Saturday, March 29, 2008

Braga: Albano Belino dissipa dúvidas em S. Gregório?


Pertence a um grande historiador bracarense, Albano Belino, foi publicado em 1895, pela Typographia Occidental, Porto. As páginas 164 a 166 de “Inscrições e Letreiros” lançam alguma luz sobre a polémica que recentemente tem envolvido o logradouro da Capela de S. Gregório, onde hoje se realiza a festa em honra do patrono do coração.

Sem comentários, limitamo-nos apenas a transcrever o que ali se pode ler. adaptando apenas as palavras na grafia de hoje.
“Dentro da área paroquial de Maximinos, e no arrabalde da cidade, levanta-se um pequeno monte coroado por alvejante capelinha com a denominação de S. Gregório Magno. Agradeço a quem me fez chegar tão importante documento que pode ajudar a pacificar a comunidade maximinense quanto à polémica da propriedade do logradouro envolvente da Capela de S. Gregório.

Do planalto em que nela assenta, goza-se uma excelente vista em todas as direcções.
Ali se faz anualmente uma romaria muito concorrida.
É de supor que a primitiva capela datasse de tempos muito remotos. Não nos foi, porém, possível encontrar documentos anteriores ao ano de 1669.

Em 1755 reconstruiu-se; e a madeira velha foi vendida (dois carros) por 960 reis, a Manuel Correia, da Cruz de Pedra (extremo da cidade).

Oito anos depois, concluiu-se a pintura e douramento.

A capela tem na frente algumas oliveiras e já em 1764 as havia; pois nesse ano produziram quatro alqueires de azeitonas (n.r.; entre 50 a 60 quilos), que se venderam por 380 reis.
Na primeira página dos Estatutos, aprovados pelo Arcebispo D. Rodrigo de Moura Telles, em 1723, diz-se entre outras coisas:
“Tendo pois este bem-aventurado Santo tantos templos, quantos são os corações de seus devotos, de quem ele desterra as agonias, como o Zafiro do céu as núvens, para respirar a vida sem estorvos, só uma única capela tem ao presente neste Reino, que fora dos muros desta cidade se ergue num monte, etc.”

Neste ano era juiz da Confraria o cónego Estêvão Falcão Cotta, signatário do seguinte documento, que vimos, com data de 3 de Janeiro:

Visto o pedido da ilustre mesa do milagroso Dr. da Igreja S. Gregório Magno, hei por bem ceder o terreno em circunferência da capela servindo de marcação a cruz da confraria onde principiam os clamores e além desta marcação mais uma vara (n.r. 1,1 metro linear) em volta por fora da cruz em terreno que pertence ao montado da quinta do falcão, com a condição de todo o mato do terreno que dou para veneração do mesmo milagroso santo; o mato será roçado pelos meus caseiros e de futuro para precisões (necessidades) da quinta; com toda a devoção mandamos passar este documento que para glória do mesmo milagroso Santo vamos assinar mandado por mim”.

Ao lado norte da Capela, ergue-se um singelo cruzeiro (entre outros que da cidade levaram para ali), tendo na base o seguinte: FOI FEITO A CUSTA DA CONFRA(ria) DE S. GR(egori)o NO ANNO DE 1752.

A Mesa de 1738 pôs termo ao antigo costume de se alugar o sino da capela por 240 reis para os louvores de Deus em solenidades estranhas, e fora dela.

Monday, March 24, 2008

Páscoa na Cónega: o regresso da vida à Boavista



É uma tradição muito especial, a celebração da Páscoa na Cónega ou Boavista, amanhã, com dois pólos que marcam o passado e o presente da comunidade: a Sé e a capela do Senhor das Ânsias.

O Padre Manuel Joaquim, Pároco da Sé, vive esta festa pelo segundo ano consecutivo, desde que serve esta paróquia, assemelha a Páscoa à vida humana. A Páscoa, destaca, como a palavra o diz é uma passagem. A nossa vida humana está caracterizada por isso mesmo é também uma “passagem, mais depressa ou mais devagar, o que é certo é que passa”.

A chuva ainda tentou ameaçar o Compasso Pascal na Rua da Boavista, mas conteve-se para deixar cumprir uma tradição que tem resistido a muitas tempestades.

