Wednesday, March 21, 2012

Os rostos da República de A a Z: Bernardino Machado (1)


Um minhoto de se tirar chapéu

Depois de falarmos de Afonso Costa e do caminhense Sidónio Pais, abrimos agora um capítulo sobre o famalicense Bernardino Luís Machado Guimarães. Dele, dizem os seus biógrafos que era em tudo (menos no ideário republicano) o oposto de Teófilo Braga: bonito, aprumado, rico, pai de família, vaidoso, cavalheiro, ambicioso. Tratava os seus piores inimigos por "meu queridíssimo amigo".

Bernardino Machado foi sempre um lutador, sem deixar de ser galante, tirava o chapéu a toda a gente que o cumprimentava.

Joel Serrão retratou-o assim no "Dicionário da História de Portugal" (p. 867): "Político dos mais notáveis da 1.ª República Portuguesa, Bernardino Machado foi um cidadão exemplar no rigoroso cumprimento dos seus deveres e na defesa intransigente dos seus direitos".

Há inúmeras caricaturas sobre este curioso hábito do 3.º Presidente da República portuguesa, como da sua numerosa prole, que inspirou inúmeros desenhos a Rafael Bordalo Pinheiro e a Francisco Valença, entre outros.

O primeiro ministro dos Negócios Estrangeiros da República, Bernardino Luiz Machado Guimarães, nasceu no Rio de Janeiro, em 28 de Março de 1851, filho de pai português e de mãe brasileira.

Regressando a Portugal, aos 9 anos, a família estabeleceu residência na freguesia de Joane, Famalicão, onde possuía alguns bens de fortuna. Em 1872, aos 19 anos, atingindo a maioridade, o futuro estadista, declarou na Câmara Municipal de Vila Nova de Famalicão que optava pela nacionalidade portuguesa.

Vocacionado para uma carreira científica, pedagógica e política tão brilhante quanto invulgar, nunca enjeitou a sua ascendência popular e nortenha, apesar de o pai ter entretanto adquirido, por decreto real, o título de Barão de Joane.

Com 28 anos de idade, era já catedrático na Universidade de Coimbra. Desempenhava as funções de Professor universitário, acumulando a regência de várias cadeiras com outros cargos ligados àquela instituição de ensino.

Rogério Fernandes sustenta que “o pensamento e a acção de Bernardino Machado tem como pólos essenciais a democratização do acesso ao ensino, em condições de igualdade e a transformação dos seus conteúdos em ordem a ligá-los à vida, ao trabalho, à ciência, à cultura...”.

Como político, Bernardino Machado foi Deputado Regenerador (desde 1882 até 1886), Par do Reino (1890 até 1894), Ministro das Obras Públicas, Comércio e Indústria (1893).

Em 1903 aderiu ao Partido Republicano. Proclamada a República, desempenhou, sucessivamente, os cargos de Ministro dos Negócios Estrangeiros do Governo Provisório (1911., Senador, Ministro de Portugal no Brasil (1912), Chefe do Governo (1914) e Chefe de Estado (1915 a 1917).

Foi deposto de Chefe de Estado e exilado em França. Regressou a Portugal em 1919 e, pela segunda vez, percorreu os cargos de Senador, Chefe do Governo e Presidente da República (1925).

Em 28 de Abril de 1944, terminava uma vida conduzida até ao fim pelo perfil que desde sempre o caracterizou: “O homem público só para os outros vive, consumindo-se”.
Está sepultado no Cemitério Municipal de Vila Nova de Famalicão e está intacta a casa de seus pais na Vila de Joane, no lugar de Cividade. Na cidade de Vila Nova de Famalicão, nasceu, entretanto, no Palacete Barão da Trovisqueira, o Museu Bernardino Machado.

