Monday, May 24, 2010

Cem anos de República no Minho (5)



Entendido como Braga e todo o Minho abraçaram a causa miguelista devido à matriz religiosa do discurso político de D. Miguel, com a sua componente messiânica, contribuindo para a resistência miguelista entre 1836 e 1846 traduzida numa guerra civil que fez fazer sangrar este país, trinta anos depois das invasões francesas... sem lei e sem autoridade.

É exemplar desta situação, a execução de Serafim, da Póvoa de Lanhoso, pelas mortes que tinha feito neste concellho e em Braga. Apesar do arrependimento, as autoridades não lhe perdoaram e condenaram á pena capital, na Senhora-a-Branca, em Braga, a escassos metros do campo de Sant'Ana, onde fora instalada em 1838, uma forca. escreve um habitante de Braga que, "apesar de ser um dia de chuva concorreu muita gente" para ver a execução da pena" (cf. Lembranças do Gusmão, 1826-1846).

Os miguelistas, no estrangeiro, não perdoavam aos liberais a perda do Brasil,, os graves problemas económicos do reinado de D. Pedro, que encontravam o terreno fértil da guerra civil no descontentamento e desilusão geral dos rurais e dos soldados enquanto os liberais se fragmentavam.

A vida política portuguesa não estabilizou com a vitória liberal em 1834. Dois anos depois, surge a Setembrada perpetrada por Liberais radicais.

Em Braga, por exemplo, em Julho de 1838, o povo levantava-se contra as Fintas (um imposto lançado sobre o rendimento de cada cidadão - espécie de IRS moderno — para aplicar a obras públicas, como melhoramento de fontes, de estradas e de pontes.

Lá por fora, no Congresso das Nações do Norte, falava-se a favor do rei D. Miguel e o Governo liberal decretava pena de morte a quem falasse nesse congresso a favor do rei exilado.

Em Braga, começava a fabricar-se uma forca, na actual Avenida central (Campo de Sant'Ana), para executar uma pena de morte de um tal Jejum, rodeado de cinco padres, no dia 6 de Setembro de 1838.

Braga resistia e elegia os mesmos vereadores que dias antes tinham sido demitidos por infâmia pelo Governo liberal em Lisboa, gerando-se uma disputa entre dois executivos, um fiel aos liberais (Chamorros) e outro eleito pelas forças vivas de Braga (Mijados).

Em Fevereiro de 1939, há nova contestação à Câmara de Braga por ter aumentado as décimas em algumas freguesias das aldeias. As décimas eram um tributo civil semelhante à dízima (décima parte) sobre as rendas recebidas pelos proprietários.
Em Maio deste ano, surge boato em Braga de um golpe miguelista e a rua de S. João foi cercada para prender alguns "grandes" de Braga comprometidos ainda com o rei D. Miguel, quando chegava a água pública à rua da Cruz de Pedra pela primeira vez. O facto foi assinalado com foguetes.

Neste clima de instabilidade, prosseguiam os assaltos a Igrejas (como a de Arcos) em Agosto, onde eram roubados sacrários, cálices, vasos e toalhas, ao passo que em Esporões o povo se opunha ao pároco por razões políticas, tendo sido enviado mais de vinte militares para aquela aldeia que se alojaram em casas de lavoura durante alguns dias.

No ano de 1840, o Areal é palco de uma enorme desordem entre homens vindos de Amares e bracarenses, tendo o conflito resultado na morte de um sapateiro e em ferimentos em vários soldados que para ali foram deslocados para serenar os ânimos.

A ausência de autoridade e respeito pela lei possibilita que, por exemplo, em Dume, dois homens tenham sido mortos, em 1842, por terem roubado algumas pêras. Em 24 de Agosto desse ano, um tumulto se registou em S. Vítor e terminou com quinze mortos. Em plena rua do Carvalhal, no centro de Braga, em fevereiro do ano seguinte, uma mulher apareceu roubada e morta pelos ladrões. No dia 5 de Dezembro desse ano, na Rua das Águas, actual Avenida da Liberdade, mataram um cabo da ronda, barbeiro.

Estávamos nas vésperas da conspiração entre Mijados e Chamorros, em Fevereiro de 1844. A tropa procedia à detenção de muitos Mijados em Braga, Viana, Barcelos e outras partes. A maior parte dos presos em Braga eram transferidos para o Porto onde eram julgados e as condenações eram executadas em Braga, para servirem de exemplo ao povo.