Nos últimos anos, os moradores da Cónega- como é vulgarmente conhecida a Rua da Boavista- tem lutado para manter viva esta tradição singular que tem atravessado gerações.

Ontem, uma vez mais, as quatro cruzes desceram da Sé até à Cónega onde eram esperadas por centenas de pessoas.
Este ano, os mordomos da festa Pascal foram os elementos da família Paulino Araújo, herdeiros da mais que centenária Ourivesaria e Relojoaria Queirós.

Moradores, familiares, amigos e muitos turistas, que nesta altura ainda permanecem na cidade dos Arcebispos, concentram-se à entrada da rua para lhes dar as boas-vindas. A acompanhar o compasso, e como já vem sendo habitual, estava a a celebrada banda camiliana de Calvos — Póvoa de Lanhoso — que todos o anos integra e anima estas festas.

As varandas estavam engalanadas com colchas de vários tons, um costume muito antigo demonstrativo de acolhimento.Os passeios, cobertos de flores indicavam as habitações que querem receber ‘Cristo Ressuscitado’. Os seus interiores, repletos de gente, denotam também a alegria que todos os anos se vive nesta segunda-feira de Páscoa.


Outro momento marcante nestas festas, é a recolha das quatro cruzes, baptizada como ‘Queremos Deus’, no qual se juntam centenas de pessoas em procissão até à Sé de Braga.

A festa popular começou sábado, com a tradicional sessão de fogo de artifício e a Queima do Judas. Segui-ram-se as actuações de vá-rios grupos de cultura popular. Como é já habitual, a comissão de festas procurou colocar em cartaz grupos e associações culturais da localidade, como é o caso do Grupo de Cordas da Associação ‘Ida e Volta’ e o grupo de Gaitas da Equipa Espiral e a Grupo de Música Popular ‘Cantares da Terra’.

Em entrevista ao programa “Sinais” — a religião é notícia" da rádio Antena Minho, o Padre Manuel Joaquim sustentou que a “Páscoa é uma marca, para nós cristãos, e esta passagem significa aquela evolução, crescimento e progresso que somos chamados a fazer, do mal ao bem, da morte à vida."

A grande mensagem que deixa aos seus paroquianos, é a de que “acreditemos mais uns nos outros, nós somos os proclamadores, na paz e no bem, desta fé na Ressurreição.



“Gostava que uma equipa
de jovens liderasse a comissão”


Manuel Gonçalves preside à Comissão de Festas há mais de 30 anos. Apesar das dificuldades, conseguiu manter viva esta tradição pascal. Mas teme pela sua continuidade.

“Tem sido bastante difícil para arranjar os meios para que possamos fazer a festa. Tem sido um quebra-cabeças muito grande”.
Para além do subsídio atribuído pela Câmara Municipal de Braga, o orçamento desta festa é sustentado pelos apoios dados pela Junta de Freguesia da Sé, pelos próprios moradores da Rua da Boavista e os mordomos.

Para além dos incentivos materiais, Manuel Gonçalves refere que era necessário “uma equipa de jovens que pegasse nisto e que desse continuidade a esta tradição”. O responsável diz que as camadas mais jovens “habituaram-se um pouco a que as coisas apareçam feitas. Esta comissão já tem muitos anos e convencem-se de que as coisas aprecem sempre feitas”.

Manuel Gonçalves, o grande responsável, todos os anos por esta festa, traça-nos as linhas gerais do programa que domingo conheceu uma vertente popular, com a subida ao pau do bacalhau, às 21 horas, seguindo-se a actuação de quatro grupos de música popular tradicional e uma sessão de fogo de artifício, pelas 24 horas.

Hoje, o dia principal, as cruzes sairam às 9 horas da Sé, em direcção à Capela do Senhor das Ânsias, onde foi celebrada a Eucaristia e no fim da qual se inicia o compasso. A recolha das cruzes, pelas 20,30 horas foi outro momento sublime do dia, num percurso festivo até à Sé de Braga.

Manuel Gonçalves encontra na desertificação da rua da Boavista as dificuldades crescentes para “compor a rua como era há 30 anos atrás” e dar à festa o colorido que ela então possuía.

Têxtil só confecciona salários baixos?


