Thursday, September 30, 2010

Cem anos de República no Minho (15)

Deixamos para trás – como preciosa herança de D. Maria II, Mouzinho da Silveira ou Barjona de Freitas - três décadas de grande ascensão industrial. Mas Portugal é assim: o período de ouro degenera em crise e, neste caso, fomentou a emigração para o Brasil e alimentou o levantamento republicano.

Os românticos Almeida Garrett, Alexandre Herculano ou Júlio Dinis deram-nos um intervalo de crescimento e de sonhos que abriu as portas à turbulência anunciada por Camilo cuja cegueira iluminava o realismo de Eça de Queirós, aconchegado nas Farpas de Ramalho Ortigão.

O antigo regime dos frades e dos nobres dava lugar à sociedade dos barões. Almeida Garret diz-nos isso mesmo em “As viagens da minha terra” quando escreve: “frades… frades… Eu não gosto de frades. (…) Não os quero para nada, moral e socialmente falando”.

No entanto, “é muito mais poético o frade que o barão” – prosseguia o fundador do romantismo português que se interrogava: “como havemos nós de matar o barão?” porque os barões “são a moléstia deste século, não os jesuítas”.

Estas palavras a traduzem a afirmação dos burgueses na sociedade portuguesa bem descritos em “A morgadinha” de Júlio Dinis em que o professor primário, o médico e o padre constituem a oligarquia política corrupta que falsifica os resultados eleitorais perante a profunda ignorância das maiorias rurais e a contra-ofensiva do clero regular.

É verdade que Júlio Dinis valoriza o trabalho agrícola n’”Os Fidalgos da Casa Mourisca” mas todo o seu ideário acaba vergado ao caudal da obra do temperamental Camilo Castelo Branco cuja obra retrata com cruel simplicidade as últimas prepotências de uma sociedade ainda feudalizada.

A persistência dos morgadios e velhos preconceitos e classe no Entre Douro-e-Minho são eloquentemente ridicularizados em grande parte da obra do Cego de Seide com a antipatia genética ao Brasileiro, ao espírito burguês, à caça ao lucro e do dote, com uma vida que nenhum outro ficcionista voltou a captar (cf. António José Barreiros, in História da Literatura Portuguesa, Vol. II, Ed. Pax, Braga, p-406). Quase todas as grandes obras de Camilo – de sarcasmo social – se passam no período entre as Invasões francesas e a governança de Mouzinho da Silveira, que desferiu um golpe fatal em muitos usos e costumes dependentes do morgadio, as classes sociais altas e os seus vínculos.

As mudanças no ensino primário e secundário, com Passos Manuel, enriquecido com escolas superiores, as transformações da sensibilidade nas artes (veja-se o Palácio do Buçaco ou o Campo pequeno) de que são expoentes “O Desterrado” de Soares dos Reis ou “A Viúva” de Teixeira Lopes, o surgir de grandes pintores (como Alfredo Keill e Visconde de Menezes), o aparecimento de poetas como Teixeira de Pascoaes são consequência de um período de ouro que é interrompido nas últimas décadas do Século XIX e precipita a República.


Nos anos posteriores a 1868, com o apogeu dos transportes e dos meios de comunicação, compagina-se a crise da agricultura, o surto de emigração? De facto, eram inauguradas as pontes D. Maria Pia no Porto e D. Luís, o comboio avançava velozmente pelo território, fazendo a ligação com a Galiza, em Valença, em 1886, e entre o Minho e o Algarve, no ano seguinte.

O silvo agudo da locomotiva acordou os portugueses para outra verdade: o progresso não se resume a estradas e comboios. Os produtos externos fustigaram os preços dos que eram produzidos em Portugal e os comboios serviam para levar farinhas produzidas de graça com cereais estrangeiros – como nota Oliveira Martins. Com os comboios esquecemos as nossas terras com propriedades vastíssimas e extensos morgados por cultivar que aceleraram mais um surto de emigração para o Brasil e a desertificação do país.