A desordem prosseguia noutras vilas como Fafe e Póvoa de Lanhoso ainda no mês de Maio e em Braga era notícia a prisão do Servo(sacristão) da Misericórdia por roubar a Igreja que lhe estava confiada. A criminalidade violenta prossegui em finais de 1844, como aconteceu na Ponte dos Falcões, em Maximinos, onde mataram uma viúva a facadas e abandonaram no Monte de S. Gregório. A morte deu origem à prisão de um homem e várias mulheres.

Em Julho de 1845, para travar esta insegurança, Braga era patrulhada durante o dia e durante a noite: "está tudo muito em perigo" (cf. Lembranças do Gusmão), quando os Mijados recebem ordens para se retirarem de Braga, quando começava a ser construída, a partir dos Granjinhos, a estrada para Guimarães.

Já em 1846, apesar de todos os constrangimentos, a rua da Boavista (Cónega) celebrava a Páscoa com todo o fulgor: "começou a festa do povo na Cónega. Veio acoçar (perseguir) a tropa, porém retirou-se ferindo alguns soldados. estes mataram algumas pessoas que não entraram no barulho. Os paisanos sustentaram-se algum tempo ao pé de S. Brás do Carmo (Merelim). Às quatro da tarde começou o barulho nas Palhotas. Vieram até à fonte da esquina que é seca; porém, retiraram-se os paisanos para o fim da rua e aí sustentaram o fogo durante algumas horas, ferindo soldados. estes feriram um rapaz" (cf. Lembranças do Gusmão).

O Arcebispo teve de intervir apelando à calma e à obediência às autoridades liberais, mas o barulho prossegue em Prado, numa retirada estratégica integrada num plano acicatado por nova revolta no Porto.

Monday, April 19, 2010

Cem anos de República no Minho (4)



Percebemos já porque Braga e todo o Minho abraçaram a causa miguelista devido à matriz religiosa do discurso político de D. Miguel, com a sua componente messiânica, factor que aliado à prática da hegemonização política (a partir de 1828) contribuem para a resistência miguelista entre 1836 e 1846.

Em Braga, os anos vividos entre 1828 e 1834 foram de grande agitação, com a Igreja Católica a colocar-se ao lado dos absolutistas de forma escandalosa — aos olhos do nosso tempo. Braga foi uma das cidades onde o miguelismo teve maior implantação mas onde a resistência liberal foi mais sacrificada, por três razões fundamentais apontadas no parágrafo anterior.

É mais um período negro da História da Igreja em Braga e no resto do país que é reforçado com a malograda revolta do Porto, havendo conhecimento de incidentes vários no Minho, até ao eclodir da guerra civil em 1832. Este comportamento faz-nos duvidar, como então escrevemos, da sinceridade com que a Igreja se envolveu na resistência às invasões francesas, em que muitos párocos deram a vida pela pátria vítimas de uma manipulação cujos segredos são desvendados por comportamentos futuros, como aqueles que se viveram em Braga entre 1828 e 1834.

Nesse tempo, escreve A. Minici Malheiro, Braga não era mais que "uma cidadela medieval, onde a vilanagem de roupeta e sandálias campeava como senhores feudais sobre bandos de imbecis imundos, fanatizados, narcotizados, como Endemiões condenados ao sono eterno, especialmente após a deportação dos valentões para a Índia".

A nível nacional, emergia outra grande figura: Mouzinho da Silveira. É ele quem planta os alicerces de um Portugal moderno e começa a destruir um a um os fundamentos do estado feudal em que Portugal ainda vivia, através da sua reforma administrativa. Como sempre, as reformas encontram fortes resistências, neste caso seculares dos nobres e do clero.
Existem testemunhos que nos falam dos momentos dramáticos vividos no Minho, com a chegada ao Poder de D. Pedro, a extradição de D. Miguel e o reinado de D. Maria II, com a revolução liberal de 1836.

Braga foi visitada por D. Pedro poucos dias antes da sua morte, a 31 de Julho de 1834, seguindo-se alguns anos marcados pela violência na Cidade dos Arcebispos, a começar pela morte com vinte facadas de um pedreiro, nos Cinco Sentidos do Bom Jesus. D. Miguel tinha sido expatriado, mas os seus seguidores mantinham aqui e ali muita influência.

