Tuesday, July 30, 2013

Os rostos da República: Fernando Pessoa (12)


A ‘heterocracia’ de Fernando Pessoa chegou ao ponto de criar um Thomas Crosse, suposto tradutor e crítico inglês, criado depois para distinguir Alberto Caeiro, Ricardo Reis e Álvaro Campos, chegando ao ponto de planear, em 1916, uma Antologia dos poetas sensacionistas portugueses.

O Thomas Crosse não “cumpriu” essa tarefa e apenas escreveu parte do prefácio dessa obra.
Pessoa ou Thomas Crosse chegou a traduzir para inglês alguns versos de um poema de Alberto Caeiro, dois poemas inteiros de Álvaro Campos e o início da Ode Marítima.

O ano de 1914 marca também uma viragem na poesia do ortónimo Fernando Pessoa (outro que “vivia” com a tia Anica) ou seja o verdadeiro Pessoa que, ao conhecer Alberto Caeiro, “teve naquele momento a sua libertação" ao dar a conhecer qualquer coisa diferente nos seus poemas que têm datas posteriores a 8 de Março de 1914.

Que confusão, dirá o leitor. A esta observação camiliana, devemos lembrar que pessoa encarnava outras pessoas, com nomes diferentes, mas que eram a mesma pessoa que escreveu 
Ó sino da minha aldeia,
Já lenta na tarde calma,
Cada tua badalada
 Soa dentro da minha alma

Ou então:
A cada tua pancada,
Vibrante no céu aberto,
Sinto mais longe o passado,
Sinto a saudade mais perto”.

É uma verdadeira ficção em torno de si próprio que Pessoa urde ao longo deste período de desdobramento dos seus “eu”, numa caminhada de despersonalização – e de desresponsabilização? – porque todos eles estavam artisticamente vivos, com vida própria, verdadeira e responsabilidade nenhuma.

Mas é neste ano de 1914 que desponta uma Primavera triunfal, a explosão de Pessoa como um grande escritor que resulta de uma mistura da escola inglesa, os estudos de Latim e das literaturas clássicas, os românticos e simbolistas franceses em que ele mergulhara oito anos antes.

O rastilho foi um poeta americano – Walt Whitman — , a chave que abriu Pessoa para ‘O Canto de Mim mesmo’ que é um hino ao cosmo inteiro e galvaniza Pessoa a libertar-se dos heterónimos de forma progressiva, sem que deixe de os criar, como António Mora (continuador de Caeiro) ou Rafael Baldai (astrónomo de barbas longas que filosofava no seu Tratado de Negação).

Também temos os irmãos de Thomas Crosse (I. I. Crosse ou A. A. Crosse) que assinava ensaios a favor de Alberto Caeiro (I. I.) ou concorria a prémios literários (A. A.). Estes heterónimos comentavam entre si as obras dos anteriores Ricardo Reis e Álvaro de Campos, críticos um do outro e envolvendo-se numa discussão acalorada que respeitava a grandeza incondicional do mestre Caeiro… Devem ter sido divinais estes anos para Fernando Pessoa no diálogo com os seus outros “eu” (alter ego).

O único conhecedor destas multifacetadas personagens era Mário de Sá-Carneiro e daí que se entenda que tenha definido Pessoa como “Homem-Nação – o Prometeu que dentro do seu mundo interior de génio arrastaria toda uma nacionalidade: uma raça e uma civilização”.

Pessoa gerou a sua própria civilização sem sair de casa e nutria a esperança de impor esta civilização - dos heterónimos – no mundo real.
Álvaro de Campos assinava cartas para os jornais e dava entrevistas. Há dezenas de páginas elogiosas que Pessoa queria publicar em jornais portugueses e estrangeiros para Lançar Caeiro, enquanto Frederico Reis escreveu um longo folheto sobre a escola de lisboa que era constituída por Caeiro, Reis e campos e se opunha a Teixeira de Pascoais e aos saudosistas do Porto. Sozinho, desdobrando-se em muitos autores, Pessoa estava pronto a transformar a literatura nacional.

Era uma ambição desmesurada. Sejamos simpáticos: era uma forte desejo de afirmação pessoal ou o maior monumento conhecido ao narcisismo na Europa, pelo menos.

Uns dividem para reinar, Fernando Pessoa “dividia-se para reinar” e afirma-o ousadamente em Ultimatum pela pena de Álvaro de Campos, onde condena a época de então por “incapacidade de criar grandes valores” e luta pela “abolição do dogma da personalidade” quando afirma que nenhum artista deve ter “só uma personalidade” uma vez que o maior artista é aquele que “menos se define, escreve em mais géneros com mais contradições e dissemelhanças”.

