Monday, September 17, 2012

Os rostos da República: Manuel Cerejeira (06)


A campanha eleitoral, em 1945, com a participação de católicos no Movimento de Unidade Democrática (MUD) marca o começo de mudança na imagem de Cerejeira que começa a ser acusado de “amarrar a barca de Cristo à barca de César”.

Cerejeira sente-se obrigado a vir dizer que a Igreja “estava acima e fora da política concreta de regimes, sistemas, governos, partidos, programas, pessoas enquanto estes respeitem a liberdade da Igreja e os princípios fundamentais da ordem moral, social e política”.

O Estado Novo não atentava contra o altar e esta atitude gerou críticas de ambos os lados, especialmente o MUD porque ele não criticava o Governo e omitia a falta de liberdades e a miséria em que viviam os trabalhadores.

Cerejeira há-de recordar dez anos depois os desgostos dos anos quarenta. Um dos casos foi o movimento pacifista Metanóia, no qual estiveram activos os irmãos Sá da Costa e o padre Joaquim Alves Correia, autor de um artigo censurado e de um livro. Cerejeira desautorizou o livro e calou-se quando o autor foi forçado ao exílio, em 1946.

Também a atitude do seu amigo Francisco Veloso e do padre Abel Varzim, assistente da LOC, não deixaram de marcara o Cardeal. A intervenção de Cerejeira nas eleições de 1946 desagradou a Salazar que recusou ir a Fátima.

Também a reforma da educação primária e secundária arrefeceu as amizades entre os dois num momento em que aparece na cena política portuguesa o Partido Comunista Português. Em 1947, Álvaro Cunhal piscava o olho aos trabalhadores católicos mas condenava a Hierarquia pelo apoio quedava ao regime e mandatar o clero a pregar “o ódio aos comunistas” e se colocar ao lado do Estado Novo, “um cardeal milionário, com acções na Mabor, sempre ao serviço dos ricos, querendo falsamente fazer-se passar por pobre” (cf. Arquivo da PIDE/DGS.)

A Acção Católica começava a distanciar-se do regime e a denunciar a precária situação dos trabalhadores, com o Padre Abel Varzim a insurgir-se contra “o abandono por parte do Estado dos operários à avidez de muitos miseráveis patrões”.

O seu jornal “O Trabalhador” era extinto em 1948 e o padre Abel Varzim é afastado dos cargos que ocupava. Cerejeira abandonava o padre crítico avisando os militantes da Acção católica que não lhes cabia lutar pela emancipação total da classe operária.

Começava aqui o afastamento crescente entre a Igreja e os trabalhadores “tocados pelo fermento revolucionário” e as acusações de comprometimento da Igreja com o Estado não cessavam de crescer, mesmo no seio dos católicos, entre os quais se contavam Orlando de Carvalho, do CADC de Coimbra.

Fazendo passar a ideia de que Norton de Matos era anticlerical, o Estado Novo consegue novo fôlego nas presidenciais de 1949. Calando a oposição através da Censura, Cerejeira refugia-se dentro da Igreja e só voltou a falar da política na ocupação indiana de Goa, Damão e Diu. Os problemas da Igreja nas Colónias ou dos movimentos operários tiveram a indiferença como resposta do Cardeal... que ia perdendo qualquer autoridade moral diante dos portugueses e dos católicos insatisfeitos com o endurecimento do velho regime, durante a década de 50.

Impondo Fátima ao país, cultivando a pompa e circunstância, satisfazendo o seu apetite por longas viagens, aquele que tinha sido uma referência dos portugueses contra os apetites vorazes do regime caíra em progressiva decadência...ostentada em miríades de sessões solenes banais e encenadas para amortecer a queda do regime.
Anunciava-se um ano de 1958 de verdadeira crise para a Igreja portuguesa, com o abalo causado pela campanha do general Humberto Delgado que aglutinou à sua volta muitos católicos que se ergueram contra este Estado Novo.