As armas iam proliferando nas mãos de pessoas indevidas e começa a nascer a promiscuidade entre as mulheres de Braga e os soldados estacionados nesta cidade. Em Setembro de de 1835, "foram todas as mulheres chamadas putas, à mostra no Hospital de S. Marcos por causa da tropa estar toda afectada pela sífilis".

Os confrontos entre constitucionalistas e realistas traduziam-se em "cacetada a torto e a direito", enquanto os bracarenses assistiam a desmandos dos soldados, como se registou em Tenões, onde os soldados tentaram furtar galinhas e o povo afastou-os depois de pancadaria.

Em 1836, Braga recebia solenemente a visita do Príncipe D. Fernando, com Te Deum na Sé, recepção na Casa dos Biscaínhos e viagem até ao Bom Jesus, numa altura em que chegavam a Braga, vindos pela estrada do carvalho, carros carregados de feridos, da revolta em terras galegas.

Só Em Outubro de 1836, se assumia a Carta Constitucional de 1826 e a polícia de Braga era desarmada e substituída pela Guarda Nacional, ao mesmo tempo que a resist~encia miguelista ainda se fazia sentir, com acçõ~es esporádicas, concentrando 400 homens e padres no Campo do Alívio, em Vila Verde.

As desordens eram frequentes traduzidas em fugas de presos (40 de uma vez em Braga no último dia de 1836) e assaltos enquanto os soldados eram comprados pelos senhores adeptos de uma facção (Mijados) ou de outra (Chamorros). As populações andavam inquietas com sequestros, roubos, mortes, fecho de igrejas, marcados aqui e ali pelo toque de sinos a rebate.

Em 1838, apesar deste clima de insegurança e confrontos e prisões arbitrárias, Braga não deixou de festejar o S. João, com muito fogo de ar e preso no Monte de S. João da Ponte (Picoto), com amazonas pelas ruas e festa na capela do Santo. Houve cinco carros alegóricos de murta e luminárias na rua das Águas (actual Avenida da Liberdade), com carvalhos, laranjas e azeite".

Algumas semanas depois, o povo de Braga levanta-se contra um imposto (Fintas) lançado sobre o rendimento de cada cidadão para aplicar numa obra pública, como melhoramento de fontes, construção de pontes ou para a guerra. A revolta terminou com a intervenção do Governo da Rainha D. Maria II. D. A guerra civil continua a fazer sangrar este país, trinta anos depois das invasões francesas...

Os miguelistas, no estrangeiro, não perdoavam aos liberais a perda do Brasil,, os graves problemas económicos do reinado de D. Pedro, que encontravam o terreno fértil da guerra civil no descontentamento e desilusão geral dos rurais e dos soldados enquanto os liberais se fragmentavam.

Cem anos de República no Minho (3)



Apresentamos na crónica anterior algumas razões que explicam a lentidão da implantação dos ideais franceses em Portugal, cuja primeira tentativa aconteceu em 1820 e se traduziu na sua maior derrota, a independência do Brasil.

Depois vem nova reacção miguelista com a "abrilada" em 1824 e no ano seguinte Portugal reconhece a Independência do Brasil, um ano antes da morte de D. João VI, aproveitada por miguelistas que obrigam os liberais a fugir para França e Inglaterra.

D. Maria II tem sete anos de idade e D. Pedro IV, do Brasil, entrega o poder a D. Miguel que é aclamado rei em 1828, cargo que exerce até 1832, ano em que é destituído por D. Pedro, até D. Maria II atingir a maior idade. Foram anos difíceis para Portugal, com guerra civil e violenta repressão ideológica dos liberais sempre que "tentavam erguer a cabeça".

Novo revés para os ideais republicanos surge com a guerra civil entre liberais e absolutistas, entre 1832 e 1834, o que ajuda a explicar que a agonia e morte do absolutismo entre nós se apresentasse excessivamente longa.

A relativa precariedade da classe burguesa (porque dependente das benesses reais no Brasil) e a situação social do país, condenavam os militares (comandados por um britânico) a serem o fiel da balança nas situações revolucionárias e contra-revolucionárias que se anteviam entre liberais (D. Pedro) e absolutistas (D. Miguel), adiando a implantação dos ideais da República.

Nesse cenário, Braga e todo o Minho abraçam a causa miguelista devido, em primeiro lugar, à matriz religiosa do discurso político de D. Miguel, com a sua componente messiânica, factor que aliado à prática da hegemonização política (a partir de 1828) contribuem para a resistência miguelista entre 1836 e 1846.