Os cereais americanos – especialmente o trigo - mataram progressivamente a agricultura portuguesa que se vocacionou para a criação de gado e pastagens: como a história se repete! O alargamento da produção florestal foi outra consequência com espécies que sejam rápidas no crescimento. A viticultura do Douro sofreu forte abanão e o mesmo acontece com a generalidade da vinha portuguesa. Aos portugueses jovens restava o “salto” para o Brasil. Metade dos agricultores portugueses emigraram em 1890 (cf. Joel Serrão em Dicionário da História de Portugal, art. “Emigração”).

Portugal batia no fundo: “em todo o Portugal, à excepção do Porto, a banca e o negócio, as manufacturas e todas as empresas industriais de alguma importância, estão quase exclusivamente nas mãos de estrangeiros” – escrevia o francês Charles Vogel, num artigo publicado em 1890.

São estes empresários que regeneram o tecido industrial português e descobrem o filão têxtil e dos lanifícios, com a invasão maciça de teares que aproveitam as ramas de algodão oriundas do Ultramar. Portugal deixava de ser um país rural e passava a ser um território industrializado dominado por grandes empresas de capital estrangeiro que devoravam as pequeninas empresas.

Daqui ao capitalismo financeiro das grandes fortunas, foi um pequenino passo. E como sempre, o passo para uma crise financeira também é pequenino e aconteceu em 1891 com a crise cambial do Brasil. Que mais era preciso para justificar a primeira tentativa de revolução republicana?

Os “brasileiros” bem instalados preferiram continuar a mandar dinheiro para cá a mandar ir as filhas e as mulheres. Foram as suas remessas que permitiram a Portugal sair do naufrágio em 1891, depois do levantamento da escravatura no Brasil e da queda do preço do café. Que teve de fazer, em 1892, o ministro Dias Ferreira, quando a dívida pública absorvia metade das receitas do país?

Cortou 12,5% nos salários dos funcionários, aumentou 15% os impostos, enquanto a moeda é desvalorizada (deixando de ser comparada com o ouro) acompanhada de inflação galopante que atingia os mais pobres. Mais de 12 mil portugueses emigravam nessa altura para o Brasil, em cada ano.

Nós, portugueses, nunca mais aprendemos, mesmo passados cem anos do desaparecimento de um regime que governara Portugal desde a Cidade Berço.

Tuesday, September 7, 2010

Cem anos de República no Minho (14)


Prometemos na crónica anterior lembrar hoje os momentos principais da herança da rainha D. Maria II, num impulso regenerador que acelerou os ideais liberais e deu a machadada fatal no absolutismo miguelista enraizado nos espaços rurais minhotos, gerando os conflitos da Maria da Fonte e da Patuleia.

É um dos poucos momentos de ouro da História de Portugal no século XIX , cuja primeira metade é consumida em guerras (invasões francesas e revoltas populares regionais) e perda do Brasil, além de uma factura pesada a pagar aos ingleses.

Antes da sua morte, a Rainha D. Maria II deixou uma bela herança aos portugueses ao promulgar o Acto adicional de 1852 que regula a escolha dos deputados da Nação por eleição directa, generaliza o acesso ao voto pelos portugueses, acima dos 21 anos, e exclui apenas os criados de servir, os criminosos, os condenados e os contumazes.

Todavia, a maior conquista foi a abolição da pena de morte para os crimes políticos e era dado um primeiro passo para a fiscalização de dinheiros públicos e administração do Ultramar. Este movimento da Regeneração conseguiu, de uma penada legal, unir a lata, média e pequena burguesia, que se assim se consolida no poder por cerca de meio século. Foi a revolução dos Códigos (Civil, Penal, Fiscal, Comercial e Administrativo, com o fim dos “morgados”, por exemplo) que constituem a espinha dorsal dos actuais, como tão bem descreve Victor de Sá em “Época Contemporânea Portuguesa, I Vol, .

Consulte-se a história de qualquer povo – citamos o bracarense Ménici Malheiro – “e lá veremos sempre os esfarrapados, arvorando a bandeira vermelha das suas reivindicações contra a tirania dos poderosos. São eles que tudo constroem e nada possuem e em todos os movimentos libertadores ocupam a parte mais perigosa da barricada”. Mais uma vez, Portugal não saía da cepa torta e a mesma classe ia impor-se ao povo até 1910… ou até agora?

