Tuesday, May 14, 2013

Os rostos da República: Fernando Pessoa (08)

Com as ideias de Álvaro de Campos surgem as primeiras tensões dentro do grupo que se agravaram por dificuldades económicas que extinguiram o Orpheu. 

O suicídio de Sá-Carneiro, no ano seguinte, contribui para unir o grupo mas o génio de Fernando Pessoa já estava imparável, na renovação da literatura portuguesa, através de várias revistas como Centauro, Exílio, Portugal Futurista. Esta acabou por ser apreendida pela polícia antes de ser distribuída por razões políticas ou morais.
 
Apesar das contrariedades, Fernando Pessoa procurava levar o projecto de Orpheu para a frente e anuncia a saída do número 3, em 1916, com colaborações que incluíam “dois poemas ingleses meus, muito indecentes”, versos de Pessanha e poemas inéditos de Sá-Carneiro, A cena do ódio de Almada Negreiros e quatro hors-textesdo mais célebre pintor avançado português, Amadeo de Sousa-Cardozo” (quadro acima).

Todavia, a revista apenas consegue estar pronta em Julho do ano seguinte mas “entrará então, misteriosamente, numa dormência prolongada” (cf. ZENITH, Richard, op. cit. pp. 88 a 98).

No entanto, é difícil sobrestimar o papel desempenhado pela revista Orpheu na introdução do modernismo em Portugal, quanto mais não seja por ter conseguido romper com a ideia fixa de que convinha seguir modelos e padrões consagrados lá fora. 

Orpheu era um grito a clamar por renovação que – diga-se – seguiu um caminho praticamente paralelo ao modernismo inglês, tendo ocupado um lugar de relevo no panorama português.

Enquanto os companheiros de Orpheu procuravam revolucionar as letras portuguesas, uma nova ideia fermentava no espírito de Fernando Pessoa. Em quatro meses, no ano de 1914, surgiam três heterónimos propriamente ditos de Pessoa e, dois anos depois, cada um deles tinha uma obra merecedora de figurar em qualquer Olimpo da poesia universal.

A revolução pessoana era, afinal, mais profunda, genuína e surpreendente do que a outra revolução, visível, que levara à criação de Orpheu.

Fernando pessoa nunca questionou a grandeza de Alberto Caeiro, Álvaro de Campos ou de Ricardo Reis, mas duvidava, da sinceridade e do valor de movimentos como o paulismo, o interseccionismo e o futurismo.
A sua revista Europa acabou por sair rebaptizada de Orpheu e mudeou decisivamente o rumo da literatura portuguesa.

Para Pessoa, introduzir o modernismo não era um feito extraordinário. Agora, "ser-se um poeta absolutamente genial era, e será sempre, um feito impossível de realizar por vontade e esforço humanos. Ser vários poetas absolutamente geniais, então, era de uma absoluto ineditismo” (ZANITH, Richard, in op. cit. Pp. 99- 107).

Agora se sabe, através da análise dos manuscritos pessoanos, que a história do dia triunfal de 8 de Março de 1914, quando Alberto Caeiro “apareceu” em Fernando Pessoa que ele escreveu, como se um jacto fosse, numa “espécie de êxtase”, mais de 30 poemas de “O Guardador de Rebanhos”.

É a obra poética mais sublime de Pessoa que escreveu metade dos seus 49 poemas em duas semanas daquele prodigioso mês de Março. 

Alberto Caeiro, o primeiro alicerce do célebre tripé de heterónimos a surgir, era um poeta do campo, sem estudos, mas reconhecido pelos outros como “mestre que pregava a percepção directa das coisas, sem filosofias”.

Para Caeiro, 
O essencial é saber ver;
Saber ver sem estar a pensar;
Saber ver quando se vê; 
E nem pensar quando se vê 
Nem ver quando se pensa.

Caeiro era o “único poeta da natureza” que dela fazia “pura filosofia” nascida num “instante de nirvana poético, uma impossibilidade consubstanciada em versos transparentes, belos e precisos como o cristal”.

O próprio Pessoa ficou “deslumbrado” quando escreve a um amigo: “se há parte da minha obra que tenha um ‘cunho de sinceridade’, essa parte é… a obra de Caeiro” que excede o que o “eu racionalmente podia gerar dentro de mim”.

Quem era Alberto Caeiro? Daremos a resposta a seguir.

Os rostos da República: Fernando Pessoa (07)


Só em 1912, Fernando Pessoa faz a sua estreia como escritor com um ensaio “A nova poesia portuguesa”, e explica que Portugal está no limiar de uma época gloriosa da sua literatura, na qual apareceria o “Grande poeta”, que "remeteria para segundo plano a figura de Camões”.

Quem era o grande poeta? Era Pessoa… 

Ele sentiu que o seu génio criador estava prestes a dar fruto. Fernando Pessoa continuava a produzir poesia em inglês, com o heterónimo Alexander Search, até 1910, enquanto em seu nome próprio escrevia em português.

Lendo os simbolistas Mallarmé, Verlaine, Rimbaud e muita poesia nacional, Fernando Pessoa faz a transição entre a Monarquia e a República em contacto com Teixeira de Pscoaes e o quase inédito Camilo Pessanha.

Fernando Pessoa está seguro de que, “andando pensa-se melhor que sentado”, quando escrevia a Mário de Sá-Carneiro que “o que é preciso é ter um pouco de Europa na Alma”.
 
De facto, entre os 24 e os 29 anos, Fernando Pessoa vive num rodopio de movimento, emoção, criatividade e contactos pessoais que se afasta do estereotipo do poeta recolhido no seu quarto, afastado dos outros seres humanos, a ler livros e a escrever coisas para a “famosa arca que só nós iríamos apreciar”.

A vida pública de Pessoa girava em torno da literatura e esta estimulava aquela, levando-o a frequentar cafés lisboetas e reunr-se com jornalistas e escritores como Augusto Gil ou Camilo Pessanha, discutindo as novidades editoriais, mostrando o que escrevia e ouvindo os poemas deles.

A chegada da República gerara grandes exectativas. Apesar do  caos reinante logo nos primeiros anos e de um “ódio especial por Afonso Costa”, Pessoa acreditava que era dentro da República que se faria o renascimento cultural de Portugal.

A lealdade de Fernando Pessoa à República estava aí para continuar, através do seu punho, há precisamente cem anos, quando Pessoa vive momentos de grande frenesim na sua produção, começando a afirmar toda a sua genialidade.

No ano de 1913, a política não podia deixar de ser um tema muito debatido nas tertúlias frequentadas por Fernando Pessoa, que se prolongavam horas e horas na elaboração de manifestos  a defender a República, contra os monárquicos, mas opondo-se aos “afonsistas”.

Nesse núcleo de poetas, citados na crónica anterior, nascia a revista Águia que acolhe “Na floresta do alheamento”, prosa poética do “Livro do Desassossego”. 

