Monday, July 5, 2010

Cem anos de República no Minho (10)


Na liderança destes grupos miguelistas surgiram clérigos como o padre Casimiro José Vieira, o padre João Cano, o padre Manuel de Agra, entre outros, que dão ao movimento carácter político: a restauração do absolutismo ou da Causa miguelista de que a Póvoa de Lanhoso e Vieira eram dois berços de ouro.

Camilo Castelo Branco descreve este estado de alma no interior minhoto de forma fantástica no seu livro “A Brasileira de Prazins”, datado de 1882, quando descreve a criação da Corte de Calvos, onde se alojou, na residência paroquial um tal Veríssimo que se fez passar por D. Miguel.

Constava que D. Miguel estava escondido na re-sidência do abade de São Gens de Calvos, no conce-lho da Póvoa de Lanhoso, o reverendo Marcos António de Faria Rebelo. Que pou-quíssimas pessoas o tinham visto, porque Sua Majestade só se mostraria aos seus amigos fiéis quando entrassem pela Galiza os generais estrangeiros que se esperavam, uns do antigo exército carlista, outros de Inglaterra” — escreve Camilo em “A Brasileira de Prazins”.

A importância dos padres para a criação desta fábula — que testemunha a influência do clero na causa absolutista — é bem visível no texto que transcrevemos em seguida, da mesma obra, e se reporta ao ano da revolução da Maria da Fonte.

Trazemos aqui estes elementos para que eles nos ajudem a perceber porque é que os ideais republicamos — trazidos pelas invasões francesas — demoraram tantos anos a vingar em Portugal. A resistência era muito forte, por força da acção do clero rural, de que é exemplo eloquente esta história que cupa vários capítulos de “A Brasileira de Prazins”, a recordar episódios vividos po Camilo Castelo Braga na sua juventude, quando andou foragido por Braga, Taipas e Póvoa de Lanhoso.

Um boato de Vieira
a Bouro
com epicentro
em Calvos

Naquele ano, por meado de 1845, espalhara-se no ambiente dos realistas, como um aroma de jardins floridos, o boato de que vinha o Sr. D. Miguel. O seu enorme partido sentia-se palpitar no anseio da-queles vagos anelos que estremeciam as nações pagãs ao avizinhar-se o profetizado aparecimento do Messias. Afirmam-no os Santos Padres, e os padres do Minho asseveravam o mesmo a respeito do príncipe proscrito. Frei Gervásio recebia do alto da província cartas misteriosas de uns padres que paroquiavam na Póvoa de Lanhoso e Vieira. Era ali o foco latente do apostolado. Naqueles estábulos de igno-rância supersticiosa é que devia aparecer, pelos mo-dos, o presépio do novo redentor. Citavam-se profecias apocalípticas de frades que estavam inteiros sob as lajes das claustras. Convergiam àquele ponto missionários de aspectos seráficos, olhando para as estrelas como os magos e os pastores da Palestina.”

A ironia camiliana é saborosa, mas retirando os exageros, “A Brasileira de prazins” é um bom testemunho da crendice do povo do interior minhoto, que acreditava em tudo o que os clérigos afirmavam. Veja-se como se vai criando o ambiente para a instalação da chamada Corte de Calvos de El Rei D. Miguel, escondido na residência do pároco.

Gaspar das Lamelas emborracha-se ao jantar e faz brindes ao Menino Jesus e ao Sr. D. Miguel I. Pica-lhe na caneca, pungem-no saudades do rei, e sai para o terreiro a dar-lhe vivas. Outros vinhos em ebulição respondem-lhe num grito de sinceridade compacta. (...) Este general, ao declinar da vida, casado e abstémio, não deu uma página gloriosa à sua história, presidiu sem iniciativa militar nem política à Junta Suprema do Povo, e fechou o ciclo das suas façanhas a parlamentar em Vieira com o padre Casimiro, o General Defensor das cinco chagas”.

O que é certo é que o boato da presença de El Rei D. Miguel, começou a circular no interior minhoto, apesar das dúvidas, como excelssamente descreve o romancista de Seide (S. Miguel): “Entretanto o Zeferino, um pouco desanimado, contou-lhe que o seu padrinho de Barrimau e mais o frade não acreditavam que el-rei estivesse em Calvos; que era uma comedela do Dr. Cândido de Anelhe e dos padres para apanharem cinquenta contos à D. Isabel Maria; que os generais do Sr. D. Miguel não sabiam de nada.

