Saturday, May 12, 2012

Os rostos da República de A a Z: Bernardino Machado (07)


Veio o 28 de Maio e Bernardino chama ao Governo o general Cabeçadas, renunciando e transferindo para eles as funções presidenciais.

Bernardino não quis pactuar com a ditadura nem com ditadores. Quis ele próprio ir-se embora, sem ser escorraçado. Quem o pode condenar, depois das acusações dos democráticos, em 1917?

Em Lisboa, na sua casa, assistiu à queda sucessiva de Cabeçadas e de Gomes da Costa e ao assalto do poder pelos grupos anti-republicanos dos Carmonas e dos Sineis de Cordes e retoma o combate, com os resistentes à Ditadura, com “A política e o poder militar”, primeiro de uma longa série de opúsculos que iniciava a conspiração até ser forçado a abandonar o país em 1927.

Dez anos depois, a situação repetia-se e Bernardino machado partia para Vigo num país que não era o lugar indicado para um ex-presidente democrático.

Em Julho, busca asilo em França, onde reside até 1932.
Aos 76 anos, aquele homem era considerado um perigo para a segurança dos ditadores, iniciando o período mais amargo e duro da sua vida.

As sucessivas amnistias – para branquear o regime ditatorial – excluíam-no sempre, para o forçar a calar-se, a abandonar o combate, a domá-lo servindo-se da sua idade mas não o conseguiram.

Ele e Afonso Costa representam até 1932 a difícil unidade da Oposição à Ditadura, através de panfletos virulentos e certeiros. Dirigiu-se várias vezes aos chefes de Estado, à Sociedade das Nações protestando contra o reconhecimento da Ditadura.

O ódio dos ditadores era tanto que chegaram a prender-lhe os filhos e outros familiares e aplicando-lhes multas exorbitantes de 200 contos.

Estabilizada a República em Espanha, Bernardino aproxima-se da Pátria e fixa-se em L a Guardiã, frente a Caminha, a dois passos do seu rio Minho, de onde se vê Portugal.

O ancião de 80 anos, esperando a morte a todo o momento, sentia-se mais perto da Pátria que nunca quis abandonar, na esperança de visitar clandestinamente familiares, amigos e pisar a sua terra de infância.

Bernardino Machado não afrouxou o seu combate e valeram nesta altura as influências de Afonso Costa junto dos irmãos mações espanhóis para evitar o internamento forçado de Bernardino... que foi obrigado a sair da fronteira e fixar-se na Corunha, em 1935, e Madrid, onde eclode a Guerra civil.

Novo elã anima Bernardino com a resistência republicana e democrática espanhola, antevendo o contágio a Portugal. Mas era necessário sair de Madrid, cidade cerca pelas hostes franquistas, pelo que aos 85 anos se vê forçado a abandonar a casa  e viajar para Valência e daí para França, em Outubro, a conselho de Afonso Costa. 

O seu combate prossegue mas de modo mais frouxo, com a morte de Afonso Costa, em Maio de 1937, um duro golpe para o ancião.

Com o eclodir da II Guerra Mundial redige um manifesto e Salazar responde com a amnistia que o inclui em Maio de 1940.
Paris caía em Junho, convencendo Bernardino a viajar para Portugal, numa epopeia que Jaime Cortesão narra de forma inesquecível. 

É a hora da grande angústia com a queda de França, numa fuga de comboio em terceira classe, apinhada, incómoda, que traz um ancião que encarnava um século de história e voltava à Pátria após treze anos de exílio.

Era o momento da traição que a Pátria lhe preparara: ao chegar à fronteira de Vilar Formoso, é detido e levado para uns infectos cárceres em Lisboa. 

Depois de um violento telegrama enviado a Salazar, este desterra-o para uma residência a norte do rio Douro.

A 29 de Junho parte para Paredes de Coura, onde tinha casa e bens e é entre o Porto e Coura que viver os últimos quatro anos de vida, vivendo a dor de perder a companhia da mulher, momentos antes da alegria da entrada dos Estados Unidos e da União Soviética na II Guerra Mundial e das primeiras grandes vitórias dos aliados.

Em Meados de Abril de 1944 é internado num Hospital do Porto, vindo a falecer no penúltimo dia desse mês, rejeitando qualquer homenagem dos ditadores portugueses.

Era a grande e profunda lição da sua vida: o combate à opressão sem tréguas, em todas as suas formas, a luta permanente pela liberdade e pela democracia, assente na lei da solidariedade humana, na prática da justiça e na dedicação com a Pátria. Mesmo na morte, “não faltou ao Juramento que fizera como Presidente da República portuguesa” – escreve Oliveira Marques.

