande.

Mas os prémios que mais o engrandecem são aqueles que enriquecem os espaços públicos de Braga ou de vila Nova de Cerveira, para além das esculturas presentes nos Museus de Olaria de Barcelos, de Cerâmica das Caldas da Rainha ou ainda do Museu Alberto Sampaio (onde esteve presente durante o último Verão) e no Mosteiro de Tibães.

Todavia, a sua arte está intimamente associada aos presépios que faz desde há vinte e um anos, reunidos em livro, numa iniciativa recente da Fundação Bracara Augusta.

Tudo isso é justificação suficiente para a entrevista:

Correio do Minho — Como nasceu a ideia de publicar este livro dos 27 presépios?

Alberto Vieira —
A ideia apareceu na Fundação Bracara Augusta, através da dra. Maria do Céu Sousa Fernandes que tem acompanhado o meu trabalho. Fazia este ano vinte anos de presépios. É sobretudo um registo destes vinte anos de trabalho nesta área específica dos presépios. Pode-se perguntar porque apareceram vinte e sete presépios, sendo uma compilação de vinte anos de trabalho, acontece porque houve anos em que foram feitos mais que um presépio. O livro é sobretudo uma compilação desse trabalho desses vinte anos e isso significa que cada ano tenho vindo a fazer um presépio diferente, tenho vindo a fidelizar sobretudo coleccionadores e também é uma das razões porque continuo a fazer presépios. As pessoas criam expectativas e esperam sempre todos os anos por um novo modelo. A Fundação Bracara Augusta, sabendo deste meu trabalho, propôs-me fazer este livro e eu aceitei e estou muito satisfeito. Tenho que agradecer sobretudo à doutora Maria do Céu Sousa Fernandes que teve a iniciativa e à Fundação que patrocinou o livro, juntamente com outras empresas que tornaram possível esta edição de mil exemplares. Marca um período de trabalho e é importante ter esse registo em livro, para a pessoa e em termos de futuro para se saber o que fiz.

CM — Que tipo de presépios podemos encontrar neste livro?
AR —
Como disse Eduardo Madureira na apresentação do livro, o meu trabalho na área dos presépios é um bocado eclético. É difícil descrever por palavras aquilo que lá está. São resultados de influência de muitos países, de muitos estados de alma, de muitos contextos e cada um é um bocado diferente, nos materiais, na abordagem estética, nas cores, na textura, que resulta de diferentes contextos em que foram feitos. É uma minha forma de trabalhar, tentar reinventar e redescobrir algumas coisas.

CM – Existe alguma justificação ou explicação para esta inclinação de fazer presépios, a uma média de um por ano e em alguns anos mais que um?
AR —
Não encontrei. Tenho uma formação católica como quase toda a gente, tenho referências muitos fortes em relação a esta época do ano e ao presépio, mas eu não encontrei uma resposta que satisfizesse em termos de ter consciência de saber porque é que faço presépios.

CM — Mas há uma mensagem nos seus presépios?
AR –
Eu acho que há uma mensagem em tudo o que a gente faz. Não pretendo dar uma mensagem especial com os presépios, até porque os presépios são eles próprios uma mensagem, Toda a gente sabe o que é um presépio, desde a antiguidade, portanto, não vale a pena estar a colar-lhe grandes mensagens. Essa ideia já existe na cabeça das pessoas, é um triângulo amoroso, pode ser muitas outras coisas ou o que ele representa.

Por exemplo, aquele modelo de família que está ali, para uma sociedade ocidental, é um modelo que acaba por ser um paradoxo. É um modelo que nós adoptamos e nem sequer é muito igual àquilo que nós temos de família. Aquele pai que está ali não é o pai daquela criança. A sociedade ocidental adoptou como modelo aquela família e esse paradoxo tem piada porque o nosso modelo de família não é assim, em termos gerais. Tem esses lados mais ou menos singulares. O presépio, em si, não tem grande piada, não é mais que isso, mas as pessoas podem ver ali outras coisas, com mensagens subliminares que as pessoas podem descobrir e tem essa liberdade.




CM — O professor vem do Pico de Regalados. Qual foi o seu percurso até ao tempo presente?
AR -
Fui uma criança normal, com a minha infância na aldeia. Depois, a família aumentou, somos seis filhos, e quando houve necessidade de começarmos a estudar, tivemos de vir para Braga. Instalamo-nos em Braga. Eu com 16 anos, fiz a primeira exposição de pintura mas quando era criança o meu desejo era ser arquitecto, fazer muitas coisas.