O Cerveira Lobo esfriou.
— Também me parece — dizia — que se o meu velho amigo D. Miguel aí estivesse, já me tinha mandado chamar.
Mas, depois que o Bezerra de Bouro asseverou que beijara a mão de el-rei, o pedreiro e o tenente-coronel já não podiam duvidar. Combinou o fidalgo com Zeferino que partisse ele para Lanhoso, e dissesse ao capitão-mor que o levasse a Calvos.


Na próxima semana, vamos transcrever uma sessão da corte do rei D. Miguel na residência paroquial de Calvos, até à chegada dos soldados, idos do Quartel do Pópulo, em Braga, para prender o “rei”... de copas, chamado... Veríssimo!

Monday, June 28, 2010

Cem anos de República no Minho (9)


Maria da Fonte é nome de mulher, mas, terá realmente existido uma mulher com esse nome, ou será apenas fruto de uma lenda?
Esta era a pergunta com que terminávamos na crónica da última quinzena, mas Camilo apresenta ainda outra hipótese da sua recolha: "uma criança abandonada à beira da Fonte do Vide, no lugar do Barreiro, da freguesia de Fonte Arcada, que foi criada por Josefa Antunes, e que, por morte desta, passou a viver no lugar de Valbom, onde, finda a revolta, regressou, tendo posteriormente casado e partido, sem que mais se soubesse notícias dela”.

Como nas invasões francesas, o Clero desempenha um papel determinante na arregimentação popular para a guerrilha e, entre outros, Camilo cita os Padres João do Cano, José das Caldas, José da Lage, Manuel da Agra, e, o mais popular de todos, o Padre Casimiro. Padre Casimiro José Vieira, «Defensor das Cinco Chagas e General Comandante das Forças Populares do Minho e Trás-os-Montes», nasceu no ano de 1817, em Vieira do Minho.

Quando o barão de Casal foi espostejar os miguelistas a Braga, escreve Camilo em A brasileira de Prazins, os dois tenentes apresentados pediram vénia ao general para servirem na coluna do visconde de Vinhais; — que tinham repugnância de pelejar cara a cara com os seus parentes bandeados nas guerrilhas do padre Casimiro José Vieira e do padre José da Laje. A vergonha impunhalhes o dever de doirar a mentira. Não lhes pareceu decente irem acutilar nas mas de Braga o Cristóvão Bezerra, de Bouro, e o abade de Calvos e o padre Manuel das Agras. Não poderiam ver sem mágoa a soldadesca a dar saque aos dinheiros das senhoras Botelhas”.

Nas vésperas da Revolução da Maria da Fonte, «em Março de 1846 estudava retórica em Braga, habilitando-se para pregador. Era boa figura, tinha um lindo bigode preto, era muito pândego» — escreve Camilo, segundo o qual «a força e a popularidade do Padre Casimiro residem, acima de tudo, na eficácia com que utilizou os parcos meios ao seu alcance. O principal desses meios foi, sem dúvida, o conhecimento do terreno. As subtilezas da psicologia não lhe são, também, desconhecidas. Totalmente consciente de que a sua guerra mais não poderia ser do que uma guerrilha de camponeses, mantém-lhe sempre o ritmo sincronizado pelo ritmo dos trabalhos agrícolas».

CONVICTO MIGUELISTA

Padre Casimiro, tal como tantos outros Padres do Minho, é um convicto miguelista, e prepara as suas gentes e os seus guerrilheiros para a luta pela Restauração de D. Miguel I. Por todo o País se encontravam adeptos do Rei Legítimo, mas era, fundamentalmente, no Minho, berço da nacionalidade, que a saudade daqueles tempos se agudizava ao ponto de surgirem falsos D. Miguéis.

Leia-se este pedacinho de “Memórias do Cárcere” de Camilo Castelo Branco, sobre a expansão do Miguelismo no Minho e na Póvoa de Lanhoso: “E lavrou o acór-dão muito recheado de grifo: — Que agravado era o agravante pelo juiz da comarca de Lanhoso, por-quanto na pronúncia de primeira instância haviam sido desprezadas as formalidades mais curiais, pois que nenhuma testemunha depusera que o agravante se inculcasse D. Miguel para perturbar a ordem constituída, chamando o povo à revolta; e das respostas do agravante no interrogatório a que procedeu a autoridade administrativa, constava que o preso quase que fora obrigado por um clérigo estúpido e esturrado miguelista a deixar-se chamar D. Miguel I; mas não constava nem se provava que o agravante se aproveitasse de tal fraude e impostura para extorquir valores aos seus estúpidos cortesãos; o que decerto praticada um gamenho decidido a fingir-se D. Miguel para os espoliar. Que a pronúncia fora iníqua, atabafada apaixonadamente, e sem base, visto que nada se colhia dos depoimentos das testemunhas, e apenas se fez obra por hipóteses e indícios, fundada num rol de indivíduos alarves, a quem o suposto monarca fazia mercês de comendas, de títulos, de patentes e até de mitras, sem que daí resultasse alvoroto nem leve perturbação na ordem pública, nem mesmamente dano para os mencionados burros que pediam as mercês, e que deviam ser pronunciados em primeira instância, se a corte de São Gens de Calvos não fosse uma farsa de Entrudo.