Em 5 de Junho, o poeta fingidor escreve à mãe: “os meus amigos dizem-me que eu serei um dos maiores poetas contemporâneos”. É uma altura de inquietude que procura o regaço da mãe e o reconhecimento público que receava e o levava a refugiar-se nos “Hetero”.

Os rostos da República: Fernando Pessoa (11)


O maior artista, escreve Campos (perdão, Pessoa) terá múltiplas personalidades (quinze ou vinte), exactamente como Fernando Pessoa (um poeta fingidor) que tinha dias “monotamente agradáveis” em que se consolava “com o pensamento astrológico de que não podia acontecer nada realmente grave”.

Mesmo que acabasse o dia “sem jantar porque não tinha dinheiro” nada se comparava à “mistura de megalomania e ideias religiosas (que de modo algum atacaram a lucidez)”…porque a astrologia era uma das razões mais úteis para ocupar o seu tempo de leituras. Fernando Pessoa chegou mesmo a fazer o horóscopo de Álvaro de Campos e de Ricardo Reis.

Nesse mesmo ano, Fernando Pessoa escreve uma frase que deixa o mundo português escandalizado: “o desdobramento do eu é um fenómeno em grande número de casos de masturbação” só possível explicar por um adulto que “nunca fui senão uma criança que brincava” – conforme palavras postas na boca de Alberto Caeiro, a 7 de Novembro de 1915. 

Melhor dito, Fernando Pessoa foi um bebé crescido num corpo adulto que jogava xadrez onde as peças eram personagens criadas por si.
Em JUnho de 1914, no momento do parto de Álvaro de Campos e de Ricardo Reis, Fernando Pessoa escreve à mãe, em Pretória, onde afirma: “os meus amigos dizem-me que eu serei um dos maiores poetas contemporâneos”.

Apesar disso, Pessoa sentia-se inquieto, apesar de consciente do seu génio invulgar que ansiava pelo reconhecimento público que receava.
Sentia que o rumo da sua vida estava a mudar, o que era terrivel para quem entendia que “mudar é uma morte parcial; morre qualquer coisa de nós” bem como “mudar é mau, é sempre mudar para pior”.

Pessoa falava muito das saudades de infância e estas aumentaram com a idade, em reacção à morte que lentamente se aproximava dele, dele como de toda a gente.

Pessoa tinha um medo de crescer. Podia viver para a celeridade póstuma mas não se sentia preparado para a vida que o comum dos homens leva “casado, fútil, quotidiano e tributável”.

Não era um homem de família, que justificava com as suas ambições literárias e por ter um lugar seguro na família que o trouxera ao mundo. Contudo, essa família desmoronara-se com o correr dos anos, passando então a viver sozinho, numa série de quartos alugados todos eles entre os bairros da Estfânia e dos Anjos.

Os apuros económicos – sem apoio familiar — não eram novidade mas começaram a ser maiores, manifestando-se especialmente na década de 1910. Para poder dedicar mais tempo à sua escrita, Pessoa recusava trabalhos com horário fixo numa altura em que todos os amigos e familiares lhe tinham emprestado dinheiro, às vezes montantes elevados.

Acrescem a estas dificuldades, a aflição durante toda a sua vida adulta por crises de depressão, derivadas do seu exacerbado sentimento de solidão, neceesidade sentida desde a infância. “Um amigo íntimo é um dos meus ideais, um dos meus sonhos, mas um amigo íntimo é algo que nunca terei” – confessava Fernando Pessoa, em 1917, profetizando está dolorosa estranha forma de vida.

Numa carta escrita à mãe, em 1914, Fernando Pessoa referia-se a Mário de Sá-Carneiro como o “meu maior e mais íntimo amigo” traduzida em mais de 200 cartas e postais desta e quase nenhuma de Fernando Pessoa. Era uma amizade literária  de troca de poemas e de textos ou a pedir a Pessoa que visitassem amigos lisboetas que lhe deviam dinheiro.

Raramente Fernando Pessoa era banal nas poucas cartas que restam para Sá-Carneiro que se revelava o mais inseguro dos dois e neceesitava da aprovação de Pessoa para se libertar das suas depressões em que “me dói a vida aos poucos, a goles, por interstícios. Tudo isto está impresso em tipo muito pequeno num livro com a brochura a descozer-se”. 