Os rostos da República: Manuel Cerejeira (05)


Nesta altura, o Cardeal Cerejeira tentava reivindicar mais para a Igreja, manifestando preocupação pela ausência do projecto de isenção de impostos para as residências paroquiais e episcopais, bem como dos dias feriados.

No ano de 1938, o ministro da Educação Nacional convida o cardeal a visitar o acampamento nacional da Mocidade Portuguesa (MP) mas ele declinou o convite argumentando que ficara dolorosamente surpreendido com idêntico convite feito à Juventude hitleriana, o que era “ofensivo e perigoso para a consciência católica portuguesa” bem como “pouco digno da altivez nacional, sabido o inferior conceito que os alemães têm de nós, filhos (segundo eles) de uma raça inferior e negróide” (cf. Geraldes Freire, in Resistência católica, já citada).

A mesma ideia sobre a MP repassa num discurso proferido no final desse ano ao clero de Lisboa, um ano depois de condenar o comunismo, o que motivou protestos do embaixador alemão em Lisboa. Cerejeira limitava-se a citar “Mit brennender Sorge” do Papa Pio XI, contra os excessos do regime hitleriano, preocupado com o facto dos regimes totalitários sufocarem a Acção Católica.

Para Cerejeira era certo que o nazismo queria limitar a religião aos templos e substituir a “concepção cristã pela Weltanschauung racista” erigida em nova religião da Nação.

Recusando a tutela eclesiástica do Estado e a tutela política da Igreja, com a morte de Pio XI e a eleição de Pacelli (Pio XII) desenvolve esforços para acelerar a concordata com Portugal, "essa nação tão gloriosa que tanto fez pela dilatação da fé, nação nobre, que está renascendo”.

Em 1 de Setembro desse ano de 1939, começava a II Guerra Mundial, com a invasão da Polónia pela Alemanha e Salazar proclamava a neutralidade. Cerejeira avisava que “alguém no seu louco orgulho (Hitler) de resolver pela força as questões dos homens, acaba de lançar fogo ao mundo” e uns dias mais tarde, era Mussolini o alvo das críticas de Manuel Cerejeira.

Lamentavelmente, Cerejeira não deixou de apoiar outros regimes autoritários e fascizantes porque eram amigos do catolicismo. Vejam-se os casos de Pétain e de Salazar.

Enquanto a guerra alastrava, o Estado assinava com a Santa Sé a Concordata e o Acordo Missionário que não deixaram Salazar satisfeito porque o Vaticano cedeu nas indemnizações à Igreja dos bens expropriados no fim da monarquia.

Foi tão difícil o acordo por causa das questões do casamento e do divórcio que o cardeal Ciriacci, núncio em Lisboa, definiu Cerejeira como “encarnação viva do demónio”.

O mesmo se passou com o reconhecimento das tarefas da Acção católica mas aqui acabou por não haver acordo, por intransigência de Salazar. A Igreja recuperava os templos e seminários que lhe tinham sido retirados mas os paços episcopais não ficaram isentos de impostos, como desejava Cerejeira.

Numa visita a Moçambique para a inauguração da Catedral de Lourenço Marques (Maputo) , em 1944, deixa escapar uma leve alusão à futura independência das colónias.

Em 1945, com a paz assinada, Cerejeira agradece a Salazar pela “defesa de Portugal do flagelo da guerra” e tratava-o como “um eleito, quase um ungido de Deus” mas de seguida alertava-o para “a urgência de distribuir víveres necessários ao sustento do povo, em vez de os deixar a apodrecer nos celeiros”.

Os rostos da República: Manuel Cerejeira (04)


É Manuel Gonçalves Cerejeira quem pressiona António Oliveira Salazar a aceitar o cargo de ministro das Finanças em Abril de 1928.

A portaria dos sinos gera um conflito que leva à demissão do primeiro-ministro, antecedida da demissão de Salazar que não é aceite e acaba por reforçar a sua posição.

Em Novembro de 1929, Cerejeira era nomeado Patriarca de Lisboa e, automaticamente, cardeal, o mais jovem membro do Colégio dos Cardeais, sendo conhecido como “Cardeale bambino”.