As gentes do Minho esperam que a presença do primeiro-ministro, em Famalicão, signifique o primeiro passo de um futuro de sucesso para a industrial têxtil dos vales do Ave e Cavado.

Os trabalhadores do Minho esperam que os empresários saibam e queiram estar à altura dos objectivos inscritos no plano estratégico do têxtil até 2013.

Uma das principais ideias do Plano estratégico dos têxteis consiste na criação de um esforço comum entre Portugal e a Galiza, aproveitando as sinergias e complementaridade da moda e da tradição do têxtil das duas regiões".

Trata-se de responder á necessidade de adaptar a indústria têxtil aos novos desafios da globalização e à crescente concorrência dos países como a China e a Índia.

O sucesso deste programa reside na capacidade de cada empresa adaptar este plano às suas necessidades e à sua realidade em concreto, seguindo uma estratégia individualizada.

Ao fim de vários anos de redução acentuada de mão-de-obra, o sector têxtil dá sinais de alguma recuperação, traduzidos no crescimento de quatro por cento nas exportações, ganhando quotas de mercado em países como Espanha, Alemanha, Brasil e China.

Estes resultados de 2007 provam que houve no sector um aumento da produtividade e um maior valor acrescentado na produção assente nos mais baixos salários entre as indústrias transformadoras em Portugal.

Ora, este não é o caminho de amanhã, porque salários baixos tem outras economias que nos estão a fazer frente.
O caminho de amanhã deve assentar na inovação, no aumento da mais valia dos produtos, na internacionalização e na valorização dos recursos humanos.

Não há valorização dos recursos humanos sem maior investimento neles, sem valorizar melhor o seu trabalho.

É um desafio que se apresenta aos empresários: a par da renovação de quadros, há que continuar a investir mais em marketing, na investigação para o desenvolvimento de novos produtos.

Os empresários têxteis não devem ter medo da Universidade e esta não se deve fechar numa redoma de marfim que a conduz ao fracasso de uma nação.

Esse desafio não se pode exigir ao Estado. As empresas têxteis não podem continuar associadas aos salários mais baixos e as universidades não podem continuar a ser fábricas de calhamaços de teorias sem investigação aplicada.

D. António Ribeiro, 10 anos depois



Há precisamente dez anos, a morte desta minhoto “veio roubar à Igreja em Portugal uma das suas figuras mais carismáticas nestas três últimas décadas do século XX” .
Após prolongado sofrimento, no dia 24 de Março de 1998, faleceu, em Lisboa, D. António Ribeiro, este homem nascido em S. Clemente de Basto, na diocese de Braga.

Depois de frequentar os seminários de Braga foi ordenado em Julho de 1953. O arcebispo de Braga, D. António Bento Martins Júnior, manda-o estudar para Roma onde se doutorou sob inspiração de S. Tomás de Aquino.

Depois de uma séria formação humanística, filosófica e teológica, cedo foi lançado para a ribalta da Comunicação Social. De 1959 a 1964 apresenta, aos sábados, na RTP, o programa «Encruzilhadas da Vida», em que debate temas de actualidade, sugeridos pelos próprios telespectadores.

Nos três anos seguintes é o rosto do programa televisivo, «Dia do Senhor» onde demonstra todas as qualidades de comunicador, aliadas a apurado sentido crítico e rara capacidade de leitura cristã dos acontecimentos.

Quantos rituais são celebrados pelos cristãos sem saberem porquê. Se soubessem um pouco mais, saboreavam-nos melhor.

Para além de trabalhar na área da Comunicação Social, o futuro patriarca foi assistente nacional da Liga Universitária Católica e das associações de médicos, farmacêuticos, juristas, engenheiros e professores.

Aos 39 anos, a Igreja escolhe-o para suceder, na diocese moçambicana da Beira, ao carismático D. Sebastião Soares de Resende. Era uma tarefa difícil, mas Deus voltou a escrever direito por linhas tortas.

O regime fascista impediu que o novo bispo fosse para Moçambique, sendo nomeado auxiliar de Braga, em Setembro de 1967.

Oriundo da montanha, via o mundo a partir de cima e usava uma técnica jornalística requintada: o que podia dizer numa frase não gastava um discurso, e se fosse suficiente o gesto, não usava palavras.

Era um homem solene como uma catedral e simples como uma capela de aldeia.