Antecipava-se um momento dramático para Fernando Pessoa: a morte do seu amigo.









Os rostos da República: Fernando Pessoa (10)



Quem era Alberto Caeiro? O  autor de “O Guardador de Rebanhos”, heterónimo de Fernando Pessoa, “nasceu” a 16 de Abril de 1889, numa homenagem a melhor amigo de Pessoa: Mário de Sá-Carneiro.
O nome Caeiro é Carneiro sem a carne, dado a um "pastor cujas ovelhas foram espiritualizadas em pensamentos” até porque “A minha alma é como um pastor” e “o Rebanho é os meus pensamentos”. O seu amigo do zodíaco era Sá-Carneiro.

Sá-Carneiro suicidou-se antes de completar 26 anos e Alberto Caeiro também morreu jovem, com 26 anos, de tuberculose (a doença que inquietava Pessoa desde a infância, por razões familiares).
Pessoa escreveu sobre ambos “Morre jovem o que os Deuses amam”. Pessoa concebeu Alberto Caeiro como o poeta da Natureza, além de ser um vanguardista multifacetado, cuja “morte” prematura leva Pessoa a transferir as ambições futuristas para Álvaro de Campos., como um rebento de Alberto Caeiro, a partir de 1914.

A relação entre os dois heterónimos reflecte-se nos nomes (Alberto e Álvaro), com semelhança fonética, alem de Álvaro vir dos campos onde Alberto guardava os seus rebanhos imaginários.

Álvaro de Campos nasce em Tavira, em 1890, estuda engenharia naval em Glasgow, viaja pelo Oriente, viveu alguns anos em Inglaterra, onde cortejava rapazes e raparigas por igual, até se fixar em Lisboa.

Dos seu s primeiros poemas, o destaque vi para a Ode Triunfal que celebra as máquinas e a idade moderna com fôlego exuberante.
Com o passar os anos, os poemas de Álvaro tornam-s mais curtos e melancólicos “Na passagem das horas”...

Sentir tudo de todas as maneiras,
Viver tudo de todos os lados,
Ser a mesma cousa de todos os modos possíveis, ao mesmo tempo,
Realizar em si toda a humanidade de todos os momentos
Num só momento difuso, profuso, completo e longínquo".

O que hoje podemos escrever sobre Álvaro e Alberto foi impossível até 1924. Se é verdade que Álvaro teve projecto mediática imediata, só neste ano se conheceram o Alberto e o Ricardo Reis.

Campos assinava cartas para jornais, dava entrevistas e entrava em polémicas, opondo-se muitas vezes às teses do seu criador (Pessoa). Álvaro Campos era tão “real” que intervinha na vida diária do seu criador, substituindo-o em alguns encontros com Ofélia Queiros que não gostava nada do engenheiro nem em pessoa (ou melhor, “em Pessoa” nem nas cartas que dele recebia (cf. ZANITH, Richard, op.cit. pp. 99-108).

Os directores da Presença (Gaspar Simões e José Régio) ficaram desgostosos quando foram ao café Montanha, em Junho de 1930, na expectativa de conhecer o seu mais ilustre colaborador e quem apareceu não foi Pessoa mas o engenheiro Álvaro de Campos. Mera brincadeira ou mecanismo de defesa de Pessoa inseguro perante pessoas desconhecidas? Álvaro de Campos existia para alem das páginas por si escritas.

Vamos ao terceiro heterônimo: Ricardo Reis, que surge uns dia apos Campos, na personagem de medico que Pessoa define como “Horácio grego que escreve em português”.

Reis era especialista em odes métricas sem rima sobre a futilidade da vida e a necessidade de aceitar o destino, muito contrários, à partida, ao espírito inovador do Álvaro e do Alberto. 

No entanto, este “portuense nascido” em 1887, denotava atenção ao renascimento italiano que revalorizava o legado cultural da antiguidade. Como o apelido sugere é monárquico e tem de exilar-se no Brasil, deixando-nos milhares de papeis com poemas e textos soltos.

O intersecccionismo é um movimento literário de vanguarda criado por Fernando Pessoa e que se caracteriza pela inclusão alternada no poema de vários níveis simultâneos de realidade: a interior e a exterior, a objectiva e a subjectiva, o sonho e a realidade, o presente e o passado, o eu e o outro (cf. GUIMARÃES, Fernando - O Modernismo Português e a sua Poética , Lello, Porto, 1999, pp.71-72).