As coisas foram surgindo naturalmente, fiz o meu curso, na Escola Industrial Carlos Amarante concorri para dar aulas de trabalhos manuais e foi o que fiz aos 18 anos, depois fiz um curso de complemento de formação específica na área da pedagogia, e a cerâmica surge assim quase sem eu fazer nada por isso. Descobri que era um material plástico, com muitas potencialidades, com uma facilidade muito grande em ser transformada para podermos concretizar as ideias e os projectos. Aderi à cerâmica e fui fazendo umas coisas.

Entretanto, surgiram outros materiais e tenho alguns trabalhos que fui fazendo com madeiras, com ferro, aços, pedra, conforme o cliente, muitas vezes. Trabalhos de grande dimensão e mais pequenos,

CM — Disse-nos que em pequeno queria ser arquitecto mas sempre teve um certo fascínio pelas artes plásticas. É uma inclinação familiar ou existe outra razão para explicar esse gosto.
AR —
Esta opção não tem explicação. Não sei porque é que acontece e o meu caso é um bocado o paradigma disso porque na minha família não tenho tradições artísticas. O meu pai foi muitos anos empregado de mercearia, a minha mãe era modista. Soube já quando era adolescente que tinha um avô que era ourives. Não sei se tem alguma relação ou não tem.

Mesmo a minha formação não é também na área das artes plásticas ou coisa que o valha, digamos que esta minha necessidade — não sei se posso dizer assim — por me expressar neste trabalho, não está na minha formação académica, está naquilo a que alguns chamam auto-didactismo. Acho que ninguém é autodidacta, estamos envolvidos num mundo, numa série de coisas que vão acontecendo e nós estamos sempre a aprender com os outros. Estamos abertos a todo o tipo de influências e isso é que nos vai formando.

CM — porque escolheu a cerâmica?
AR —
Há coisas de infância que ainda hoje recordo que eventualmente me fizeram despertar para a cerâmica. Lembro-me do fascínio que tinha pelos bonequinhos até do presépio, que se montava nas casas. Havia também um prato que ofereceram aos meus pais, em baixo relevo e eu achava aquilo fascinante quase transcendente. Lembro-me de desfazer um tijolo para tentar fazer uma massa, pensava eu que era possível, uma pasta; porque também me lembro muitas vezes de estar à mesa à espera da sopa e com o miolo do pão fazer uns bonequinhos, O meu pai não gostava nada mas eu fazia umas carinhas e uns bichinhos. Era muito pequenino.

Eu não acredito muito nessa coisa do destino, mas acaba por ser natural em mim no que eu faço. Eu nunca procurei, foi surgindo, não sei porque estou a fazer isto e não outra coisa. Há muitas coisas que surgem na vida das pessoas por acaso e as pessoas vão conhecendo.

O meu percurso artístico é um bocado isso, nunca foi planeado, nunca me sentei a pensar... agora vou fazer isto ou aquilo. Se surge uma bienal, eu participo, se surge um concurso eu participo, se surge uma proposta ou projecto de trabalho, se puder faço, ou se surge uma encomenda também faço, é assim. As coisas têm me corrido bem.

CM — Dá para viver das encomendas?
AR —
Acho que podia viver deste trabalho. Já tenho os filhos formados, o período das dificuldades já passou mas eu também gosto muito de dar aulas.

CM - … E tenta conciliar as duas coisas…
AR —
Consigo, tenho que roubar muitos fins-de-semana ao meu descanso, trabalhar aos sábados e domingos, sobretudo nesta altura do natal. Acontece-me sempre e tenho uma relação com o trabalho muito forte.
Não estou quieto.




CM – Mas não pode ser definido apenas como um ceramista?
AR —
Custa-me um bocado a aceitar esses rótulos, mas, pronto, as pessoas têm de ser identificadas por alguma coisa. Não temos de pôr isso à frente da pessoa. Acho que em Portugal se faz demais. O dr. é muito importante e o eng. Também é. Acho que isso é muito bacoco e provinciano, as pessoas terem de se apresentar com mais alguma coisa à frente do nome.

CM — Estamos a tentar definir o seu trabalho principal.
AR —
Não, eu faço trabalhos em vidro, escultura, muita coisa, aquilo que eu acho que posso fazer no interesse da minha evolução, através de cursos, de reciclagens, para diversificar a actividade para além da cerâmica. A gente não saber quase nada.