Os rostos da República e A a Z: Bernardino Machado (06)


Ferido até ao íntimo da alma, Bernardino Machado nunca se deixa abater, mantendo uma serenidade irritante, nunca deixando de lutar, através de encontros com políticos ingleses e franceses e através de entrevistas a jornais.

Em Maio de 1918 sofre um rude golpe, quando Londres e paris reconhecem o governo de Sidónio Pais. Novo golpe o atinge quando a sua filha Maria, morre de pneumonia, em Outubro.

O assassinato de Sidónio, em Dezembro, dá-lhe a esperança de breve regresso à sua Pátria e reintegração no cargo a que nunca renunciara, mas a desilusão causada pelos republicanos foi atroz.
Desiludido, Bernardino Machado renuncia ao mandato presidencial, a 18 de Fevereiro de 1919.

O parlamento conforta-lhe a alma quando considera nulo o acto sidonista da sua destituição violenta. 

A Constituição não permitia que Bernardino sucedesse a si próprio e ele não pôde candidatar-se às presidenciais de 1919, abrindo a porta à eleição de António José de Almeida, que permite o seu regresso a Portugal.

Era o único que restava da falange dos velhos republicanos e era tempo para descansar e escrever as suas memórias e aguardar a morte serenamente. Mas não era conjugável com Bernardino Machado. Agora era o seu amor próprio que exigia ser reparado, germinando assim a sua recandidatura em 1923.

Combatendo o sidonismo, reincarnação do Portugal absolutista, autocrático, reaccionário de D. Miguel, de Costa Cabral, de João franco e Pimenta de Castro.

Neste panorama triste, Bernardino representava um passado de glória, reluzindo num Senado, para o qual foi eleito em 1919, no meio de uma obscuridade confrangedora. 

É chamado por António José de Almeida para chefiar o Governo, em 1921, tentando uma “concentração das esquerdas” mas sobrepuseram-se ódios e partidarismos exacerbados mas apenas fica nas história por ter levantado o túmulo ao Soldado desconhecido. 

Acusado de querer derrubar o Presidente da República, a 21 de Maio sucumbiu para dar lugar a um Governo das Direitas. Desiludido não quis dividir mais os republicanos e rejeita ser senador e deputado até que acontece a noite sangrenta, a 19 de Outubro. Bernardino recusa candidatar-se.

Em 1923, as esquerdas preferiram Teixeira Gomes que já fora seu candidato a Presidente em 1919 mas Bernardino não se conformou com esta “profunda ingratidão” dos seus pares... até que a Direita de Cunha leal lhe oferece apoio a uma candidatura.

Bernardino Machado aceita mas não consegue ser eleito. Nesta nova desilusão, Bernardino perde a sua serenidade e elegância, contra Afonso Costa.

O presidente eleito pediu a demissão de um cargo para o qual não estava preparado e os democráticos não tiveram repugnância em propor Bernardino para o complemento do mandato.

A 11 de Dezembro de 1925, o idoso homem de Estado via-se empossado novamente no cargo de Presidente da República, de que fora esbulhado oito anos antes.

Mas estava escrito que nunca terminaria um mandato... após seis meses de crise social, política e económica em que o parlamento se tornou uma “assembleia de batuque e de chicana permanentes”.

Nos bastidores, as direitas, monárquicos e fascistas conspiravam e provocavam a desordem e o descrédito do bota-abaixo que incitava o exército a tomar o poder.

Bernardino machado não dormia e esperava o começo das férias parlamentares de Junho de 1926 para tratar de substituir o Governo mas não sabia que a conspiração estava tão desenvolvida e ramificada nem que pudesse eclodir tão depressa, com o Marechal Gomes da costa, a partir de Braga.

Veio o 28 de Maio e Bernardino chama ao Governo o general Cabeçadas, renunciando e transferindo para eles as funções presidenciais.

Bernardino não quis pactuar coma ditadura nem com ditadores. Quis ele próprio ir-se embora, sem ser escorraçado. Quem o pode condenar, depois das acusações dos democráticos, em 1917?

Os rostos da República de A a Z. Bernardino Machado (05)


Os radicais empurravam Bernardino para a Presidência da república, dado o seu prestígio, alcançado enquanto Ministro dos Negócios estrangeiros. Ele conseguiu apaziguar as potências e obter o reconhecimento delas para o novo regime. As direitas candidatavam Manuel de Arriaga que recebe 121 votos contra 86 para Bernardino, em 1911.