Tuesday, January 3, 2012

Os rostos da República de A a Z: Sidónio Pais (11)


Após a morte de Sidónio Pais, aos 45 anos, com tiros de uma pistola belga, o encantamento com a sua figura continuava, criando raízes e dando frutos, ao longo dos anos, cujas sementes germinam apenas oito anos depois, com o golpe de 28 de Maio que saiu de Braga.

A imagem do presidente amigo dos pobres e das crianças assumiu proporções míticas e lendárias, ímpares na história de Portugal, conferindo-lhe a santidade da “rotunda até à eternidade” numa jornada “cruciante e dolorosa” prolongada pela imprensa, mesmo a humorista e sarcástica.

Um dos cultivadores da mitologia sidonista foi Fernando pessoa, com o poema “À memória do Presidente-Rei Sidónio Pais”, especialmente quando inventa esta quadra:

Quem ele foi sabe-o a Sorte
Sabe-o o Mistério e a sua lei.
A vida fê-lo herói, e a Morte
O sagrou Rei”
.

Os seus herdeiros políticos , de forma espontânea ou ingénua, ou trabalhada e burilada, ao sabor dos tempos e das necessidades, levaram-no de uma sala escura dos Jerónimos para a honra rara do panteão nacional, num percurso carregado de raro simbolismo.

Impressionante é a persistência da memória de Sidónio, especialmente através da consagração desencadeada pelo estado Novo, na sua fase inicial, assinalando a proximidade entre António (Salazar) e Sidónio (Pais).

Em 1919, após a derrota dos monárquicos em Monsanto e a Norte, o poder republicano começa a afirmar-se sem sidonistas que são afastados dos poderes do Estado criando assim a “nova República velha” que não poupa a figura de Sidónio.

Os herdeiros de Afonso Costa, homens do Partido Democrático, começam por não tolerar que os Jerónimos acolhessem o túmulo de “um traidor”, um “vendido à Alemanha”, um “inimigo da pátria”.

Por isso, em Dezembro são impedidas cerimónias que assinalassem o primeiro aniversário da morte do “presidente-Rei”, e Alfredo de Sá Cardoso chega a impedir a celebração de uma simples missa de sufrágio, ao afirmar que desmontou uma “perturbação da ordem” preparada para o dia 14 de Dezembro.

Celebrar o regime de Sidónio era um “crime contra a honra da pátria” porque a “Nova República” esquecera os deveres internacionais e militares no seio dos aliados, para além de tentar “aniquilar a Marinha e o esforço de guerra”.

A obra legislativa foi definida como “desordenada e incongruente” e a situação financeira desastrosa, para além da perseguição aos velhos republicanos.

No entanto, os indefectíveis sidonistas preservaram a sua memória, nos aniversários do assassínio, com romagens ao túmulo e restauro do bodos aos pobres, entre os quais se destacava Gomes Freire.

Não era só a saudade. Os seus seguidores queriam perpetuar os princípios associados à República Nova, que justificaram algumas ditaduras entre as duas grandes guerras, como Mussolini e Rivera.

Entre o fogo cruzada daqueles que o odiaram e daqueles que o Amaram, a figura de Sidónio manteve-se no topo da discussão política.

Não admira que durante o estado Novo, a figura do Presidente bondosos e amigo dos pobres seja apontada como “um obreiro” da Revolução de 1926, que deu ligar à ditadura militar e ao regime salazarista.

O Estado Novo retribuía considerando-o “um dos poucos que se aproveitavam da confusão" que foi a primeira República ou Velha.

Em 1935, Oliveira Salazar sente a necessidade de perpetuar Sidónio Pais, com um arco triunfal (?), mas antes são colocados os restos mortais na sala do capítulo, um local mais nobre, em 1953, ao lado de Óscar Carmona. Vilas e cidades davam-lhe o seu nome a avenidas e as artes inspiravam-se na sua vida e obra.

Em 1966, termina esta peregrinação dos restos mortais de Sidónio – o que só aumenta o seu prestígio – com a trasladação para o Panteão Nacional, por “sentida homenagem do Governo de Salazar” (cf. Diário das Sessões da Assembleia Nacional, 14 de Dezembro de 1966).