CM — Costuma fazer exposições regularmente?
AR —
Ainda este ano houve uma exposição com alguma dimensão no Museu Alberto Sampaio, em Guimarães, que esteve aberta ao público nos meses de Julho e Agosto. Foi no âmbito do projecto Museu à Noite, eu tive uma exposição que esteve lá nesse período e foi muito visitada.

CM — Está prevista mais alguma?
AR —
Por agora não. Estou a trabalhar para o Natal, a acabar o presépio deste ano. Há muita gente a coleccionar presépios. Há grandes coleccionadores. Eu tenho um cliente que é possuidor da maior colecção de presépios da Península Ibérica.

CM — Quantos exemplares faz de cada presépio?
AR —
Costumo fazer trinta mas este ano vou fazer uma tiragem de 45. Os presépios são numerados, com assinatura do artista e as pessoas já sabem que estão a comprar um presépio de uma série que tem mais X presépios. Há mais gente a querer presépios e por isso fiz uma tiragem maior.

CM — Qual é o traço diferenciador ou identificativo do presépio deste ano?
AR …—
Não sei explicar. Só mostrando. É muito simples e eu acho que cada vez mais temos de fazer as coisas mais simples. É isso que temos de fazer na vida. Simplificar a todos os níveis para melhorar a nossa qualidade de vida, a nossa relação com a Terra, com o mundo e com as pessoas. Essa ideia da relação com a natureza não é nova, só que a gente esquece-se muito. Outros transformam-na num negócio, comos e vê agora com a reciclagem.

CM — Como artista plástico, como está a arte em Portugal?
AR –
Acho que está bem e recomenda-se. A arte sempre esteve bem mas em termos comerciais, estamos numa encruzilhada muito grande. Está tudo inventado. A questão é essa. Há artistas que ainda consegue fazer qualquer coisa que nos crie admiração ou espanto. Se calhar o talento é isso. Há tanta gente a trabalhar que é muito difícil ser-se original e as linguagens já foram quase todas experimentadas.

Neste momento, o que prevalece é um certo caos organizado, uma certa mistura de tudo, que funciona muito bem. É isso que eu estou a assistir. A minha filha, acabou Belas Artes há dois anos, e o aquilo que ela faz é um bocado o que eu sinto: a pintura no sentido mais tradicional do termo não existe. Pintar com o pincel, é uma coisa que para os jovens artistas não faz muito sentido. Está–se a criar muito a ideia de que é preciso reaproveitar aquilo que é considerado lixo, a ideia da reciclagem está muito presente na arte. Ainda bem que assim é.

Hoje faz-se a arte de quase tudo, de quase todo o tipo de materiais, e há coisas com resultados fabulosos, ideias fantásticas.
Em termos comerciais, parece-me que se está a fazer uma selecção natural. Houve um período em que toda a gente vendia, o mercado era forte e havia uma tendência muito grande para comprar arte. Acho que agora só se está a vender aquilo que é de pessoas com algum estatuto, que têm uma certa protecção do mercado.

O mercado da arte é muito complicado. É assim uma espécie de economia paralela, nãos e percebe muito bem como funciona. Em termos da cidade de Braga, é o que sempre foi.

É um grupo de compradores e são quase sempre os mesmos mais alguns amigos e família. São quase sempre as mesmas pessoas e eu acabo por concluir que é melhor trabalhar para um grupo de pessoas que aprecia e nos vai dando valor do que querer uma atitude mais abrangente e universal.

É preferível nós termos o nosso publicozinho - uma expressão que já ouvi aí — e estarmos bem com essas pessoas.
Se a gente puder dar alguns saltos lá por fora, é óptimo, até porque são desafios que por vezes nós pensamos que estamos preparados e não estamos.

Já me tem acontecido concorrer a bienais - por exemplo na Itália — e não ser aceite. Esta coisa de que a gente chega a um certo ponto e pensa que já é artista não é assim.

CM — existe algum momento mais feliz na sua carreira?
AR —
Não sei. É um bocado difícil. Não tenho trabalhos preferidos porque eu acabo de fazer uma coisa e já estou a pensar noutra, se for capaz. Há uma coisa que eu não posso negar: eu gosto de me surpreender com o meu trabalho. Se eu for capaz de fazer isso, eu acredito naquilo que estou a fazer. Ao surpreender-me a mim também vou surpreender as outras pessoas. É um bocado essa atitude que eu tenho em relação aquilo que faço.

