Thursday, January 24, 2013

Os rostos da República: OLiveira Salazar (3)


O primeiro responsável pela desagregação do regime que ele criou, deixa um país que não agrada a ninguém porque interiorizou que devia à Providência “a graça de ser pobre” (cf. Discurso à União Nacional, no Porto, em 1949).

O Camponês, filho de camponeses que não pode viver ”sem respirar o cheiro da terra”, nasce quando os pais – já com quatro filhas – não esperavam ter um filho varão, a 28 de Abril de 1889.

Os seus pais foram um casal camponês e beirão, típico de Portugal monárquico do último quarto do século XIX, em suportável humildade, perto de Santa Comba Dão.

António Oliveira é feitor de uma distinta família de proprietários rurais – os Perestrelos – com terras e outros bens espalhados entre Viseu e Coimbra.

Os Perestrelos são padrinhos e protectores da família, mas não aparecem ao baptizado e fazem representar-se por um carpinteiro de Santa Comba e esposa.
Como não havia escola primária em Vimieiro, é um funcionário municipal quem inicia as crianças nas primeiras letras. 

O pequeno António é pouco sociável, adora flores e pássaros e desata a chorar quando algum dos pintassilgos foge da gaiola, nos tempos livres entremeados com ajuda ao pai nas ides rurais.

Assim, desenvolve pela mãe um carinho ilimitado e esta responde com afeição interessada na educação do benjamim da família. Os 14 valores conseguidos no exame de quarta classe confirmam o talento do menino que é enviado para Viseu, o Liceu mais próximo mas longe da mãe. 

É uma flor de estufa, indefesa perante as brincadeiras dos colegas. O pároco sugere uma solução, ir para o seminário e formar um futuro sacerdote, porque é metódico, aplicado e cumpridor.

Passa sempre com distinção em várias disciplinas mas não descura o secreto e correspondido amor com Felismina Oliveira, a acabar o liceu e apontada como futura professora.

Felismina dá explicações à irmã mais velha de Salazar, Mata, também a estudar para professora, e ficaram, um dia, na estação do comboio de Viseu, “uns instantes, de olhos nos olhos, estáticos, talvez ávidos de nos conhecermos pessoalmente um ao outro…

Ela e Marta visitam o António no Seminário, muito pálido, moreno, magrinho e alto, que comia pouco. Elas levavam-lhe “castanhas assadas e marmelada”. 

Seguem-se encontros na casa da Felismina onde a Marta estava hospedada ate quem uma carta a vai perturbar: “A vida de um lavrador é a mais bela. Andar a trabalhar nos campos, regressar à tarde a casa e encontrar os braços da esposa à sua espera é… é mudar esta vida num Paraíso e vós podeis mudá-la”. 

Sublinhadas as três últimas palavras, Felismina vive uma paixão hesitante e desorientada por temer a ira divina de andar a desorientar um futuro padre.

Nas férias, Felismina não evitava passeios em que “segurava a minha mão na dele, enlaçava-me pela cintura e seguíamos assim os dois como se fôssemos um par de namorados”.




Os rostos da República: Oliveira Salazar (2)

Como qualquer boa dona de casa, cultiva a modéstia pública (carapaça de uma vaidade e orgulho interiores indisfarçáveis), a origem humilde, com agradecimento à “providência”, a força de vontade, o celibato e a rectidão (desmentida para abafar a sua responsabilidade na morte do oposicionista Humberto Delgado, trazendo-o para o nível do cinismo político que condenava nos outros).
 
Julga-se dotado do dom especial da governação que exerce como despotismo esclarecido, através de um conjunto de verdades absolutas e inquestionáveis para levar a nação à glória sobre as quais discursava de forma impressionante para Marcelo Caetano.

Já na Juventude confessara ao amigo Cardeal Manuel Gonçalves Cerejeira: “nunca nenhum médico perguntou a um doente o remédio que ele deseja tomar, mas apenas o que é que lhe dói”.