«EX FIDE IN FIDEM» — Da fé na Fé — era a sua divisa de uma flagrante actualidade e necessidade: exprime a vontade de ajudar o Povo de Deus a crescer na fé, em ordem a um cristianismo cada vez mais consciente e adulto.

A festa da Paz(coa)



Os povos de Cristelo Côvo, em Valença, e de Sobrado, na Galiza, atravessam hoje o rio Minho, de barco, para dar a beijar a cruz na outra margem do rio.

A meio da tarde, o pároco de Cristelo Covo embarca até à outra margem, levando a cruz a beijar à população de Sobrado; depois a viagem é retribuída pelo pároco da aldeia galega, que cumpre idêntico ritual em solo português.

Os povos das duas margens acabam por se reunir em Cristelo Côvo, transformando o compasso pascal num arraial improvisado.

O rio enche-se de pequenas embarcações e na margem portuguesa os bombos misturam-se com as gaitas de foles e os viras com as "muinheiras", numa pura romaria luso-galaica.

Enquanto dura o "intercâmbio" de cruzes, os pescadores lançam as redes benzidas ao rio, e todo o peixe recolhido é entregue ao pároco português.

O "Lanço da Cruz" é o ponto alto dos tradicionais festejos em honra da Senhora da Cabeça, que decorrem em Cristelo Côvo amanhã.

Do programa da festa, destaca-se a missa para os galegos, celebrada em galego pelo pároco de Sobrado, na Capela da Senhora da Cabeça, a que se segue outra missa, mas desta vez em português.

Os peregrinos comem, depois, as suas merendas nas sombras do parque de Nossa Senhora da Cabeça, mandando a tradição que o farnel seja constituído sobretudo pelo que sobrou do carneiro da Páscoa.

Encontramos nesta festa um conjunto de sinais que nos despertam para uma forma de vida diferente: o dialogo entre os povos, com as suas melodias da sua alma espiritual através de línguas diferentes que anulam as barreiras das fronteiras que dividem e constroem a união.

A partilha do resultado do nosso trabalho abençoado, seja a pesca seja a festa, entre povos de aldeias diferentes com almas diversas é outra das lições destas duas terras de países diferentes.

Tudo isto para concluir mais uma vez que a festa da páscoa é a celebração da paz.

Cristo ressuscitado, quando aparece pela primeira vez aos seus apóstolos, ainda atônitos e desconsolados com a morte na Cruz, não se apresenta como o que está Vivo, mas saúda-os: a Paz esteja convosco.

A vida sem paz, dentro e fora de nós, não é Páscoa. Ao ressuscitar, Cristo torna-se assim a fonte de onde brota a verdadeira paz.

Wednesday, March 19, 2008

Braga: o alfaiate que lanchou com Oliveira Salazar




É um dos fundadores da sociedade constituída por dezenas de bracarenses que criou o antigo Nosso Café – como protesto contra o seu aumento - mas bem pode ser definido como o “alfaiate que lanchou com Oliveira Salazar”.

Dessa sociedade apenas resta ele e o “Paulo das Louças” e no seu atelier, à sombra da Capela da Lapa, na Arcada, guarda ainda uma velha fotografia encaixilhada, com todos os que se revoltaram contra o aumento do preço do café e fundaram aquela sociedade que há-de gerir aquela casa, na Avenida da Liberdade, até ao fim do século XX.

A sua arte de alfaiataria – masculina e feminina - foi conhecida por António Oliveira Salazar, uma vez que teve o privilégio de lanchar com ele, na casa do Comendador Nogueira da Silva, quando foi levar um dos seus trabalhos a casa deste cliente ilustre da Alfaiataria Oliveira, constituída pelos irmãos Alfredo e Geraldo, após a morte do pai.

Estamos a falar do Geraldo (Pereira de Oliveira) do alto dos seus 85 anos, “feitos em Setembro”, que herdou a arte do corte e costura de seu avô, Baltazar, que tinha uma alfaiataria onde hoje é a Loja Singer, frente à Brasileira, e do pai, Manuel Maria, cuja alfaiataria era no sítio onde depois foi construído o actual Posto de Turismo de Braga, há cerca de 75 anos.

