Wednesday, March 21, 2012

Os rostos da República de A a Z: Bernardino Machado (04)


A chamada Geração Portuguesa, nos fins do século XIX, criou literatos, historiadores, poetas, prosadores, filósofos, artistas e homens de ciência, mas raramente políticos.

Político de rara qualidade foi Bernardino Luís Machado Guimarães, um cientista que, na meia idade passa para a política e nesta, da direita para a esquerda. Depois de ser monárquico liberal, aos 40, passa a republicano socializante, aos 50, aparecendo entusiasmado com a Frente Popular espanhola, aos oitenta, para preconizar outra semelhante em Portugal, de modo a enfrentar a Ditadura, implantada em 1926.

Polivalente nos conhecimentos e nas formas de actividade, começou por ser um cientista apaixonado pela Física e pela Matemática. Nada de leis ou de filosofias ou autodidactismos, como tantos outros da sua geração.

O enriquecimento dos pais no Brasil, permitiram, no regresso a Joane, onde comprou o título de Barão, que Bernardino uma educação regular que lhe permitiu fugir da chacota da época: “-Foge, cão, que te fazem barão!

Aos 15 anos ingressa na única Universidade, a de Coimbra, e aos 28 anos já era professor catedrático depois de se licenciar com uma tese sobre a “Refracção da luz” e se doutorar com a “Teoria Matemática das interferências”.

Com um curriculum tão brilhante abriam-se as portas da política, através do sogro, influente regenerador, o Conselheiro Miguel Dantas. A carreira académica apenas termina em 1907 mas os filhos iam nascendo até chegar aos vinte (com dois fora do casamento).

Além de chefe da Maçonaria, foi um grande pedagogo e assinou inúmeros artigos sobre temáticas escolares, chegando ao poder, em 1893, pela mão de Hintze Ribeiro, como ministro das Obras Públicas.

Seguem-se dez anos de travessia no deserto, após alguns meses como ministro, cargo que abandona desiludido e magoado, em que Bernardino conclui que o rotativismo não salvava a Monarquia e que o futuro pertencia à República.

Na Geração de 70 encontra o carinho e o lastro para dar corpo ás suas ideias, numa altura em que o partido Republicano se encontrava numa das suas maiores crises, devido a questiúnculas e rivalidades pessoais.

É de 31 de Outubro o seu famoso discurso: “organize-se o partido Republicano e a Nação salvar-se-á”. Se não pode governar o país, que tente governar um município e se não consegue então comece por governar uma paróquia... mas “seja um Partido republicano profundamente socialista” para “amparar todas as justas reivindicações dos pobres, dos humildes”.

Depressa é recebido com charanga e colocado ao lado de Afonso Costa, António José de Almeida e António Luís Gomes. O seu prestígio era tanto que, não sendo eleito, em 1906, o Governo enfiou 600 votos nas urnas para lhe dar a eleição mas ele recusou entrar o Parlamento com esta chapelada.

Deixa Coimbra e muda-se para Lisboa e , em 1908, no Regicídio, trava os jovens republicanos, argumentando que a República não podia fazer-se sobre um crime.

Repugnava-lhe a violência como meio de acção política e está excluído dos pormenores e da data da Revolução. Prevenido do assassinato de Miguel Bombarda, regressa a Lisboa, vindo de sua casa em Moledo do Minho, onde é feito Ministro dos Negócios estrangeiros do novo regime, passando a ser o inimigo número um da causa monárquica que se serviu de todas as armas, incluindo a calúnia.

Bernardino causava muitos ciúmes entre republicanos, especialmente em José Relvas e em João Chagas.

Os rostos da República de A a Z: Bernardino Machado (03)


Bernardino Machado criou um porto franco em Lisboa para os produtos brasileiros, criou novas escolas nas colónias, licenciou a construção do hospital de Braga e referendou a lei da responsabilidade criminal do poder executivo

No Governo de Hintze Ribeiro, em 1893, última tentativa liberal da monarquia, aceita ser ministro das Obras Públicas, Comércio e Indústria para sair “das cadeiras do poder impoluto como entrara”, ao ponto de Rafael Bordalo Pinheiro o descrever como “caniço por fora e aço por dentro”.

Todavia, a sua herança era bem pesada e benéfica para o país como resultado do trabalho de dez meses de gestão.

É dele a ideia de criar o Museu Nacional e Arqueologia e Etnologia, a criação da estação aquícola do Vale do Ave, a primeira adega e o primeiro lagar social, bem como dos sindicatos agrícolas, a par da regulamentação do trabalho das mulheres e dos menores nas fábricas.