Ganhara o romantismo, a irresponsabilidade e a incompetência e, em menos de um ano, a República começava a tramar a sua condenação. Bernardino Machado, desiludido, era “despachado” para o Brasil de onde só regressa três anos depois.

Ainda a bordo do navio que o trazia de regresso à Pátria, é surpreendido com a notícia da crise ministerial, com Afonso Costa, desautorizado por Arriaga, a pedir a demissão. O Partido Democrático detinha a maioria no Parlamento e Bernardino surgia como uma das poucas opções viáveis.

Aceitou o cargo a 9 de Fevereiro de 1914, com três ministros democráticos e cinco independentes. Foi um Governo que durou quase cinco meses, serenando as paixões políticas e um caso menor leva à saída dos ministros democráticos e à demissão colectiva do Governo.

Manuel de Arriaga encarrega Bernardino de formar novo Governo com independentes. A nova lei eleitoral acabou por derrubar o Governo quando eclodia a I Guerra Mundial, em Agosto. Fiel à aliança com Inglaterra, que não pretendia o envolvimento directo de Portugal, a declaração de Bernardino caiu mal e agravou-se como ataque da Alemanha a Moçambique. Portugal vê-se obrigado a expedições militares para defender as Colónias de África e adiam-se as eleições, sufocando uma intentona monárquica em Outubro.

Em Dezembro, o Governo pede a demissão porque a política conciliadora irritava muitos e Bernardino começava a tornar-se incompatível com qualquer dos partidos, afunilando as suas possibilidades de ser eleito Presidente da República, em 1915. Afonso Costa e os democráticos não lhe perdoaram, mas a decisão de Arriaga que força à demissão de um Governo com um mês une os sectores partidários desavindos em torno de Bernardino Machado que se assume como anti-ditadura militar de Pimenta de Castro.

Os democráticos vencem as eleições de Junho de 1915, abrindo caminho à eleição de Bernardino Machado Guimarães como Presidente da República, a 5 de Outubro desse ano, empossando dois meses depois o novo governo liderado por Afonso Costa.

Inicia-se um período duradouro de democracia – dois anos – enquanto a Guerra nos era declarada em 9 de Março de 1916, fomentando a união sagrada presidida por Bernardino Machado cujo momento mais alto do seu mandato foi a viagem aos campos de batalha da Flandres, sendo recebido pelos líderes dos grandes países.

É nesta altura que surge o tumulto sidonista, contra a fome, contra a guerra, com ideais da direita germanófila, despeitos e ódios.
Bernardino Machado tenta atrasar o tumulto e aceita a demissão do governo de Norton de Matos, sem ouvir Afonso Costa, numa atitude que suscitou severas críticas e abalou a confiança entre os dois estadistas.

A 9 de Dezembro, Bernardino Machado é preso e rejeitando as exigências de Sidónio Pais é destituído pela Junta revolucionário e expulso de Portugal quatro dias depois.

Em Madrid passa o triste Natal de 1917, seguindo quatro meses depois para Paris onde fixa residência. A invasão alemã fá-lo deslocar-se para a Galiza até ao Armistício. Há-de regressar, em triunfo.


Wednesday, March 21, 2012

Os rostos da República de A a Z: Bernardino Machado (04)


A chamada Geração Portuguesa, nos fins do século XIX, criou literatos, historiadores, poetas, prosadores, filósofos, artistas e homens de ciência, mas raramente políticos.

Político de rara qualidade foi Bernardino Luís Machado Guimarães, um cientista que, na meia idade passa para a política e nesta, da direita para a esquerda. Depois de ser monárquico liberal, aos 40, passa a republicano socializante, aos 50, aparecendo entusiasmado com a Frente Popular espanhola, aos oitenta, para preconizar outra semelhante em Portugal, de modo a enfrentar a Ditadura, implantada em 1926.

Polivalente nos conhecimentos e nas formas de actividade, começou por ser um cientista apaixonado pela Física e pela Matemática. Nada de leis ou de filosofias ou autodidactismos, como tantos outros da sua geração.

O enriquecimento dos pais no Brasil, permitiram, no regresso a Joane, onde comprou o título de Barão, que Bernardino uma educação regular que lhe permitiu fugir da chacota da época: “-Foge, cão, que te fazem barão!