Não posso negar que há um trabalho ou outro que eu posso achar que fui mais feliz ou resultou melhor. Isso acontece. A atitude que eu tenho é acabar uma coisa e fazer de conta que já não existe. Não gosto de remoer sobre o que está feito, pois não ando para a frente; há sempre a hipótese de encontrar defeitos. Isso vai inibir-nos.

CM — Em termos europeus, como está?
AR —
Eu não posso esquecer que vivo num mundo fechado para a arte. Eu vivo em Braga porque quero e não me posso queixar de nada. Podia ir para outro sítio qualquer mas o problema é a quantidade de gente, quando se quer ir para fora expor. Estou-me a lembrar de uma bienal que participei na Coreia.

A primeira vez que participei, concorreram quatro mil pessoas para seleccionar 150 - está a ver como isto é. Depois são todos bons e de todo o mundo, porque os prémios são fabulosos. O prestígio daquelas bienais é muito grande…

CM – Não intenção de realizar uma exposição em Braga?
AR –
É uma questão de me propor e eu aceito. Fiz uma boa exposição aquando do bi-milénio em Braga, fui artista permanente da Galeria Mário Sequeira, continuo a trabalhar para a BeloBelo.

Não estou descontextualizado da cidade, mas gostava de fazer uma coisa de grande dimensão, com várias figuras. É uma ideia que anda a ser trabalhada, com uma exposição muito próxima das pessoas, na rua, à mão das pessoas, sem elas terem aquela inibição que é dar um primeiro passo para entrar numa galeria, que muita vezes é difícil.

Percebo que haja muita gente que não entra nas galerias porque não se identifica com aquele mundo, ou que é uma coisa que está fora do seu alcance. Criou-se um bocado essa ideia que o artista está for a da nossa vida normal e do quotidiano.

É preciso desmontar isso tudo, quando as pessoas perceberem que os artistas são iguais a elas, são pessoas de carne e osso, que comem e vivem como elas, com problemas e alegrias, vai ser mais fácil.
Para já é tudo um embuste porque se cria muitas vezes uma certa imagem de que o artista é especial, de outro mundo que tem direito de dizer disparates e andar distraído. Eu não aceito isso.

CM — de bater com a cabeça nos postes…
AR –
é. Eu nunca aceitei isso. Temos que pensar, viver, sacrificar-se como as outras pessoas. Depois também há aquela ideia de que para o artista é tudo fácil, de fazer, de ganhar dinheiro. São chavões, são coisas terríveis, que não correspondem aquilo que se passa. Por exemplo, a inspiração, muitas vezes é trabalho, trabalho, trabalho. Se deixarmos de trabalhar, deixamos de evoluir.

É como um pianista. Para ser cada vez melhor pianista, tem de trabalhar todos os dias. Nós muitas vezes trabalhamos, só por trabalhar, por fazer coisas, a tentar evoluir e fazer mais e melhor. Temos que andar um bocadinho mais atentos às coisas e aos pormenores e transformar aquilo que vemos em objectos conceitos e coisas.

CM — Como define os seus trabalhos?
AR —
Eu sei reconhecer e tenho noção daquilo que fiz e sei que tenho muita estrada para andar.

CM — A simplicidade é uma das suas características?
AR —
A simplicidade não é o que é mais simples de fazer. A ideia de simplicidade é sintetizar muitas coisas pelas quais já andamos. Para fazer essa síntese é preciso andar por vários, sítios, fazer várias tentativas. Não é uma obsessão para mim, a simplicidade, mas procuro que faça parte do meu trabalho.

CM — Gosta muito do branco…
AR —
depende das épocas. Se vier cá para o ano, estou a fazer tudo preto. Não tem explicação óbvia, imediata. Há imensas variantes e factores que influenciam as nossas escolhas e por isso não sou capaz de definir o meu trabalho.

Não gosto de fazer sempre a mesma coisa, sou eclético. Não estou muito preocupado em catalogar-me. O meu trabalho é identificável. As pessoas sabem que é meu e isso já não é meu. Significa que há as pessoas chamam estilo. Já pode sastifazer-me mas há muita coisa que eu quero aprender.

Faço o melhor que posso e o melhor que sei neste momento. Não estou agarrado a modelos, a ícones, a estilos, porque surge muito do que eu sou.