Demite-se por discordar da Monarquia e adere à Repúbica na célebre conferência de 31 de Outubro de 1903 no Ateneu Comercial de Lisboa, quando afirma que “não é lícito esperar a salvação dentro da Monarquia” porque essa só é possível com a “massa inteira da Nação, o seu valioso povo, as suas classes trabalhadoras”.

Depois lança um desfio: “organize-as o partido republicano e a Nação salvar-se-á”.
Começa então uma intensa campanha contra o regime monárquico, em comícios e em declarações à imprensa nacional e estrangeira.

A coragem física não é inferior à coragem moral de Bernardino, ao ponto de nas últimas eleições monárquicas de 1910 Bernardino ter obtido uma votação quase consagradora.

È a ele quem é atribuída a missão do reconhecimento internacional do novo regime republicano, renovando a aliança com Inglaterra e resolvendo o litígio coma China por causa de Macau.

Reorganiza o corpo diplomático e consular, cria escolas de português no estrangeiro e promove a defesa dos interesses na difícil negociação com o Brasil, abrindo as portas para a emigração de tantos milhares de portugueses.

Em 1914 preside a um governo supra partidário que se pauta pelos direitos e obrigações de nação livre e aliada de Inglaterra, da qual não se podia alhear a democracia portuguesa.

Prevendo os efeitos da I Guerra, arrolou o trigo para cálculo do que se devia importar, avalizou as compras de algodão para que as nossas fábricas não fechassem, probiu a exportação de géneros alimentares e evitou a especulação cambial.
Criou um porto franco em Lisboa para os produtos brasileiros, criou novas escolas nas colónias, iniciou a construção do hospital de Braga e referendou a lei da responsabilidade criminal do poder executivo.

Norton de Matos há-de reconhecer mais tarde que Bernardino Machado “foi sempre o grande inspirador e orientador e em grande parte o seu executor a grande obra nacional que se fez em Portugal entre Agosto de 1914 e Dezembro de 1917”.

Em Dezembro, resigna à presidência da República e é conduzido ao exílio, fixado residência em França, mas não deixa de lutar pela normalização q vida da República.

Após a tentativa nortenha de restabelecimento da monarquia, Bernardino Machado regressa a Portugal e retoma o seu combate até chefiar o governo em 1921, com a “união das esquerdas” traduzida na amnistia aos adversários, promovendo o soldado Desconhecido no Mosteiro da Batalha.

Prepara-se a candidatura à Presidência da República em 1923 para “arrancar o estado das influências sacrílegas dos aventureiros e dos exploradores que infestam a República” como “défice de soberania popular”.

Mas os seus apelos vão cair em saco roto.

Os rostos da República de A a Z: Bernardino Machado (02)



Bernardino Machado dá os seus primeiros passos de criança “acompanhando meu Pai nos seus cuidados pelo município da nossa terra natal”, Famalicão.

O pai, António Luís Machado Guimarães emigrara, de Joane para o Brasil, onde casou com D. Praxedes de Sousa Ribeiro. Estes foram os primeiros barões de Joane mas Bernardino sempre se orgulhou da sua origem plebeia.

Após o regresso dos pais, a Joane, os estudos do Liceu foram efectuados no Porto e os superiores em Coimbra, onde frequentou Matemática e Filosofia, obtendo os primeiros lugares entre os colegas pertencentes à “geração deslumbrante” – como escreveu Júlio Brandão.

Faziam parte deste grupo figuras como Guerra Junqueiro, Gonçalves Crespo, o bracarense João Penha, Teixeira de Queirós, Alberto Braga, António Cândido, Alves de Sá, Mendes Bello e Júlio de Vilhena.

Guerra Junqueiro há-de descrever Bernardino como possuidor de “prodigiosa inteligência”, ao ponto de mais tarde ter desabafado: “nós adorávamo-lo”.

A teoria mecânica da reflexão e refracção da luz foi a sua dissertação de licenciatura e concorre a professor com a “Teoria matemática das interferências”, em 28 de Fevereiro de 1877.

Com 26 anos incompletos, começa a reger várias cadeiras até se fixar na de antropologia que foi criada mais tarde por sua proposta no Parlamento, em 1883.

Bernardino Machado abre em Coimbra uma nova maneira de ensinar em colaboração e convivência com os discípulos, iniciando-os na pesquisa científica, acentuando a defesa da autonomia universitária.