O poema "Chuva Oblíqua", de Fernando Pessoa (in "Orpheu" n.º 2, 1915), é o exemplo mais significativo deste novo processo, porque nele se cruzam a paisagem presente e ausente, o actual e o pretérito, o real e o onírico:

"Ilumina-se a Igreja por dentro da chuva deste dia
E cada vela que se acende é a chuva a bater na vidraça..."

No entanto, os três heterônimos são a expressão do “sensacionismo”, um movimento nascido do interseccionismo, que Pessoa define: “Caeiro tem uma disciplina: as coisas devem ser sentidas tais como são. Para Ricardo Reis, as coisas devem  ser sentidas, não só como são, mas de modo a integrarem-se num certo ideal de medida e regra clássicas. Em Álvaro de Campos, as coisas devem ser simplesmente sentidas”. 
Este último é quem melhor exprime o sensacionismo mas cabe a Caeiro chefiar o movimento... em 1916.

O sensacionismo deriva de três movimentos: do simbolismo francês, do panteísmo transcendental português e "da baralhada de coisas sem sentido e contraditórias de que o futurismo, o cubismo e outros quejandos são expressões ocasionais, embora, para sermos exactos, descendamos mais do seu espírito do que da sua letra" (cf. PESSOA, Fernando - Páginas Íntimas e de Auto-Interpretação, Lisboa, Ática, pp. 134-138). 

Para este movimento, a única realidade em arte é a "consciência da sensação" e baseia-se em três princípios artísticos: 1) o da sensação, 2) o da sugestão, 3) o da construção" (id. ibid., pp.134-138).


Tuesday, May 14, 2013

Os rostos da República: Fernando Pessoa (09)

Quem era Alberto Caeiro? O  autor de “O Guardador de Rebanhos”, heterônimo de Fernando Pessoa, “nasceu” a 16 de Abril de 1889, numa homenagem a melhor amigo de Pessoa: Mário de Sá-Carneiro.
 
O nome Caeiro é Carneiro sem a carne, dado a um "pastor cujas ovelhas foram espiritualizadas em pensamentos” até porque “A minha alma é como um pastor” e “o Rebanho é os meus pensamentos”. O seu amigo do zodíaco ea Carneiro.

Sá-Carneiro suicidou-se antes de completar 26 anos e Alberto Caeiro também morreu jovem, com 26 anos, de tuberculose (a doença que inquietava Pessoa desde a infância, por razões familiares).

Pessoa escreveu sobre ambos “Morre jovem o que os Deuses amam”. Pessoa concebeu Alberto Caeiro como o poeta da Natureza, além de ser um vanguardista multifacetado, cuja “morte” prematura leva Pessoa a transferir as ambições futuristas para Álvaro de Campos, como um rebento de Alberto Caeiro, a partir de 1914. 
 
A relação entre os dois heterônimos reflecte-se nos nomes (Alberto e Álvaro), com semelhança fonética, alem de Álvaro vir dos campos onde Alberto guardava os seus rebanhos imaginários.

Álvaro de Campos nasce em Tavira, em 1890, estuda engenharia naval em Glasgow, viaja pelo Oriente, viveu alguns anos em Inglaterra, onde cortejava rapazes e raparigas por igual, até se fixar em Lisboa.

Dos seu s primeiros poemas, o destaque vi para a Ode Triunfal que celebra as máquinas e a idade moderna com fôlego exuberante.

Com o passar os anos, os poemas de Álvaro tornam-se mais curtos e melancólicos “Na passagem das horas”...

Sentir tudo de todas as maneiras,
Viver tudo de todos os lados,
Ser a mesma cousa de todos os modos possíveis, ao mesmo tempo,
Realizar em si toda a humanidade de todos os momentos
Num só momento difuso, profuso, completo e longínquo.

O que hoje podemos escrever sobre Álvaro e Alberto foi impossível até 1924. Se é verdade que Álvaro teve projecto mediática imediata, só neste ano se conheceram o Alberto e o Ricardo Reis.

Campos assinava cartas para jornais, dava entrevistas e entrava em polémicas, opondo-se muitas vezes às teses do seu criador (Pessoa). Álvaro Campos era tão “real” que intervinha na vida diária do seu criador, substituindo-o em alguns encontros com Ofélia Queiros que não gostava nada do engenheiro nem em pessoa (ou melhor, “em Pessoa” nem nas cartas que dele recebia (cf. ZANITH, Richard, op.cit. pp. 99-108).