Aos 15 anos ingressa na única Universidade, a de Coimbra, e aos 28 anos já era professor catedrático depois de se licenciar com uma tese sobre a “Refracção da luz” e se doutorar com a “Teoria Matemática das interferências”.

Com um curriculum tão brilhante abriam-se as portas da política, através do sogro, influente regenerador, o Conselheiro Miguel Dantas. A carreira académica apenas termina em 1907 mas os filhos iam nascendo até chegar aos vinte (com dois fora do casamento).

Além de chefe da Maçonaria, foi um grande pedagogo e assinou inúmeros artigos sobre temáticas escolares, chegando ao poder, em 1893, pela mão de Hintze Ribeiro, como ministro das Obras Públicas.

Seguem-se dez anos de travessia no deserto, após alguns meses como ministro, cargo que abandona desiludido e magoado, em que Bernardino conclui que o rotativismo não salvava a Monarquia e que o futuro pertencia à República.

Na Geração de 70 encontra o carinho e o lastro para dar corpo ás suas ideias, numa altura em que o partido Republicano se encontrava numa das suas maiores crises, devido a questiúnculas e rivalidades pessoais.

É de 31 de Outubro o seu famoso discurso: “organize-se o partido Republicano e a Nação salvar-se-á”. Se não pode governar o país, que tente governar um município e se não consegue então comece por governar uma paróquia... mas “seja um Partido republicano profundamente socialista” para “amparar todas as justas reivindicações dos pobres, dos humildes”.

Depressa é recebido com charanga e colocado ao lado de Afonso Costa, António José de Almeida e António Luís Gomes. O seu prestígio era tanto que, não sendo eleito, em 1906, o Governo enfiou 600 votos nas urnas para lhe dar a eleição mas ele recusou entrar o Parlamento com esta chapelada.

Deixa Coimbra e muda-se para Lisboa e , em 1908, no Regicídio, trava os jovens republicanos, argumentando que a República não podia fazer-se sobre um crime.

Repugnava-lhe a violência como meio de acção política e está excluído dos pormenores e da data da Revolução. Prevenido do assassinato de Miguel Bombarda, regressa a Lisboa, vindo de sua casa em Moledo do Minho, onde é feito Ministro dos Negócios estrangeiros do novo regime, passando a ser o inimigo número um da causa monárquica que se serviu de todas as armas, incluindo a calúnia.

Bernardino causava muitos ciúmes entre republicanos, especialmente em José Relvas e em João Chagas.

Os rostos da República de A a Z: Bernardino Machado (03)


Bernardino Machado criou um porto franco em Lisboa para os produtos brasileiros, criou novas escolas nas colónias, licenciou a construção do hospital de Braga e referendou a lei da responsabilidade criminal do poder executivo

No Governo de Hintze Ribeiro, em 1893, última tentativa liberal da monarquia, aceita ser ministro das Obras Públicas, Comércio e Indústria para sair “das cadeiras do poder impoluto como entrara”, ao ponto de Rafael Bordalo Pinheiro o descrever como “caniço por fora e aço por dentro”.

Todavia, a sua herança era bem pesada e benéfica para o país como resultado do trabalho de dez meses de gestão.

É dele a ideia de criar o Museu Nacional e Arqueologia e Etnologia, a criação da estação aquícola do Vale do Ave, a primeira adega e o primeiro lagar social, bem como dos sindicatos agrícolas, a par da regulamentação do trabalho das mulheres e dos menores nas fábricas.

Demite-se por discordar da Monarquia e adere à Repúbica na célebre conferência de 31 de Outubro de 1903 no Ateneu Comercial de Lisboa, quando afirma que “não é lícito esperar a salvação dentro da Monarquia” porque essa só é possível com a “massa inteira da Nação, o seu valioso povo, as suas classes trabalhadoras”.

Depois lança um desfio: “organize-as o partido republicano e a Nação salvar-se-á”.
Começa então uma intensa campanha contra o regime monárquico, em comícios e em declarações à imprensa nacional e estrangeira.

A coragem física não é inferior à coragem moral de Bernardino, ao ponto de nas últimas eleições monárquicas de 1910 Bernardino ter obtido uma votação quase consagradora.

È a ele quem é atribuída a missão do reconhecimento internacional do novo regime republicano, renovando a aliança com Inglaterra e resolvendo o litígio coma China por causa de Macau.

Reorganiza o corpo diplomático e consular, cria escolas de português no estrangeiro e promove a defesa dos interesses na difícil negociação com o Brasil, abrindo as portas para a emigração de tantos milhares de portugueses.