Este princípio serve perfeitamente a alguém que olhava para os portugueses e os definia como "excessivamente sentimentais, com horror à disciplina, individualistas sem dar por isso, falhos de espírito de continuidade e de tenacidade de acção”.

Um povo assim não podia nunca cumprir a “vocação do heroísmo, do desinteresse, da acção civilizadora, da grandeza imperial” que necessita de uma “vasta obra de educação política que lhe devolva a consciência da grandeza e da missão providencial da Nação”.

Daí que a “democracia orgânica” dele não passa de um mecanismo construído para o exercício do seu poder absoluto, numa “ascensão dolorosa dum calvário. No cimo podem morrer os homens, mas redimem-se as pátrias” – repete Salazar, desde o início, para que não restem dúvidas.

Na realidade, é a Nação que lhe interessa, não quem a constitui.
Digam lá que, mesmo hoje, um governante assim secreto, distante, reservado, monástico, determinado e altruísta não desenha um perfil capaz de fascinar e congregar a admiração de muitos? E o terreno político era extremamente favorável aos novos ventos do homem de Santa Comba Dão, a quem não devemos honestamente retirar mérito. Ele consegue o primeiro orçamento positivo na década de vinte, abrindo-se-lhe as portas da Chefia do Governo de um país que lhe deve a paz enquanto ao lado estalam duas guerras de uma assentada: a civil de Espanha e a II Mundial.

É o suficiente para uma credibilidade inabalável de modo que os portugueses obedecem até ao fim ao seu mando. Salazar não se confunde apenas com o Estado, ele é o Estado. Controla tudo como se fosse uma economia doméstica, passa a pente fino todos os diplomas e chama a si pelouros sensíveis como os da propaganda, da censura e da polícia política. Lê todas as cartas que recebe e chega a responder a missivas particulares e de crianças, comovendo-se com dramas pessoais que ajuda a resolver.

Onde fica a liberdade no meio de tudo isto?

Salazar dá com uma mão e tira coma outra. Quando defende um “Estado forte, mas limitado pela moral, pelos princípios do direito das gentes, pelas garantias e liberdades individuais” acrescenta-lhe os limites da “integridade política e jurídica do Estado em face de todas as limitações que possam vir-lhe do individualismo e do internacionalismo”.

Acresce que toda a sua acção invoca a segunda parte e esquece a primeira, de tal modo a que a opinião é delito contra a segurança do Estado e alguns chegam a ser punidos com a morte.

INFINDÁVEL DISCUSSÃO

Assim, torna-se autoritário, nacionalista e incapaz de participar num debate ou de dar uma conferência de imprensa. Começa aqui a infindável discussão: foi ou não fascista?

Ele não se assume como tal mas promove práticas fascistas com as milícias, a militarização juvenil, os desfiles marciais e a saudação romana que desaparecem após a derrota daqueles regimes e não por vontade própria porque Salazar assume-se então como mais homem de acção do que teórico – o que o afasta do fascismo.

Por isso, defende um país bucólico, paroquial e isolado em que a escolaridade não é prioritária com medo de um povo culto.

Lutarei sempre contra a independência das mulheres casadas” – declara solenemente na década de 50, associando esta ideia ao combate aos nacionalismos que batem às portas do império colonial.

A guerra colonial que ele não sabe ou não quer evitar faz soçobrar todo o seu sistema político, mas ninguém o pode acusar de incoerente, apesar de se julgar imortal e insubstituível. 

Daí que não tenha preparado a sucessão e se torne o primeiro responsável pela desagregação do regime que ele criou. Ele deixa um país que não agrada a ninguém com uma marca profunda que o faz amado ou odiado mas inesquecível.

Os rostos da República: Manuel Cerejeira (11)


O último ano de Salazar no Poder foi também um annus horribilis para Cerejeira, a completar 80 anos. Teve de enfrentar as duras críticas de Raul Rego, D. António Ferreira Gomes e de cada vez mais sacerdotes rebeldes e lidar com a crescente hostilidade dos católicos perante a guerra colonial.