Oliveira Marques, na sua História de Portugal, Vol. II, pp. 67 e 103, assegura que o Acto adicional de 1852 uniu cartistas e setembristas; a expansão industrial, financeira e comercial sossegava os interesses de industriais, banqueiros, comerciantes e proprietários. O resultado, escreve, foi que “até ao surto do Partido Republicano não houve, em Portugal, oposição efectiva às instituições, às formas de governar e às políticas ou estruturas económicas e sociais”.

Esta “firme manutenção do poder por uma burguesia unificada iria durar meio século e impedir quaisquer veleidades de rebelião por parte das classes inferiores” como as dos “patas ao léu” ou da Maria da Fonte (1846 e 1847). Passaram três reinados (D. Pedro V, D. Luís e D. Manuel II) e Mouzinho da Silveira dispôs das condições ideais para lançar as bases do Portugal liberal, seguindo de perto o modelo francês na organização administrativa do território. O país foi dividido em distritos, que englobavam um certo número de concelhos, e estes eram constituídos por paróquias. Em cada distrito há um representante do governo nomeado pelo Rei. Os concelhos elegiam uma Junta administrativa.

As funções judiciais e administrativas não podiam misturar-se como antes acontecia, com o regime das Ordenações que são revogadas em grande parte.

O Código Administrativo de 1878 substitui os concelhos municipais por Câmaras municipais, de eleição local, confirma o essencial da reforma de Mouzinho da Silveira que reformulou o sistema judicial, criando os círculos e estes subdivididos em comarcas e estas últimas compunham-se de julgados ou freguesias. Um Supremo Tribunal da Coroa era assistido por um Procurador e no Tribunal de segunda instância (posterior Relação) existia um procurador do Rei. Os juízes eram escolhidos pelo Rei e apenas nos julgados eram eleitos.

Continuamos a herança de D. Maria, com o Código Penal, de 1852, que vai durar longas e longas décadas na sua essência, enriquecido com a abolição da pena de morte (1867) e da escravatura (1869), por Barjona de Freitas que também promulga outra peça fundamental para a organização do Estado: o Código Civil (1867) que substituía as… Ordenações Filipinas!

Pasme o leitor, como este país evoluía tão pouco em tanto tempo… de derrubamos os “Filipes” em 1640! No entanto, no século XIX, um punhado de portugueses (Alexandre Herculano, Fontes Pereira de Melo, Mouzinho da Silveira, Barjona de Freitas e D. Luís) foi capaz de desapertar os nós górdios de um país sufocado pelo “cacete miguelista” pois não “havia canto que não cheirasse a sacristia” pois era uma choldra onde nem “registo civil” de nascimentos, de casamentos (agora também civis), óbitos e paternidade dos filhos existia.

Mas há um vício que nunca mais combatemos: o défice das contas do “reino” ou da “República”. Já em 1822, ano em que se põe cobro “à desarrumação, sigilo e confusão”, começam a conhecer-se os contornos do défice e dão-se os primeiros passos para uma reforma fiscal.

Foi Também Mouzinho da Silveira quem lança as bases para as finanças públicas contemporâneas mas já então “grande parte das receitas se perdiam no pagamento de altos juros de dívida pública e nos prémios de ouro de pagamento externo, não sendo empregues em fins reprodutivos” e os impostos incidiam mais sobre o consumo que sobre os rendimentos na sua origem (cf. CASTRO, Armando, “Fazenda Pública”, in Dicionário da História de Portugal, onde descreve a existência de um Tribunal do Tesouro, outro Tribunal de Contas e uma Junta do Crédito Público, que tutelavam o Ministério das Finanças).

Que flagrante actualidade mesmo sem a crapulice das agências de “rating”… que abre o apetite para falarmos da revolução económica dos liberais, na última metade do século XIX, sem esquecer a cultura e artes, a educação e universidades.

São três décadas de grande ascensão industrial que degeneram em crise, fomentam a emigração para o Brasil e alimentam o levantamento republicano. Os românticos Almeida Garrett, Alexandre Herculano ou Júlio Dinis deram-nos um intervalo de crescimento e de sonhos que abriu as portas à turbulência anunciada por Camilo cuja cegueira iluminava o realismo de Eça de Queirós, aconchegado nas Farpas de Ramalho Ortigão.