Dessa forma se entende que tenha recusado ser Reitor, cargo que lhe foi oferecido pela Monarquia e mais tarde pelo ministro António Sérgio, uma vez que defendia a eleição das autoridades académicas.

Grande admirador era Egaz Moniz que – será depois o primeiro prémio Nobel português, em medicina – mas Trindade Coelho define-o como a “alma” do Movimento Liberal que ele cria em Coimbra.

Participando em congressos internacionais, cá e lá fora, Bernardino Machado era definido por João de Deus (o da Cartilha Maternal), como “espírito de luz e coração de oiro”.

Destaca-se também como pedagogo com “Notas de um pae” que Carolina Michaelis classifica como “estudos de psicologia de infância dignos de Preyer”.

Em 1895, é eleito grão-mestre da Maçonaria, cargo que exerce até 1903. No ano seguinte, uma oração de sapiência na Universidade de Coimbra obtém extraordinária repercussão em todo o país: as linhas mestras da reforma das universidades que são aproveitadas pelo primeiro Governo da República, em 1911.

Em 1907, solidários com alguns estudantes expulsos demite-se de professor catedrático, numa atitude que Afonso Lopes Vieira classifica de “corajosa e bela”.

Uma grande manifestação em Lisboa, com Teófilo Braga como porta-voz, contribui para que seja reintegrado na Faculdade de Ciências de Coimbra. Bernardino agradece a decisão mas pede a aposentação.

Foi eleito por diversos círculos e convenceu os seus pares a criarem o ensino da antropologia em Portugal e o seu museu.
No Governo de Hintze Ribeiro, em 1893, última tentativa liberal da monarquia, aceita ser ministro das Obras Públicas, Comércio e Indústria para sair “das cadeiras do poder impoluto como entrara”, ao ponto de Rafael Bordalo Pinheiro o descrever como “caniço por fora e aço por dentro”.

Todavia, a sua herança era bem pesada e benéfica para o país como resultado do trabalho de dez meses de gestão.

Os rostos da República de A a Z: Bernardino Machado (1)


Um minhoto de se tirar chapéu

Depois de falarmos de Afonso Costa e do caminhense Sidónio Pais, abrimos agora um capítulo sobre o famalicense Bernardino Luís Machado Guimarães. Dele, dizem os seus biógrafos que era em tudo (menos no ideário republicano) o oposto de Teófilo Braga: bonito, aprumado, rico, pai de família, vaidoso, cavalheiro, ambicioso. Tratava os seus piores inimigos por "meu queridíssimo amigo".

Bernardino Machado foi sempre um lutador, sem deixar de ser galante, tirava o chapéu a toda a gente que o cumprimentava.

Joel Serrão retratou-o assim no "Dicionário da História de Portugal" (p. 867): "Político dos mais notáveis da 1.ª República Portuguesa, Bernardino Machado foi um cidadão exemplar no rigoroso cumprimento dos seus deveres e na defesa intransigente dos seus direitos".

Há inúmeras caricaturas sobre este curioso hábito do 3.º Presidente da República portuguesa, como da sua numerosa prole, que inspirou inúmeros desenhos a Rafael Bordalo Pinheiro e a Francisco Valença, entre outros.

O primeiro ministro dos Negócios Estrangeiros da República, Bernardino Luiz Machado Guimarães, nasceu no Rio de Janeiro, em 28 de Março de 1851, filho de pai português e de mãe brasileira.

Regressando a Portugal, aos 9 anos, a família estabeleceu residência na freguesia de Joane, Famalicão, onde possuía alguns bens de fortuna. Em 1872, aos 19 anos, atingindo a maioridade, o futuro estadista, declarou na Câmara Municipal de Vila Nova de Famalicão que optava pela nacionalidade portuguesa.

Vocacionado para uma carreira científica, pedagógica e política tão brilhante quanto invulgar, nunca enjeitou a sua ascendência popular e nortenha, apesar de o pai ter entretanto adquirido, por decreto real, o título de Barão de Joane.

Com 28 anos de idade, era já catedrático na Universidade de Coimbra. Desempenhava as funções de Professor universitário, acumulando a regência de várias cadeiras com outros cargos ligados àquela instituição de ensino.

Rogério Fernandes sustenta que “o pensamento e a acção de Bernardino Machado tem como pólos essenciais a democratização do acesso ao ensino, em condições de igualdade e a transformação dos seus conteúdos em ordem a ligá-los à vida, ao trabalho, à ciência, à cultura...”.