Em Braga, os anos vividos entre 1828 e 1834 foram de grande agitação, com a Igreja Católica a colocar-se ao lado dos absolutistas de forma escandalosa — aos olhos do nosso tempo. Braga foi uma das cidades onde o miguelismo teve maior implantação mas onde a resistência liberal foi mais sacrificada, por três razões fundamentais apontadas no parágrafo anterior.

A matriz religiosa do discursos do miguelismo coincidia com os interesses de uma Igreja Católica feudalizada em que a ameaça de uma revolução à francesa — cujos ideias tinham sido disseminados por soldados durante as invasões e outras associações — perturbava os responsáveis eclesiásticos. Estes estremeceram de espanto e de horror face não só às atrocidades revolucionárias sofridas por diversos membros do clero francês mas sobretudo devido aos demolidores efeitos polí´ticos e sociais de um programa "descristianizador".

Valores e "verdades consagradas desde a Vinda de Cristo eram alvejadas com ousadia "diabólica" pela "deusa Razão" o que constituía uma ameaça concreta para a igreja romana. O recurso à defesa era entendido não só como um direito mas também como imperativo de sobrevivência. A contra-revolução miguelista teve assim no regaço católico o terreno propício para vingar, ao associar-se à denúncia do "assalto da impiedade à cidade de Deus".

A motivação do apoio do clero e D. Miguel não era apenas económica mas ideológica: estava em causa a sobrevivência de uma religião multissecular e esta ideia era vigorosamente defendida nas visitações feitas pelos clérigos de Braga às aldeias de Póvoa de Lanhoso, Barcelos, Famalicão, Vila Verde, Vieira do Minho, Esposende, Viana do Castelo, etc.

A militância era expressa nas prédicas litúrgicas e nas conversas paternais saturadas de miguelismo sucede a uma atitude de "esperar para ver" durante o liberalismo, como o comprova a Carta pastoral do Arcebispo D. Frei Miguel da madre de Deus, que secundava o apelo do Chantre da Sé, Dr. João José Vaz pereira, em 1823 e especialmente entre 1828 e 1834. "Em Braga e pode dizer-se que em todo o vasto território da respectiva arquidiocese (entre Ave e Minho) foi intenso o empenho da Mitra no sentido da mobilização pastoral dos párocos e da sensibilização dos crentes para o perigo das paixões e das más doutrinas, resvalando a partir de 1828 (chegada ao Poder de D. Miguel) na apologia veemente do "nosso legitimo Rey o senhor Dom Miguel Primeiro".

O arcebispo de Braga colocava em "primeiro lugar a fidelidade, e obediência devidas ao Soberano e as Leis, obrigação aliás reconhecida por Jesus Christo Nosso Senhor e Devino Salvador" (cf. Fundo de Visitas e devassas, Arquivo Distrital de Braga, nos Capítulos de visita da Igreja de S. Pedro de Riba d'Ave, fl. 3).

Porquê? O Arcebispo justifica: "este Reino ve o seu sollo manchado naõ so com incredulos, mais com inimigos declarados da Religiaõ Santa e da sua Santa Igreja, da qual se achaõ separados por meio de hum scisma e o mais escandalozo, e com armas na maõ para firmarem o império da Anarquia e da erreligiaõ".

Num apelo final, o arcebispo de Braga pede ao povo que "naõ cece de orar pella vida i conservação do nosso legitimo Rey O Senhor Dom Miguel Primeiro cuja falta seria para nos mal e ainda maior que os orrores da peste".

Este discurso foi profusamente divulgado, em 1832, através de frades e de párocos "zelosos" cumpridores das circulares enviadas, expondo-se assim à retaliação dos Rebeldes do Porto (liberais), inevitável após 1834.

Para salvaguardar os seus ideias, a Igreja voltou a ser cúmplice de métodos miguelistas — que atingiram membros do clero — que recorriam à espionagem, as milícias que reprimiam os "liberais", com devassas, processos ilegais (como aconteceu com o padre Caetano Pipa, pároco de Adaúfe em que o povo obrigou o Arcebispo a dar o dito por não dito depois de o ter suspenso sem ou ouvir), sem esquecer a forca, o fuzilamento, o degredo para África ou as prisões na Metrópole.

É mais um período negro da História da Igreja em Braga e no resto do país que é reforçado com a malograda revolta do Porto, havendo conhecimento de incidentes vários no Minho, até ao eclodir da guerra civil em 1832.