Cerejeira beneficiava da conjura dos sinos, porque a primeira escolha foram os Arcebispos de Évora e de Braga (Manuel Vieira de Matos) e, entretanto, Salazar criava dois pilares do regime – Acto Colonial e a União Nacional, em 1930 - , enquanto Cerejeira enervava o ditador com pedido de amnistia para alguns opositores. Salazar vai apresentar cumprimentos a Cerejeira e separam-se as águas. Cerejeira e Salazar despediram-se com “um aperto de mão que não foi igual a nenhum dos anteriores. As relações colaborantes passaram a ser frias e graves” – descreve Franco Nogueira.

Ao reivindicar a Liberdade para a Igreja, na chegada ao poder de Salazar, em 1932, Manuel Cerejeira coloca-se contra o comunismo e o totalitarismo de Estado.
Nessa perspectiva, compreendemos melhor a crítica à participação de católicos nas listas da oposição e nim à criação do Partido da Unidade Nacional.

A política era um negócio para Salazar enquanto o de Cerejeira passava pela “defesa dos princípios do regime, independência da Igreja e das legítimas liberdades do ser humano”.

A longa vida de Manuel Gonçalves Cerejeira foi terreno de irónicas contradições e de inúmeros efeitos perversos.
Garantida a independência da Igreja, a JOC e a Juventude Universitária tornaram-se os primeiros sinais de independência da Igreja face ao Estado novo.

Emancipar a Igreja, numa linha de independência na respectiva esfera e cooperação no terreno comum em que os dois poderes se encontravam” era a linha de acção do Cardeale Bambino. Foi assim que bateu o pé ao ministro António Carneiro Pacheco, quando este lhe pediu que dissolvesse o Escutismo Católico (cf. José Geraldes Freire, in Resistência Católica ao Salazarismo-Marcelismo, Porto, Telos, 1976, pp. 206-208).

O presidente do Conselho nunca ouviu as súplicas e queixumes do Cardeal porque achava que “cada um estava no seu papel” e a verdade é que Cerejeira nunca fez “o jogo das oposições, levantando a voz a condenar o regime” - como reconheceu mais tarde Marcelo Caetano.

Salazar há-de negar qualquer relação entre os católicos e a sua ascensão ao poder como resposta ao apelo de Cerejeira para que os católicos não caiam na “tirania pagã de César ou na tirania bárbara de Lenine”, pelo que os padres se deviam limitar à política do “padre-nosso” para fazer “reinar a justiça e a caridade”.

Chegávamos a 1933 quando o regime criava os pilares da repressão (PVDE e depois PIDE e o Secretariado Nacional de Propaganda, com o plesbicito da Constituição. O Estado Novo afirmava-se com o fracasso da greve geral de 18 de Novembro de 1934 e a ilegalização do Movimento Sindicalista de Rolão Preto.

Cerejeira lutou pela representação da Igreja na Câmara Corporativa e pelo ensino oficial segundo os princípios da “doutrina e moral cristãs, tradicionais do país”, mas teve de aceitar a Legião Portuguesa, a Mocidade Portuguesa e a Obra das Mães, abrindo o Campo de concentração do Tarrafal e a organização militar para adultos. A Mocidade Portuguesa gerava desconfiança a Cerejeira que lançou a Acção Católica que em 1940 já tinha 41 mil associados.

O Cardeal Cerejeira aproveita a encíclica contra o comunismo, de 1931, para condenar a revolução totalitária que conduzia “à miserável igualdade na escravidão”e a bomba dos anarquistas, a 4 de Julho de 1937, é aproveitada para engrossar a “lenda do carácter providencial de Salazar em inúmeras manifestações de apoio e missas de agradecimento organizadas pelo regime e pela Igreja”.

Cerejeira aproximava-se de Salazar e não tardava a ouvir-se, em 1940, Cerejeira bradar por “honra e glória ao Estado Novo, que, no ano jubilar da Nação portuguesa, institui uma ordem nova na qual se afirma a paz a e harmonia da Igreja e do Estado, pelo reconhecimento dos direitos daquela e garantia dos legítimos interesses deste”.