Como político, Bernardino Machado foi Deputado Regenerador (desde 1882 até 1886), Par do Reino (1890 até 1894), Ministro das Obras Públicas, Comércio e Indústria (1893).

Em 1903 aderiu ao Partido Republicano. Proclamada a República, desempenhou, sucessivamente, os cargos de Ministro dos Negócios Estrangeiros do Governo Provisório (1911., Senador, Ministro de Portugal no Brasil (1912), Chefe do Governo (1914) e Chefe de Estado (1915 a 1917).

Foi deposto de Chefe de Estado e exilado em França. Regressou a Portugal em 1919 e, pela segunda vez, percorreu os cargos de Senador, Chefe do Governo e Presidente da República (1925).

Em 28 de Abril de 1944, terminava uma vida conduzida até ao fim pelo perfil que desde sempre o caracterizou: “O homem público só para os outros vive, consumindo-se”.
Está sepultado no Cemitério Municipal de Vila Nova de Famalicão e está intacta a casa de seus pais na Vila de Joane, no lugar de Cividade. Na cidade de Vila Nova de Famalicão, nasceu, entretanto, no Palacete Barão da Trovisqueira, o Museu Bernardino Machado.

Tuesday, January 3, 2012

Os rostos da República de A a Z: Sidónio Pais (11)


Após a morte de Sidónio Pais, aos 45 anos, com tiros de uma pistola belga, o encantamento com a sua figura continuava, criando raízes e dando frutos, ao longo dos anos, cujas sementes germinam apenas oito anos depois, com o golpe de 28 de Maio que saiu de Braga.

A imagem do presidente amigo dos pobres e das crianças assumiu proporções míticas e lendárias, ímpares na história de Portugal, conferindo-lhe a santidade da “rotunda até à eternidade” numa jornada “cruciante e dolorosa” prolongada pela imprensa, mesmo a humorista e sarcástica.

Um dos cultivadores da mitologia sidonista foi Fernando pessoa, com o poema “À memória do Presidente-Rei Sidónio Pais”, especialmente quando inventa esta quadra:

Quem ele foi sabe-o a Sorte
Sabe-o o Mistério e a sua lei.
A vida fê-lo herói, e a Morte
O sagrou Rei”
.

Os seus herdeiros políticos , de forma espontânea ou ingénua, ou trabalhada e burilada, ao sabor dos tempos e das necessidades, levaram-no de uma sala escura dos Jerónimos para a honra rara do panteão nacional, num percurso carregado de raro simbolismo.

Impressionante é a persistência da memória de Sidónio, especialmente através da consagração desencadeada pelo estado Novo, na sua fase inicial, assinalando a proximidade entre António (Salazar) e Sidónio (Pais).

Em 1919, após a derrota dos monárquicos em Monsanto e a Norte, o poder republicano começa a afirmar-se sem sidonistas que são afastados dos poderes do Estado criando assim a “nova República velha” que não poupa a figura de Sidónio.

Os herdeiros de Afonso Costa, homens do Partido Democrático, começam por não tolerar que os Jerónimos acolhessem o túmulo de “um traidor”, um “vendido à Alemanha”, um “inimigo da pátria”.

Por isso, em Dezembro são impedidas cerimónias que assinalassem o primeiro aniversário da morte do “presidente-Rei”, e Alfredo de Sá Cardoso chega a impedir a celebração de uma simples missa de sufrágio, ao afirmar que desmontou uma “perturbação da ordem” preparada para o dia 14 de Dezembro.

Celebrar o regime de Sidónio era um “crime contra a honra da pátria” porque a “Nova República” esquecera os deveres internacionais e militares no seio dos aliados, para além de tentar “aniquilar a Marinha e o esforço de guerra”.

A obra legislativa foi definida como “desordenada e incongruente” e a situação financeira desastrosa, para além da perseguição aos velhos republicanos.

No entanto, os indefectíveis sidonistas preservaram a sua memória, nos aniversários do assassínio, com romagens ao túmulo e restauro do bodos aos pobres, entre os quais se destacava Gomes Freire.

Não era só a saudade. Os seus seguidores queriam perpetuar os princípios associados à República Nova, que justificaram algumas ditaduras entre as duas grandes guerras, como Mussolini e Rivera.

Entre o fogo cruzada daqueles que o odiaram e daqueles que o Amaram, a figura de Sidónio manteve-se no topo da discussão política.