Comecei a trabalhar aos sete anos, quando andava na escola, nos tempos livres e depois tirei o curso de tecelão debuxador, na Escola Industrial de Braga” – diz o nosso interlocutor.

Aprendia nuns teares, os primeiros que foram adquiridos por Jorge Segismundo para a Escola Industrial que funcionava na Cangosta da Palha.

Depois, ainda tirou um curso de corte por correspondência cujo exame final foi em Lisboa.

São esses tempos da juventude que recorda com nostalgia em que frequentava os salões de baile para dançar o tango, aos domingos de tarde, com as “cinco coroas” que o pai lhe dava e onde conheceu a sua “cara-metade” e mãe dos seus quatro filhos.

“Sempre a trabalhar enquanto estudava, porque nunca fiz outra coisa”, estabelece-se com o irmão e funda a Alfaiataria Oliveira. Quando casou foi morar para Nogueiró, até conhecer Mons. Manuel Vaz Coutinho, capelão da Lapa e administrador do Diário do Minho, “que era meu cliente e me trouxe para aqui”.



Para trás ficava a sociedade com “meu irmão, na Rua de S. Marcos, onde hoje é o Café da Olguinha” e depois de 1971, na Avenida da Liberdade, por cima do Fernando Simão.

Quando estalou a Revolução do 25 de Abril, a Alfaiataria Oliveira tinha 15 trabalhadores, com loja de fazendas e clientes que vinham de todo o Minho. Ali funcionou até 1988, quando a sociedade acabou por causa da diminuição de clientes.

Geraldo Oliveira tem quatro filhos, dois engenheiros (Francisco e a Ernestina) e dois professores Adelino e a Maria da Conceição), que lhe deram, para já, nove netos, uma já licenciada em Engenharia e outro a seguir a carreira musical com sucesso.

Das suas memórias guarda um lanche com António Oliveira Salazar: “uma vez fui a casa do Nogueira da Silva, que era meu cliente, estava lá o Salazar e lanchei com ele”. Outro dos meus cientes era o “prof. Machado Vilela, de Barbudo, Vila Verde, outro era o Teotónio Santos, e muitos outros ilustres de Montalegre, Vieira do Minho e Braga”.

Cliente do senhor Gerado era o Almitrante Cayres Braga, de Tebosa. A esposa era sobrinha do Sidónio Pais e "um dia fui a casa dele e estava lá o Rosa Coutinho a lanchar”.

Apesar destes conhecimentos, com políticos nacionais e locais, diz-nos com segurança: “não ligo ao futebol nem à política. Não prendo a cabeça com isso”.

Enquanto folheia os livros onde se podem encontrar todos os conselhos, boas práticas, medidas e cálculos para qualquer que seja a encomenda de vestuário masculino e feminino, o nosso artista reconhece que “ainda tenho clientes fiéis mas não dá para viver”.

No entanto, não tem dúvidas em afirmar que “hoje se veste pior embora ainda haja alguns bons alfaiates em Braga como o Gaspar, o Cunha e o Carneiro da Rua Nova, mas o trabalho é muito pouco”.

Numa sala, rodeado de estantes com fazendas, Geraldo Oliveira dá-nos algumas razões que ajudam a explicar o declínio da arte de alfaiate: “olhe, há uns anos, havia três armazéns de fazendas em Braga. Eram o Oliveira, o Sousa & Maia e o Lopes dos Reis, e agora não há nenhum. Eles vendiam muito, eram muito fortes, tão fortes que chegavam às tecelagens e exigiam desenhos exclusivos e tudo isso acabou”.

Depois levanta-se e mostra-nos algumas das excelentes fazendas do catálogo da Scabal e dos armazéns ingleses da Harris Tweed. São fazendas de “grande categoria mas um fato custa aí uns 55 contos, em nota antiga. Quem é que está para mandar fazer um fato se compra dois ou três no pronto-a-vestir pelo mesmo dinheiro”?

Há por aí “fatos a dez contos, é tudo colado, é feito em série e sem inter-telas” mas é o que as pessoas compram.
É pena que estas artes acabem, mas o que se passa connosco está a acontecer com as costureiras. As casas estão a fechar”.
Enquanto as artes se perdem, os artistas vão se alimentando de memórias, das fardas que faziam para a Segurança Social, para os contínuos dos bancos ou para os motoristas dos grandes senhores da cidade.