Os directores da Presença (Gaspar Simões e José Régio) ficaram desgostosos quando foram ao café Montanha, em Junho de 1930, na expectativa de conhecer o seu mais ilustre colaborador e quem apareceu não foi Pessoa mas o engenheiro Álvaro de Campos. Mera brincadeira ou mecanismo de defesa de Pessoa inseguro perante pessoas desconhecidas? 

Álvaro de Campos existia para alem das páginas por si escritas.

Vamos ao terceiro heterônimo: Ricardo Reis, que surge uns dias após Campos, na personagem de medico que Pessoa define como “Horácio grego que escreve em português”.

Reis era especialista em odes métricas sem rima sobre a futilidade da vida e a necessidade de aceitar o destino, muito contrários, à partida, ao espírito inovador do Álvaro e do Alberto. 

No entanto, este “portuense nascido” em 1887, denotava atenção ao renascimento italiano que revalorizava o legado cultural da antiguidade. Como o apelido sugere é monárquico e tem de exilar-se no Brasil, deixando-nos milhares de papeis com poemas e textos soltos.

O intersecccionismo é um movimento literário de vanguarda criado por Fernando Pessoa e que se caracteriza pela "inclusão alternada no poema de vários níveis simultâneos de realidade: a interior e a exterior, a objectiva e a subjectiva, o sonho e a realidade, o presente e o passado, o eu e o outro" (cf. GUIMARÃES, Fernando - O Modernismo Português e a sua Poética , Lello, Porto, 1999, pp.71-72).

O poema "Chuva Oblíqua", de Fernando Pessoa (in "Orpheu" n.º 2, 1915), é o exemplo mais significativo deste novo processo, porque nele se cruzam a paisagem presente e ausente, o actual e o pretérito, o real e o onírico: 

Ilumina-se a Igreja por dentro da chuva deste dia
E cada vela que se acende é a chuva a bater na vidraça...

No entanto, os três heterônimos são a expressão do “sensacionismo”, um movimento nascido do interseccionismo, que Pessoa define: “Caeiro tem uma disciplina: as coisas devem ser sentidas tais como são. Para Ricardo Reis, as coisas devem  ser sentidas, não só como são, mas de modo a integrarem-se num certo ideal de medida e regra clássicas
Em Álvaro de Campos, as coisas devem ser simplesmente sentidas”. Este último é quem melhor exprime o sensacionismo mas cabe a Caeiro chefiar o movimento...em 1916.

O sensacionismo deriva de três movimentos: do simbolismo francês, do panteísmo transcendental português e "da baralhada de coisas sem sentido e contraditórias de que o futurismo, o cubismo e outros quejandos são expressões ocasionais, embora, para sermos exactos, descendamos mais do seu espírito do que da sua letra" (cf. PESSOA, Fernando - Páginas Íntimas e de Auto-Interpretação, Lisboa, Ática, pp. 134-138). 

Para este movimento, a única realidade em "arte é a consciência da sensação" e baseia-se em três princípios artísticos: 1) o da sensação, 2) o da sugestão, 3) o da construção" (id. ibid., pp.134-138).

Nota: quadro "Guardador de rebanhos", de Ricardo Alves


Os rostos da República: Fernando Pessoa (08)

Com as ideias de Álvaro de Campos surgem as primeiras tensões dentro do grupo que se agravaram por dificuldades económicas que extinguiram o Orpheu. 

O suicídio de Sá-Carneiro, no ano seguinte, contribui para unir o grupo mas o génio de Fernando Pessoa já estava imparável, na renovação da literatura portuguesa, através de várias revistas como Centauro, Exílio, Portugal Futurista. Esta acabou por ser apreendida pela polícia antes de ser distribuída por razões políticas ou morais.
 
Apesar das contrariedades, Fernando Pessoa procurava levar o projecto de Orpheu para a frente e anuncia a saída do número 3, em 1916, com colaborações que incluíam “dois poemas ingleses meus, muito indecentes”, versos de Pessanha e poemas inéditos de Sá-Carneiro, A cena do ódio de Almada Negreiros e quatro hors-textesdo mais célebre pintor avançado português, Amadeo de Sousa-Cardozo” (quadro acima).

Todavia, a revista apenas consegue estar pronta em Julho do ano seguinte mas “entrará então, misteriosamente, numa dormência prolongada” (cf. ZENITH, Richard, op. cit. pp. 88 a 98).