Anunciava-se, em 1968, o crepúsculo da dupla de «amigos» que marca a vida portuguesa durante quatro décadas. De pouco lhe valera ter afirmado, no seu testamento, que “não tive outro grande amor na minha vida, além de Deus, da Igreja e da minha diocese” nem mereceu aquilo que mais gostava de ser: “um bispo que amou o seu clero”.

Uma das suas últimas grandes mágoas foi vivida em S. Paulo, na Universidade Católca através de uma conferência muito crítica sobre as suas relações com o salazarismo, enviada de Portugal por um sacerdote, cujo nome foi mantido em segredo.

A conferência destacava o seu silêncio face ao "assassínio de Humberto Delgado em 1965, à Guerra e aos maus tratos infligidos nas  cadeias”. Como se isso não bastasse, um grupo de professores daquela Universidade pedia a sua influência para levar o governo português a pôr fim às guerras coloniais “que ensanguentam as suas colónias africanas e restituir à liberdade aqueles que se acham encarcerados por delitos de opinião”.

No final de Agosto de 1968, uma queda forçava o amigo da “fogueira antiga” a ser operado de urgência a um hematoma craniano, determinando a sua incapacidade para governar.

A transição do poder para Marcelo Caetano apanha o Cardeal desprevenido e ocupado a resolver a contestação interna, despoletada no Seminário dos Olivais e resolvida com a criação da Universidade Católica, para onde transferiu muitos dos alunos.

Ao mesmo tempo, Manuel Cerejeira lidava, com extrema dificuldade, com o caso do Padre Felicidade Alves, seu amigo pessoal mas influenciado doutrinariamente pelo bispo do Porto, D. António Ferreira Gomes, tornando-se alvo de atenção da PIDE.

O padre Felicidade Alves, “exilado em Paris”, envia aos portugueses uma carta que “denunciava o conluio da Igreja com os poderosos”,  reivindicava a Justiça social e propunha uma “mutação rápida e total das estruturas vigentes, jurídicas, económicas, sociais, políticas, culturais e a instauração de uma ordem radicalmente nova” (cf. NOGUEIRA, Franco, Um político confessa-se, Porto, Ed. Civlização, 1986, p.345).

O Cardeal lamenta a extensão do mal causado pelo escândalo “nas consciências, desprestigiando a Igreja, quebrando a unidade com o bispo, dividindo o clero e envenenando o incidente puramente eclesiástico de caluniosas intenções e influências políticas”.

O drama interior do Cardeal era tal que Salazar terá confessado a Franco Nogueira que o Patriarca "ainda havia de morrer por causa do padre Felicidade” que o Cardeal acaba por remover e suspender a divinis das funções sacerdotais, a menos que se retractasse.

No meio destas tristezas, uma enorme alegria é vivida pelo Cardeal com a abertura da Universidade Católica Portuguesa, em fins de 1968.

A crise, no entanto, estava instalada no seio da Igreja, com manifestações de leigos e o definhamento da Acção Católica face ao silêncio do Patriarca sobre onze padres angolanos exilados em Portugal sem culpa formada, a saída de sacerdotes do país perseguidos pela PIDE, as duas prisões do padre Mário Oliveira, na Lixa, a retirada de Moçambique dos padres brancos que denunciaram o massacre de Wiriamu.

O regime foi surpreendido com a escolha de D. António Ribeiro para suceder ao “cardeale bambino”  a 29 de Julho de 1971. Recolhe-se então na Buraca, na Casa do Bom Pastor, aquele que considerava Teófilo Braga “um anti-clerical a frio, saturado de preconceitos contra a Igreja” e Camilo Castelo Branco “um infeliz, cheio e contradições".

Faleceu a 1 de Agosto de 1977, aos 89 anos, num Portugal que não era aquele em que viveu. No funeral, apareceram o seu antigo adversário Raúl Rego e Mário Soares oferendo-lhe a última lição.

Teminava a passagem de uma figura ambígua enfeudada ao sistema ditatorial legitimadora dos desmandos do seu amigo António a quem bateu o pé quando se tratava da Liberdade e Independência da Igreja.