Cem anos de República no Minho (13)


Nas semanas anteriores, com uma incursão através da versão camiliana de "A Brasileira de Prazins", lembramos tempos em que a morte voltava a ensombrar o Minho, pouco mais de trinta anos depois daquela "imprudente e louca resistência que o povo pretendeo fazer aos franceses nas serras do Carvalho d'Este", a 19 e 20 de Março de 1810.

Pode parecer pouco importante, para os nossos leitores, mas a história de Portugal encarregou-se já de afirmar que este movimento popular foi o precursor e apressou a mudança qualitativa na vida política portuguesa oitocentista (cf. VÁRIOS, História de Portugal, textos e documentos, III volume, Porto editora, 1986), ou não tivesse estado associado a ele Alexandre Herculano (cujo túmulo está nos Jerónimos, na foto ao lado.

Camilo Castelo Branco escreveu um livro com o título Maria da Fonte, que trata minuciosamente deste assunto. São também interessantes os Apontamentos para a historia da Revolução do Minho em 1846 ou da Maria da Fonte, pelo padre Casimiro. Na Biblioteca do Povo e das Escolas, o n.º 167 é a história da Revolução da Maria da Fonte, por João Augusto Marques Gomes.

Um dos primeiros trabalhos do romancista Rocha Martins intitula-se Maria da Fonte, protesto que foi a semente de um dos mais longos movimentos revolucionários portugueses, pela vasta participação de camadas populares e faz despoletar a chamada revolta da Patuleia.

Tal como a revolta da Maria da Fonte, também a Patuleia é uma revolta de origens camponesas, com a qual se solidarizaram artesãos, operários e estudantes, contra os cabrais e os saldanhas. A insurreição dos "pata ao léu" não tem ideologia e o seu esmagamento significa o primeiro passo para a perda da independência económica de Portugal. Depois da perda da independência económica, caminhávamos a passos largos para que, "no fim do século a própria independência política virá a ser gravemente ameaçada" — como escreve Miriam Halpern Pereira.

Luís Dantas, no seu livro «A Revolta da Maria da Fonte», Edições Ceres, Ponte de Lima, 2001, dá um excelente contributo para quem quer conhecer melhor estes tempos difíceis para Portugal que atrasaram durante décadas a modernização administrativa e política de Portugal.

Outra obra que pode e deve ser consultada é a de Paixão Bastos, Maria Luiza Balaio ou Maria da Fonte, editada pela Câmara Municipal da Póvoa de Lanhoso, em 1996, e nos ajuda a perceber os contornos deste amplo combate pela liberdade e pela justiça social, muito mais do que um protesto contra a proibição dos enterros nas igrejas, que não deixou de ser enunciado na literatura através de Camilo Castelo Branco, na música por Midosi e Frondoni “Hino da Maria da Fonte”, nas artes plásticas por José Augusto Távora que pintou Maria da Fonte na parede de uma sala do clube Povoense.

A rainha D. Maria Il, assustada com esta insurreição verdadeiramente popular, viu-se obrigada a demitir o ministério cabralista, chamando ao poder o duque de Palmela e Mousinho de Albuquerque, mas os confrontos continuavam ainda em Dezembro de 1846, como comprova a batalha em que foi morto o general Mousinho de Albuquerque; Celestino era destroçado em Viana do Castelo pelo general Schwalbach, o barão de Casal tomara Braga, os marinheiros de Soares Franco tomaram Valença e Viana do Castelo. A insurreição era tão forte, que, para se lhe pôr termo, foi precisa a intervenção estrangeira.

Recordemos que, no Minho, "o Barão Casal dava combate aos Miguelistas de MacDonnell que tinham entrado em Braga. A 21 de Dezembro, as forças governamentais tomaram Braga, obrigando o general escocês a fugir, e fuzilando mais de uma centena de miguelistas" (cf. VENTURA, António, Nova História Militar de Portugal, Volume 3, Ed. Círculo de Leitores, Lisboa, 2004).

A. Ménici Malheiro descreve a sociedade minhota de forma eloquente, em "Braga Contemporânea" quando diz: "não havia um canto que não cheirasse a sacristia, a cacete miguelista, a ódio de cónego, de padre, de frade, de jesuíta, de casaca ou sem ela, em todo o caso ódio de imbecis, todos formando um conjunto de miseráveis, muito devotos e tementes a Deus, mas da pior espécie, todos pensando no ventre... como bons próximos parentes dos porcos de Epicuro".