No entanto, é difícil sobrestimar o papel desempenhado pela revista Orpheu na introdução do modernismo em Portugal, quanto mais não seja por ter conseguido romper com a ideia fixa de que convinha seguir modelos e padrões consagrados lá fora. 

Orpheu era um grito a clamar por renovação que – diga-se – seguiu um caminho praticamente paralelo ao modernismo inglês, tendo ocupado um lugar de relevo no panorama português.

Enquanto os companheiros de Orpheu procuravam revolucionar as letras portuguesas, uma nova ideia fermentava no espírito de Fernando Pessoa. Em quatro meses, no ano de 1914, surgiam três heterónimos propriamente ditos de Pessoa e, dois anos depois, cada um deles tinha uma obra merecedora de figurar em qualquer Olimpo da poesia universal.

A revolução pessoana era, afinal, mais profunda, genuína e surpreendente do que a outra revolução, visível, que levara à criação de Orpheu.

Fernando pessoa nunca questionou a grandeza de Alberto Caeiro, Álvaro de Campos ou de Ricardo Reis, mas duvidava, da sinceridade e do valor de movimentos como o paulismo, o interseccionismo e o futurismo.
A sua revista Europa acabou por sair rebaptizada de Orpheu e mudeou decisivamente o rumo da literatura portuguesa.

Para Pessoa, introduzir o modernismo não era um feito extraordinário. Agora, "ser-se um poeta absolutamente genial era, e será sempre, um feito impossível de realizar por vontade e esforço humanos. Ser vários poetas absolutamente geniais, então, era de uma absoluto ineditismo” (ZANITH, Richard, in op. cit. Pp. 99- 107).

Agora se sabe, através da análise dos manuscritos pessoanos, que a história do dia triunfal de 8 de Março de 1914, quando Alberto Caeiro “apareceu” em Fernando Pessoa que ele escreveu, como se um jacto fosse, numa “espécie de êxtase”, mais de 30 poemas de “O Guardador de Rebanhos”.

É a obra poética mais sublime de Pessoa que escreveu metade dos seus 49 poemas em duas semanas daquele prodigioso mês de Março. 

Alberto Caeiro, o primeiro alicerce do célebre tripé de heterónimos a surgir, era um poeta do campo, sem estudos, mas reconhecido pelos outros como “mestre que pregava a percepção directa das coisas, sem filosofias”.

Para Caeiro, 
O essencial é saber ver;
Saber ver sem estar a pensar;
Saber ver quando se vê; 
E nem pensar quando se vê 
Nem ver quando se pensa.

Caeiro era o “único poeta da natureza” que dela fazia “pura filosofia” nascida num “instante de nirvana poético, uma impossibilidade consubstanciada em versos transparentes, belos e precisos como o cristal”.

O próprio Pessoa ficou “deslumbrado” quando escreve a um amigo: “se há parte da minha obra que tenha um ‘cunho de sinceridade’, essa parte é… a obra de Caeiro” que excede o que o “eu racionalmente podia gerar dentro de mim”.

Quem era Alberto Caeiro? Daremos a resposta a seguir.

Os rostos da República: Fernando Pessoa (07)


Só em 1912, Fernando Pessoa faz a sua estreia como escritor com um ensaio “A nova poesia portuguesa”, e explica que Portugal está no limiar de uma época gloriosa da sua literatura, na qual apareceria o “Grande poeta”, que "remeteria para segundo plano a figura de Camões”.

Quem era o grande poeta? Era Pessoa… 

Ele sentiu que o seu génio criador estava prestes a dar fruto. Fernando Pessoa continuava a produzir poesia em inglês, com o heterónimo Alexander Search, até 1910, enquanto em seu nome próprio escrevia em português.

Lendo os simbolistas Mallarmé, Verlaine, Rimbaud e muita poesia nacional, Fernando Pessoa faz a transição entre a Monarquia e a República em contacto com Teixeira de Pscoaes e o quase inédito Camilo Pessanha.

Fernando Pessoa está seguro de que, “andando pensa-se melhor que sentado”, quando escrevia a Mário de Sá-Carneiro que “o que é preciso é ter um pouco de Europa na Alma”.
 
De facto, entre os 24 e os 29 anos, Fernando Pessoa vive num rodopio de movimento, emoção, criatividade e contactos pessoais que se afasta do estereotipo do poeta recolhido no seu quarto, afastado dos outros seres humanos, a ler livros e a escrever coisas para a “famosa arca que só nós iríamos apreciar”.