O pintor pinta-se e eu sou um bocado assim, eu não escondo nada do que eu sou. Não tentei criar uma fórmula, se calhar é um erro, mas é uma opção.

Braga: da varanda para as ruas


Da varanda para as ruas


Realizar uma volta pelo Centro Histórico de Braga, à procura da melhor prenda de Natal, alimenta-nos a memória de momentos que gostávamos intermináveis.

Enquanto caminhávamos, tantas, tantas vezes nos sentimos a desamarrar daqueles seres que num momento ou outro nos elevaram o olhar para um céu que se descobriu sobre o nossos olhos mas escureceu.

Zarpamos nesse ritmo que nos fez acreditar de novo que os sonhos são apenas pedaços de realidades a construir...
Algumas vezes recordamos os passos que demos em silêncio percebendo que chegou a hora de esquecer a história que, nos tais momentos, nos pareceu tão doce, tão certa, tão nossa...

Raramente acontece mas, às vezes, sentimos que aprendemos, vivemos e chegou na hora de deixar partir ou de simplesmente largar a nossa mão de um aperto cada vez mais frio e frágil...

Por isso, palmilhamos o caminho de regresso ao som das portas e embalados pelas varandas tendo deixado no ponto onde nos encontramos connosco as saudades e as dores de mais uma história que perdeu validade...

Outrora ali voltamos, inconscientes de que a vida continuará dolorosamente injusta e arbitrária...
Rezamos, junto aos Calvários da Semana Santa, ou entramos nas Igrejas só para olhar para a multidão de Cristos crucificados e perguntar-lhes: por que me fazes isto? Todos ficaram calados.

Tivemos outras vezes em que os nossos pés, descalços, semi-calçados e calçados percorreram diversas estações num percurso que nos leva e nos traz sem nunca largarem no tal ponto coisa nenhuma.

Imediatamente,vemos que têm razão os cegos, os doentes cancerosos desenganados, os desempregados, os sem-abrigo e comida. O problema deles não se compara à minha sofreguidão de encontrar a prenda desejada...

Naquelas caminhadas que nos levam ao mesmo lugar onde recolhemos o nosso próprio corpo num abraço que magoa mais do que acalma.
Ao olharmos o céu — ou para os Cristos das nossas igrejas — na procura de uma justificação que nos ajude a enterrar o que vemos já morto, ficamos a saber aquilo que não tivemos coragem de admitir...
Olhamos, sofremos nesta tirania de não termos a capacidade de nos fazer totalmente felizes...sem esquecer os outros.

É por falta de coragem que caem sobre nós todas as dores, por cobardia que todas as ilusões que se tornaram negras, todas as vezes em que nos foi difícil largá-las...

Pedaços de nós — mesmo os melhores — continuam de pé, porque existem simplesmente pessoas a quem nos custa largar a mão, histórias que nos custa admitir que não nos pertencem, pessoas que não nos incluem, temperamentos que não nos completam...

Esses mundos que se cruzam no nosso caminho como imperfeitos, mas que ainda assim daríamos muito para partilhar...mas o nosso coração velhaco não perdoa como os Cristos dos templos.

Continuamos a exigir que os outros sejam perfeitos como os cristos das catedrais, esquecendo-nos que os outros são apenas Pessoas que nos marcaram o coração com cicatrizes fundas que abrem de cada vez em que acreditar volte a ser um erro...
A não ser que estejamos dispostos a perceber que o erro é humanidade. A não ser que o egoísmo nos afaste do prazer do erro da amizade. Nas lojas do Centro Histórico não encontrei a prenda desejada: o perdão.

Decididamente, existem simplesmente alguns carinhos difíceis de largar pelo caminho, pétalas de flores que nos recusamos a tirar do coração, mesmo quando começam a murchar...

Obstinada e teimosamente, deixamos que fiquem sobre a mesa, secas, escanzeladas até que desfaçam sozinhas com uma rajada de vento... E choramos todos os dias atormentados de as ver aos poucos morrer, sem as querer substituir... porque nos recusamos a compreender e perdoar, mesmo à mesa da Ceia de Natal. Eternamente.

Guimarães de Sá: Autodidacta mestre da leitura infantil


Foi (dia13/02) a sepultar um homem bom nascido em Braga que dedicou grande parte da vida às crianças e aos idosos, embora de forma diferente. Às primeiras incentivou a ler e aos segundos manifesto disponibilidade solidária.

Estamos a falar de um autodidacta, cujas habilitações literárias se resumiam à Instrução Primária), nascido em S. Vitor, em 1928.