Com a chegada de Marcelo Caetano ao poder, em 1968, a figura de Sidónio é esquecida e torna-se mesmo algo "incómoda” e a sua visão constitucional apenas volta a ser recordada no debate da Constituinte, em 1975, ao temperar-se o poder do Parlamento com uma maior intervenção do inquilino de Belém.
Mas ainda hoje, continuam as romagens ao túmulo do “presidente-rei”.

Os rostos da República de A a Z: Sidónio Pais (10)


A fotografia e o bilhete postal assumiram um papel primeiro na divulgação desta imagem presidencial pouco republicana. As imagens de Sidónio são de consumo apetecível e alimentam um invulgar fenômeno de popularidade que alimenta invejas contra o inegável carisma do presidente.

A fatalidade atinge Sidónio na noite de 14 de Dezembro de 1918, pouco mais de um ano apos a revolta que o elevara ao poder, escapando a um primeiro atentado no dia 6 de Dezembro.

Um jovem Júlio Baptista — só ou a mando de alguém, um mistério que perdura — enganou-se e os tiros não resultaram. Circulavam em Lisboa rumores que comparavam Sidónio a D. Carlos...morto, mas o presidente não queria acreditar ou estava ansioso pela sua morte?

Muitos tinham abandonado o regime, outros tornavam-se críticos e o partido de Sidónio era uma sombra do apoio que podia ter. A sua figura, o carisma e a popularidade mantinham o regime. Quando se calariam os aplausos? A sua morte faz desabar todo o edifício, embora Sidónio estivesse persuadido da sua “invulnerabilidade” (cf. CHAGAS, João, in Diário IV, Lisboa, Ed. Rolim, 1987.

Só que,desta vez, o braço assassino não tremeu,nem abala se recusou a partir (duas vezes), naquela noite em que Sidónio sai debelem para apanhar o comboio no Rossio, em direcção ao Porto. Do meio da multidão que o vitoriava, um revólver dispara, gerando confusão, correria, pânico e no tiroteio, inocentes perdem a vida.

Sidónio desfalece algumas horas mais tarde, com uma bala no peito que foi fatal. José Júlio Costa, ex-sargento do exército, não é morto no local e nunca se chega a perceber a motivação do crime.

O espaço entre as balas e a morte é suficiente para se criar mais um mito, sobre as suas últimas palavras inventadas pelo famoso Repórter X: “morro bem. Salvem a Pátria!”. Nunca foram proferidas mas são a peça fundamental para a construção do mito em que Fernando Pessoa teve contribuição decisiva.

Os funerais – com um luto nacional de 30 dias! – constituíram o capítulo final da “consagração que a trágica morte lhe deu”, como o grande “mártir”, o “herói”, o “amigo do povo”.

O canto de cisne do sidonismo traduz-se num longo carpir enquanto João do Canto e Castro assumia a presidência e nomeava João Tamagnini Barbosa, um delfim de Sidónio, para a chefia do Governo.

Sepultado a 21 de Dezembro, durante um funeral com tiros e confusão na Rua Augusta, onde despontava o jovem Humbertto Delgado que, com outros “meninos da Luz”, evita que o caixão seja derrubado na caminhada para os Jerónimos.

Era um funeral que contrariava o seu testamento: “que o meu enterro seja o mais modesto e económico possível para não desfalcar os meus herdeiros do pouco que lhes deixo, e porque me repugna toda a pompa ou luxo em funerais; que me sepultem em campa rasa, sem cruz, nem inscrição alguma”.

Três anos depois, o autor dos disparos era libertado, na rebelião da Noite Sangrenta de 19 de Outubro de 1921, tendo se celebrizado com a frase “a língua não foi feita para falar”. Assim, nunca se soube se o assassino era um protegido da Maçonaria ou do Partido Democrático de Afonso Costa.