Nesse tempo, escreve A. Minici Malheiro, Braga não era mais que "uma cidadela medieval, onde a vilanagem de roupeta e sandálias campeava como senhores feudais sobre bandos de imbecis imundos, fanatizados, narcotizados, como Endemiões condenados ao sono eterno, especialmente após a deportação dos valentões para a Índia".

Por sua vez, "o Povo de Minho, na sua maioria, continuava mergulhado na mais profunda ignorância do mundo, dos homens, das coisas, de si mesmo, supersticioso e hipócrita, o que só muito a custo se foi desvanecendo, graças à propaganda dos liberais do constitucionalismo", entre os quais pontificava o grande empresário Manuel Joaquim Gomes, a quem Braga deve hoje a pérola que é o elevador do Bom Jesus do Monte.

Nota: foto extraída de www.delcampe.net

Thursday, March 18, 2010

Cem anos de República no Minho (2)



Explicamos na crónica anterior que a implantação do regime republicano, há cem anos, começou com as invasões francesas que fizeram sangrar o Minho há 200 anos e semearam o terror, destruição e custaram milhares de vidas no Minho. Apontamos algumas razões que explicam a lentidão da implantação dos ideais franceses em Portugal, cuja primeira tentativa aconteceu em 1820.

Assim, estavam criados os ingredientes para novo conflito entre os portugueses, em 24 de Agosto de 1820, como eco da revolução liberal espanhola, aproveitando uma ida de Beresford ao Brasil para trazer de lá dinheiro para pagar as despesas militares. O país parecia não ter emenda, depois do desastre dez anos antes... como veremos na próxima crónica que não passará ao lado de Braga e dos arredores.

Pode dizer-se, à distância, que foi uma revoluçãozinha com estragos irreparáveis que não agradou nem a gregos nem a troianos, mantendo-se as mesmas ordens, os mesmos lugares, os mesmos ofícios, a magistratura e o livre exercício da autoridade que se acha depositado nas suas mãos.

Acrescentou-se apenas a possibilidade de "ninguém ser incomodado pelas suas opiniões ou conduta passada e as medidas para evitar tumultos e a satisfação de ódios ou vinganças particulares" - como decretava a Junta provincial do reino, naquele dia 24 de Agosto de 1820.

Esta revoluçãozinha não respondeu a três questões nacionais: "que ideias baseavam o pensamento dos homens que lideraram esta revolução? Como se integra na conjuntura nacional e internacional do momento? e Que transformações, a curto, a médio e longo prazo vai impor ao país?"

Sem respostas a estas perguntas, a 15 de Setembro, os liberais de Lisboa revoltam-se e expulsam os regentes com o objectivo de organizar eleições para as Cortes que são mandatadas a elaborar a nova Constituição do reino. Os Liberais exigem o regresso do rei D. João VI com a condição de prestar juramento à nova Constituição e o fim imediato do domínio inglês.

Os liberais assumiam-se como um movimento vincadamente nacionalista mas o rei D. João VI, não tinha qualquer noção da portugalidade, porque tinha ido em criança para o Brasil e dava-se bem por lá. Ele assumira o trono em 1816, com a morte de D. Maria I, mas deixara-se ficar no Brasil, apesar das tropas francesas há muito terem deixado Portugal.

Conciliar o antigo com o novo — a velha monarquia com ideais constitucionais — foi o desafio nunca conseguido pelos liberais, porque também não conseguiram a adesão do povo à revolução. Este gostava muito mais do popular D. Miguel e a revolução deu um fruto: a criação do Sinédrio, um conjunto de magistrados, negociantes, proprietários e militares.

São eles quem fazem uma constituição que D. João VI aprova em 1822 mesmo reduzindo-lhe os poderes separados agora em Judicial, legislativo e executivo. A Europa olhava para a revolução de 1820 como "democrática e perigosamente progressista" e Joel Serrão descreve de forma brilhante como "os países da Santa Aliança tentaram travar a revolução, recorrendo ao bloqueio comercial, à recusa d e passaportes para portugueses e à intervenção militar apoiando os contra-revolucionários".

Apesar das tentativas de conciliação do rei D. João VI, a independência do Brasil é uma consequência da revolução liberal, em 1822, bem como do aumento da população brancas, a vida cultural própria, o desenvolvimento económico com a abertura dos portos ao comércio mundial e a instituição de uma forte administração pública durante os treze anos em que a monarquia portuguesa se refugiou no Brasil, criando tribunais, sistemas fiscais e diversas repartições de serviços públicos, para além de um Governo central que unificou o território.