Não admira que durante o estado Novo, a figura do Presidente bondosos e amigo dos pobres seja apontada como “um obreiro” da Revolução de 1926, que deu ligar à ditadura militar e ao regime salazarista.

O Estado Novo retribuía considerando-o “um dos poucos que se aproveitavam da confusão" que foi a primeira República ou Velha.

Em 1935, Oliveira Salazar sente a necessidade de perpetuar Sidónio Pais, com um arco triunfal (?), mas antes são colocados os restos mortais na sala do capítulo, um local mais nobre, em 1953, ao lado de Óscar Carmona. Vilas e cidades davam-lhe o seu nome a avenidas e as artes inspiravam-se na sua vida e obra.

Em 1966, termina esta peregrinação dos restos mortais de Sidónio – o que só aumenta o seu prestígio – com a trasladação para o Panteão Nacional, por “sentida homenagem do Governo de Salazar” (cf. Diário das Sessões da Assembleia Nacional, 14 de Dezembro de 1966).

Com a chegada de Marcelo Caetano ao poder, em 1968, a figura de Sidónio é esquecida e torna-se mesmo algo "incómoda” e a sua visão constitucional apenas volta a ser recordada no debate da Constituinte, em 1975, ao temperar-se o poder do Parlamento com uma maior intervenção do inquilino de Belém.
Mas ainda hoje, continuam as romagens ao túmulo do “presidente-rei”.

Os rostos da República de A a Z: Sidónio Pais (10)


A fotografia e o bilhete postal assumiram um papel primeiro na divulgação desta imagem presidencial pouco republicana. As imagens de Sidónio são de consumo apetecível e alimentam um invulgar fenômeno de popularidade que alimenta invejas contra o inegável carisma do presidente.

A fatalidade atinge Sidónio na noite de 14 de Dezembro de 1918, pouco mais de um ano apos a revolta que o elevara ao poder, escapando a um primeiro atentado no dia 6 de Dezembro.

Um jovem Júlio Baptista — só ou a mando de alguém, um mistério que perdura — enganou-se e os tiros não resultaram. Circulavam em Lisboa rumores que comparavam Sidónio a D. Carlos...morto, mas o presidente não queria acreditar ou estava ansioso pela sua morte?

Muitos tinham abandonado o regime, outros tornavam-se críticos e o partido de Sidónio era uma sombra do apoio que podia ter. A sua figura, o carisma e a popularidade mantinham o regime. Quando se calariam os aplausos? A sua morte faz desabar todo o edifício, embora Sidónio estivesse persuadido da sua “invulnerabilidade” (cf. CHAGAS, João, in Diário IV, Lisboa, Ed. Rolim, 1987.

Só que,desta vez, o braço assassino não tremeu,nem abala se recusou a partir (duas vezes), naquela noite em que Sidónio sai debelem para apanhar o comboio no Rossio, em direcção ao Porto. Do meio da multidão que o vitoriava, um revólver dispara, gerando confusão, correria, pânico e no tiroteio, inocentes perdem a vida.

Sidónio desfalece algumas horas mais tarde, com uma bala no peito que foi fatal. José Júlio Costa, ex-sargento do exército, não é morto no local e nunca se chega a perceber a motivação do crime.

O espaço entre as balas e a morte é suficiente para se criar mais um mito, sobre as suas últimas palavras inventadas pelo famoso Repórter X: “morro bem. Salvem a Pátria!”. Nunca foram proferidas mas são a peça fundamental para a construção do mito em que Fernando Pessoa teve contribuição decisiva.

Os funerais – com um luto nacional de 30 dias! – constituíram o capítulo final da “consagração que a trágica morte lhe deu”, como o grande “mártir”, o “herói”, o “amigo do povo”.

O canto de cisne do sidonismo traduz-se num longo carpir enquanto João do Canto e Castro assumia a presidência e nomeava João Tamagnini Barbosa, um delfim de Sidónio, para a chefia do Governo.

Sepultado a 21 de Dezembro, durante um funeral com tiros e confusão na Rua Augusta, onde despontava o jovem Humbertto Delgado que, com outros “meninos da Luz”, evita que o caixão seja derrubado na caminhada para os Jerónimos.

Era um funeral que contrariava o seu testamento: “que o meu enterro seja o mais modesto e económico possível para não desfalcar os meus herdeiros do pouco que lhes deixo, e porque me repugna toda a pompa ou luxo em funerais; que me sepultem em campa rasa, sem cruz, nem inscrição alguma”.