O ano 1913 é de facto o ponto de partida na revelação do génio pessoano, sem que haja grande rebuliço nas letras portuguesas de então.
Pessoa não punha em causa a ultra-racionalidade mas inclinava-se mais para o Intersecccionismo, uma espécie de cubismo aplcado à literatura.

Tal era o esforço de inovação literária que Pessoa e os seus discípulos estavam sós, sem terem quem os acolhesse no meio literário português, o que explica os fracassos editoriais.

No começo de 1913, Fernando Pessoa tenta lançar uma nova revista Lusitânia que se debruçasse sobre os problemas políticos da República e o lugar que ela ocupava (escasso) na cena internacional. Projectada por Pessoa com Sá-Carneiro a secretário, a revista contava com colaborações de José Almada Negreiros, Cobeira, João Correia de Oliveira (irmão do poeta minhoto António e muito amigo de Pessoa) e Camilo Pessanha, “um grande poeta inédito”.

Alguns meses depois, o nome da revista mudava para Europa correspondendo ao duplo desejo de Pessoa trazer a modernidade europeia para Portugal e promover a cultura portuguesa no Velho Continente. Os amigos Sá Carneiro e Santa-Rita Pintor traziam a Pessoa as tendências mo-dernas da Europa e da A-mérica do Sul, como o cubismo (Picasso) e modernismo (Max Jacob e Apolinaire).

O escândalo Orpheu

A Lusitânia nunca chegou a sair porque entretanto Montalvor sugeriu o nome de Orpheu, cujo  editor foi António Ferro, e o primeiro número surge só em Março de 1915, sendo recebida como uma “maluqueira literária” de uns “alienistas”. 

Pessoa ficou satisfeito porque “somos o assunto do dia em Lisboa. O escândalo é enorme. Somos apontados na rua e toda a gente fala no Orpheu”. 

O segundo número saiu três meses depois e a imprensa voltou a destacar este grupo de “doidos”. Apareciam vários poemas de Álvaro de Campos, o heterónimo mais exuberante de Pessoa e o primeiro a ser revelado publicamente. Com as ideias de Álvaro de Campos surgem as primeiras tensões dentro do grupo que se agravaram por dificuldades económicas que extinguiram o Orpheu. 

O suicídio de Sá-Carneiro, no ano seguinte, contribui para unir o grupo mas o génio de Fernando Pessoa já estava imparável, na renovação da literatura portuguesa, através de várias revistas como Centauro, Exílio, Portugal Futurista. 

Esta acabou por ser apreendida pela polícia antes de ser distribuída por razões políticas ou morais.


 

Os rostos da República: Fernando Pessoa (06)


Se nada de África perdurou na memória daquela irrequieta e simpática criança que era Fernando Pessoa. Há sempre uma excepção, para além do Luar. Mohandas Gandhi, futuro herói da independência da Índia.

Um juíz mandou-o tirar o turbante, em Durban, a seguir foi expulso de um comboio por querer sentar-se na primeira classe, para a qual comprara o devido bilhete, factos que o levam a encetar uma luta contra o racismo perpetrado sobre os emigrantes indianos.

Quatro mil brancos, com os seus criados negros tentaram, anos mais tarde, linchar Gandhi. Não se sabe que efeito tiveram estes gestos em Fernando pessoa mas manda a verdade escrever que, anos mais tarde, o autor de “A Mensagem” tenta um ensaio sobre a figura do resistente pacífico indiano, “a única figura verdadeiramente grande que há hoje no mundo”.

Porquê? Porque, “em certa medida, não pertence ao mundo e o nega”. Porque “ele não pode ser ridículo porque não pode ser medido pelas normas dos que o pretendem ridicularizar”.

Porque “o seu alto exemplo, inaproveitável pela nossa fraqueza, enxovalha a nossa ambiguidade” afirmando-se como “herói sem armas, dá ferrugem aos nossos numerosos gládios, espingardas e peças” e “paira acima da nossa bebedeira de conseguimentos”.

Fernando Pessoa regressa a Lisboa em Setembro de 1905, onde começa a assistir às primeiras aulas do Curso Superior de Letras (que em 1911 é integrado na Universidade de Lisboa), sendo encaminhado para uma carreira diplomática, acrescentando filosofia às cadeiras de letras e de história. É na disciplina de Filosofia que se empenha mais.

O seu melhor amigo de curso foi Armando Teixeira Rebello, que também vivera a infância na África do Sul porque a maior parte dos seu colegas eram “convencionais”.

De pressa se sentiu desiludido porque se uns eram convencionais, outros estavam “profundamente escravizados como qualquer outro escravo”. “Já não tenho esperança em qualquer amizade aqui: procurarei ir-me embora e o mais depressa possível”.

São extractos do seu diário, assinado por Charles Robert Anon, através de um carimbo. Os trabalhos escolares são redigidos em excelente português mas os poemas eram escritos em inglês nesta etapa da vida, imitando Cesário Verde w outros simbolistas.

Enquanto decorria o curso, sem entusiasmo, passava longos tempos na Biblioteca Nacional lendo Aristóteles e Kant, as religiões do mundo, psicologia e Charles Darwin, bem como autores clássicos franceses e ingleses.

Pessoa escrevia poemas e reflexões e amava Portugal cada vez mais e preocupava-se com os eu futuro político, aponto de elaborar um trabalho a justificar o regicídio português D. Carlos, perante o resto do mundo, em 1908.

O Sentimento patriótico de Pessoa foi exacerbado pela sua aversão à chamada ditadura de João Franco, apoiada por D. Carlos. O desejo de escrever em português e abandonar o pseudónimo Anon nasce com o desejo de militar contra a monarquia e é suscitado pela leitura de Folhas Caídas, de Almeida Garrett.

Com 19 anos, após vários heterónimos, Pessoa já via claramente o seu caminho: a escrita posta ao serviço da literatura, da humanidade, do país e da sua glória pessoal ou não tivesse ele escrito que “sempre foi um grande poeta pequenino, inda mamava e já fazia versos à ama, o maroto”. 

Em 1909, adulto e com dinheiro da herança nas mãos, Pessoa vai a Portalegre comprar uma tipografia para trazer para Lisboa para publicar algumas obras suas com heterónimos. O sonho foi de pouca duração e a tipografia praticamente não chegou a existir.

Restava a Pessoa ser correspondente estrangeiro de casas comerciais, cobrando um tanto por carta e trabalhar no horário que lhe convinha, Em 1911 começa a fazer traduções literárias do inglês e do espanhol mas nunca foi a solução para os seus gastos.

Literariamente a carreira avançava mas sem reconhecimento porque nada publicara em seu nome… concebia nesta altura duas das suas mais importantes obras Mensagem e Fausto. O título original da primeira era Portugal. O Fausto ocupou o escritor até à sua morte. Ficou para a posteridade, como o Livro do Desassossego, como um grandioso monumento de fragmentos.