Daí a afirmar que “cabe aos cristãos derrotar o comunismo” foi um pequenino passo gigantesco a que o Estado Novo deve responder com “reformas para assegurar à classe operária as condições para uma existência humana e cristã, com o necessário à sustentação da vida, da família, da habitação e da educação”.


Os rostos da República: Manuel Cerejeira (03)


A assistência religiosa aos soldados na frente de guerra foi uma bandeira, em 1917, liderada por Cerejeira.

É um ano grandioso para os católicos, com as aparições de Fátima, e de grande excitação, com a revolta de Sidónio Pais.
Sidónio é recebido em Coimbra por uma comissão da qual faz parte Oliveira Salazar e no jantar compareceu também Manuel Cerejeira.

Percebe-se desta profunda amizade de juventude que Cerejeira sempre tenha recusado qualificar de totalitário o regime, realçando antes o facto deste, através da Constituição de 1933, reconhecer à Igreja e às famílias um espaço de actuação na educação.

Em 1918, Cerejeira doutorou-se em Ciências Históricas e Geográficas, com uma dissertação sobre Clenardo – uma vítima da Inquisição - e o Renascimento em Portugal que obteve vinte valores, tendo um dos membros do júri sublinhado o “talento Formosíssimo e brilhante, a vastidão dos seus conhecimentos, o seu espírito científico, superiores qualidades de método e exposição”.

Com Sidónio, a questão religiosa é atenuada, com regresso dos bispos exilados e reatamento das relações com o Vaticano.
Cerejeira prepara-se para ser professor na área do seu doutoramento, usando-a para legitimar o papel universal e nacional da Igreja pelo que o homem moderno não devia adorar o Estado, a raça, a nação ou classe. Aquilino Ribeiro, António Sérgio ou Ferreira de Castro contam-se entre os seus admiradores e Fernando Namora chegou a descrevê-lo como “homem de letras de alta estirpe” com um “temperamento receptivo à novidade”.

No entanto, Namora distingue as duas fases da vida de Cerejeira, a “do jovem brilhante universitário de Coimbra” e a “do intelectual revestido de pesadas funções de cardeal de Lisboa”, num período de comprometimento com a ditadura, com “rumores de divergências crescentes” entre o guia da Igreja e o Chefe de Estado Novo (cf.  Moreira das Neves, in “Sentados na Relva”).

Nesta altura, Cerejeira e Salazar continuavam a viver e a almoçar muitas vezes juntos, notando-se cada vez mais a diferença de temperamentos. À simpatia, alegria e sentimento do primeiro, o segundo respondia com dureza, sobriedade e organização reservada e fria.

Cerejeira dizia que Salazar “tinha durezas joaninas (D. João II) e fraquezas femininas” enquanto o segundo o definia como “um bárbaro literário”.

Em 1925, ambos integram a direcção coimbrã do Centro Católico Português que consegue eleger quatro deputados aquando da renúncia de Manuel Teixeira Gomes, que abre caminho à intentona organizada a partir de Braga, pelo Marechal Gomes da Costa, para impor a ditadura e extinguir a I República.

O Patriarcado de Lisboa foi envolvido no golpe e o CCP começa a colaborar com a ditadura, enquanto Cerejeira se dedicava a uma produtiva fase de investigação histórica e publicava uma das suas obras mais emblemáticas “A Igreja e o pensamento contemporâneo”, uma tentativa de reconciliar a ciência com a religião.

Dois anos depois, ele e Salazar, trocam Coimbra por Lisboa, para iniciar a “época de ouro” das suas vidas.

Quem sou eu? De mim não sou nada; e se tirardes o que Deus na sua misericórdia pôs em mim, só encontrareis de próprio o pecado. Mas, se olhais à obra da graça em mim, reconhecereis que sou o novo Apóstolo que vos é enviado em nome do Senhor, ao qual foi dada a missão de governar a sua Igreja”, em Portugal. Estas palavras  destacam-se da sua primeira saudação ao clero e fiéis de Lisboa, em 1930.