Três anos depois, o autor dos disparos era libertado, na rebelião da Noite Sangrenta de 19 de Outubro de 1921, tendo se celebrizado com a frase “a língua não foi feita para falar”. Assim, nunca se soube se o assassino era um protegido da Maçonaria ou do Partido Democrático de Afonso Costa.

Os rostos da República de A a Z: Sidónio Pais (9)



Numa altura em que o poder é encenado, o chefe recriado e as imagens publicitadas, o “Sidónio das Sopas”, a partir de Abril de 1918, inaugura 31 cozinhas económicas, vedadas àqueles que se “metem na política, que fazem greves e que perturbam a ordem”.

Quase todos os Domingos, acompanhado de presidentes de Junta e por vezes do pároco, Sidónio desdobrava-se em inaugurações. Ao som de banda, com tudo engalanado e as senhoras rodavam-no. Depois de ter provado a sopa, chegava o discurso do chefe que não se esquecia d povo, que deixava “ remanso das secretarias e vinha até junto das pessoas para ouvir as suas queixas e auscultar-lhes o coração”.

O povo estava com ele e sob a figura de Sidónio podia acolher-se todos os pobres de Portugal. Assim se constrói a imagem de um chefe “sensível à pobreza, à desventura do povo” que era “caridoso, governava com o coração” (cf. Discurso proferido no Rossio, a 14 de Maio de 1918).

Em Outubro, o presidente desperta para uma nova causa: a assistência às vitimas da febre pneumônica numa nova e “bendita cruzada”, em que as crianças não são esquecidas. Para estas, organizavam-se festas e davam-se brinquedos, vestuário e calçado.

Por muito vos amar”, escrevia-se nos pratos de arroz doce servido numa destas festas. Fechava-se o círculo do Presidente que governava com o coração, aberto aos doentes, aos pobres, aos esquecidos e aos velhos.

Era a caridadezinha no seu esplendor que os republicanos substituíram pela solidariedade, pela reforma do Estado e por verdadeiras transformações sociais que Sidónio Esqueceu.

Outra das imagens bem conseguida foi a de “conquistador, charmeur, amoroso e amorável” devido ao seu “olhar magnético e vivo” com “andar galhardo, firme e marcial” que fazia as delícias e arrebatava as mulheres num “histerismo lascivo” (cf. ALBUQUERQUE, António, Sidónio na lenda, revista Lúmen, Lisboa, 1922).

A admiração era tamanha que as “senhoras da sociedade descalçaram as mãos brancas e trabalharam por amor a Sidónio”, apesar deste nunca lhes ter reconhecido capacidade política. O voto estava continuava reservado aos sexo masculino apesar de, em Julho de 1918, ter permitido à mulher portuguesa o desempenho de várias funções públicas e abrir à mulher a pratica da advocacia, ajudante de notário e conservadora.

Mais do que qualquer outro Governo, o Sidonismo investiu na aliança com o Exército, com inúmeras paradas militares e usando o cenário bélico para reforçar a autoridade.

Sidónio usava a “capa militar sobre os ombros e um cobertor obre os joelhos”, tinha uma vida austera, começando a trabalhar às 8 horas e só terminando às 3 horas da madrugada, apos fumar uns quatro maços de cigarros Baunilhas. Sedutor, nunca recebeu ou dormiu com uma mulher em Belém. Passava assim a imagem de um homem que mal descansa, abnegado e dedicado à Pátria.

Numa população mal alojada, com péssimas condições de higiene e salubridade e mal nutrida, não é de estranhar que grassassem as doenças como febre tifóide e a varíola.

Em 1918, Portugal é assolado pela celebre pneumônica que sucede à tifóide (em 1917), matando 40 milhões de pessoas em todo o mundo e cem mil em Portugal. Sidónio Pais, ainda a refazer Portugal dos efeitos devastadores da Guerra que privara os portugueses de produtos essenciais, tinha agora de levantar um pais dizimado pela doença e multiplicava-se em visitas a hospitais.

A esperança de vida dos portugueses desce para menos de 36 anos mas a imagem de pai-presidente reforçava-se num país onde a maioria da população é analfabeta e em que a imagem é fundamental.


A fotografia e o bilhete postal assumiram um papel primeiro na divulgação desta imagem presidencial pouco republicana. As imagens de Sidónio são de consumo apetecível e alimentam um invulgar fenômeno de popularidade que alimenta invejas contra o inegável carisma do presidente.

OBS.: Reproduzimos a primeira Página da Ilustração Católica que dá conta da grande recepção de Sidónio Pais, em Braga.