A vida pública de Pessoa girava em torno da literatura e esta estimulava aquela, levando-o a frequentar cafés lisboetas e reunr-se com jornalistas e escritores como Augusto Gil ou Camilo Pessanha, discutindo as novidades editoriais, mostrando o que escrevia e ouvindo os poemas deles.

A chegada da República gerara grandes exectativas. Apesar do  caos reinante logo nos primeiros anos e de um “ódio especial por Afonso Costa”, Pessoa acreditava que era dentro da República que se faria o renascimento cultural de Portugal.

A lealdade de Fernando Pessoa à República estava aí para continuar, através do seu punho, há precisamente cem anos, quando Pessoa vive momentos de grande frenesim na sua produção, começando a afirmar toda a sua genialidade.

No ano de 1913, a política não podia deixar de ser um tema muito debatido nas tertúlias frequentadas por Fernando Pessoa, que se prolongavam horas e horas na elaboração de manifestos  a defender a República, contra os monárquicos, mas opondo-se aos “afonsistas”.

Nesse núcleo de poetas, citados na crónica anterior, nascia a revista Águia que acolhe “Na floresta do alheamento”, prosa poética do “Livro do Desassossego”. 

O ano 1913 é de facto o ponto de partida na revelação do génio pessoano, sem que haja grande rebuliço nas letras portuguesas de então.
Pessoa não punha em causa a ultra-racionalidade mas inclinava-se mais para o Intersecccionismo, uma espécie de cubismo aplcado à literatura.

Tal era o esforço de inovação literária que Pessoa e os seus discípulos estavam sós, sem terem quem os acolhesse no meio literário português, o que explica os fracassos editoriais.

No começo de 1913, Fernando Pessoa tenta lançar uma nova revista Lusitânia que se debruçasse sobre os problemas políticos da República e o lugar que ela ocupava (escasso) na cena internacional. Projectada por Pessoa com Sá-Carneiro a secretário, a revista contava com colaborações de José Almada Negreiros, Cobeira, João Correia de Oliveira (irmão do poeta minhoto António e muito amigo de Pessoa) e Camilo Pessanha, “um grande poeta inédito”.

Alguns meses depois, o nome da revista mudava para Europa correspondendo ao duplo desejo de Pessoa trazer a modernidade europeia para Portugal e promover a cultura portuguesa no Velho Continente. Os amigos Sá Carneiro e Santa-Rita Pintor traziam a Pessoa as tendências mo-dernas da Europa e da A-mérica do Sul, como o cubismo (Picasso) e modernismo (Max Jacob e Apolinaire).

O escândalo Orpheu

A Lusitânia nunca chegou a sair porque entretanto Montalvor sugeriu o nome de Orpheu, cujo  editor foi António Ferro, e o primeiro número surge só em Março de 1915, sendo recebida como uma “maluqueira literária” de uns “alienistas”. 

Pessoa ficou satisfeito porque “somos o assunto do dia em Lisboa. O escândalo é enorme. Somos apontados na rua e toda a gente fala no Orpheu”. 

O segundo número saiu três meses depois e a imprensa voltou a destacar este grupo de “doidos”. Apareciam vários poemas de Álvaro de Campos, o heterónimo mais exuberante de Pessoa e o primeiro a ser revelado publicamente. Com as ideias de Álvaro de Campos surgem as primeiras tensões dentro do grupo que se agravaram por dificuldades económicas que extinguiram o Orpheu. 

O suicídio de Sá-Carneiro, no ano seguinte, contribui para unir o grupo mas o génio de Fernando Pessoa já estava imparável, na renovação da literatura portuguesa, através de várias revistas como Centauro, Exílio, Portugal Futurista. 

Esta acabou por ser apreendida pela polícia antes de ser distribuída por razões políticas ou morais.


 

Os rostos da República: Fernando Pessoa (06)


Se nada de África perdurou na memória daquela irrequieta e simpática criança que era Fernando Pessoa. Há sempre uma excepção, para além do Luar. Mohandas Gandhi, futuro herói da independência da Índia.

Um juíz mandou-o tirar o turbante, em Durban, a seguir foi expulso de um comboio por querer sentar-se na primeira classe, para a qual comprara o devido bilhete, factos que o levam a encetar uma luta contra o racismo perpetrado sobre os emigrantes indianos.

Quatro mil brancos, com os seus criados negros tentaram, anos mais tarde, linchar Gandhi. Não se sabe que efeito tiveram estes gestos em Fernando pessoa mas manda a verdade escrever que, anos mais tarde, o autor de “A Mensagem” tenta um ensaio sobre a figura do resistente pacífico indiano, “a única figura verdadeiramente grande que há hoje no mundo”.