E, dilatando-se filosoficamente e chistoso, o juiz-relator adicionava, aconselhando, que seda bom e proveitoso que nas tenras selváticas do Minho se espalhassem muitos Miguéis daquela casta e feitio até que os novos Sebastianistas se convencessem de que somente assim poderiam arranjar um Miguel que lhes desse comendas, títulos, postos militares e prelazias.

É na liderança destes grupos que surgem clérigos como o padre Casimiro José Vieira, o padre João Cano, o padre Manuel de Agra, entre outros, que dão ao movimento carácter político: a restauração do absolutismo.

Chegou a controlar a área entre os rios Cávado e Ave, e a recrutar apoiantes em Trás-os-Montes, dada a facilidade com que enunciava os seus princípios, ou aos povos que ia conquistando para a Causa miguelista de que a Póvoa de Lanhoso e Vieira eram dois berços de ouro. Lá iremos.

Monday, June 14, 2010

Cem anos de República no Minho (8)


A revolta da Maria da Fonte alastra-se rapidamente da Póvoa de Lanhoso a Arcos de Valdevez, Ponte da Barca, Ponte de Lima, Viana do Castelo, Barcelos, Braga, Taipas, Guimarães, Cabeceiras de Basto, Chaves e Vinhais.

As escaramuças chegam a cidades como Vila real, Viseu, Aveiro, Coimbra, Leiria, Figueira da Foz e Santarém, mas não é um erro histórico grosseiro afirmar que a revolta da Maria da Fonte foi uma revolução regional que marcou todo o ano de 1846, a partir de Maio.

Assim se chamou a revolução que rebentou no Minho em Abril de 1846 contra o governo de Costa Cabral, mais tarde conde e marquês de Tomar. Mas, a par da oposição às «Leis de Saúde» estava a luta contra o aumento dos impostos decretado pelo Governo, traduzido na destruição das «bilhetas», que eram os boletins das contribuições.

Também, a oportunidade da Restauração de D. Miguel. E, com o alastrar da revolta a outros pontos do País, a união de Cartistas, Miguelistas e Setembristas leva a que os Cabrais se vejam obrigados a abandonar Portugal. A Revolução da Maria da Fonte teve, portanto, consequências políticas muito para além do que os seus promotores alguma vez pensaram.

Pinceladas camilianas

«Começara o ano de 1846 docemente reclinado nos fagueiros braços da mais bonançosa paz. A agricultura prosperava, o comércio desenvolvia-se, as artes floresciam, o crédito público aumentava, a viação co-meçava os seus primeiros ensaios e as contribuições não escaldavam» — escrevia Castelo Branco no seu livro "Maria da Fonte".

Contra as autoridades vão fazê-lo, em Março na freguesia de Garfe, antes na freguesia de Travassós, nos primeiros dias de Abril na fre- guesia de Fonte Arcada, e, quase no fim desse mês, no lugar de Simões ou Simães.

Estes acontecimentos eram protagonizados por mulheres, armadas «umas de chuços, outras de ferrelhas e pás de enfonar, muitas com choupas e sacholas, algumas com forcados e espetos» , é a descrição de Camilo sobre estas mulheres, que comandavam o funeral, não permitindo a presença de homens.

As autoridades participavam estes atropelos à lei, mas não obtinham resposta. Somente a seguir ao caso em Simões é que foi emitida voz de prisão para Maria da Fonte e suas sequazes, que foram presas, à excepção da cabecilha que conseguiu fugir. «Na sexta-feira próxima em que havia confessores para a desobriga» , o juiz de direito, o delegado, o oficial de diligências e os adjuntos dirigiram-se ao lugar, e o povo começou a tocar os sinos a rebate, tendo as autoridades que fugir.