Só em 1912, Fernando Pessoa faz a sua estreia como escritor com um ensaio “A nova poesia portuguesa”, publicado na revista Águia, dirigida por Teixeira de Pascoaes. Explica que Portugal está no limiar de uma época gloriosa da sua literatura, na qual apareceria o “Grande poeta”, que "remeteria para segundo plano a figura de Camões”.

Quem era o grande poeta? 

Era Pessoa… sem nada que lhe pudesse valer a fama porque “o prazer da fama futura é um prazer presente – a fama é que é futura. Eu, que na vida transitória não sou nada, posso gozar a visão do futuro a ler esta página (do Livro do Desassossego) pois efectivamente a escrevo; posso orgulhar-me, como de um filho, da fama que terei, porque, ao menos, tenho com que a ter”.

Ele sentiu que o seu génio criador estava prestes a dar fruto.


Os rostos da República: Fernando Pessoa (05)


A mãe acabou por levar Fernando para Durban, (na foto, o edifício da Town Hall) na África do Sul, em Janeiro de 1896. 
O poeta tem oito anos de idade. São estes sete anos e pouco de vida que impedem Fernando Pessoa de ser um poeta inglês, devido à sua grande ligação afectiva a Portugal.

De facto, durante as décadas de vida que passou em Lisboa como adulto, Fernando Pessoa quase nunca se referiu aos nove anos que esteve na África do Sul, a não ser para justificar porque dominava também a língua de Shakespeare.

Doía-lhe recordar aqueles anos ou sentiu-se em Durban alheio, um peixe fora de água? Ou ressentia-se do novo ambiente familiar?

Talvez tudo isso, mas a experiência pessoana em África foi essencialmente livresca, até porque se sabe muito pouco dos primeiros anos, onde estudou num colégio de freiras irlandesas.

Muito menos se sabe se mantinha fervor religioso, porque aos 17 anos já se declarava anti-católico até ao fim da vida. Apesar de admitir um “espírito religioso" com a consciência da “terrível importância da vida, essa consciência que nos impossibilita de fazer arte meramente pela arte”.

Pessoa chega mesmo a falar da “terrível e religiosa missão que todo o homem génio recebe de Deus” e assim se entende que, para ele, a obra literária devia servir a Humanidade e também Deus ou o Destino.

Nem mesmo as belezas naturais de Durban parecem ter causado grande impressão em Pessoa, porque nunca lhes faz alusão.

No entanto, esta estadia  possibilitou que absorvesse a língua e cultura inglesas como uma esponja que “secava” os livros que lia e estudava, através de um ritmo escolar estonteante. 

Em 1899, destaca-se como aluno em francês e inglês ao colocar-se em 48.º lugar entre 673 candidatos à School High Certificate, de 15 anos, quando ele tinha treze.

Foi esta diferença de idades que dificultou a sua integração social. Acanhado quanto baste, Pessoa não cultivava amizades e preferia divertir-se com jogos solitários ou a ler romances de mistério e aventura, com primazia para Charles Dickens.

Em 1901 surgem umas férias prolongadas do pai adoptivo em Portugal, permitindo viagens a Fernando, de Lisboa a Tavira e Ilha Terceira,onde permanece cm uma tia Anica, irmã da mãe.

É este ano de férias em Portugal que salva Pessoa para a literatura portuguesa, com os primeiros poemas, entre eles, “Quando ela passa”. Este poema demonstra que os primeros alicerces da sua produção poética em português estavam bem assentes.

No regresso a Durban, é matriculado numa escola de contabilidade que só funcionava à noite, pelo que Pessoa tinha os dias livres para se dedicar à sua paixão antiga – a leitura – e à nova – a escrita.

Pessoa não acaba as suas obras porque o seu espírito transbordava como um vulcão de nova s idéias e projectos que os distraíam dos que estavam em curso.

Era já um perfeccionista na escrita porque a vida lhe parecia irremediavelmente imperfeita, ao ponto de considerar que “só uma obra pequena podia atingir a perfeição”. 

É assim que é na poesia que Fernando Pessoa consegue completar as obras iniciadas.
Em 1903 o seu ensaio de inglês, na admissão à Univesidade do Cabo, recebe o prémio Queen Vitória Memorial Prize. Estamos na véspera do seu primeiro alter-ego (heterónimo), Charles Robert Anon, que prefigurava a o irreverente Álvaro de Campos.

É em Durban que se alimenta a grande admiração por Mahatma Gandhi que, ali, iniciou a sua caminhada anti-imperialismo britânico. Winston Churchill, correspondente de guerra, esteve ali preso pelos bóeres, quando Pessoa tinha 11 anos.

Embora anglófilo, Pessoa não sentia qualquer lealdade patriótica para com a Inglaterra e o seu império. Para isso contribuíram as leituras de Shakespeare, Milton, Lord Byron, Alexander Pope, Thomas Carlyle e Edgar Allan Poe.

Em 1905 embarca para Lisboa definitivamente, deixando África e Durban em pleno esquecimento em toda a sua obra, a não ser dois meses antes de morrer, ao ouvir  Un soir à Lima”, música que sua mãe tocava ao piano, em Durban.
Esta musica 
lembra-me da nossa sala, quente
Da África ampla onde o luar está
Lá fora vasto e indiferente” 
e conclui com uma alusão a 
“todo o luar de toda a África inundar
A paisagem e o meu sonho”.

Fernando Pessoa, em 47 anos de vida, ficou muitas vezes à janela, pouco participante do que acontecia em redor mas intimamente presente, gravando tudo o que via e sentia no fundo indelével da memória, ou da alma.

Os rostos da República: Fernando Pessoa (04)


Já aqui escrevemos que a vida de Fernando Pessoa foi uma constante divulgação da língua portuguesa: nas próprias palavras do heterónimo Bernardo Soares, "a minha pátria (sic) é a língua portuguesa". 

Em qualquer génio, há sempre um elemento de diferença, um grau de superioridade que não se explica, apenas se constata, mas a sua genialidade não nasce do nada.

O génio em formação beneficia de certas condições familiares ou ambientais ou é estimulado por acasos da vida que podem ser uma coisa simples, vista ou ouvida e logo esquecida que, numa criança, pode mudar todo o curso futuro da sua inteligência.

Em Fernando Pessoa não é difícil perceber porque floresceu tão cedo nem porque se manifestou no domínio das letras.

Ele é o primeiro filho de um casal muito culto e informado sobre a actividade “menos útil mas mais sublime da inteligência humana: a criação artística”. 

O pai era um apaixonado grande pela música e Richard Wagner era um  dos compositors preferidos, sobre quem escrevia crónicas nos jornais. Sabemos que Pessoa mesmo quando se esquivava, nos últimos anos, dos factos mundanos, continuava a gostar de ir a concertos de música clássica.

A Mãe, Madalena, era amante dos livros que lia em português e em francês e também fazia versos.

Havia também uma tia da mãe que fazia versos e que ele definiu como “mulher culta”, céptica em religião, aristocrática e monárquica e não admitindo no povo o cepticismo”.