O nosso interlocutor executa todos os trabalhos para senhora, desde os casacos, saias e calças a outras peças, com sucesso.

Ainda há alguns tempos, recorda com orgulho, “fiz um casaco para uma senhora de Viana do Castelo, de acordo com o figurino que ela escolheu. Levou-o ao Brasil e quando veio, o seu marido telefonou-me a dar os parabéns e a dizer: “olhe, você é um doutor. No Brasil, toda a gente perguntava onde comprámos o casaco”.

Brincalhão, Geraldo Oliveira conta que um dia fez um fato de cerimónia – um fraque – para um bracarense nomeado deputado na Assembleia Nacional. No regresso da sessão plenária, o deputado veio dar um abraço ao “nosso” alfaiate e dizer-lhe: “olhe que o Salazar não tirava os olhos do meu fraque”.

Na sua humildade, como são os grandes criadores, minimizou o elogio do seu ciente – “O Salazar lá ia estar a olhar para o fraque dele...”





A revolta
da Velha
Brasileira


Não podíamos deixar escapar a oportunidade de recordar as origens de “O Nosso café”, construído num edifício que ainda hoje é um belo exemplar da arquitectura civil na Avenida da Liberdade.

Alguns anos após a segunda Grande Guerra, os clientes de “A Brasileira Velha”, do sr. Queirós, foram confrontados com um aumento do preço do café. Os clientes, liderados por Gil Macedo decidiram alugar a “Auto-Palace”, do grande piloto de Fórmula Um, Vasco Sameiro, fizeram obras e abriram um café com um espaço destinado a jogos de bilhar e de snooker.

Os fundadores “tinham acções de cem escudos cada um; eu tinha dez e o meu pai tinha outras dez. Éramos uns vinte e tal até que o solicitador Armandino Oliveira foi comprando as acções a um, depois a outro e por aí fora até concentrar as acções todas em si e vendeu o Nosso Café aos seus novos proprietários”.

Geraldo Oliveira recorda os tempos em que a Avenida da Liberdade começava a ser rasgada na antiga rua da Água onde existiam as Pensões Comercial e do Lage (pai do António Lage presidente da unta de S. Lázaro após o 25 de Abril que morreu há algumas semanas e afamada por ser um dos poucos sítios onde se comiam umas belas enguias).

Do pós-25 de Abril não esquece a nacionalização da Viação Auto-Motora, do Marinho. “Ia a passar na Avenida da Liberdade e vi muitos militares dentro da garagem. Um Capitão subiu para um palanque e anunciou aos trabalhadores que a empresa passava a ser do Estado”. Era o fim de uma das grandes empresas de Braga.

Casa Cabeça Negra: loja com sala, cozinha e WC em Braga





É inovadora na distribuição dos espaços, é moderna nos produtos que oferece e é multifacetada nos eventos que organiza: eis a Casa Cabeça Negra. Foi buscar a um nome antigo a autenticidade e a tradição. O projecto é fruto do desejo de empreendedorismo de uma jovem licenciada em Psicologia, especializada em Direcção Comercial e Vendas.

“Queremos e estamos a conseguir ultrapassar o conceito meramente comercial, criando um espaço onde as pessoas se sintam bem” — diz-nos Nádia Dória Ribeiro, referindo os primeiros quatro meses de actividade “assentes na qualidade e na diferença”.

Sabendo que “é difícil contrariar a tendência para as grandes superfícies comerciais”, esta jovem empresária aposta em iniciativas inovadoras, paredes meias com a saída do Bragashopping, pela rua de Santo André. O cliente “pode deliciar-se provando novos sabores da selecção gourmet da cozinha, experimentar a roupa e acessórios de moda de criadores nacionais e estrangeiros e deliciar-se com os cheiros e texturas suaves dos sabonetes e produtos de banho”.

“Sempre tive um gosto pessoal pelo mundo das artes e da moda” — lembra Nádia ao justificar este investimento nascido após dois anos em que andou “a adiar o inadiável, até que encontrei este espaço e me apaixonei por ele”.

Atendendo à conjuntura económica, estamos perante uma atitude corajosa, em que Nádia tem contado com a preciosa ajuda da irmã — Raquel Dória, finalista do curso de Design em Aveiro.