Os rostos da República de A a Z: Sidónio Pais (9)



Numa altura em que o poder é encenado, o chefe recriado e as imagens publicitadas, o “Sidónio das Sopas”, a partir de Abril de 1918, inaugura 31 cozinhas económicas, vedadas àqueles que se “metem na política, que fazem greves e que perturbam a ordem”.

Quase todos os Domingos, acompanhado de presidentes de Junta e por vezes do pároco, Sidónio desdobrava-se em inaugurações. Ao som de banda, com tudo engalanado e as senhoras rodavam-no. Depois de ter provado a sopa, chegava o discurso do chefe que não se esquecia d povo, que deixava “ remanso das secretarias e vinha até junto das pessoas para ouvir as suas queixas e auscultar-lhes o coração”.

O povo estava com ele e sob a figura de Sidónio podia acolher-se todos os pobres de Portugal. Assim se constrói a imagem de um chefe “sensível à pobreza, à desventura do povo” que era “caridoso, governava com o coração” (cf. Discurso proferido no Rossio, a 14 de Maio de 1918).

Em Outubro, o presidente desperta para uma nova causa: a assistência às vitimas da febre pneumônica numa nova e “bendita cruzada”, em que as crianças não são esquecidas. Para estas, organizavam-se festas e davam-se brinquedos, vestuário e calçado.

Por muito vos amar”, escrevia-se nos pratos de arroz doce servido numa destas festas. Fechava-se o círculo do Presidente que governava com o coração, aberto aos doentes, aos pobres, aos esquecidos e aos velhos.

Era a caridadezinha no seu esplendor que os republicanos substituíram pela solidariedade, pela reforma do Estado e por verdadeiras transformações sociais que Sidónio Esqueceu.

Outra das imagens bem conseguida foi a de “conquistador, charmeur, amoroso e amorável” devido ao seu “olhar magnético e vivo” com “andar galhardo, firme e marcial” que fazia as delícias e arrebatava as mulheres num “histerismo lascivo” (cf. ALBUQUERQUE, António, Sidónio na lenda, revista Lúmen, Lisboa, 1922).

A admiração era tamanha que as “senhoras da sociedade descalçaram as mãos brancas e trabalharam por amor a Sidónio”, apesar deste nunca lhes ter reconhecido capacidade política. O voto estava continuava reservado aos sexo masculino apesar de, em Julho de 1918, ter permitido à mulher portuguesa o desempenho de várias funções públicas e abrir à mulher a pratica da advocacia, ajudante de notário e conservadora.

Mais do que qualquer outro Governo, o Sidonismo investiu na aliança com o Exército, com inúmeras paradas militares e usando o cenário bélico para reforçar a autoridade.

Sidónio usava a “capa militar sobre os ombros e um cobertor obre os joelhos”, tinha uma vida austera, começando a trabalhar às 8 horas e só terminando às 3 horas da madrugada, apos fumar uns quatro maços de cigarros Baunilhas. Sedutor, nunca recebeu ou dormiu com uma mulher em Belém. Passava assim a imagem de um homem que mal descansa, abnegado e dedicado à Pátria.

Numa população mal alojada, com péssimas condições de higiene e salubridade e mal nutrida, não é de estranhar que grassassem as doenças como febre tifóide e a varíola.

Em 1918, Portugal é assolado pela celebre pneumônica que sucede à tifóide (em 1917), matando 40 milhões de pessoas em todo o mundo e cem mil em Portugal. Sidónio Pais, ainda a refazer Portugal dos efeitos devastadores da Guerra que privara os portugueses de produtos essenciais, tinha agora de levantar um pais dizimado pela doença e multiplicava-se em visitas a hospitais.

A esperança de vida dos portugueses desce para menos de 36 anos mas a imagem de pai-presidente reforçava-se num país onde a maioria da população é analfabeta e em que a imagem é fundamental.