Estes factos explicam que foi fácil a Fernando Pessoa aprender a ler e a escrever aos quatro anos de idade. A mãe ensinava-lhe também o francês pelo que o nosso escritor foi uma criança privilegiada.

A infância de Fernando Pessoa foi marcada or acontecimento inesquecíveis para o pequeno Fernando. O pai morre em 1893, quando ele tem cinco anos. A sua casa cheia de gente, de repente fica quase vazia, com uma avó Dionísia demente, e a família empobrece materialmente sendo obrigada a abandonar o casarão do Largo de S. Carlos.

Muda-se, com a família, para nova casa mais pequena e um ano depois perde um irmão que reagiu mal a uma vacina contra a tuberculose.
Toda a vida do poeta foi perseguida pelo medo de herdar uma das duas doenças que tanto ensombram a sua infância: a loucura da avó Dionísia e a tuberculose do pai.

Nunca manifestou sintomas do primeiro dos males e as afirmações de loucura em Álvaro de Campos eram aitudes literárias sem peso maior, e a alegada intenção de se internar num manicómio, numa carta à namorada Ofélia, foi um pretexto artifical para não se comprometer com ela.

No entanto, o receio da loucura é real na vida de Fernando Pessoa, sobretudo após o seu regresso a Lisboa, em 1905.

Com maior razção, receava ser vítima da tuverculose, dada a fragilidade do seu corpo, adoecimentos com frequência e embora não fosse hereditária, a tuberculose parecia ser uma ameaça na sua família. Vitimara o pai, o irmão e o tio.

Entretanto, a mãe de Pessoa conhece um oficial da Marinha, iniciando uma relação a que os familiares franziram o olho, um vez que Madalena tinha enterrado o marido há menos de um ano.
A vida em comum obrigava o casal a mudar-se para África. Que fazer com o filho Fernando? Temiam-se as febres tropicais. Ficava em Lisboa com a tia Maria ou era mandado para a Tia Anica, nos Açores? 
 
A este dilema, Fernando Pessoa responde com um poema à mãe: 

Eis-me aqui em Portugal 
Nas terras onde eu nasci. 
Por muito que goste delas, 
Ainda gosto mais de ti”.

É talvez o primeiro poema de Fernando Pessoa, escrito em 26 de Julho de 1896.

A mãe acabou por levar Fernando para Durban, na África do Sul, em Janeiro de 1896. O poeta tem oito anos de idade. São estes sete anos e pouco de vida que impedem Fernando Pessoa de ser um poeta inglês, devido à sua grande ligação afectiva a Portugal.

Ao longo da vida, Fernando Pessoa, dentro ou fora de Portugal, manteve sempre uma firme lealdade ao país onde nasceu e as muitas saudades exprimidas na sua poesia evocam a infância, não na África do Sul, mas em Lisboa, que para ele "era o lar, o regaço, o âmago da sua pátria amada”.

Os Rostos da República: Fernando Pessoa (03)



Em Fernando Pessoa encontramos uma das mais belas definições do artista, ou seja, “aquele que exprime o que não tem” ou aquele que “exprime o que sobrou do que teve”. Fernando Pessoa tinha ideias políticas e religiosas – muitas delas defendidas com ardor, mas a Verdade e a Vida eram o fogo que inspirava a sua obra e que esta, por sua vez, buscava.

Fernando Pessoa, retratado acima por Felizardo Cartoon, afirma-se assim como um “polemista apaixonado” que era frequentemente “as duas coisas em simultâneo” ou não tivesse ele escrito, em Aniversário, em 1930: “no tempo em que festejavam o dia dos meus anos, eu era feliz e ninguém estava morto”.

Ele chegou a defender, com argumentos imbatíveis posições políticas ou teorias improváveis ou que não compartilhava, quanto mais não fosse “pelo prazer de errar”.

Sou um pobre recortador de paradoxos, mas possuo a qualidade de arranjar argumentos para defender todas as teorias, mesmo as mais absurdas” – dizia ele, em 1916. O melhor exemplo é “O banqueiro anarquista”, segundo o qual, o banqueiro, "na sua busca de liberdade é o verdadeiro anarquista”. 

Questionava assim, de forma corrosiva a viabilidade e a sinceridade dos princípios anarcas.

Para os saudosos da monarquia, Pessoa apoiava-os num dia e no dia seguinte troçava deles. Era a forma que encontrara para se exprimir contra o governo que estivesse no poder.

Foi antimonárquico até à medula, enquanto existiu rei e depois tornou-se um crítico severo da República que não lhe parecia muito melhor. Talvez por isso, ele é um dos mais fervorosos apoiantes do caminhense Sidónio Pais, apenas depois de ter sido assassinado, em 1918.

Manda a verdade dizer – ou agora se percebe – que Fernando Pessoa nunca se pronunciou contra a ditadura militar instaurada em 1926 e depositou algumas esperanças em António Oliveira Salazar, enquanto ministro das finanças.
Em 1935 torna-se “resolutamente antifascista, quando se apercebeu dos fortes limites à expressão individual impostos pelo Estado Novo” (cf. ZENITH, Richard, in op. cit. pp. 11 a 15).
Pessoa, fossem quais fossem as mudanças políticas, sempre defendeu o direito do indivíduo a exprimir-se livremente, na palavra escrita e falada e no próprio estilo de vida, sendo bastante avançado para o seu tempo.

É essa postura que o leva a reeditar Canções, do assumidamente homossexual António Botto, ou então Sodoma Divinizada, do ainda mais assumido e ousado Raul Leal.

Quando um grupo de estudantes conservadores lançou uma campanha contra a “literatura de Sodoma”, provocando a apreensão dos dois livros pela polícia, Pessoa contra-ataca com duas folhas volantes em que criticava a pretensa moral dos estudantes e defendia com paixão os seus autores.

Ao contrário do seu amigo e vanguardista Almada Negreiros, Pessoa não gostava de afrontar os burgueses com roupas ou atitudes extravagantes ou actos chocantes, pois preferia aparecer através da palavra escrita.

O escândalo e a polémica eram o seu deleite, ao ponto de o terem apelidado de literato do manicómio. Com o nome de Álvaro de campos, em 1917, publica um manifesto “MERDA” em que atacava o governo português e os outros aliados como os alemães.

Pessoa protagonizou uma série de controvérsias e acontecimentos que deram origem a notícias mais ou menos sensacionalistas. Muitos levavam à letra tudo o que Pessoa dizia e escrevia, nunca percebendo o espírito deste criador-fingidor.

A repartição da sua obra por vários seres inventados começou com uma brincadeira de infância e os heterónimos mostram que Pessoa, de certa maneira, nunca quis crescer.

Preferiu “evitar responsabilidades, brincar, experimentar, imaginar, fazer de conta isto ou aquilo, não sendo de facto um homem normal e adulto como os outros” (cf. ZANITH, Richard, in op.cit, p. 15). Ou não? Ele nascera já adulto, "com precoce ambição literária, um forte sentimento patriótico e a assumida missão de ajudar a sua pátria amada através do seu dom da palavra”? (cf. IDEM, Ibidem).