Os rostos da República: Oliveira Salazar (1)


Deve o Estado ser tão forte que não precise de ser violento” – este é o princípio fundamental da revolução política liderada por António de Oliveira Salazar que se viveu em Portugal entre 1926 e 1974.

Quem diria que este lema – desvirtuado umas tantas quantas vezes – marcou a vida e acção política de uma personalidade que, na aurora do século XXI, constitui ainda uma sombra difusa sobre o pensamento popular de Portugal.

É verdade que as suas ideias antidemocráticas não têm seguidores pelo que se desvaneceu qualquer nostalgia da sua época mas há uma vontade latente de regressar ao seu estilo de fazer política, mas o país já não está isolado nem é provinciano que possa aceitar este paternalismo corporativista e messiânico que servia de base aos seus conceitos de Governo.

No entanto, para desgraça dos que construíram a democracia e deram a vida pela liberdade, a memória de António Oliveira Salazar não se evaporou da consciência colectiva, apesar de todos os discursos durante os últimos 38 anos.

Recentemente, um inquérito realizado pela RTP, colocava António Oliveira Salazar no pódium dos três portugueses mais influentes do século XX, independentemente do juízo que se faz do político e do estadista. Para o bem e para o mal, Salazar é uma referência portuguesa, difícil de apagar da galeria dos filhos ilustres desta nação octocentenária.

Porquê? Em primeiro lugar, porque ele governou durante 40 anos, chegando a estar no Livro dos Recordes Guiness. Queiramos ou não, foi quase meio século da história recente de Portugal, envolveu duas gerações, com um poder intenso que abarcava quase todos os aspectos da vida dos cidadãos.

Mas existem outras razões, uma vez que ele não abandonou o poder por qualquer movimento popular e muito menos por um golpe de força, mas por incapacidade física.

Uma das razões reside no facto de António Oliveira Salazar se confundir com o meio onde nasceu – rural, conservador, católico, tradicionalista, pobre mas remediado – e que representa a maioria da população portuguesa, da qual surge como representante.

Assim, ele olha para os políticos da República, os seus partidos e os deputados com sobranceria, desconfiança, uma vez que são cosmopolitas, ambiciosos, egoístas, oportunistas, palavrosos, demagógicos, sedentos de poder, desonestos intelectualmente, alheios ao interesse nacional e delapidadores do bem comum.

Ele representava “uma política de verdade e de sinceridade, contraposta a uma política de mentira e de segredo”.

Por isso, mostra-se relutante quando o chamam para o poder e quando aceita rompe com o passado e impõe um padrão de austero e abnegado serviço público. Esta atitude, de desarmante simplicidade, aponta para o modelo de “qualquer boa dona de casa – política comezinha e modesta que consiste em se gastar bem o que se possui e não se despender mais do que os próprios recursos” (como escreve Joaquim Vieira, in António Oliveira Salazar, Ed. Círculo de Leitores, Lisboa, 2001, pp. 8 a14).

Monday, September 17, 2012

Os rostos da República: Manuel Cerejeira (10)


A questão da viagem papal à Índia constitui um marco revelador do afastamento do Vaticano face à política colonial de Salazar e do distanciamento progressivo em relação ao regime por parte de muitos católicos que engrossavam a “frente nacional”.

Em Outubro de 1965, mais de cem católicos redigem um manifesto dirigido à Conferência Episcopal contra a política no Ultramar e a invocação do nome de Cristo para servir de capa a um “nacionalismo exacerbado e a atitudes totalitárias que repugnam à consciência cristã”.

De facto, a atitude de Cerejeira perante a guerra colonial ficou definida no início do conflito em 1961, ao manter o silêncio sobre a detenção em Março do Vigário geral da diocese de Luanda, Mendes das Neves, acusado de ser o “chefe da organização responsável pelos actos de terrorismo”, assim como a deportação sob prisão de nove padres angolanos, entre os quais Joaquim Pinto de Andrade.