A fotografia e o bilhete postal assumiram um papel primeiro na divulgação desta imagem presidencial pouco republicana. As imagens de Sidónio são de consumo apetecível e alimentam um invulgar fenômeno de popularidade que alimenta invejas contra o inegável carisma do presidente.

OBS.: Reproduzimos a primeira Página da Ilustração Católica que dá conta da grande recepção de Sidónio Pais, em Braga.

Os rostos da República de A a Z: Sidónio Pais (8)


Sidónio Pais é reconfortado com o apoio na província, como aconteceu em Braga, em Janeiro de 1918. Do Norte segue para o Sul e as manifestações das multidões foram interpretadas como aclamação do Dezembrismo, um sistema longe da desgastada política tradicional, a Nova República.

Sidónio afirma-se republicano e fiel aos compromissos internacionais, perfilando uma revolução feita contra uma casta de políticos, contra a tirania e a demagogia, acentuando os valores da liberdade, tranqüilidade, ordem e trabalho.

Para isso, recorria da sempre velha e invocada ideia da regeneração e salvação da Pátria. Três meses depois, esclarece o rumo da sua Revolução: “implantar um regimen novo em que monárquicos e republicanos possam viver” ou seja, uma República para todos (cf. Um ano de ditadura, discurso e alocuções de Sidónio Pais, Lisboa, Lusitânia Editora, 1924).

A prioridade económica cede lugar à política e, perante a falência do parlamentarismo, a “nova ideia” é um regime presidencial, criado a partir de Março, com dois decretos. Um, de 11 de Março, estabelece o sufrágio universal (apenas masculino), e outro, 30 de Março, cria uma segunda câmara corporativa com representantes provinciais, das actividades econômicas, serviços, profissões liberais, artes e ciências.

Com a eleição do Presidente por sufrágio universal (e não pela Assembleia, como até então), o Presidente assumia mais poderes sobre o Parlamento e o Governo. Eleito em Abril de 1918, Sidónio Pais tem toda a margem de manobra para impor a “nova idéia”, assumindo-se como Chefe das Força Armadas e mentor do governo cujos ministros nomeava.

O Parlamento torna-se um órgão estéril, em resultado da sua vida atribulada e pouco pacífica, com longas discussões e cenas de violência entre os parlamentares.

As diferentes direitas portuguesas têm aqui o modelo que vão impor no futuro, enquanto o “bom rei” com maus ministros caminhava para o seu isolamento, apesar do fôlego que recebe com o fim da I Guerra Mubndial, em 11 de Novembro.

Sidónio capitaliza a seu favor a lealdade à Inglaterra e à França, destruindo as acusações de germanofilia, mas a tensão política não acalma. Novembro é um mês de greve geral, a 18, e o sidonismo organiza uma manifestação de forma ordeira, como se fosse uma parada de apoio, destinada a “amedrontar” os que querem a “desordem” e “violências bolcheviques”.

Todo o protagonismo é de Sidónio, corporizando a massa de portugueses que “querem viver em paz, trabalhar e progredir” em resposta aos “cidadãos de Lenine”.

O Sidonismo tem a primeira baixa: o mundo do trabalho está contra ele e os velhos republicanos aproveitam a boleia.
Longe ia o ambiente em que Sidónio aparece como depositários das esperanças e regenerador da situação criada pelo partido da Guerra e pela velha República.

Esmagada a primeira rebelião dos marinheiros, em Janeiro de 1918, Sidónio começa a exercer a autoridade capaz de “combater a desordem, garantir a tranqüilidade, condição sine qua non para o progresso, mais ai daquele que levantar um dedo ameaçador” (cf. Um ano de ditadura...).

O poder é encenado, o chefe recriado e as imagens publicitadas, aproveitando as “sopas dos pobres”, da Duquesa de Palmela, que ele faz reverter a seu favor, sendo conhecido pelo “Sidónio das Sopas”.