A ditadura tinha satisfeito os católicos ao separar os sexos nas escolas e assinar acordo com Vaticano referente ao Padroado no Oriente. Cerejeira tinha 40 anos e era o quase patriarca mais jovem na história de Lisboa. É Cerejeira quem pressiona Salazar a aceitar o cargo de ministro das Finanças em Abril de 1928, deixando assim “rebentar o vulcão de ambições” e “ser útil à Igreja”.

Cerejeira lembra a Salazar que ele está no posto de ministro como “emissário dos amigos de Deus” e felicita-o quando ele apresenta o seu primeiro orçamento para 1929.

Os rostos da República: Manuel Cerejeira (02)


Foi ordenado diácono em Abril de 1911, quando por Lousado passava um comboio especial levando Afonso Costa a caminho de Braga para pronunciar um discurso a favor da Lei da Separação entre a Igreja e o Estado.

Manuel Gonçalves cerejeira dava o primeiro passo decisivo para uma carreira sacerdotal que sonhara ter ao “esconder-se um dia, com os humildes párocos do rebanho cristão, em qualquer aldeia minhota”, depois de entrar no Seminário Conciliar de S. Pedro e S. Paulo de Braga, aos 18 anos.

Nascido no seio de uma família famalicense de agricultores e oficina-venda de tamancos, não foram os magros proventos que impediram a educação de quatro filhas, uma delas religiosa, e quatro filhos. Manuel era o mais velho da prole e seguiu a carreira eclesiástica enquanto os outros foram pelos caminhos da medicina, advocacia e funcionalismo.

Terminada a instrução primária, aos 11 anos, em 1899, matricula-se no Seminário da Senhora da Oliveira em Guimarães, onde conclui os estudos com excelentes notas e é na cidade-berço que descobre a sua vocação sacerdotal.

Em 1903 é convidado pelo Arcebispo de Braga a fazer o discursos do cinquentenário do dogma da Imaculada Conceição.
Em 1908 é convidado para fazer a saudação ao arcebispo de Westminster, de passagem por Braga, a caminho de Santiago de Compostela, sendo descrito pelos seus professores como “afável, humilde e piedoso”.

É então que é convidado a escrever no jornal coimbrão “A Palavra”e a fazer a oração fúnebre pelo fim trágico do rei D. Carlos.

Na sua juventude, Manuel Cerejeira vive a revolução da República coma expulsão dos jesuítas, a extinção dos conventos, mosteiros e hospícios  religiosos, seguindo-se a secularização dos cemitérios, o juramento religioso e extinção do ensino religioso nas escolas bem como dos feriados religiosos.

Cerejeira conclui o curso na Faculdade de Letras e muda-se depois para Direito, integrando o CADC (Centro Académico de Democracia Cristã), criando em 1901 para estimular os católicos a entrar no jogo político, no seio do regime liberal, de forma suprapartidária, para defender os interesses da Igreja.

Depois de um assalto ao centro, Cerejeira participa na criação da Federação das Juventudes Católicas Portuguesas que conduz à reactivação do CADC, em Maio de 1912, onde Oliveira Salazar e Manuel Cerejeira eram dirigentes de topo. Manuel cerejeira era também director de “Imparcial” e o primeiro número do jornal conta com a colaboração de Oliveira Salazar, sob pseudónimo, para “atear energias poderosas por esse país, levar-lhe a esperança e a fé” para além de “conservar a mocidade acima das facções partidárias”.

Isto faz com que o jornal do CADC seja atacado tanto por republicanos como por monárquicos, forçando o seu encerramento em Outubro para reabrir em 8 de Dezembro com o primeiro discurso público de Oliveira Salazar.
O CADC afirmava-se como a escola superior dos estudantes católicos sem pretensões de ser um “Centro político”.
Era uma altura em que Cerejeira admirava a capacidade intelectual e o rigor de Salazar. 