Ele, “nunca fez ouvir a sua voz para condenar a guerra colonial” (cf. Arquivo PIDE/DGS) limitando-se aqui e além a criticar a falta de financiamento do ensino católico nas colónias.

A este manifesto associa-se o episcopado de Angola com uma pastoral em meados do ano seguinte, num mês de Maio em que a repressão se abateu sobre estudantes universitários de Lisboa e sobre a Sociedade Portuguesa de Escritores que acaba por ser encerrada quando é atribuído o seu premio literário ao angolano Luandino Vieira, preso pela Pide.

Os silêncios do Cardeal Cerejeira perante o exílio imposto ao bispo do Porto e a sua inércia diante das perseguições movidas à população discente das escolas católicas mereceram violenta crítica em cartas de Cunha Leal ao Patriarca (cf. Diário de Lisboa, 13.12.1965).

Com o termo do Concílio Vaticano II surge em Portugal, em 1966, um breve Movimento de Resistência Cristã que congrega vultos como António Alçada Baptista, Bénard da Costa, numa altura que o Governo continuava a mostrar quem mandava ao vetar o nome de António para novo Bispo da Beira proposto pelo Papa. Também Manuel Falcão, Bispo de Beja, foi impedido de ser cardeal ou “sequer bispo de uma qualquer diocese” enquanto Salazar fosse presidente do Conselho, como escreveu Franco Nogueira na sua obra já aqui citada.

Foram também razões políticas invocadas para fechar a cooperativa católica Pragma, tendo os seus dirigentes sido presos porque alegadamente difundiam “ideias dissolventes e possuíam na sede panfletos do PCP e discos antipatrióticos”.

O ano seguinte, 1967, antevia-se importante para o regime por causa da visita do Papa a Fátima, a convite do episcopado português, mas Paulo VI – o Papa que Salazar assegurara que “nunca entraria em Portugal enquanto fosse vivo” – não aceita aterrar em Lisboa nem pernoitar em Portugal.

Salazar aceitou as condições papais mas ficou agastado, sempre aproveitou todos os momentos para tirar proveito político da visita oque deixa muitos católicos desiludidos, especialmente pela condecoração ao director da PIDE, Silva Pais.

Com 38 anos de patriarcado, o cardeal Manuel Cerejeira entende que é chegada a hora de um balanço, reconhecendo que o caso do Bispo do Porto abriu uma “larga ferida na consciência católica”.
O opúsculo mereceu palavras pouco elogiosas e até “desdenhosas” de Salazar que qualificou o “livrinho” de “defensivo e sem coragem para contra-atacar", da parte de um “fraco que nunca teve a coragem de castigar alguém”.

Raúl Rego respondeu ao balanço de Cerejeira mas este foi apreendido nas livrarias e o autor foi preso, tendo sido libertado a pedido de Cerejeira, por intermédio de Moreira das Neves. Também o bispo do Porto lhe lembrou o Te Deum na Catedral do Porto para assinalar um facto histórico discutível, “numa Sé ocupada num país ocupado”.

Cerejeira não acusou a recepção desta Carta de D. António Ferreira Gomes que atribuía a crise da Igreja lusa “às cuidadosas ausências do presidente do Episcopado e sobretudo às suas presenças onde não eram devidas” (cf. FERREIRA, António Gomes, in Carta ao cardeal Cerejeira, Lisboa Ed. Dom Quixote, 1996).

A contestação a Gonçalves Cerejeira alastra como uma “mancha de óleo” na década de 60, primeiro por inspiração em Ferreira Gomes, depois pela abertura do Vaticano II, cuja presença do Bispo do Porto foi difícil de gerir pela diplomacia portuguesa. 
Nuno Teotónio Pereira, António José Martins e Alçada Baptista são nomes que abalam a “cumplicidade Salazar-Cerejeira” e aceleram o crepúsculo do Cardeal.

O último ano de Salazar no Poder foi também um annus horribilis para Cerejeira, a completar 80 anos. Teve de enfrentar as duras críticas de Raul Rego e D. António ferreira Gomes e de cada vez mais sacerdotes rebeldes e lidar com a crescente hostilidade dos católicos perante a guerra colonial. 