De facto, ele queria ensinar e incutir cultura entre os compatriotas, ajudando-os a possuir “convicções profundas” que só as têm as “criaturas superficiais”. “Os que não reparam para as coisas são sempre da mesma opinião, são os íntegros e os coerentes. A política e a religião gastam dessa lenha e é por isso que ardem tão mal ante a Verdade e a Vida” – escreveu ele em “Crónicas da vida que passa”.

Escreveu sempre, desde o primeiro poema aos sete anos, até ao leito de morte. Importava-se com a intelectualidade do homem, e pode-se dizer que a sua vida foi uma constante divulgação da língua portuguesa: nas próprias palavras do heterónimo Bernardo Soares, "a minha pátria (sic) é a língua portuguesa". 
O mesmo empenho é patente no poema:

Agora, tendo visto tudo e sentido tudo, 
tenho o dever de me fechar 
em casa no meu espírito e trabalhar, 
quanto possa e em tudo quanto possa, 
para o progresso da civilização 
e o alargamento da consciência da humanidade.

Friday, January 25, 2013

Os rostos da República: Fernando Pessoa (2)

 
Fernando Pessoa foi "o enigma em pessoa" e foram necessários 55 longos anos para estudar e descobrir toda a sua obra, graças ao trabalho incansável de Teresa Rita Lopes, plasmado em “Pessoa por conhecer”.

É esta investigadora que nos demonstra que Fernando Pessoa não inventou três, nem dez, nem trinta personagens escritores, mas mais de 70 – assegura Richard Zenith, um especialista americano premiado em traduções pessoanas que levaram este escritor português a todo o mundo.

De facto, o conjunto de inéditos que foram divulgados após a sua morte em 1935 ultrapassa todas as expectativas, pela quantidade e pela qualidade mas também pela grande variedade de temas, géneros e estilos.

Ninguém esperava que aquele que começou a idealizar o “Livro do Desassossego” há cem anos tivesse tantos bilhetes de identidade fictícios (ou reais?), para além dos mais conhecidos Caeiro, Campos, Reis ou Bernardo Soares.

João Gaspar Simões descobrira, 15 anos após a sua morte, alguns heterónimos ingleses, cuja extensa obra só começou a ser divulgada em 1960, década em que se conheceram o barão de Teive (aristocrata que se suicida) e Rafael Baldaia (esse astrólogo que gostava de filosofia).

Teresa Rita Lopes descobriu também que os vários nomes de Pessoa dialogavam entre si, comentavam-se criticando, acaloradamente, para além de perceber que as estrelas do universo pessoano não eram fixas porque se moviam e se influenciavam mutuamente.

Perante a vastidão deste universo, descobrimos novos poemas, novas facetas literárias e novos nomes que fazem deste vanguardista que abalou o pacato meio cultural português um escritor único no mundo.

Deixou-nos dois mil e quinhentos papéis numa arca de madeira, a prova de uma vida com muita substância e muita emoção.

Quanto em mim haja de humano eu o dividi entre os autores vários de cuja obra tenho sido o executor” – escreveu Fernando Pessoa, numa primeira tentativa de explicar os heterónimos, ao ponto de Álvaro de Campos chegar a escrever que “Fernando Pessoa não existe, propriamente falando”.

Outro é o caso do Livro do Desassossego, cujo embrião celebra este ano cem anos, apresentando pensamentos e sentimentos pertencentes a Pessoa mas narrados por Bernardo Soares, um simples ajudante de guarda-livros que trabalhava e vivia na rua dos Restauradores…

É nesse livro que Pessoa escreve (perdão, Bernardo Soares): “A minha vaidade são algumas páginas, uns trechos, certas dúvidas…” 

Mas é aí que ele desmonta a imagem cliché que chegou até hoje de si próprio: um par de óculos, um bigode e uma gabardina, sem corpo, sem amor físico, sexual e quase nenhum desejo. Pessoa não era “um homem sem qualidades mas um conjunto de qualidades sem homem”.

Falsamente nos transmitiram isto porque Pessoa “era um homem social e sexual como os outros, com uma vida quotidiana rica em acontecimentos, prazeres, dores e esperanças” mas sempre foi “tímido, reservado e resolutamente privado” (cf. ZENITH, RICHARD, in Fernando Pessoa, Circulo de Leitores, Lisboa, 2008, pp. 8-16).

Onde acaba a obra pública, publicável e começa o homem privado? Em Pessoa é quase impossível separar as duas facetas.

Quando, em 1978, foram publicadas as cartas de amor que Pessoa escreveu á sua única namorada, Ofélia Queirós, algumas pessoas pensaram que era uma depredação. Nada mais falso porque essas cartas de amor — como poemas em prosa — são produções literárias curiosíssimas, onde não falta mesmo uma carta do alter-ego Álvaro de Campos a dizer, em Setembro de 1929, à namorada de Pessoa que “o deite para a pia” (onde os porcos manducam).

Pessoa declara o seu amor a Ofélia com as mesmas palavras de Shakespeare no Hamlet para a sua Ofélia. Esta relação não é do princípio ao fim um caso não apenas afectivo mas também literário? Responda o leitor, quase apetece dizer, copiando o nosso Camilo.

Ofélia aparece também como um anti-heterónimo, personagem real e ao mesmo tempo literária. Não nos digam que estas cartas não têm interesse público e científico para conhecer o homem que produziu uma das obras literárias mais geniais de sempre. A sua vida não desperta em nós o desejo de a ler? De a “ler”?

Desperta e é isso que estamos a fazer, para si. E daqui para a frente vamos perceber porque incluímos Fernando Pessoa nesta séria de artigos sobre os “Rostos da República”.

Os rostos da República: Fernando Pessoa (1)


Almada Negreiros é a ponte simples que utilizamos para começar a falar dos quatro maiores poetas portugueses do século XX: Fernando António Nogueira Pessoa, nascido em Lisboa, a 13 de Junho de 1888, mais conhecido como Fernando Pessoa.

Os quatro maiores poetas portugueses são um, afinal? Sim e só é estranho este sim para quem não conheça este fenómeno literário, mais insólito ainda se soubermos que Fernando Pessoa apenas publicou um livro de versos em português: Mensagem, com 44 poemas, em 1934.

Pessoa, já na sepultura surpreendeu o mundo não só por ter deixado muita poesia inédita mas também por ser o criador de vários poetas desconhecidos, e ainda de vários prosadores.

Os três nomes de poetas, juntamente com o nome que recebeu no baptismo, formam um quarteto assombroso que transformou a literatura portuguesa, europeia e mesmo mundial. Álvaro de Campos, foi revelado em 1915, Ricardo Reis aparece nove anos depois e, por último, Alberto Caeiro, no ano seguinte, em 1925.

É considerado um dos maiores poetas da Língua Portuguesa, e da Literatura Universal, muitas vezes comparado com Luís de Camões. O crítico literário Harold Bloom considerou a sua obra um "legado da língua portuguesa ao mundo".