No ano 1914, Cerejeira convida o amigo Salazar para ir morar com ele na casa dos Grilos e Salazar aceitou, começando a partilhar a intimidade e os amigos.
Salazar apoiava financeiramente Cerejeira e ajudava-o a missa, enquanto este visitava nas suas férias em santa Comba e o aconselhava especialmente nos amores.

Segundo Cerejeira, o seu amigo tinha pensado casar com uma jovem milionária de Lisboa e Cerejeira lembrou-lhe que Salazar não “lhe poderia dar uma vida ao nível do que estava habituada” e sabia que o amigo era orgulhoso ao ponto de “não aceitar viver às custas do dinheiro de mulher e da sua família”.

Com um amor muito forte à mãe, o cardeal Manuel Cerejeira, após deixar o jornal Imparcial, dedica-se ao arquivo da Universidade até à I Guerra Mundial, e que o Imparcial e o CADC apoiaram a participação de Portugal. 

A assistência religiosa aos soldados na frente de guerra foi uma das bandeiras dos católicos, em 1917.

Os rostos da República: Manuel Cerejeira (01)


Quando alguém escreve que “a Igreja em Portugal não tem, nem quer ter – a menos que o estado lhe declare guerra – a menor influência política”, todos (à luz dos ideias do nosso tempo) temos o dever de estar em completo acordo. Mas, quando dizemos que foi o Cardeal António Cerejeira quem escreveu isto, ou nos sentimos diante do “prelado de um regime” ou, como lhe chamaram, perante o Cardeal com duas faces.

A imagem que perdura de Manuel Gonçalves Cerejeira sofreu várias mudanças após o período da ditadura de Salazar e em mais de trinta anos de democracia.

A seguir ao 25 de Abril de 1974, Cerejeira passou de chefe da igreja Portuguesa admirado pelos católicos a figura ambígua, enfeudada ao sistema ditatorial, legitimador dos desmandos do Governo do Estado Novo e da PIDE.

Trinta e cinco anos após a sua morte, em 1977, passa a ser de novo admirado por alguns, como um defensor da Liberdade e da Independência da Igreja, mesmo se teve de entrar em compromissos com o Estado, embora uma grande maioria diga que isso é uma mistificação, acusando-o de ter sido quem “atou a barca de Pedro ao mastro de César, um César ditatorial”.

Para Irene Flunser Pimentel (cf. Cardeal Cerejeira, ed. Círculo de leitores, Lisboa, 2002) permanece a “visão de Cerejeira e Salazar, amigos e cúmplices, (...) de uma hierarquia católica enfeudada ao estado Novo e de um ditador protector da Igreja e servindo-se dela”.

Cerejeira continua a surgir como o bispo reaccionário, elitista, cardeal de vestes luxuosas, com gestos exuberantes e exibicionistas, sendo uma “figura chocante na sua ostentação, num país de católicos, maioritariamente a viver na miséria e submetidos a uma Igreja rica e a um Estado opressivo e corporativo” que usa a caridade “para afirmar a sua boa consciência”.

Pessoalmente, as opiniões dividem-se entre o “simpático e caloroso ou distante”, até ao cardeal que tratava os seus padres como “filhos impossibilitados de atingir a maioridade”.
Há quem o defenda como alguém “capaz de fugir às questões difíceis, tolerante, defensivo, hesitante e fraco – como dizia o seu amigo Salazar – ou o defina como “interventivo, severo e castigador que não hesitava em purgar os abcessos, usando métodos estalinistas”.

De ambíguo a hipócrita ou de amante da riqueza e do espectáculo a humilde, simples, amante da pobreza são vários os acentos que se lhe colocam.

Sabe-se que Cerejeira conheceu e tornou-se amigo de Salazar na juventude e seguiu um caminho diferente desde que o amigo foi para o Governo e ele para a chefia da Igreja mas não lhe é perdoado o silêncio perante a violência política, da censura e das vítimas da repressão, com o único objectivo de manter a independência da Igreja.