Em 1914 preside a um governo supra partidário que se pauta pelos direitos e obrigações de nação livre e aliada de Inglaterra, da qual não se podia alhear a democracia portuguesa.

Prevendo os efeitos da I Guerra, arrolou o trigo para cálculo do que se devia importar, avalizou as compras de algodão para que as nossas fábricas não fechassem, probiu a exportação de géneros alimentares e evitou a especulação cambial.
Criou um porto franco em Lisboa para os produtos brasileiros, criou novas escolas nas colónias, iniciou a construção do hospital de Braga e referendou a lei da responsabilidade criminal do poder executivo.

Norton de Matos há-de reconhecer mais tarde que Bernardino Machado “foi sempre o grande inspirador e orientador e em grande parte o seu executor a grande obra nacional que se fez em Portugal entre Agosto de 1914 e Dezembro de 1917”.

Em Dezembro, resigna à presidência da República e é conduzido ao exílio, fixado residência em França, mas não deixa de lutar pela normalização q vida da República.

Após a tentativa nortenha de restabelecimento da monarquia, Bernardino Machado regressa a Portugal e retoma o seu combate até chefiar o governo em 1921, com a “união das esquerdas” traduzida na amnistia aos adversários, promovendo o soldado Desconhecido no Mosteiro da Batalha.

Prepara-se a candidatura à Presidência da República em 1923 para “arrancar o estado das influências sacrílegas dos aventureiros e dos exploradores que infestam a República” como “défice de soberania popular”.

Mas os seus apelos vão cair em saco roto.

Os rostos da República de A a Z: Bernardino Machado (02)



Bernardino Machado dá os seus primeiros passos de criança “acompanhando meu Pai nos seus cuidados pelo município da nossa terra natal”, Famalicão.

O pai, António Luís Machado Guimarães emigrara, de Joane para o Brasil, onde casou com D. Praxedes de Sousa Ribeiro. Estes foram os primeiros barões de Joane mas Bernardino sempre se orgulhou da sua origem plebeia.

Após o regresso dos pais, a Joane, os estudos do Liceu foram efectuados no Porto e os superiores em Coimbra, onde frequentou Matemática e Filosofia, obtendo os primeiros lugares entre os colegas pertencentes à “geração deslumbrante” – como escreveu Júlio Brandão.

Faziam parte deste grupo figuras como Guerra Junqueiro, Gonçalves Crespo, o bracarense João Penha, Teixeira de Queirós, Alberto Braga, António Cândido, Alves de Sá, Mendes Bello e Júlio de Vilhena.

Guerra Junqueiro há-de descrever Bernardino como possuidor de “prodigiosa inteligência”, ao ponto de mais tarde ter desabafado: “nós adorávamo-lo”.

A teoria mecânica da reflexão e refracção da luz foi a sua dissertação de licenciatura e concorre a professor com a “Teoria matemática das interferências”, em 28 de Fevereiro de 1877.

Com 26 anos incompletos, começa a reger várias cadeiras até se fixar na de antropologia que foi criada mais tarde por sua proposta no Parlamento, em 1883.

Bernardino Machado abre em Coimbra uma nova maneira de ensinar em colaboração e convivência com os discípulos, iniciando-os na pesquisa científica, acentuando a defesa da autonomia universitária.

Dessa forma se entende que tenha recusado ser Reitor, cargo que lhe foi oferecido pela Monarquia e mais tarde pelo ministro António Sérgio, uma vez que defendia a eleição das autoridades académicas.

Grande admirador era Egaz Moniz que – será depois o primeiro prémio Nobel português, em medicina – mas Trindade Coelho define-o como a “alma” do Movimento Liberal que ele cria em Coimbra.

Participando em congressos internacionais, cá e lá fora, Bernardino Machado era definido por João de Deus (o da Cartilha Maternal), como “espírito de luz e coração de oiro”.

Destaca-se também como pedagogo com “Notas de um pae” que Carolina Michaelis classifica como “estudos de psicologia de infância dignos de Preyer”.

Em 1895, é eleito grão-mestre da Maçonaria, cargo que exerce até 1903. No ano seguinte, uma oração de sapiência na Universidade de Coimbra obtém extraordinária repercussão em todo o país: as linhas mestras da reforma das universidades que são aproveitadas pelo primeiro Governo da República, em 1911.

Em 1907, solidários com alguns estudantes expulsos demite-se de professor catedrático, numa atitude que Afonso Lopes Vieira classifica de “corajosa e bela”.