A Patuleia levou à queda do Governo de Costa Cabral e sua expulsão do país, pondo fim a uma agitada e violenta guerra civil, com batalhas cruéis em Braga, Porto, Valpaços e Lisboa, entre muitas escaramuças. Tudo termina com a assinatura da paz do Gramido, em 1847, mas a verdadeira paz apenas se faz sentir em 1850.

Fontes Pereira de Melo, em 1856, dava alguns exemplos deste tempo de paz, com a abertura de 36 quilómetros de caminho-de-ferro, "noventa e duas léguas de excelente estrada", além de "dezassete pontes" e da "montagem do telégrafo eléctrico" e da criação de escolas de instrução primária.

O investigador bracarense Victor de Sá cita o historiador Henriques Nogueira afirmando que "o mais antigo alicerce ideológico do republicanismo data precisamente de 1851, ou seja, do início da política regeneradora".

Afinal, é isto mesmo que temos vindo a tentar mostrar aos nossos leitores, quando escrevemos no início desta série de crónicas que os ideais republicanos nasceram entre nós com as invasões francesas e foram adiados devido à manipulação e miguelismo do clero rural, dos quais apresentamos provas suficientes ao longo das últimas crónicas.

Na próxima, abordaremos os acontecimentos de 1852 e a preciosa herança política deixada aos portugueses por D. Maria II.

Thursday, August 12, 2010

Cem anos de República no Minho (12)


Descoberto o figurão que se fazia passar por el-Rei D. Miguel, em Calvos, na Póvoa de Lanhoso, onde simulou uma sessão de despacho governamental, as tropas de Braga deslocaram-se a Calvos para prender o finório aldrabão de padres absolutistas. O relato camiliano em “A Brasileira de Prazins” vale a pena ser transcrito, com a chegada do Veríssimo, o falso rei, a Braga... dividida em duas maneiras de estar perante a vida.

Prometêramos há 15 dias descrever a chegada a Braga, seguindo as palavras de Camiloo Castelo Branco e é o que vamos cumprir, em seguida.

AS DUAS BRAGAS
E DOIS MINHOS

Com esta incursão na literatura, apenas quisemos demonstrar aos nossos leitores como o clero rural contribuiu de forma cla-morosa para o atraso no enraizamento dos ideais da Revolução Francesa conducentes à implantação da República, à qual se juntam alguns erros dos liberais, como a independência do Brasil e algum despotismo dos seus governantes. Regressemos a Camilo:

O Campo de Santa Ana parecia um arraial. Aglomeravam-se ali as duas Bragas — a fiel, a caipira, pletórica de fidalgos, de grandes proprietários, cónegos, de chapeleiros e da clerezia miúda; — a liberal, muito anémica, encostada ao 8 de infantaria, toda de bacharéis e empregados públicos, (...) negociantes de tendas mesquinhas, professores muito retóricos, o Capela, que ensinava fran-cês, o Pereira Caldas, sone-teiro e polígrafo, o velho Abreu bibliotecário, lacrimoso, o Pinheiro, muito grande, filósofo sensualista, mas bom vizinho, todos à volta do Monte Al-verne, um cónego muito assanhado, que foi, meses depois, comandante da brigada dos serezinos.

Cerveira Lobo impunha e dominava com as suas barbas, o trajar asseado com muito lustro, e o bater metálico, patarata, das esporas. Abriram-lhe passagem, rodeavam-no cavalheiros da primeira plana, os Vasconcelos do Tanque, os Magalhães, o Freire Barata, o Cunha das Travessas, a gema daquele enorme ovo realista, chocado no seio da religião da Carlota Joaqui-na, do conde de Basto e do Teles Jordão.

O Cerveira perguntava aos seus:

É? — uns encolhiam os ombros, outros negavam gesticulando. E ele, com intimativa:
— Pois saibam que é!
O Manuel de Magalhães dizia ao ouvido do Henrique Freire:
— Deixa-o falar, que está idiota.