Depois de oitenta anos a viver entre nós, Domingos Guimarães de Sá dirigiu desde 1965 a Secção Infantil e Juvenil da Biblioteca Pública de Braga onde criou em 1967 o pioneiríssimo Programa de Leitura Infantil e Juvenil.

O sucesso deste programa foi tal que, em 1971, foi incumbido pela Secretaria de Estado da Juventude e Desportos para estudar a possibilidade de extensão do mesmo programa a outras Bibliotecas públicas e municipais.

Este homem com apenas a instrução primaria viu o seu programa aprovado em 1972 e posto em prática nos anos de 1973, 1974 e 1979, nas Bibliotecas Públicas de Aveiro, Gaia e Famalicão.

Mas a sua acção em prol da leitura infantil prosseguiu com a resposta a um pedido da Embaixada de Portugal em Caracas, para elaborar um Catálogo de Literatura Infantil de Autores Portugueses.

Em 1972, com apoio da Fundação Calouste Gulbenkian, criou a Biblioteca Infantil e Juvenil, no Patronato de Nossa Senhora da Torre, em Braga. A sua cruzada pela leitura a partir da infância estava imparável em vários organismos regionais, acompanhada de palestras e artigos em jornais e revistas, culminando em 1979 com a criação, na Biblioteca Pública de Braga, da Sala de Leitura para crianças e jovens.

Além dos seus catálogos de Literatura Infantil, com duas edições, Guimarães de Sá deixou-nos outros livros sobre a literatura infantil, a promoção do livro e incentivo à leitura, entre os quais destacamos a sua última obra “À Demanda do Leitor”, publicada há 14 anos.

Reformado destas funções públicas, Guimarães de Sá dedicou os seus dias e as suas energias a várias instituições de solidariedade social de Braga.

Com a sua morte, Braga perde um dos combatentes da leitura, cuja luta apaixonada ao longo da vida possui hoje uma actualidade desconcertante.

Desalinhado de sistemas e de grupos dominantes na política e na cultura, o nome deste bracarense merece ser perpetuado por aqueles a quem foi confiado o Governo da cidade que ele fez pioneira da leitura e do livro infantis por sua iniciativa e dedicação.

Guimarães de Sá:Autodidacta mestre da leitura infantil

COSTA GUIMARÃES

Foi (dia13/02) a sepultar um homem bom nascido em Braga que dedicou grande parte da vida às crianças e aos idosos, embora de forma diferente. Às primeiras incentivou a ler e aos segundos manifesto disponibilidade solidária.

Estamos a falar de um autodidacta, cujas habilitações literárias se resumiam à Instrução Primária), nascido em S. Vitor, em 1928.

Depois de oitenta anos a viver entre nós, Domingos Guimarães de Sá dirigiu desde 1965 a Secção Infantil e Juvenil da Biblioteca Pública de Braga onde criou em 1967 o pioneiríssimo Programa de Leitura Infantil e Juvenil.

O sucesso deste programa foi tal que, em 1971, foi incumbido pela Secretaria de Estado da Juventude e Desportos para estudar a possibilidade de extensão do mesmo programa a outras Bibliotecas públicas e municipais.

Este homem com apenas a instrução primaria viu o seu programa aprovado em 1972 e posto em prática nos anos de 1973, 1974 e 1979, nas Bibliotecas Públicas de Aveiro, Gaia e Famalicão.

Mas a sua acção em prol da leitura infantil prosseguiu com a resposta a um pedido da Embaixada de Portugal em Caracas, para elaborar um Catálogo de Literatura Infantil de Autores Portugueses.

Em 1972, com apoio da Fundação Calouste Gulbenkian, criou a Biblioteca Infantil e Juvenil, no Patronato de Nossa Senhora da Torre, em Braga. A sua cruzada pela leitura a partir da infância estava imparável em vários organismos regionais, acompanhada de palestras e artigos em jornais e revistas, culminando em 1979 com a criação, na Biblioteca Pública de Braga, da Sala de Leitura para crianças e jovens.

Além dos seus catálogos de Literatura Infantil, com duas edições, Guimarães de Sá deixou-nos outros livros sobre a literatura infantil, a promoção do livro e incentivo à leitura, entre os quais destacamos a sua última obra “À Demanda do Leitor”, publicada há 14 anos.