Por ter sido educado na África do Sul, para onde foi aos seis anos em virtude do casamento de sua mãe, Pessoa aprendeu perfeitamente o inglês, língua em que escreveu poesia e prosa desde a adolescência. 
 
Das quatro obras que publicou em vida, três são na língua inglesa. Fernando Pessoa traduziu várias obras inglesas para português e obras portuguesas (nomeadamente de António Botto e Almada Negreiros) para inglês.

Ao longo da vida trabalhou em várias firmas comerciais de Lisboa como correspondente de língua inglesa e francesa. 
 
Foi também empresário, editor, crítico literário, jornalista, comentador político, tradutor, inventor, astrólogo e publicitário, ao mesmo tempo que produzia a sua obra literária em verso e em prosa. 
 
Como poeta, desdobrou-se em múltiplas personalidades conhecidas como heterónimos, objecto da maior parte dos estudos sobre sua vida e sua obra. Centro irradiador da heteronímia, auto-denominou-se um "drama em gente".

Se depois de eu morrer, quiserem escrever a minha biografia,
Não há nada mais simples. 
Tem só duas datas — a da minha nascença e a da minha morte. 
Entre uma e outra todos os dias são meus” 
(cf. Alberto Caeiro; Poemas Inconjuntos; in Atena nº 5 de Fevereiro de 1925.

A 13 de Junho de 1888 nasce em Lisboa Fernando Pessoa, numa família da pequena aristocracia, pelos lados paterno e materno; o pai, Joaquim de Seabra Pessoa (38 anos), de Lisboa, era funcionário público do Ministério da Justiça e crítico musical do «Diário de Notícias». A mãe, D. Maria Magdalena Pinheiro Nogueira Pessoa (26 anos), era dos Açores (da Ilha Terceira). Viviam com eles a avó Dionísia, doente mental, e duas criadas velhas, Joana e Emília.

Fernando António foi baptizado em 21 de Julho na Basílica dos Mártires, ao Chiado, tendo por padrinhos a Tia Anica Luísa Pinheiro Nogueira, tia materna, e o General Chaby. A escolha do nome homenageia Santo António: a família reclamava uma ligação genealógica com Fernando de Bulhões, nome de baptismo de Santo António, festejado em Lisboa a 13 de Junho, dia em que Fernando Pessoa nasceu.

As suas infância e adolescência foram marcadas por factos que o influenciariam posteriormente. Às cinco horas da manhã de 24 de Julho de 1893, o pai morreu, com 43 anos, vítima de tuberculose. 

Fernando tinha apenas cinco anos. O irmão Jorge faleceu no ano seguinte, sem completar um ano. A mãe vê-se obrigada a leiloar parte da mobília e muda-se para uma casa mais modesta. 

Foi neste período que surgiu o primeiro heterónimo de Fernando Pessoa, Chevalier de Pas, facto relatado pelo próprio a Adolfo Casais Monteiro, numa carta de 1935, em que fala sobre a origem dos heterónimos. 

Ainda no mesmo ano, escreve o primeiro poema, um verso curto com a infantil epígrafe de À Minha Querida Mamã. A mãe casa-se pela segunda vez em 1895 por procuração, na Igreja de São Mamede, com o comandante João Miguel Rosa, cônsul de Portugal em Durban (África do Sul). 

Em África, onde passa a maior parte da juventude e recebe educação inglesa, Pessoa demonstra desde cedo talento para a literatura.

Faz a instrução primária na escola de freiras irlandesas da West Street, onde fez a primeira comunhão, e percorre em dois anos o equivalente a quatro.

Em 1899 ingressa no Liceu de Durban, onde permanece três anos e será um dos primeiros alunos da turma e cria o pseudónimo Alexander Search, através do qual envia cartas a si mesmo. 

No ano de 1901, escreve os primeiros poemas em inglês. Na mesma altura, morre a irmã Madalena Henriqueta, de dois anos. Em 1901 parte com a família para Portugal, para um ano de férias. No navio em que viajam, o paquete König, vem o corpo da irmã.

Na capital portuguesa, nasce João Maria, quarto filho do segundo casamento da mãe de Pessoa. Viaja com a família à Ilha Terceira, nos Açores, onde vive a família materna.
Mantém contacto com a literatura inglesa através de autores como Shakespeare, Edgar Allan Poe, John Milton, Lord Byron, John Keats, Percy Shelley, Alfred Tennyson, entre outros. 

O Inglês teve grande destaque na sua vida, trabalhando com o idioma quando, mais tarde, se torna correspondente comercial em Lisboa, além de o utilizar em alguns dos seus textos e traduzir trabalhos de poetas ingleses, como O Corvo e Annabel Lee de Edgar Allan Poe. 

Com excepção de Mensagem, os únicos livros publicados em vida são os das colectâneas dos seus poemas ingleses: Antinous e 35 Sonnets e English Poems I - II e III, editados em Lisboa, em 1918 e 1921.

Fernando Pessoa permanece em Lisboa, enquanto todos — mãe, padrasto, irmãos e criada Paciência — regressam a Durban. Volta sozinho para a África e matricula-se na Durban Commercial School, escola comercial de ensino nocturno, e de dia estuda as disciplinas humanísticas para entrar na universidade. 

Em 1903, candidata-se à Universidade do Cabo da Boa Esperança. Na prova de exame de admissão e tira a melhor nota entre os 899 candidatos no ensaio de estilo inglês. Recebe o Queen Victoria Memorial Prize («Prémio Rainha Vitória»). 
 

Deixando a família em Durban, regressa definitivamente à capital portuguesa, sozinho, em 1905. Passa a viver com a avó Dionísia e as duas tias. 
 
Continua a produção de poemas em inglês e, em 1906, matricula-se no Curso Superior de Letras (actual Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa), que abandona sem sequer completar o primeiro ano. Interessa-se pela obra de Cesário Verde e pelos sermões do Padre António Vieira.

Em Agosto de 1907, morre a sua avó Dionísia, deixando-lhe uma pequena herança, com a qual monta uma pequena tipografia, «Empreza Ibis — Typographica e Editora — Officinas a Vapor», que vai à falência. 

A partir de 1908, dedica-se à tradução de correspondência comercial, uma ocupação a que poderíamos dar o nome de "correspondente estrangeiro". Nessa actividade trabalha a vida toda, tendo uma modesta vida pública.

Inicia a sua actividade de ensaísta e crítico literário com o artigo «A Nova Poesia Portuguesa Sociologicamente Considerada», a que se seguiriam «Reincidindo…» e «A Nova Poesia Portuguesa no Seu Aspecto Psicológico» publicados em 1912 pela revista A Águia, órgão da Renascença Portuguesa.

Frequenta a tertúlia literária que se formou em torno do seu tio adoptivo, o poeta, general aposentado Henrique Rosa, no Café A Brasileira, no Largo do Chiado em Lisboa. Mais tarde, já nos anos vinte, o seu café foi o Martinho da Arcada, na Praça do Comércio, onde escrevia e se encontrava com amigos e escritores.