Anunciava-se, em 1968, o crepúsculo da dupla de «amigos» que marca a vida portuguesa durante quatro décadas.

Os rostos da República: Manuel Cerejeira (09)


Chegamos ao momento do descrédito total do “príncipe” da Igreja em Portugal. Nem Salazar estava a seu lado, como se vê na inauguração do Monumento a Cristo Rei, em 1959, enviando Américo Tomás, a quem ordena discrição nas cerimónias.

O silêncio do Cardeal Gonçalves Cerejeira, face às atrocidades do regime salazarista, tornou-se “ensurdecedor e até cúmplice do regime" quando, ao chegar à fronteira de Valença, a 18 de Outubro de 1960, o bispo do Porto foi impedido pela PIDE de entrar no país, iniciando um longo exílio de dez anos.

Dos raros prelados que reagiram a esta afronta salazarista, salva-se Alves de Pinho que encoraja Cerejeira a “encabeçar um movimento de protesto de todos os bispos portugueses em defesa” do bispo banido. O pedido do Arcebispo de Luanda ficou sem resposta.

O ano seguinte é descrito como o “annus horribilis” para Salazar e o regime, com o desvio do paquete Santa Maria por um comando oposicionista, o início da guerra colonial em Angola, a invasão e anexação de Goa, Damão e Diu pela Índia e a tentativa de assalto ao quartel de Beja no fim do ano.

No decurso da campanha eleitoral para a Assembleia Nacional, em 1961, dois católicos de renome concorrem pelas listas da Oposição – Lino Neto e António Alçada Baptista – e o episcopado emite uma nota dando apoio indirecto às listas da União Nacional e lembrava que não era lícito aos católicos “votar nos comunistas” porque traíam as “suas responsabilidades”.

Intensa agitação estudantil se regista em Lisboa e Coimbra e um quartanista de direito é eleito para a presidência do CADC que Cerejeira fundara. O regime pressiona o bispo de Coimbra para não validar a eleição mas este, aconselhado por Eurico Dias Nogueira, actual Arcebispo Emérito de Braga, respeita a vontade das maiorias.

O Cardeal não escondia a preocupação com a “crescente atracção que o comunismo exercia sobre muitos militantes católicos, desesperados com as injustiças sociais e a ausência de liberdade do Estado Novo”. 

Numa tentativa de equidistância, o Cardeal Cerejeira, depois de atacar à esquerda, assestou baterias sobre a direita, condenando certo anticomunismo “por defender privilégios e combater o comunismo não tanto pelos seus erros, como pelas duas verdades e concordando com os críticos da economia liberal e da miséria imerecida” – expressão de Ferreira Gomes - dos trabalhadores” (cf. NOGUEIRA, Eurico Dias, “Louvor e sufrágio por um lousadense ímpar”, in Lusitania Sacra, p. 233.).

Aquele que um dia desabafou que “o rio Ave passara por Lousado só para me saudar quando nasci” é chamado a participar, em 1962, na abertura do Concílio Vaticano III liderando uma representação portuguesa conservadora, em que "Sebastião de Resende, Ferreira Gomes mostraram posições mais abertas ou, como Eurico Nogueira e Vieira Pinto, atitudes mais progressistas” (cf. NOGUEIRA, Franco, in Salazar, Atlântida Editora, Coimbra, Vol. V, pp. 429-444).

Salazar não escondia a sua preocupação, especialmente com a encíclica Pacem in Terris, de Abril de 1963, que abria largas perspectivas ao progressismo, que ele definiu como um “desatino”. Uma intervenção cirúrgica retém Cerejeira em Portugal, após a morte do Papa João XXIII, em Junho, mas não o impede de emitir uma nota pastoral contra o monopólio educativo do Estado, relembrando que o sistema escolar português estava longe de dar cabal cumprimento aos princípios constitucionais e concordatários de liberdade de ensino.