Nádia Dória lançou-se de alma e coração num conceito novo de loja que “tem uma vertente cultural e artística associada ao comércio” e confessa agora que “tem valido a pena, é sempre bom quando trabalhamos num projecto nosso”.

A designação da loja, enriquecida com jardim interior — situada na Rua de Santo André, 93, bem junto à Praça dominada pela estátua a D. Pedro V — remonta ao avô que se dedicava ao comércio de ferragens, num estabelecimento de renome na cidade de Braga, fundado em 1898, no Campo da Vinha.

Do antigo livro de facturas foi recuperado o logótipo, concebido pela irmã, Raquel Dória, responsável pela concepção gráfica e fotográfica deste projecto “onde pontifica o atendimento personalizado próprio do comércio tradicional, mas com carácter de modernidade”



Hoje, a Casa Cabeça Negra é, simbolicamente, “uma casa privada de portas abertas ao público” — prossegue Nádia Dória Ribeiro, que se lançou neste empreendimento em Novembro passado e não parece arrependida. A aposta mais significativa é na moda e acessórios de autor, vocacionados para uma “mulher jovem, elegante e feminina”, que procura exclusividade a preços acessíveis.

A resposta a este desafio foi a escolha de marcas de designers londrinos, cujo estilo inconfundível se harmoniza com o “ambiente cosy e trendy da loja, onde cada peça é exposta como um objecto de arte”. Esta é a estratégia da Casa Cabeça Negra que dispõe, no mesmo espaço, de um leque variado de acessórios de moda e bijutaria de autor, sempre “aberto a novas propostas” de criadores que ali queiram expor os seus trabalhos.

Foi o que aconteceu com a exposição do projecto “Walk the dog”, em Fevereiro. Sobre esse evento, a Nádia afirma que “é gratificante para nós saber que há pessoas que expõem aqui, pela primeira vez, os seus trabalhos”. O sucesso foi de tal ordem que este trio de criadoras se sente agora incentivado “a divulgar o seu trabalho noutros espaços” — destaca a nossa interlocutora.

Na loja, o cliente pode encontrar produtos “diversificados, originais e de qualidade, enquadrados num espaço inspirador, elegante e acolhedor”.

A casa de banho, como em qualquer casa, é o espaço menor, dedicado aos produtos de beleza de marcas portuguesas e inglesas destinadas a quem procura cuidar de si ou oferecer uma prenda requintada. “Possui uma pequena amostra para homem (cerca de 20% dos produtos) e o resto para mulher, do qual destaco a linha de coco da Asquith & Sommerset, muito procurada pelo seu agradável aroma” — refere Nádia Dória. Existe também uma linha unissexo SPA, “com uma fragrância mais suave”.



Na Cozinha, a Casa Cabeça Negra disponibiliza produtos nacionais e internacionais. Nos primeiros, a referência vai para os licores, compotas, azeites e vinagres Afarrobinha, bem como para os patés “La Gondola”. As massas são italianas, as batatas fritas inglesas, os chocolates franceses e belgas e a selecção de chás é variada, destacando-se os ingleses e a conhecida marca Gorreana, dos Açores.

Estamos em Março, o mês da Primavera, e por isso a Casa Cabeça Negra foi decorada com arranjos florais.

Na semana passada, este espaço recebeu uma iniciativa diferente: uma tarde para saborear novos produtos da "cozinha". Experimentar compotas, licores, biscoitos artesanais e outras surpresas… confeccionados por Arminda Costa (www.quelha-branca.blogspot.com).


Para Abril, Nádia Dória prepara já uma exposição de pintura com obras de Júlia Neto, enquanto que o mês de Maio é preenchido com uma exposição mais eclética com trabalhos do Atelier Manga Rosa.

A loja é divulgada através do blog www.casacabecanegra.blogspot.com, que também faculta o conhecimento dos seus criadores, através dos links propostos.

No mesmo blog, manifesta-se a vontade de receber propostas de novos autores nas áreas de joalharia, moda e design. Os seleccionados? “Aqueles cujas peças nos apaixonem e cuja relação qualidade/preço seja exequível”.

Pode visitar a loja de Segunda a Sexta das 10h às 13h e das 14h às 19h 30m. Ao Sábado está aberta desde as 10h até às 19h 30m.