«Foi então que apareceu a Maria da Fonte de clavina empunhada e duas pistolas ao cinturão, gritando: Vamos à cadeia tirar as presas! Viva o Senhor Dom Miguel!» — relata Camilo Castelo Branco. Chegados à Póvoa, são as mulheres presas libertadas, regressando a suas casas como heroínas. Entretanto, as autoridades enviam um destacamento de cin-quenta praças do Regimento “8” de Braga para a Póvoa de Lanhoso, que nada faz. Pouco tempo depois ocorre outro enterro, na freguesia de Galegos, onde Maria da Fonte e as suas companhei-ras voltam a aparecer. Agora, a toda a gente é permitido assistir, participando o Clero plenamente na cerimónia. Desta ocorrência, são presos um homem e uma mulher, mas, «ao passarem na serra do Carvalho, lá vão tirá-los à escolta os moradores das próximas freguesias de Ferreiros e Geraz» — prossegue o relato camiliano com ecos nas suas "Memórias do Cárcere".

Entre 15 e 16 de Abril a revolta assume proporções inesperadas, com o ataque a Guimarães conduzido pelo Padre José das Caldas, e o ataque a Braga pelas gentes do Prado que já descrevemos aqui, a propósito da celebração da Páscoa na rua da Cónega. Ao mesmo tempo são queimados todos os papeis dos arquivos da administração. Maria da Fonte — como se crê — participa em todos estes actos e senão participou é sempre importante que uma qualquer altercação da ordem estabelecida tenha um nome, ou esteja personalizada numa pessoa que, por vezes, se torne de difícil identificação.

Mito popular?

O imaginário popular precisa destas personagens, com as quais se identifica, transformando-as em mitos, que passam de geração em geração, passando a fazer parte da história alternativa.

Maria da Fonte é nome de mulher, mas, terá realmente existido uma mulher com esse nome, ou será apenas fruto de uma lenda? Efectivamente, os seus contemporâneos distribuíram os atributos da personagem por diferentes mulheres, de diferentes lugares. Uma é apresentada como irmã de um sapateiro de Simões, da freguesia de Fonte Arcada, de nome Maria Angelina, a quem chamavam Maria da Fonte, e fora processada e pronunciada nos tumultos da Póvoa de Lanhoso — lembra Camilo Castelo Branco.

Outra, era uma doceira de Valbom, nas vizinhanças de Lanhoso, que andava pelas feiras e romarias inculcando-se a Maria da Fonte — tenta explicar o escritor de Seide que andou foragido à justiça entre as Caldas das Taipas e a Póvoa de Lanhoso.

Camilo Castelo Branco cita o jornal «Comércio de Portugal», de Lisboa, de 15 de Março de 1883, identificava Ana Maria Esteves, que teria, então, cinquenta e seis anos, nascida em São Tiago de Oliveira, Póvoa de Lanhoso, e casada com António Joaquim Lopes da Silva, como a Maria da Fonte.
Mas a ela voltaremos.

Monday, May 24, 2010

Cem anos de República no Minho (7)


Na quinzena passada, recordamos os primeiros momentos do germinar da Revolta da Maria da Fonte em que "muitas mulheres foram dadas como sendo as autoras do despoletar da revolução, portanto muitas Marias da Fonte existiram".

As expropriações — escreve Victor de Sá na sua obra "A crise do Liberalismo" — só tinham aproveitado às camadas superiores da burguesia; a famosa lei dos forais permitia que os pequenos proprietários e os rendeiros continuassem a ser submetidos ao pagamento de múltiplas contribuições a senhores e donatários". Os salários agrícolas não acompanhavam o custo de vida causada por uma crise de abastecimento que se sentiu entre 1845 e 1846 — como atestam as "Actas das Vereações" da Câmara de Braga.

Estas situações permitiram a aliança "contra natura" entre miguelistas e liberais contra os cabralistas, numa revolta despoletada em Fontarcada e que se alastra a todo o Norte e Centro do país até Dezembro de 1846.

A morte voltava a ensombrar o Minho, pouco mais de trinta anos depois daquela "imprudente e louca resistência que o povo pretendeo fazer aos franceses nas serras do Carvalho d'Este", a 19 e 20 de Março de 1810.

O início do levantamento popular continua obscuro — na opinião do historiador bracarense Victor de Sá — e geralmente "confunde-se com a descrição de circunstâncias mais ou menos fortuitas que não eram o verdadeiro motivo da insurreição. (...) A verdadeira causa, no entanto, estava no descontentamento que se acumulava contra o sistema capitalista do regime constitucional que, desde a sua instauração, provocara a ruína do pequeno campesinato. (...) As expropriações de bens de mão-morta só tinham aproveitado às camadas superiores da burguesia; a famosa lei dos forais permitia que os pequenos proprietários e os rendeiros continuassem a ser submetidos ao pagamento de múltiplas contribuições a senhores e donatários, mesmo se estes não eram os mesmos de outrora."