A partir de Abril de 1918, inaugura 31 cozinhas económicas, até Setembro mas só para alimentarem o “trabalhador honesto e não aquele que se preocupa mais com Kropotkine do que com a ferramenta”, ou seja, aquele que se “mete na política, que faz greves e que perturba a ordem”.

Os rostos da República de A a Z: Sidónio Pais (7)



Sidónio Pais proclama vitória, a 8 de Dezembro de 1917, fazendo render os vinte mil escudos que um agrário alentejano lhe entregara para instaurar a República Nova.

Raul Brandão escreve no seu livro Vale de Josafat que foi “um golpe de magia. De um dia para o outro cai o Afonso Costa, e todo o cenário se transforma” mas a análise do escritor minhoto não corresponde à realidade.

Esta relativa facilidade com que Sidónio e seus pares assumem o poder contra os democráticos é ilusória, para mal de Portugal.
Não foi difícil reunir apoios contra Afonso Costa, rosto do partido da guerra, mas foi muito complicado integrar e articular os diversos interesses e expectativas que se congregaram em Sidónio para construir uma alternativa
positiva,

A pacificação e reconciliação da família portuguesa foi difícil apesar d e sempre repetida e pedida por Sidónio em todas as suas visitas onde pedia ajuda para “realizar equilíbrio político, para que se estabeleça a paz no pais”.

Com o poder nas mãos era necessário assegurar a ordem pública — contendo os assaltos a lojas — e formar governo. Ficou a pairar ideia de que ninguém estava para se sacrificar pela Pátria. À sua volta, a sociedade política era uma manta de retalhos e constava-se que “ninguém ambicionava o poder” ou esperava que Afonso Costa caísse tão depressa. O será tudo uma construção para fazer sugerir a imagem do homem que se sacrifica, aceitando o poder por amor à pátria?

De facto, o primeiro governo sidonista, tem à proa, na Guerra e diplomacia, o comandante das tropas e a 27 de Dezembro, Sidónio acaba por acumular a presidência da República, nomeando-se a ele próprio.

O Governo era constituído por revolucionários, centristas, unionistas e independentes, ou seja uma coligação de várias forças que substituíam os democráticos do pé para a mão.

O novo governo foi acusado de anti-intervencionistas e germanófilo, sendo responsabilizado por deixar as tropas portuguesas na Flandres à deriva. Daí a ser acusado de abandonar o Corpo Expedicionário Português e da derrota de La Lys, em Abril de 1918, foi um passo pequenino.

É verdade que Sidónio não investiu o que devi a na prestação portuguesa da Flandres, por imposição da santa aliança com Inglaterra.
Outros problemas tinham de ser enfrentados por Sidónio Pais, como era a reconciliação dos portugueses e fé-lo através da revisão da lei da Separação, satisfazendo os católicos. Criou o Conselho Económico para atrair a si os sindicatos e os empresários mas nunca conseguiu perdoar aos democráticos.

Daí a criar uma policia preventiva — para vigiar crimes políticos e sociais, ovo da futura polícia política, — foi um passo agravado com a criação de uma guarda pretoriana do regime.

É em 1918 que Sidónio Pais começa a ser acossado por várias conspirações, reais ou exageradas para justificar o aumento de um aparelho policial e militar de confiança da Nova República.

EM Outubro de 1918, acontece um dos mais nefastos gestos do sidonismo, quando 140 prisioneiros, políticos e delitos de direito comum, guardados por uns 200 polícias são conduzidos para outra prisão e seis são mortos a meio do caminho. Para os sidonistas foi uma tentativa de libertação de alguns prisioneiros que correu mal enquanto os democráticos acusavam os sidonistas de uma cilada pela eliminar indivíduos incómodos e perigosos.

Como em Lisboa, as coisas corriam menos bem, Sidónio sente necessidade de se reconfortado com o apoio na província encetado viagem às grandes cidades onde era recebido em apoteose como aconteceu em Braga, em Janeiro de 1918.