O Bernardo de Barros, um fidalgo de Basto que fora capitão de cavalaria, com um bizarro sorriso de corte e ademanes de uma selecção rara:
— Meu tenente-coronel, el-rei, quando vier, não há-de estar ao alcance da canalha. Descanse vossência.
Os janotas acercavam-se, desfrutadores, do Cerveira. Eram o Russel, o António Gaspar, os de Infias, o Bento Miguel de Maximinos, o Paiva Brandão, o D. Manuel de Prelada, o D. João da Tapada, o António Luís de Vilhena, um loiro, muito enamorado, com uma rosa-chá na lapela da casaca azul com botões amarelos.

Daí a pouco fez-se um torvelinho de povo à porta do Governo Civil. A soldadesca afastava a multidão com frases persuasivas de coronha de arma. Formou-se a escolta, e o preso saiu, de rosto levantado e afoito, rara a multidão. Cerveira Lobo fitava-o com uma ansiedade aflitiva.


—Que se parecia... e ia jurar que era ele! — quando um realista convencionado e que estava no grupo, o major de Vila Verde, disse com um desdém de achincalhação:
— Olha quem ele é! Oh que traste! que grande mariola! Forte malandro!
— Quem é? quem é? —perguntavam todos.
— É o Veríssimo, foi furriel da minha companhia, andou com o Remexido, e safou-se de Messines com o pré dos guerrilhas.

O Cerveira inclinou-se ao pedreiro e disse-lhe à orelha:
— Ouviste, ó Zeferino?
— Estou banzado! —murmurou o outro.
— Olha que espiga! três contos! hem?
— Raios parta o Diabo! — disse o pedreiro, numa síntese condensada da sua incomensurável angústia.

Minutos depois, o padre Rocha encarava de frente o Cerveira, chamava-o de parte e dizia-lhe:
— Está desenganado, meu amigo? Eu, para corresponder à confiança de V. Exª, impus-me o dever de o salvar de um roubo de três contos, e da vergonha de ser logrado por um impostor. O maior serviço que podemos fazer ao Sr. D. Miguel é entregar à justiça um infame que se serve do seu sagrado nome para roubar os amigos do augusto príncipe.

(...) O Veríssimo entrou na cadeia de Braga, e na ma drugada do dia seguinte foi transferido para a Relação do Porto.”

O nome e apelidos que ele deu no Governo Civil eram verdadeiros: Veríssimo Borges Camelo da Mesquita.”

Cem anos de República no Minho (11)


Diz-se “por lá que o Sr. D. Miguel está no Alto Minho, no concelho da Póvoa de Lanhoso. Propalam-no certos padres, não sei com que alcance. A estupidez tem intuitos impenetráveis. Não percebo para que fim espalham tão absurdo boato, se não é para alarmar o governo ou lograr incautos” — é assim que Camilo Castelo Branco começa a desenvolver o mito do miguelismo em “A Brasileira de Prazins”.

Esta incursão — ou parêntesis — na escrita camiliana apenas se destina a provar que o clero católico rural teve uma influência veemente no retardar dos ideais da Revolução Francesa que hão-de originar esntre nós a implantação da República.

A resposta é precisamente “lograr incautos”. É o próprio Camilo Castelo Branco que disso está convencido quando explica a natureza do fenómeno e aponta os seus autores: “se pudéssemos dar remédio mais suave à doença desse miserável impostor, de quem eu sei mais algumas traficâncias. Constou-me há poucas horas, que umas beatas de Braga, abastadas, e de apelido Botelhas, tinham enviado uma importante quantia, por intermédio de um certo abade, a um D. Miguel que está escondido em Portugal".


De facto, narra Camilo, “constava que D. Miguel estava escondido na residência do abade de São Gens de Calvos, no concelho da Póvoa de Lanhoso, o reverendo Marcos António de Faria Rebelo. Que pouquíssimas pessoas o tinham visto, porque Sua Majestade só se mostraria aos seus amigos fiéis quando entras-sem pela Galiza os generais estrangeiros que se esperavam, uns do antigo exército carlista, outros de Inglaterra.

O primo Cristóvão redarguiu, magoado na sua esperteza, que era tão certo estar elrei em Calvos como era certo ter-me beijado a régia mão em casa do abade, na noite sempre memorável de 16 de Abril de 1845.