A estas imposições juntam-se a baixa dos salários, a evolução dos preços dos produtos alimentares, a insuficiência de colheitas e a crise de abastecimento que se generaliza em toda a Europa. O enterro proibido nas igrejas foi um pretexto que escondeu razões maiores e mais importantes para o dia-a-dia das populações minhotas.

A 20 de Janeiro de 1846 teve lugar na freguesia de Fontarcada, o enterramento de José Joaquim Ribeiro, que no cumprimento da lei devia ser sepultado no adro, visto não haver ainda cemitério. As mulheres, ao saberem disso, reuniram-se a fim de conduzirem o falecido ao mosteiro de Fontarcada e efectuarem o enterro. No dia seguinte ao préstito fúnebre, dispuseram-se as mulheres para a exumação do cadáver, mas o regedor da freguesia, Jerónimo Fernandes de Castro, conseguiu que desistissem.

No dia 5 de Fevereiro, do mesmo ano, registou-se idêntico tumulto. Falecera Maria Joaquina da Silva, que transgredindo a lei foi sepultada no interior do templo.

A manifestação do grupo de mulheres, armadas com chuços, sacholas e forcados, no dia 22 de Março, no funeral de Custódia Teresa, e os insultos por estas perpetrados “ Viva a Rainha! Abaixo os Cabrais e as leis novas”, deu origem a uma ordem de captura pelo regedor da freguesia.

Detidas algumas das revoltosas e levadas para a Vila da Póvoa de Lanhoso, logo as restantes, ao que tudo indica mais de 300, armadas de fouces e varapaus deixaram o mosteiro de Fontarcada para livrarem as suas companheiras.

A revolta da Maria da Fonte alastra-se rapidamente da Póvoa de Lanhoso a Arcos de Valdevez, Ponte da Barca, Ponte de Lima, Viana do Castelo, Barcelos, Braga, Taipas, Guimarães, Cabeceiras de Basto, Chaves e Vinhais. As escaramuças chegam a cidades como Vila real, Viseu, Aveiro, Coimbra, Leiria, Figueira da Foz e Santarém. Há ainda registos de confrontos em Évora, Portalegre, Abrantes e mesmo em Lisboa, mas não é um erro histórico grosseiro afirmar que a revolta da Maria da Fonte foi uma revolução regional que marcou todo o ano de 1846, a partir de Maio.

Assim se chamou a revolução que rebentou no Minho em Maio de 1846 contra o governo de Costa Cabral, mais tarde conde e marquês de Tomar. Os tumultos multiplicaram-se, tomando afinal as proporções sérias duma insurreição, que lavrou em grande parte do reino.

Cem anos de República no Minho (6)


Na quinzena passada, estávamos em plena conspiração entre Mijados e Chamorros, em Fevereiro de 1844. A desordem alastrava a vilas como Fafe e Póvoa de Lanhoso ainda no mês de Maio eram frequentes as notícias de crimes. Eram os primeiros momentos do germinar da Revolta da Maria da Fonte em que "muitas mulheres foram dadas como sendo as autoras do despoletar da revolução, portanto muitas Marias da Fonte existiram".

Na Póvoa de Lanhoso, davam-se as primeiras escaramuças daquela que é conhecida como a revolução da Maria da Fonte — à qual voltaremos com pormenor, nas próximas edições — mas já tinha "tomado um carácter assustador" — descrevia a imprensa da época.

"Depois dos primeiros acontecimentos de Braga e de Guimarães, tinham-se sublevado a Barca, Arcos, Ponte de Lima e Barcelos" — escrevia o jornal "Coalisão", em 21 de Abril de 1846, dando conta de que "de diversas partes marchava povo armado em auxílio dos sublevados de Braga, por saberem que para ali tinha marchado a força que saiu desta cidade".

Em Guimarães travava-se uma luta entre o povo e as autoridades, tendo de ir uma força de Braga para serenar os ânimos e pela primeira vez eram dadas instruções para tocar os sinos a rebate quando houvesse incêndio.

O Arcebispo teve de intervir apelando à calma e à obediência às autoridades liberais, mas o barulho prossegue em Prado, numa retirada estratégica integrada num plano acicatado por nova revolta no Porto.

Em Maio de 1846, o Regimento de Braga foi para a Falperra, tendo pernoitado em Sande. Eram momentos de grande intranquilidade de tal forma que ao toque das trindades, fechavam-se as portas da rua e dos quintais em Braga.