Os rostos da República de A a Z: Sidónio Pais (6)



Em Berlim, Sidónio Pais temia que se Portugal entrasse na guerra, a Alemanha podia apoderar-se das colónias em África. A neutralidade de Sidónio complica-se quando Afonso Costa decide entrar na guerra ao lado da Inglaterra, em 1916.
A partir de Berlim, Sidónio deixa para trás a mulher e os filhos, porque não o esperava uma missão fácil, como reparamos anteriormente.

O seu papel e de outros diplomatas portugueses suscitava criticas de violentas de Teófilo Braga. Sidónio Pais é notificado a abandonar Berlim em Março de 1916.

No regresso a Portugal, o seu pais estava flagelado pelos efeitos da guerra, da fome e da peste, os ingredientes suficientes para que alguém pudesse alterar o rumo dos acontecimentos, com sucesso e de forma fácil, o que aconteceu com o golpe de 5 a 8 de Dezembro de 1917, quando “Lisboa ronceira desabelhava da Baixa para ir jantar”.

Seguindo de perto o relato de MARTINS, Francisco José da Rocha, Memórias sobre Sidónio Pais, Lisboa, Editorial ABC, o golpe é culminar de contactos do ex-embaixador de Berlim, contra o qual constava a existência de uma ordem de prisão ordenada pelo Governo de Afonso Costa.

Nesse dia 5 de Dezembro, Sidónio vestiu a farda que há vinte anos não usava, evitando mandar fazer uma nova para não levantar suspeitas. Dirigiu-se para o Jardim do Matadouro e partiu em direcção à Escola de Guerra, tocando o clarim, com uma pequena força de 40 cavalos, que foi engrossando com a adesão de Artilharia 1.

Na mítica rotunda de 1910 iniciava-se o golpe da Nova República para derrubar a Velha República, perante a incredulidade dos militantes e dirigentes do Partido Democrático, de Afonso Costa: “os senhores estão doidos. Este homem é lá capaz de fazer uma revolução?” — comentara o ministro dos Negócios Estrangeiros, Ernesto de Vilhena.

Foi um engano que custou caro aos democráticos que reagiram tardiamente e mal... porque os tempos estavam maduros para se afrontar o poder estabelecido.

A entrada de Portugal na guerra agravara a situação económica de um país que não produzia sequer o que consumia, numa trágica associação entre a escassez e a carestia.

Para muitos, existia fome, para outros a ameaça da fome apos longas filas de racionamento de alimentos e nada receber. A miséria espreitava todos os que viviam de salários fixos.

Que dizer também de milhares de homens e suas famílias mobilizados para as trincheiras da Flandres, em 1916? Assolada pela guerra, fome e a peste (tifo e a gripe espanhola em 1918), o descontentamento transformava-se facilmente em levantamento popular ou motim.

Os meios rurais católicos nunca perdoaram as diatribes de Costa contra a Igreja, no Verão de 1917 sucediam-se as greves, intensificando-se o movimento sindical.

Estava criada uma imensa maioria que estava disposta a apoiar ou tolerar quem quisesse mudar o cenário do pais, ao ponto de apos o golpe, a casa de Afonso Costa ter sido saqueada e os móveis atirados para a rua e levados por quem podia.

No entanto, Sidónio Pais contou com a incompetência do Governo para levar o golpe a bom porto que é forçado à demissão. O presidente Bernardino Machado resiste a nomear Sidónio Pais mas este impõe-lhe uma Junta revolucionária a que preside e assume todos os poderes. O Presidente é destituído e Afonso Costa é preso, juntamente com outros ministros, antes do Congresso ser dissolvido.

Sidónio podia proclamar vitória, o que aconteceu a 8 de Dezembro de 1917, fazendo render os vinte mil escudos que um agrário alentejano lhe entregara para instaurar a República Nova.