Porquê? Porque, “em certa medida, não pertence ao mundo e o nega”. Porque “ele não pode ser ridículo porque não pode ser medido pelas normas dos que o pretendem ridicularizar”.

Porque “o seu alto exemplo, inaproveitável pela nossa fraqueza, enxovalha a nossa ambiguidade” afirmando-se como “herói sem armas, dá ferrugem aos nossos numerosos gládios, espingardas e peças” e “paira acima da nossa bebedeira de conseguimentos”.

Fernando Pessoa regressa a Lisboa em Setembro de 1905, onde começa a assistir às primeiras aulas do Curso Superior de Letras (que em 1911 é integrado na Universidade de Lisboa), sendo encaminhado para uma carreira diplomática, acrescentando filosofia às cadeiras de letras e de história. É na disciplina de Filosofia que se empenha mais.

O seu melhor amigo de curso foi Armando Teixeira Rebello, que também vivera a infância na África do Sul porque a maior parte dos seu colegas eram “convencionais”.

De pressa se sentiu desiludido porque se uns eram convencionais, outros estavam “profundamente escravizados como qualquer outro escravo”. “Já não tenho esperança em qualquer amizade aqui: procurarei ir-me embora e o mais depressa possível”.

São extractos do seu diário, assinado por Charles Robert Anon, através de um carimbo. Os trabalhos escolares são redigidos em excelente português mas os poemas eram escritos em inglês nesta etapa da vida, imitando Cesário Verde w outros simbolistas.

Enquanto decorria o curso, sem entusiasmo, passava longos tempos na Biblioteca Nacional lendo Aristóteles e Kant, as religiões do mundo, psicologia e Charles Darwin, bem como autores clássicos franceses e ingleses.

Pessoa escrevia poemas e reflexões e amava Portugal cada vez mais e preocupava-se com os eu futuro político, aponto de elaborar um trabalho a justificar o regicídio português D. Carlos, perante o resto do mundo, em 1908.

O Sentimento patriótico de Pessoa foi exacerbado pela sua aversão à chamada ditadura de João Franco, apoiada por D. Carlos. O desejo de escrever em português e abandonar o pseudónimo Anon nasce com o desejo de militar contra a monarquia e é suscitado pela leitura de Folhas Caídas, de Almeida Garrett.

Com 19 anos, após vários heterónimos, Pessoa já via claramente o seu caminho: a escrita posta ao serviço da literatura, da humanidade, do país e da sua glória pessoal ou não tivesse ele escrito que “sempre foi um grande poeta pequenino, inda mamava e já fazia versos à ama, o maroto”. 

Em 1909, adulto e com dinheiro da herança nas mãos, Pessoa vai a Portalegre comprar uma tipografia para trazer para Lisboa para publicar algumas obras suas com heterónimos. O sonho foi de pouca duração e a tipografia praticamente não chegou a existir.

Restava a Pessoa ser correspondente estrangeiro de casas comerciais, cobrando um tanto por carta e trabalhar no horário que lhe convinha, Em 1911 começa a fazer traduções literárias do inglês e do espanhol mas nunca foi a solução para os seus gastos.

Literariamente a carreira avançava mas sem reconhecimento porque nada publicara em seu nome… concebia nesta altura duas das suas mais importantes obras Mensagem e Fausto. O título original da primeira era Portugal. O Fausto ocupou o escritor até à sua morte. Ficou para a posteridade, como o Livro do Desassossego, como um grandioso monumento de fragmentos.

Só em 1912, Fernando Pessoa faz a sua estreia como escritor com um ensaio “A nova poesia portuguesa”, publicado na revista Águia, dirigida por Teixeira de Pascoaes. Explica que Portugal está no limiar de uma época gloriosa da sua literatura, na qual apareceria o “Grande poeta”, que "remeteria para segundo plano a figura de Camões”.

Quem era o grande poeta? 

Era Pessoa… sem nada que lhe pudesse valer a fama porque “o prazer da fama futura é um prazer presente – a fama é que é futura. Eu, que na vida transitória não sou nada, posso gozar a visão do futuro a ler esta página (do Livro do Desassossego) pois efectivamente a escrevo; posso orgulhar-me, como de um filho, da fama que terei, porque, ao menos, tenho com que a ter”.

Ele sentiu que o seu génio criador estava prestes a dar fruto.