Todas as opiniões podem conter uma parte da realidade, mas há uma certeza ainda hoje: Cerejeira motivou tudo menos indiferença e marcou uma época, no campo eclesial e no espaço político e social.

Há uma pergunta interessante a fazer: como terá olhado ao morrer, contente de ser pobre e desejoso de ser enterrado numa campa rasa para os seus quase 90 anos de vida?

Como recordou o distante ano de 1888, em que nasceu numa zona rural do Minho, em Famalicão, no seio de uma família pobre e católica, que conseguiu através dos estudos no Seminário de Braga fazer com que ele fosse uma figura marcante do regime e não um obscuro pároco de aldeia?

Como Salazar, foi através do Seminário que Cerejeira conseguiu chegar ao trono de Minerva, em Coimbra, num percurso de ambos que não deixa de ser coerente e é fruto daquele tempo.
Ambos defendem em Coimbra a democracia cristã dos finais do séc. XIX, orgânica e corporativa contra a monarquia e o republicanismo, com a salvaguarda da liberdade de acção e de culto da Igreja.

Ambos permaneceram solteiros, mas por razões diferentes, para servir melhor a Igreja (num caso) e o Povo (no outro) mas tinham temperamentos diferentes.

O Cardeal é definido como “malicioso, apaixonado, extrovertido, irónico, romântico, sentimental, descuidado, desordenado, inovador, simpático, alegre, sensual e hesitante” contra um beirão “sisudo, racional, frio, reservado, discreto, metódico, infeliz, ordenado, organizado, avesso a novidade, orgulhoso, ambicioso, contraditório, austero e feminino". A hesitação era a única característica comum, encoberta pelo uso da força que lhes desfazia a imagem de incapacidade de decisão e de escolhas.

Aluno brilhante em Coimbra, Manuel Cerejeira doutora-se em história e assume-se como professor e investigador, procurando a legitimação  do catolicismo, do conservadorismo e do nacionalismo.

Lendo muito, manteve correspondência com adversários políticos e religiosos, excepto aqueles que não fossem tocados pela “heresia da nossa idade”, o marxismo.

Como cardeal, perdurou na nossa memória colectiva como alguém rendido ao Estado Novo, que nunca protestou perante as violências do regime, as torturas, as prisões, a PIDE, a Censura, a guerra colonial, a miséria e a ausência total de liberdades.

Ele é a corporização d uma Igreja que se “serviu do regime para influenciá-lo e manter privilégios”, através de meros encontros pessoais e protocolares.

Quando foi criada a Mocidade portuguesa, Cerejeira temeu pelo controlo da educação da juventude, oferecida por Salazar e “enervou-se” porque a Igreja de Cerejeira era a “principal defensora dos direitos da família e da Juventude, para disputar ao estado a influência sobre estas”.

Assim, a Igreja mantinha o “direito exclusivo de actuar no seu seio e catequizá-los” e Cerejeira cuidou, em primeiro ligar, de assegurar a independência da sua Igreja, ao ponto de Cerejeira defender o Estado Novo plesbicitado na constituição de 1933.

É por isso que Cerejeira, apesar de tudo, aprova a Concordata sem exigir maior apoio financeiro estatal ao clero e indemnizações à Igreja por causa das confiscações de 1910.

O que preocupava Cerejeira não era a essência do regime ditatorial mas os ataques à Igreja e à Acção católica, daí que tenha recusado sempre qualificar o governo de Salazar como autoritário

Saturday, May 12, 2012

Os rostos da República de A a Z: Bernardino Machado (07)


Veio o 28 de Maio e Bernardino chama ao Governo o general Cabeçadas, renunciando e transferindo para eles as funções presidenciais.

Bernardino não quis pactuar com a ditadura nem com ditadores. Quis ele próprio ir-se embora, sem ser escorraçado. Quem o pode condenar, depois das acusações dos democráticos, em 1917?