Reformado destas funções públicas, Guimarães de Sá dedicou os seus dias e as suas energias a várias instituições de solidariedade social de Braga.

Com a sua morte, Braga perde um dos combatentes da leitura, cuja luta apaixonada ao longo da vida possui hoje uma actualidade desconcertante.

Desalinhado de sistemas e de grupos dominantes na política e na cultura, o nome deste bracarense merece ser perpetuado por aqueles a quem foi confiado o Governo da cidade que ele fez pioneira da leitura e do livro infantis por sua iniciativa e dedicação.

Eduardo Melo Peixoto: letras e sons da vida reflectidos nos "Ecos"




Certamente, o leitor já ouviu sua voz voltar de um penhasco ou contraforte, de um edifício alto ou de uma montanha íngreme, formando um eco?
Ouve-se o eco porque o som bate e volta como acontece a uma bola de borracha que batemos contra e volta de uma parede ao nosso encontro.

O eco também é semelhante a um raio de luz reflectido num espelho.
Um eco é um som reflectido.

Só ouvimos os ecos como sons isolados quando eles nos atingem um décimo de segundo ou mais depois do som original.
Esse é o tempo necessário para o ouvido humano separar um som do outro.
Se o leitor quiser ouvir o seu eco deve ficar pelo menos a 17 metros de distância da parede reflectora.
Se o leitor gritar diante de um penhasco a 17 metros, o som caminhará 17 metros até o penhasco e mais 17 de volta para si, numa distância total de 34 metros.

Porquê 34 metros?
Porque o som tem a velocidade de 340 metros por segundo, e tem de percorrer essa distância em um décimo de segundo. O eco chega ao seu ouvido um décimo de segundo depois do leitor ouvir a sua voz original.

Mas há ecos e ecos.
Um eco pode provocar séria interferência na audição, principalmente num ginásio grande ou num auditório. Os ecos cobrem as palavras de quem fala, causando confusão. Pode-se superar esse problema usando material amortecedor de som para as paredes, tectos e chão.

Mas não é desses ecos que estamos a falar ou estamos a escrever – perdão, quem escreveu foi Monsenhor Eduardo Melo Peixoto.

Para não criarem confusão foram colocados em letra impressa no jornal Correio do Minho, a cada Domingo que passava. Na Rádio Antena Minho, as manhãs de Domingo também acolheram estes ecos diferentes porque eram “ecos da vida”.
Porquê em livro, se já foram transcritos num jornal e ouvidos numa rádio, ainda por cima neste tempo das novas tecnologias? Podiam ser colocados num blogue, na Internet... dirão alguns.

Não há como um livro, como afirma o insuspeito fundador da Microsoft. Escreve ele que “os meus filhos terão computadores, sim, mas antes terão livros. Sem livros, sem leitura, os nossos filhos serão incapazes de escrever - inclusive a sua própria história”.

Explicado o que é um eco e justificada a necessidade de um livro sobre ecos, é tempo de definirmos que este livro inclui ECOS da Vida.

O que é a vida?

Desculpem meus senhores – leitores e autor dos ‘Ecos da Vida’ – mas eu entendo a vida como uma viagem de comboio. Estou a fazer uma escolha inconveniente mas ecológica, além de ser uma comparação extremamente interessante, quando bem interpretada.

Em anterior edição deste livro, o eng. Abílio da Cunha Vilaça dava-nos o mote para estas reflexões, quando escreveu que “Os Ecos da Vida traduzem vivências, reflexões, pensamentos, sempre numa atitude de alerta, e de despertar o sentido crítico de quem está nesta vida, não apenas para ver “passar os comboios”, mas que actua e faz actuar os que estão à sua volta” (1)
Interessante, porque nossa vida é como uma viagem de comboio, cheia de embarques e desembarques, de pequenos acidentes pelo caminho, de surpresas agradáveis com alguns embarques e de tristezas com os desembarques.



Quando nascemos — ao embarcarmos neste comboio, encontramos duas pessoas que, acreditamos que farão connosco o percurso até o fim: os nossos pais.

É verdade mental mas não real. Infelizmente, num qualquer apeadeiro, eles desembarcam, deixando-nos órfãos do seu carinho, dedicação, mimos, protecção e amor. Ficamos sem a rectaguarda protectora, mas isso não impede que a viagem prossiga. Assistimos ao embarque de pessoas interessantes que vão ser especiais para nós: irmãos, professores, patrões, companheiros, colegas, camaradas, amigos e amores.