Em 1915 participou na revista literária Orpheu, a qual lançou o movimento modernista em Portugal, causando algum escândalo e muita controvérsia. Esta revista publicou apenas dois números, nos quais Pessoa publicou em seu nome, bem como com o heterónimo Álvaro de Campos. No segundo número da Orpheu, Pessoa assume a direcção da revista, juntamente com Mário de Sá-Carneiro.

Em Outubro de 1924, juntamente com o artista plástico Ruy Vaz, Fernando Pessoa lançou a revista Athena, na qual fixou o «drama em gente» dos seus heterónimos, publicando poesias de Ricardo Reis, Álvaro de Campos e Alberto Caeiro, bem como do ortónimo Fernando Pessoa.

Morreu no dia 30 de Novembro, com 47 anos de idade. Na véspera escreve em inglês: "I know not what tomorrow will bring" ("Não sei o que o amanhã trará").

Os rostos da República: OLiveira Salazar (7)

Obcecada pela ordem, pela poupança e pelo controlo rigoroso da economia doméstica, a mãe, na sua casa de comes e bebes, ela constitui a principal influência familiar sobre o seu filho António, sendo sua conselheira e orientadora. 

É por obediência a ela – Maria do Resgate - que António segue para o Seminário de Viseu porque, nas aldeias, “ser padre significa promoção social e fuga à endémica miséria nacional”. 


Viseu fecha-lhe o caminho do sacerdócio e abre o caminho para outras ambições. Ele detestava ser o filho do feitor… e por causa disso abandona o primeiro amor  e acolhe-se à sombra do amigo Manuel Cerejeira.

Imposta a ditadura militar em 28 de Maio de 1926, contra a deriva de uma república exausta, o nome de Oliveira Salazar enquadra-se no perfil do movimento que saiu de Braga, com o general Gomes da Costa à cabeça.

Este nomeia três lentes para o governo a liderar por Alves Cabeçadas: Salazar nas Finanças, Remédios na instrução e Rodrigues na Justiça. “Foi o que se pôde arranjar num momento destes. O ministro das finanças é um tal Salazar de Coimbra. Dizem que é muito bom”.

Calculista, Salazar olha à sua volta e decide dizer não mas apos insistências vária, aceita o cargo a fim de uma semana.

Cabeçadas é afastado alguns dias apos por demasiadas cumplicidades com os republicanos e os três lentes de Coimbra acompanham-no. Segue-se novo momento de intranqüilidade com a deportação de Gomes da Costa para os Açores, subindo Oscar Carmona à chefia do Estado.

Para acompanhar a agonia da mãe, António Salazar mantém-se em Coimbra mas não se fasta da política, escrevendo no jornal Novidades um série de artigos que desmantelam a política financeira em vigor.

A incapacidade de conter os gastos do Estado, o défice camuflado das contas públicas são os tópicos destes artigos que vislumbram um programa de governo até porque “por detrás daquela frieza estava uma ambição insaciável. És um vulcão de ambições” – escreveu o padre Mateo Crawley, apos alguns dias de convívio com  Salazar, a convite do cardeal Cerejeira.

Em Meados de Abil de 1928 surge nova oportunidade e Oliveira Salazar resiste e o Governo é empossado sem ele. Duarte Pacheco vai a Coimbra e convence-o a aceitar o cargo de ministro das Finanças, impondo um preço elevado: todos os ministérios aceitam condicionar os seus gatos à verba atribuída pelo Ministério das Finanças.

Começa assim aquilo a que chamaram a ditadura das finanças, conquistando tal força dentro do governo que as suas idéias se alastram aos outros sectores do Governo e à política nacional.

O Governo assumia a prioridade do problema financeiro, secundarizando o económico, desprezando o social e evitando o político.
Com a protecção de Carmona, os primeiros ministros mudam mas Oliveira Salazar mantém-se, somando êxitos no saneamento das contas públicas com a forma radical de não gastar mais do que se produz.

Salazar é também o ministro que resolve os casos complicados, centralizando o poder sobre as colônias em Lisboa, através do Acto Colonial.

Salazar subia os degraus necessários a ser nomeado primeiro ministro no Verão de 1932, sem qualquer reticência sua parte. 

Começa a saga do filho do feitor de Santa Comba Dão que todos conhecemos.

Thursday, January 24, 2013

Os rostos da República: OLiveira Salazar (6)


Em 1918 ele encontra-se entre o grupo de professores que saúdam Sidónio Pais, na sua visita presidencial a Coimbra, aventando-se a hipótese de ser ministeriável. 

Coincide com o início de uma relação platónica com Glória Castanheira, pianista célebre de Coimbra, mas esta acaba por sofrer também com a tibieza de António. Os colegas acusam-nos de basear a sua atracção pelas mulheres apenas no espírito.

Mas o pior acontece quando é acusado de proselitismo monárquico e acaba suspenso da docência, mas Salazar defende-se de forma arrasadora e o juiz reintegra-o ao fim de um mês por nada se haver provado contra ele.

Fala-se então na sua candidatura pelo Centro Católico Português por Viana do Castelo, mas acaba por ser apontado para representar Guimarães, contra sua vontade.

Provedor da Misericórdia de Coimbra, António Salazar regressa a nova depressão, porque a sua ida para Lisboa era uma “revolução na minha vida, nos meus hábitos e (…) tira-me o relativo sossego do meu viver apagado e a distracção dos meus livros. Começo a sentir que não hei-de ser nada – nem professor, nem deputado, nem provedor da Misericórdia – nada a não ser uma pessoa cuja vontade se violentou”.

Numa carta à pianista, escreve: “não sinto entusiasmo por nada. Estou morto”. Despede-se de Lisboa nas férias de Verão e em 19 de Outubro de 1921 acontece a “Noite sangrenta” que põe fim à experiência parlamentar de Salazar.

A sua reputação como ideólogo do CCP afirma-se em Abril de 1922 quando define como prioridade dos católicos “conquistar no regímen actual as liberdades fundamentais da Igreja” em detrimento da Monarquia ou da República.

Aos 33 anos, Salazar não é um desconhecido, mas um académico respeitado e apontado como detentor da solução para a bancarrota nacional. Sem pressa, o lente de Coimbra dedica-se a palestras para os círculos católicos, como Braga, no Congresso Eucarístico de 1924, e a escrever artigos para jornais refugiando-se no Vimieiro, onde a mãe precisa dos seus cuidados.

Continua a namoriscar, agora com a vizinha, com quem troca cúmplices olhares de janela para janela. É a Júlia Alves Moreno, irmão do seu amigo Guilherme. Manuel Cerejeira reprova o comportamento e ele responde: “que queres? Ela é que me provoca, é que toma a iniciativa, e eu não sou frade”.