Uma grande manifestação em Lisboa, com Teófilo Braga como porta-voz, contribui para que seja reintegrado na Faculdade de Ciências de Coimbra. Bernardino agradece a decisão mas pede a aposentação.

Foi eleito por diversos círculos e convenceu os seus pares a criarem o ensino da antropologia em Portugal e o seu museu.
No Governo de Hintze Ribeiro, em 1893, última tentativa liberal da monarquia, aceita ser ministro das Obras Públicas, Comércio e Indústria para sair “das cadeiras do poder impoluto como entrara”, ao ponto de Rafael Bordalo Pinheiro o descrever como “caniço por fora e aço por dentro”.

Todavia, a sua herança era bem pesada e benéfica para o país como resultado do trabalho de dez meses de gestão.

Os rostos da República de A a Z: Bernardino Machado (1)


Um minhoto de se tirar chapéu

Depois de falarmos de Afonso Costa e do caminhense Sidónio Pais, abrimos agora um capítulo sobre o famalicense Bernardino Luís Machado Guimarães. Dele, dizem os seus biógrafos que era em tudo (menos no ideário republicano) o oposto de Teófilo Braga: bonito, aprumado, rico, pai de família, vaidoso, cavalheiro, ambicioso. Tratava os seus piores inimigos por "meu queridíssimo amigo".

Bernardino Machado foi sempre um lutador, sem deixar de ser galante, tirava o chapéu a toda a gente que o cumprimentava.

Joel Serrão retratou-o assim no "Dicionário da História de Portugal" (p. 867): "Político dos mais notáveis da 1.ª República Portuguesa, Bernardino Machado foi um cidadão exemplar no rigoroso cumprimento dos seus deveres e na defesa intransigente dos seus direitos".

Há inúmeras caricaturas sobre este curioso hábito do 3.º Presidente da República portuguesa, como da sua numerosa prole, que inspirou inúmeros desenhos a Rafael Bordalo Pinheiro e a Francisco Valença, entre outros.

O primeiro ministro dos Negócios Estrangeiros da República, Bernardino Luiz Machado Guimarães, nasceu no Rio de Janeiro, em 28 de Março de 1851, filho de pai português e de mãe brasileira.

Regressando a Portugal, aos 9 anos, a família estabeleceu residência na freguesia de Joane, Famalicão, onde possuía alguns bens de fortuna. Em 1872, aos 19 anos, atingindo a maioridade, o futuro estadista, declarou na Câmara Municipal de Vila Nova de Famalicão que optava pela nacionalidade portuguesa.

Vocacionado para uma carreira científica, pedagógica e política tão brilhante quanto invulgar, nunca enjeitou a sua ascendência popular e nortenha, apesar de o pai ter entretanto adquirido, por decreto real, o título de Barão de Joane.

Com 28 anos de idade, era já catedrático na Universidade de Coimbra. Desempenhava as funções de Professor universitário, acumulando a regência de várias cadeiras com outros cargos ligados àquela instituição de ensino.

Rogério Fernandes sustenta que “o pensamento e a acção de Bernardino Machado tem como pólos essenciais a democratização do acesso ao ensino, em condições de igualdade e a transformação dos seus conteúdos em ordem a ligá-los à vida, ao trabalho, à ciência, à cultura...”.

Como político, Bernardino Machado foi Deputado Regenerador (desde 1882 até 1886), Par do Reino (1890 até 1894), Ministro das Obras Públicas, Comércio e Indústria (1893).

Em 1903 aderiu ao Partido Republicano. Proclamada a República, desempenhou, sucessivamente, os cargos de Ministro dos Negócios Estrangeiros do Governo Provisório (1911., Senador, Ministro de Portugal no Brasil (1912), Chefe do Governo (1914) e Chefe de Estado (1915 a 1917).

Foi deposto de Chefe de Estado e exilado em França. Regressou a Portugal em 1919 e, pela segunda vez, percorreu os cargos de Senador, Chefe do Governo e Presidente da República (1925).

Em 28 de Abril de 1944, terminava uma vida conduzida até ao fim pelo perfil que desde sempre o caracterizou: “O homem público só para os outros vive, consumindo-se”.
Está sepultado no Cemitério Municipal de Vila Nova de Famalicão e está intacta a casa de seus pais na Vila de Joane, no lugar de Cividade. Na cidade de Vila Nova de Famalicão, nasceu, entretanto, no Palacete Barão da Trovisqueira, o Museu Bernardino Machado.