Que só o tinha visto de relance em Braga em 32, mas que o conhecera pelo retrato; que até manquejava um pouco, tal e qual, como se sabe, depois que Sua Majestade quebrou a perna em 28. Que el-rei nomeara o abade de Calvos seu capelão-mor, que dera a mitra de Coimbra ao abade de Priscos, e fizera chantre o padre Manuel das Agras, e a ele lhe fizera a mercê de duas comendas e o título de barão de Bouro, afora outras graças a diversos clérigos e leigos
.”

Estão criados os ingredientes camilianos para a realização de uma sessão da Corte do rei absolutista em Calvos, na mais perfeita clandestinidade.

Naquele ano, por meado de 1845, espalhara-se no ambiente dos realistas, como um aroma de jardins floridos, o boato de que vinha o Sr. D. Miguel. (...) . Na residência do abade Marcos Rebelo, em São Gens de Calvos, havia uma sala com alcova e janelas sobre uma horta arborizada. (...) Dez horas. Abriu-se então a porta da alcova, que rangeu ligeiramente na couceira desengonçada, e saiu um sujeito de mediana estatura, ombros largos, barba toda com raras cãs, olhos brilhantes, pálido-trigueiro, um nariz adunco. Representava entre trinta e seis e quarenta anos.

Sentou-se à braseira e preparou um cigarro, vagarosamente, que acendeu na aresta chamejante de uma brasa. Com o cigarro ao canto dos lábios e um olho fechado pelo contacto agro do fumo, foi abrir uma das vidraças, e pôs fora a mão a sondar a temperatura. Coxeava um pouco. Recolheu a mão com desagrado e fechou a janela. Vinha subindo a escada de comunicação com a cozinha uma mulher idosa, em mangas de camisa, meias azuis de lã e ourelos achinelados. Pediu licença para entrar, fez uma mesura de joelhos sem curvar o tronco, e perguntou:


— Vossa Majestade passou bem?
— Optimamente, Se-nhorinha, passei muito bem.

— Estimo muito, Real Senhor. O Senhor Abade foi chamado às oito horas para confessar uma freguesa que está a morrer de uma queda, e deixou dito que pusesse o almoço a Vossa Majestade, se ele não chegasse às nove e meia".

Serve-se o banquete ao Rei que “já tinha comido tripas, e dizia que no exílio se lembrara muitas vezes desta saborosa iguaria com feijão branco e chispe, que tinha comido em Braga. O abade de Calvos sensibilizava-se até às lágrimas quando via el-rei a esbrugar uma unha de porco e a limpar as régias barbas oleosas das gorduras suínas. O terceiro prato era vitela assada. (...) Ninguém há-de crer o que Sua Majestade atafulha naquele bandulho! — e dizia que lhe dava vontade de chorar, lembrando-se das lazeiras que ele tinha apanhado; porque o abade contava que lera no Deus o quer, do visconde de Arlincourt, que o Sr. D. Miguel, em Roma, não tinha às vezes 10 réis de seu para almoçar uma xícara de leite.
(...) No fim do copioso almoço, el-rei fumava charutos espanhóis, de contrabando; desabotoava o colete, dava arrotos, repoltreava-se na cadeira de sola um pouco desconfortável, e vaporava grande colunas de fumo que se espiralavam até ao tecto.”

Depois, o falso rei despachará assuntos do reino.

Monday, July 5, 2010

Cem anos de República no Minho (10)


Na liderança destes grupos miguelistas surgiram clérigos como o padre Casimiro José Vieira, o padre João Cano, o padre Manuel de Agra, entre outros, que dão ao movimento carácter político: a restauração do absolutismo ou da Causa miguelista de que a Póvoa de Lanhoso e Vieira eram dois berços de ouro.

Camilo Castelo Branco descreve este estado de alma no interior minhoto de forma fantástica no seu livro “A Brasileira de Prazins”, datado de 1882, quando descreve a criação da Corte de Calvos, onde se alojou, na residência paroquial um tal Veríssimo que se fez passar por D. Miguel.