Numa pequena vila, como a dos Arcos de Valdevez, "entraram pela ponte 300 a 400 homens armados de chuços, fouces encabadas, machados e algumas espingardas e choupas, dando vivas à rainha e morras aos ministros" para depois queimarem os "impressos da décima" e o mesmo aconteceu em Ponte da Barca, como dava conta o jornal "Notícias do Minho", a 23 de Abril de 1846.

Em Barcelos, a "vila era invadida por uma coorte de bárbaros em número de mil e tantos" que tudo queimaram e seguiram para Braga onde obrigaram a Câmara a dar as "papeletas da décima" que queimaram por entre "morras aos Cabrais".

O Minho estava em alvoroço contra a "impossibilidade de pagar, a lei da saúde que compreende os mortos e que arma contra ela as mulheres, é a lei que varre para o fisco a travesseira e a tigela do defunto, que esmaga todo o vivente debaixo das suas garras destruidoras".

Antevia-se já que os acontecimentos do Minho se alargassem a todo o país "como o trovão segue o relâmpago" neste protesto contra as leis de saúde, especialmente a que proíbe o enterro dos mortos nas igrejas.

A 18 de Maio desse ano, corre o boato de que querem matar um padre. O padre Casimiro pede ajuda da Junta da Câmara mas à tarde, vindos do Bom Jesus, os paisanos armados com machados e armas que são afrontados por outros vindos de outras localidades de Braga. O Campo de Sant'Ana (Avenida Central) é protegido pelas sentinelas da tropa. Nos confrontos morreram quatro paisanos e soldados "morreram bastantes com três oficiais" — recorda o autor de "Lembranças de Gusmão", acrescentando que "a tropa fez bastantes prisioneiros que foram para o quartel e no dia imediato para a cadeia. Jamais se viu traição maior".

Era a reacção ao cabralismo, no seu auge, como resposta à bandeira da ordem e do desenvolvimento económico imposta por Costa Cabral. Estava montado um regime de repressão e violência, muitas vezes comparável ao despotismo dos miguelistas, com uma diferença: Costa Cabral não queria o regresso ao passado.

Em consequência, como escreve Oliveira Marques, "o despotismo impudente de Costa Cabral, (...) de levar a violência aos seus últimos limites e de desembaraçar de toda a oposição, resultaram na mais terrível e mais longa guerra civil que se registou entre os liberais".

Cem anos de República no Minho (5)



Entendido como Braga e todo o Minho abraçaram a causa miguelista devido à matriz religiosa do discurso político de D. Miguel, com a sua componente messiânica, contribuindo para a resistência miguelista entre 1836 e 1846 traduzida numa guerra civil que fez fazer sangrar este país, trinta anos depois das invasões francesas... sem lei e sem autoridade.

É exemplar desta situação, a execução de Serafim, da Póvoa de Lanhoso, pelas mortes que tinha feito neste concellho e em Braga. Apesar do arrependimento, as autoridades não lhe perdoaram e condenaram á pena capital, na Senhora-a-Branca, em Braga, a escassos metros do campo de Sant'Ana, onde fora instalada em 1838, uma forca. escreve um habitante de Braga que, "apesar de ser um dia de chuva concorreu muita gente" para ver a execução da pena" (cf. Lembranças do Gusmão, 1826-1846).

Os miguelistas, no estrangeiro, não perdoavam aos liberais a perda do Brasil,, os graves problemas económicos do reinado de D. Pedro, que encontravam o terreno fértil da guerra civil no descontentamento e desilusão geral dos rurais e dos soldados enquanto os liberais se fragmentavam.

A vida política portuguesa não estabilizou com a vitória liberal em 1834. Dois anos depois, surge a Setembrada perpetrada por Liberais radicais.

Em Braga, por exemplo, em Julho de 1838, o povo levantava-se contra as Fintas (um imposto lançado sobre o rendimento de cada cidadão - espécie de IRS moderno — para aplicar a obras públicas, como melhoramento de fontes, de estradas e de pontes.

Lá por fora, no Congresso das Nações do Norte, falava-se a favor do rei D. Miguel e o Governo liberal decretava pena de morte a quem falasse nesse congresso a favor do rei exilado.

Em Braga, começava a fabricar-se uma forca, na actual Avenida central (Campo de Sant'Ana), para executar uma pena de morte de um tal Jejum, rodeado de cinco padres, no dia 6 de Setembro de 1838.

Braga resistia e elegia os mesmos vereadores que dias antes tinham sido demitidos por infâmia pelo Governo liberal em Lisboa, gerando-se uma disputa entre dois executivos, um fiel aos liberais (Chamorros) e outro eleito pelas forças vivas de Braga (Mijados).