Neste documento rebate as acusações crescentes de que a Igreja apenas se preocupa com os filhos dos ricos mas novo problema estala nas relações entre Cerejeira e Salazar: o papa Paulo VI anuncia uma visita à Índia, para o presidir ao Congresso Eucarístico de Bombaim e não exclui uma visita a Goa. O Papa enfurece Salazar que ameaça Cerejeira de denunciar a Concordata.

Assustado, o cardeal encontra-se duas vezes com o Papa que, por fim, lhe assegura não ir a Goa nem desejar que a viagem fosse considerada um acto menos amistoso para Portugal. Salazar sossega mas mandatou Franco Nogueira para dizer ao Núncio Apostólico em Lisboa, “de uma maneira brutal”, “esperar morrer sem ver no país um Papa que tanto agravara Portugal”.

O recado do ministro deixou o Papa magoado e os bispos portugueses sentiram-se consternados, quando ainda se encontravam no Concílio, enquanto a censura dava ordens para não deixar publicar qualquer menção à visita do Papa à Índia, o que leva António Ribeiro, colaborador religioso da RTP, mais tarde Patriarca, deixar a estação ao ser-lhe vedada a realização de um programa sobre o acontecimento.

A censura cortou o discurso do Papa no jornal católico Novidades e ameaçou suspender o jornal. Estas proibições foram secundadas por Cerejeira “sob pena do governo cortar relações com a Santa Sé”. 

Quinze padres de Setúbal não aceitaram o recado do Cardeal e em Évora quatro foram presos pela PIDE.

Os rostos da República: Manuel Cerejeira (08)



A entrega de um capelão da Armada, implicado no golpe da Sé, em 1959,  por Cerejeira é o melhor exemplo da colaboração do cardeal com a PIDE mesmo que a repressão atingisse os “seus padres”.
O Cardeal não podia ignorar o que se passava na PIDE, tendo sido informado pela própria sobrinha, presa em 1963, que os “detidos eram sujeitos a tortura do sono e se ouvia à noite pancadas, gritos e corpos a cair” (cf. Arquivo da PIDE/DGS, pc. do GT n.º 688.

Outra postura lamentável de Cerejeira foi a sua postura face à Censura, uma vez que a Concordata não permitia que a imprensa Católica a ela ficasse sujeita. No entanto, o Estado violou várias vezes esse acordo internacional, como aconteceu com o Bispo da Beira ou o processo dos Bairros de Lata.

O Bispo do Porto, Ferreira Gomes, desabafou que o Patriarca tenha colaborado com a censura ao rejeitar um pedido de publicação de um esclarecimento, no “Novidades”, sobre a recusa de uma audiência solicitada em nome da Campanha de Delgado.

É nesse ano que aparece o célebre discurso jubilar em Coimbra em que o antigo professor condena os “cristãos que punham máscaras a desfigurar o rosto autêntico do cristianismo, acrescentando-lhe etiquetas".

Afirmava-se a dissidência dos “católicos progressistas”, tema de violenta crítica de Salazar numa Intervenção das Nações unidas, em Dezembro de 1958.Nessa intervenção, Salazar ameaça romper com a Concordata à qual os bispos respondem que a hierarquia sempre dera "provas de respeito pelas autoridades públicas mas, que, como cidadãos, os leigos eram livres de optar por qualquer actuação no plano político, económico, social ou cultural”.

Esta posição dos bispos portugueses anima os leigos católicos e alguns padres que não se revêem nas ideias de Cerejeira e origina a célebre carta “As relações entre a Igreja e o Estado e a Liberdade dos Católicos”. Os autores – Abel Varzim, Silva Botelho, Teixeira da Fonte, Perestrelo, Costa Pio, etc. – foram reprimidos pelo regime, perante o silêncio do Patriarca. Tinham sido assassinados, no Porto, dois opositores, pela PIDE que perseguiu os autores do texto. É o início do seu descrédito total.

Nem Salazar estava a seu lado, como se vê na inauguração do Monumento a Cristo Rei, em 1959, enviando a “marioneta” Américo Tomás, a quem ordena discrição nas cerimónias.