Constava que D. Miguel estava escondido na re-sidência do abade de São Gens de Calvos, no conce-lho da Póvoa de Lanhoso, o reverendo Marcos António de Faria Rebelo. Que pou-quíssimas pessoas o tinham visto, porque Sua Majestade só se mostraria aos seus amigos fiéis quando entrassem pela Galiza os generais estrangeiros que se esperavam, uns do antigo exército carlista, outros de Inglaterra” — escreve Camilo em “A Brasileira de Prazins”.

A importância dos padres para a criação desta fábula — que testemunha a influência do clero na causa absolutista — é bem visível no texto que transcrevemos em seguida, da mesma obra, e se reporta ao ano da revolução da Maria da Fonte.

Trazemos aqui estes elementos para que eles nos ajudem a perceber porque é que os ideais republicamos — trazidos pelas invasões francesas — demoraram tantos anos a vingar em Portugal. A resistência era muito forte, por força da acção do clero rural, de que é exemplo eloquente esta história que cupa vários capítulos de “A Brasileira de Prazins”, a recordar episódios vividos po Camilo Castelo Braga na sua juventude, quando andou foragido por Braga, Taipas e Póvoa de Lanhoso.

Um boato de Vieira
a Bouro
com epicentro
em Calvos

Naquele ano, por meado de 1845, espalhara-se no ambiente dos realistas, como um aroma de jardins floridos, o boato de que vinha o Sr. D. Miguel. O seu enorme partido sentia-se palpitar no anseio da-queles vagos anelos que estremeciam as nações pagãs ao avizinhar-se o profetizado aparecimento do Messias. Afirmam-no os Santos Padres, e os padres do Minho asseveravam o mesmo a respeito do príncipe proscrito. Frei Gervásio recebia do alto da província cartas misteriosas de uns padres que paroquiavam na Póvoa de Lanhoso e Vieira. Era ali o foco latente do apostolado. Naqueles estábulos de igno-rância supersticiosa é que devia aparecer, pelos mo-dos, o presépio do novo redentor. Citavam-se profecias apocalípticas de frades que estavam inteiros sob as lajes das claustras. Convergiam àquele ponto missionários de aspectos seráficos, olhando para as estrelas como os magos e os pastores da Palestina.”

A ironia camiliana é saborosa, mas retirando os exageros, “A Brasileira de prazins” é um bom testemunho da crendice do povo do interior minhoto, que acreditava em tudo o que os clérigos afirmavam. Veja-se como se vai criando o ambiente para a instalação da chamada Corte de Calvos de El Rei D. Miguel, escondido na residência do pároco.

Gaspar das Lamelas emborracha-se ao jantar e faz brindes ao Menino Jesus e ao Sr. D. Miguel I. Pica-lhe na caneca, pungem-no saudades do rei, e sai para o terreiro a dar-lhe vivas. Outros vinhos em ebulição respondem-lhe num grito de sinceridade compacta. (...) Este general, ao declinar da vida, casado e abstémio, não deu uma página gloriosa à sua história, presidiu sem iniciativa militar nem política à Junta Suprema do Povo, e fechou o ciclo das suas façanhas a parlamentar em Vieira com o padre Casimiro, o General Defensor das cinco chagas”.

O que é certo é que o boato da presença de El Rei D. Miguel, começou a circular no interior minhoto, apesar das dúvidas, como excelssamente descreve o romancista de Seide (S. Miguel): “Entretanto o Zeferino, um pouco desanimado, contou-lhe que o seu padrinho de Barrimau e mais o frade não acreditavam que el-rei estivesse em Calvos; que era uma comedela do Dr. Cândido de Anelhe e dos padres para apanharem cinquenta contos à D. Isabel Maria; que os generais do Sr. D. Miguel não sabiam de nada.

O Cerveira Lobo esfriou.
— Também me parece — dizia — que se o meu velho amigo D. Miguel aí estivesse, já me tinha mandado chamar.
Mas, depois que o Bezerra de Bouro asseverou que beijara a mão de el-rei, o pedreiro e o tenente-coronel já não podiam duvidar. Combinou o fidalgo com Zeferino que partisse ele para Lanhoso, e dissesse ao capitão-mor que o levasse a Calvos.


Na próxima semana, vamos transcrever uma sessão da corte do rei D. Miguel na residência paroquial de Calvos, até à chegada dos soldados, idos do Quartel do Pópulo, em Braga, para prender o “rei”... de copas, chamado... Veríssimo!