Muitas pessoas entram neste comboio para passear. Outras viajam para esquecer as tristezas da vida. Há outras pessoas que vagueiam de carruagem em carruagem abertas a ajudar quem precisa.

Alguns passageiros que nos são tão caros acomodam-se em vagões diferentes do nosso. Isso obriga-nos a fazer essa viagem separados deles, quantas vezes durante anos, sem nos vermos, falarmos, amarmos. Com maior ou menor dificuldade, a vida faz com abandonemos o nosso vagão e consigamos chegar até eles. Afinal, eles eram o melhor pedaço de nós.

Às vezes é difícil aceitarmos que não podemos sentar ao seu lado, pois outra pessoa está a ocupar esse lugar. Essa viagem da vida é assim: cheia de atropelos, sonhos, fantasias, desilusões, traições, derrotas, triunfos, esperas, embarques e desembarques.

Uma coisa é certa: este comboio não volta ao início da viagem. Por isso, só nos resta uma alternativa: fazer esta viagem da melhor maneira possível, tentando manter um bom relacionamento com todos, procurando em cada um o que tem de melhor, lembrando sempre que, em algum momento do trajecto podem fraquejar. Nós mesmos fraquejamos algumas vezes e queremos que algum passageiro nos entenda.

O grande mistério desta viagem de comboio é que não sabemos em que apeadeiro descemos do vagão da vida.
Acresce que, quando chegar o apeadeiro da saída, vai ser dramático deixar os filhos a viajar sozinhos, separar-me dos amigos que nele fiz, e arrancar-me do amor da minha vida.

Resta a esperança de chegar estação principal, onde sentiremos o agradável arrepio de prazer em ver os pais, irmãos, professores, patrões, companheiros, colegas, camaradas, amigos e amores, todos com a bagagem, que não tinham quando embarcaram.

Em que é que esta história contribui para a felicidade dos leitores. Em nada, porque o que nos deixa felizes é saber que de alguma forma, eu colaborei para que essa bagagem tenha crescido e se tornado valiosa.

Ora, este é o objectivo de Monsenhor Eduardo Melo Peixoto quando decidiu publicar em livro as crónicas “Ecos da Vida” – que escreveu para o jornal Correio do Minho e leu na Rádio Antena Minho. Contribuir para que cada leitor cresça e tenha uma vida mais valiosa para os seus pais, irmãos, professores, patrões, companheiros, colegas, camaradas, amigos e amores.

Desta forma, Monsenhor Eduardo Melo Peixoto aponta-nos uma nova maneira de encarar o desembarque final na viagem da vida. A última estação não é a representação da morte, mas é sobretudo o clímax de uma história, de uma vida que duas ou mais pessoas construíram porque tiveram sempre a coragem de reconstruir para recomeçar.

“Ecos da Vida” acompanha-nos nesta viagem e cada crónica é um símbolo de garra e de luta, um vagão de sabedoria da vida, uma carruagem que frequentamos e nos ensina a tirar o melhor de "todos os passageiros".
“Ecos da vida” é uma dupla delícia porque traz a vantagem da gente poder estar só e ao mesmo tempo acompanhado nesta viagem de comboio.

Monsenhor Eduardo Melo aproveita, de forma simples, directa, afirmativa e acessível a todos – como um bom jornalista! - pedaços da vida para extrair deles valores que podem ecoar como lições na vida de quem lê.
Os textos das crónicas são curtos, adequados a um excelente livro de cabeceira que funciona como exame de consciência de um dia que passamos na carruagem da vida ou programa de vida até ao apeadeiro do dia seguinte.

“Ecos da Vida cumpre os requisitos de um livro, traçados pelo nosso padre António Vieira - é um mudo que fala, um surdo que responde, um cego que guia, um morto que vive – mas também é a prova de que os homens são capazes de fazer magia.
Como director do jornal Correio do Minho, ao tempo em que Monsenhor Eduardo Melo Peixoto escreveu estes textos, agradeço a honra de o termos tido connosco ao longo de largas dezenas de semanas.

Termino com uma provocação aos leitores: o verdadeiro cavalheiro compra sempre três exemplares de cada livro — um para ler, outro para guardar na estante e o último para dar de presente.

“Ecos da vida” é um bom companheiro de viagem.

(1) PEIXOTO, EDUARDO MELO, Ecos da Vida, Ed. Irmandade de São Bento da Porta Aberta, Terras de Bouro, 2005, p. 15