Em Fevereiro de 1939, há nova contestação à Câmara de Braga por ter aumentado as décimas em algumas freguesias das aldeias. As décimas eram um tributo civil semelhante à dízima (décima parte) sobre as rendas recebidas pelos proprietários.
Em Maio deste ano, surge boato em Braga de um golpe miguelista e a rua de S. João foi cercada para prender alguns "grandes" de Braga comprometidos ainda com o rei D. Miguel, quando chegava a água pública à rua da Cruz de Pedra pela primeira vez. O facto foi assinalado com foguetes.

Neste clima de instabilidade, prosseguiam os assaltos a Igrejas (como a de Arcos) em Agosto, onde eram roubados sacrários, cálices, vasos e toalhas, ao passo que em Esporões o povo se opunha ao pároco por razões políticas, tendo sido enviado mais de vinte militares para aquela aldeia que se alojaram em casas de lavoura durante alguns dias.

No ano de 1840, o Areal é palco de uma enorme desordem entre homens vindos de Amares e bracarenses, tendo o conflito resultado na morte de um sapateiro e em ferimentos em vários soldados que para ali foram deslocados para serenar os ânimos.

A ausência de autoridade e respeito pela lei possibilita que, por exemplo, em Dume, dois homens tenham sido mortos, em 1842, por terem roubado algumas pêras. Em 24 de Agosto desse ano, um tumulto se registou em S. Vítor e terminou com quinze mortos. Em plena rua do Carvalhal, no centro de Braga, em fevereiro do ano seguinte, uma mulher apareceu roubada e morta pelos ladrões. No dia 5 de Dezembro desse ano, na Rua das Águas, actual Avenida da Liberdade, mataram um cabo da ronda, barbeiro.

Estávamos nas vésperas da conspiração entre Mijados e Chamorros, em Fevereiro de 1844. A tropa procedia à detenção de muitos Mijados em Braga, Viana, Barcelos e outras partes. A maior parte dos presos em Braga eram transferidos para o Porto onde eram julgados e as condenações eram executadas em Braga, para servirem de exemplo ao povo.

A desordem prosseguia noutras vilas como Fafe e Póvoa de Lanhoso ainda no mês de Maio e em Braga era notícia a prisão do Servo(sacristão) da Misericórdia por roubar a Igreja que lhe estava confiada. A criminalidade violenta prossegui em finais de 1844, como aconteceu na Ponte dos Falcões, em Maximinos, onde mataram uma viúva a facadas e abandonaram no Monte de S. Gregório. A morte deu origem à prisão de um homem e várias mulheres.

Em Julho de 1845, para travar esta insegurança, Braga era patrulhada durante o dia e durante a noite: "está tudo muito em perigo" (cf. Lembranças do Gusmão), quando os Mijados recebem ordens para se retirarem de Braga, quando começava a ser construída, a partir dos Granjinhos, a estrada para Guimarães.

Já em 1846, apesar de todos os constrangimentos, a rua da Boavista (Cónega) celebrava a Páscoa com todo o fulgor: "começou a festa do povo na Cónega. Veio acoçar (perseguir) a tropa, porém retirou-se ferindo alguns soldados. estes mataram algumas pessoas que não entraram no barulho. Os paisanos sustentaram-se algum tempo ao pé de S. Brás do Carmo (Merelim). Às quatro da tarde começou o barulho nas Palhotas. Vieram até à fonte da esquina que é seca; porém, retiraram-se os paisanos para o fim da rua e aí sustentaram o fogo durante algumas horas, ferindo soldados. estes feriram um rapaz" (cf. Lembranças do Gusmão).

O Arcebispo teve de intervir apelando à calma e à obediência às autoridades liberais, mas o barulho prossegue em Prado, numa retirada estratégica integrada num plano acicatado por nova revolta no Porto.

Monday, April 19, 2010

Cem anos de República no Minho (4)



Percebemos já porque Braga e todo o Minho abraçaram a causa miguelista devido à matriz religiosa do discurso político de D. Miguel, com a sua componente messiânica, factor que aliado à prática da hegemonização política (a partir de 1828) contribuem para a resistência miguelista entre 1836 e 1846.

Em Braga, os anos vividos entre 1828 e 1834 foram de grande agitação, com a Igreja Católica a colocar-se ao lado dos absolutistas de forma escandalosa — aos olhos do nosso tempo. Braga foi uma das cidades onde o miguelismo teve maior implantação mas onde a resistência liberal foi mais sacrificada, por três razões fundamentais apontadas no parágrafo anterior.