A sua carreira política sofre um desaire ao falhar a eleição como deputado por Arganil, em 1925, mas meio ano depois, a revolta militar saída de Braga, em 28 de Maio de 1926, vai mudar toda a vida daquele de quem a mãe disse à sua primeira namorada: “o meu filho é só meu”. 

Obcecada pela ordem, pela poupança e pelo controlo rigoroso da economia doméstica, na sua casa de comes e bebes, ela constitui a principal influência familiar sobre o seu filho António, sendo sua conselheira e orientadora. 

É por obediência a ela – Maria do Resgate - que António segue para o Seminário de Viseu porque, nas aldeias, “ser padre significa promoção social e fuga à endémica miséria nacional”. 

Viseu fecha-lhe o caminho do sacerdócio e abre o caminho para outras ambições. Ele detestava ser o filho do feitor… e por causa disso abandona o primeiro amor e acolhe-se à sombra do amigo Manuel Cerejeira.




Os rostos da República: OLiveira Salazar (5)

O Jovem entra na universidade alguns dias apos a revolução de Outubro, começando por se matricular em Letras mas depressa se muda para Direito, aproveitando-se de algumas facilidades concedias pelos republicanos para completar cadeiras mais depressa que o normal. 

Recuperava tempo perdido de forma merecida a avaliar pelos prémios que recebe por decisão unânime de jurados catedráticos.

A luta ideológica em Coimbra é intensa e não deixa ninguém indiferente, fazendo com que Salazar alinhe pelo seu campo de sempre, o conservador, através da militância no Centro Académico da Democracia Cristã. 

Ao lado dele está o famalicense Manuel Gonçalves Cerejeira, um ano mais velho. A emotividade de Cerejeira mistura-se com a serenidade de Salazar e à exuberância daquele este responde com discrição e se Manuel é discreto, o António é impenetrável. Encaixam-se em tudo o resto, tornando-se companheiros de combate e amigos íntimos.

Cerejeira dirige o “Imparcial”, um aguerrido jornal de combate contra o anticlericalismo republicano, mas Salazar prefere não se misturar nessa dicotomia república/monarquia, escrevendo dezenas de artigos para o jornal sobre o ensino e questões universitárias.

As elevadas notas de Salazar – entre o18 e o 19 – fazem sensação em Coimbra e a fama atrai muitas atenções femininas que o acompanham nas férias de Verão, para desespero de Felismina, em perda de terreno, porque ele lhes “correspondia com bastante satisfação”.

Para reforçar a sua magra mesada, dava explicações e entre as explicandas encontra-se Júlia Perestrello, filha da sua madrinha, a frequentar um colégio de freiras.

Doutrinador respeitado nas fileiras do catolicismo militante, Salazar compõem em 1912 a tetralogia dos seus sagrados valores: “Deus, Pátria, Liberdade e Família”. 

Um ano depois, em Braga, aborda a relação entre democracia e Igreja, esquecendo a Liberdade que celebrara antes. “Deve mandar quem sabe e quem pode”, dentro da livre opção da sociedade civil pelo sistema político que considere mais apropriado porque “não nos é possível, em nome do Evangelho, aclamar a Monarquia ou detestar a República”. Alexis de Tocqueville ou Charles Maurras não fariam melhor discurso para o combate nacionalista contra o cosmopolitismo republicano.

O ano de 1914 marca a viragem definitiva na vida de António Salazar, com um feito notável na nota final da licenciatura de “muito bom, com distinção e dezanove valores”.

O sucesso escolar não o livra da recorrente depressão que o obriga a refugiar-se no seu quarto sem ver a luz do dia, até aceitar o conselho do amigo Manuel Cerejeira para se recolher num convento, com ele.

Inicia-se então uma fulgurante carreira académica como professor de Ciências económicas e financeiras, tornando-se figura influente do partido do Centro Católico Português (CCP), fundado em 1917, de modo a permitir aos católicos uma intervenção política. 

Está a chegar o sidonismo…

Os rostos da República: OLiveira Salazar (4)

É linda esta fase da vida do António, como descreve Felismina, a propósito do encontro em Viseu: “Eu tinha as mãos atrás das costas; ele foi-mas lá buscar, apertou-mas muito e, em seguida, colocou uma delas entre as minhas. Compreendi e… cedi. Pela primeira vez, apertei intencionalmente a sua mãe, embora com certa leveza. Mais, seria pecado!

O namoro – como sempre, não? – beneficia o desempenho académico de Salazar. 
Excelente aluno nas diversas disciplinas até entrar no curso teológico em 1905, em que se distingue pela avidez da leitura, a entrega à reflexão e resistência intelectual.

Logo no primeiro ano é escolhido para uma sessão na presença do bispo de Viseu, terminando o curso de teologia com distinção e nota final e 16 valores, mas falta-lhe idade para receber as ordens maiores (diácono e presbítero). Os conterrâneos já o tratavam por “padre Salazar”, em 1908.

Vive-se já a euforia republicana, na sequência da morte de D. Carlos, e António publica os primeiros artigos a defender os valores católicos, atacando a imprensa republicana porque inimiga da religião.

Aflora um monarquismo inconfessado, antes de entrar no Seminário de Viseu como prefeito, onde devora a imensa biblioteca do cónego António barreiros, apostado em métodos de ensino mais modernos e aproveita para estudar inglês, alemão e francês.

O Papa Leão XIII, que morrera há pouco, ajuda-o a preparar-se para novos desafios lançados pela Rerum Novarum sobre a questão social. A encíclica condena a luta de classes, os ataques à propriedade privada, o socialismo e comunismo como elementos destruidores da célula sagrada que é a família mas taca também o liberalismo puro como desfavorável aos fracos e desprotegidos. 

Defende a intervenção do Estado para proteger os trabalhadores e estimula a concertação entre patrões e operários para solucionar as questões salariais e condições de trabalho.

Excluindo a greve, está aí todo o programa inspirador do corporativismo que influencia a Europa Latina. 

Em outras encíclicas, Leão XIII condenara a maçonaria como incompatível com os cristianismo, estabelece o conceito de democracia cristã que ele faz evoluir para a necessidade de uma sociedade com um chefe supremo, entre o poder religioso e o político, num sistema de relações bem ordenado.

Mas há algo que não agrada a Salazar: os portugueses. Estes querem “trabalhar o menos possível sob a tutela do estado que lhe garanta o suficiente à vida, eis o sonho, o belíssimo sonho do preguiçoso português”. 

Disse-o com todas as letras em Dezembro de 1909, em Viseu. Salazar sente-se agora mais longe do sonho sacerdotal e inicia a sua carreira académica que a mãe parece favorecer. 

Nas férias de verão de 1910, Felismina, apesar da exasperada inconstância sentimental do António, seduz o namorado com o prestígio local de que ele goza como “rapaz extraordinário e nas famílias onde havia meninas, pensava-se nele com certo interesse”. 

Salazar decide não tomar as ordens maiores e rumar a Coimbra para ingressar na Universidade, quando deflagra a Revolução republicana, com 21 anos.