Em Lisboa, na sua casa, assistiu à queda sucessiva de Cabeçadas e de Gomes da Costa e ao assalto do poder pelos grupos anti-republicanos dos Carmonas e dos Sineis de Cordes e retoma o combate, com os resistentes à Ditadura, com “A política e o poder militar”, primeiro de uma longa série de opúsculos que iniciava a conspiração até ser forçado a abandonar o país em 1927.

Dez anos depois, a situação repetia-se e Bernardino machado partia para Vigo num país que não era o lugar indicado para um ex-presidente democrático.

Em Julho, busca asilo em França, onde reside até 1932.
Aos 76 anos, aquele homem era considerado um perigo para a segurança dos ditadores, iniciando o período mais amargo e duro da sua vida.

As sucessivas amnistias – para branquear o regime ditatorial – excluíam-no sempre, para o forçar a calar-se, a abandonar o combate, a domá-lo servindo-se da sua idade mas não o conseguiram.

Ele e Afonso Costa representam até 1932 a difícil unidade da Oposição à Ditadura, através de panfletos virulentos e certeiros. Dirigiu-se várias vezes aos chefes de Estado, à Sociedade das Nações protestando contra o reconhecimento da Ditadura.

O ódio dos ditadores era tanto que chegaram a prender-lhe os filhos e outros familiares e aplicando-lhes multas exorbitantes de 200 contos.

Estabilizada a República em Espanha, Bernardino aproxima-se da Pátria e fixa-se em L a Guardiã, frente a Caminha, a dois passos do seu rio Minho, de onde se vê Portugal.

O ancião de 80 anos, esperando a morte a todo o momento, sentia-se mais perto da Pátria que nunca quis abandonar, na esperança de visitar clandestinamente familiares, amigos e pisar a sua terra de infância.

Bernardino Machado não afrouxou o seu combate e valeram nesta altura as influências de Afonso Costa junto dos irmãos mações espanhóis para evitar o internamento forçado de Bernardino... que foi obrigado a sair da fronteira e fixar-se na Corunha, em 1935, e Madrid, onde eclode a Guerra civil.

Novo elã anima Bernardino com a resistência republicana e democrática espanhola, antevendo o contágio a Portugal. Mas era necessário sair de Madrid, cidade cerca pelas hostes franquistas, pelo que aos 85 anos se vê forçado a abandonar a casa  e viajar para Valência e daí para França, em Outubro, a conselho de Afonso Costa. 

O seu combate prossegue mas de modo mais frouxo, com a morte de Afonso Costa, em Maio de 1937, um duro golpe para o ancião.

Com o eclodir da II Guerra Mundial redige um manifesto e Salazar responde com a amnistia que o inclui em Maio de 1940.
Paris caía em Junho, convencendo Bernardino a viajar para Portugal, numa epopeia que Jaime Cortesão narra de forma inesquecível. 

É a hora da grande angústia com a queda de França, numa fuga de comboio em terceira classe, apinhada, incómoda, que traz um ancião que encarnava um século de história e voltava à Pátria após treze anos de exílio.

Era o momento da traição que a Pátria lhe preparara: ao chegar à fronteira de Vilar Formoso, é detido e levado para uns infectos cárceres em Lisboa. 

Depois de um violento telegrama enviado a Salazar, este desterra-o para uma residência a norte do rio Douro.

A 29 de Junho parte para Paredes de Coura, onde tinha casa e bens e é entre o Porto e Coura que viver os últimos quatro anos de vida, vivendo a dor de perder a companhia da mulher, momentos antes da alegria da entrada dos Estados Unidos e da União Soviética na II Guerra Mundial e das primeiras grandes vitórias dos aliados.

Em Meados de Abril de 1944 é internado num Hospital do Porto, vindo a falecer no penúltimo dia desse mês, rejeitando qualquer homenagem dos ditadores portugueses.

Era a grande e profunda lição da sua vida: o combate à opressão sem tréguas, em todas as suas formas, a luta permanente pela liberdade e pela democracia, assente na lei da solidariedade humana, na prática da justiça e na dedicação com a Pátria. Mesmo na morte, “não faltou ao Juramento que fizera como Presidente da República portuguesa” – escreve Oliveira Marques.