É mais um período negro da História da Igreja em Braga e no resto do país que é reforçado com a malograda revolta do Porto, havendo conhecimento de incidentes vários no Minho, até ao eclodir da guerra civil em 1832. Este comportamento faz-nos duvidar, como então escrevemos, da sinceridade com que a Igreja se envolveu na resistência às invasões francesas, em que muitos párocos deram a vida pela pátria vítimas de uma manipulação cujos segredos são desvendados por comportamentos futuros, como aqueles que se viveram em Braga entre 1828 e 1834.

Nesse tempo, escreve A. Minici Malheiro, Braga não era mais que "uma cidadela medieval, onde a vilanagem de roupeta e sandálias campeava como senhores feudais sobre bandos de imbecis imundos, fanatizados, narcotizados, como Endemiões condenados ao sono eterno, especialmente após a deportação dos valentões para a Índia".

A nível nacional, emergia outra grande figura: Mouzinho da Silveira. É ele quem planta os alicerces de um Portugal moderno e começa a destruir um a um os fundamentos do estado feudal em que Portugal ainda vivia, através da sua reforma administrativa. Como sempre, as reformas encontram fortes resistências, neste caso seculares dos nobres e do clero.
Existem testemunhos que nos falam dos momentos dramáticos vividos no Minho, com a chegada ao Poder de D. Pedro, a extradição de D. Miguel e o reinado de D. Maria II, com a revolução liberal de 1836.

Braga foi visitada por D. Pedro poucos dias antes da sua morte, a 31 de Julho de 1834, seguindo-se alguns anos marcados pela violência na Cidade dos Arcebispos, a começar pela morte com vinte facadas de um pedreiro, nos Cinco Sentidos do Bom Jesus. D. Miguel tinha sido expatriado, mas os seus seguidores mantinham aqui e ali muita influência.

As armas iam proliferando nas mãos de pessoas indevidas e começa a nascer a promiscuidade entre as mulheres de Braga e os soldados estacionados nesta cidade. Em Setembro de de 1835, "foram todas as mulheres chamadas putas, à mostra no Hospital de S. Marcos por causa da tropa estar toda afectada pela sífilis".

Os confrontos entre constitucionalistas e realistas traduziam-se em "cacetada a torto e a direito", enquanto os bracarenses assistiam a desmandos dos soldados, como se registou em Tenões, onde os soldados tentaram furtar galinhas e o povo afastou-os depois de pancadaria.

Em 1836, Braga recebia solenemente a visita do Príncipe D. Fernando, com Te Deum na Sé, recepção na Casa dos Biscaínhos e viagem até ao Bom Jesus, numa altura em que chegavam a Braga, vindos pela estrada do carvalho, carros carregados de feridos, da revolta em terras galegas.

Só Em Outubro de 1836, se assumia a Carta Constitucional de 1826 e a polícia de Braga era desarmada e substituída pela Guarda Nacional, ao mesmo tempo que a resist~encia miguelista ainda se fazia sentir, com acçõ~es esporádicas, concentrando 400 homens e padres no Campo do Alívio, em Vila Verde.

As desordens eram frequentes traduzidas em fugas de presos (40 de uma vez em Braga no último dia de 1836) e assaltos enquanto os soldados eram comprados pelos senhores adeptos de uma facção (Mijados) ou de outra (Chamorros). As populações andavam inquietas com sequestros, roubos, mortes, fecho de igrejas, marcados aqui e ali pelo toque de sinos a rebate.

Em 1838, apesar deste clima de insegurança e confrontos e prisões arbitrárias, Braga não deixou de festejar o S. João, com muito fogo de ar e preso no Monte de S. João da Ponte (Picoto), com amazonas pelas ruas e festa na capela do Santo. Houve cinco carros alegóricos de murta e luminárias na rua das Águas (actual Avenida da Liberdade), com carvalhos, laranjas e azeite".

Algumas semanas depois, o povo de Braga levanta-se contra um imposto (Fintas) lançado sobre o rendimento de cada cidadão para aplicar numa obra pública, como melhoramento de fontes, construção de pontes ou para a guerra. A revolta terminou com a intervenção do Governo da Rainha D. Maria II. D. A guerra civil continua a fazer sangrar este país, trinta anos depois das invasões francesas...

Os miguelistas, no estrangeiro, não perdoavam aos liberais a perda do Brasil,, os graves problemas económicos do reinado de D. Pedro, que encontravam o terreno fértil da guerra civil no descontentamento e desilusão geral dos rurais e dos soldados enquanto os liberais se fragmentavam.