A influência dos ingleses traduziu-se no incentivo por todos os meios ao rompimento da colónia com o regime "liberal" de Portugal e tudo se consumou a 7 de Setembro de 1822, nas margens do Ipiranga, em S. Paulo, quando D. Pedro se decide: "É tempo! Independência ou morte. estamos separados de Portugal".

D. Pedro assinava um acto profundamente revolucionário e destruía os alicerces da economia portuguesa mas este acto "é um fracasso dos principais objectivos da revolução Liberal. A partir daqui, o novo regime parece condenado. A facilidade com que se eclipsa atesta a estreiteza da base social do liberalismo" (cf. Manuel Villaverde Cabral, in "O desenvolvimento do Capitalismo em Portugal no século XIX", Ed.. A regra do jogo, Lisboa, 1977, p. 74).

O primeiro alerta era dado em 1823, por D. Miguel, o príncipe da Vilafrancada, a quem a "força dos males nacionais, já sem limites, não deixam escolha" acusando os liberais de darem a ruína ao povo e transformarem o rei num "fantasma" de um país onde a "magistratura é diariamente ultrajada e a religião e seus ministros objecto de mofa e de escárnio".

Depois vem nova reacção miguelista com a "abrilada" em 1824 e no ano seguinte Portugal reconhece a Independência do Brasil, um ano antes da morte de D. João VI, aproveitada por miguelistas que obrigam os liberais a fugir para França e Inglaterra.

D. Maria II tem sete anos de idade e D. Pedro IV, do Brasil, entrega o poder a D. Miguel que é aclamado rei em 1828, cargo que exerce até 1832, ano em que é destituído por D. Pedro, até D. Maria II atingir a maior idade. Foram anos difíceis para Portugal, com guerra civil e violenta repressão ideológica dos liberais sempre que "tentavam erguer a cabeça".

Novo revés para os ideais republicanos surge com a guerra civil entre liberais e absolutistas, entre 1832 e 1834, o que ajuda a explicar que a agonia e morte do absolutismo entre nós se apresentasse excessivamente longa.

A relativa precariedade da classe burguesa (porque dependente das benesses reais no Brasil) e a situação social do país, condenavam os militares (comandados por um britânico) a serem o fiel da balança nas situações revolucionárias e contra-revolucionárias que se anteviam entre liberais (D. Pedro) e absolutistas (D. Miguel), adiando a implantação dos ideais da República.

Wednesday, March 3, 2010

Cem anos de República no Minho (1)


A implantação do regime republicano, há cem anos, começou com as invasões francesas que fizeram sangrar o Minho há 200 anos e semearam o terror, destruição e custaram milhares de vidas no Minho.

Quatro anos de guerra deixaram o país em situação "miserável" — como escreve o historiador Oliveira Marques na sua "História de Portugal" ao sublinhar que aquelas invasões "devastaram boa parte de Portugal, sobretudo a norte do Tejo. A agricultura, o comércio e a indústria foram profundamente afectados, já sem falar das perdas de vidas, das crueldades habituais e das destruições sem conta".

A esta primeira das cinco causas que hão-de conduzir mais tarde cem anos à implantação da República, junta-se o saque de franceses e ingleses de um bom número de mosteiros, igrejas, palácios, levando consigo toda a casta de objectos preciosos, incluindo quadros, esculturas, móveis, jóias, livros e manuscritos de incalculável valor. Eram riquezas que faziam imensa falta a um país pequeno como o nosso.

A terceira causa resulta da presença, entre 1808 e 1821, dos ingleses que transformaram este reino numa colónia, enquanto a fuga da família real transformava Portugal numa colónia do Brasil.

O Brasil fora proclamado Reino, unido a Portugal, cuja Rainha D. Maria I, que morrera em 1816, deixara no poder um D. João VI que não manifestava desejo de regressar a Lisboa. Aqui começa o descrédito da Monarquia da qual nunca mais se vai levantar.

Os príncipes revelavam-se mais brasileiros que portugueses, uma vez que o mais velho saíra de Lisboa com apenas nove anos. A reg~encia do reino mantinha os métodos de governação indiferente aos novos ventos liberais que sopravam de França, trazidos pelos soldados e pela presença francesa.

Começava a germinar, um pouco por todo o país, o descontentamento contra o rei e contra os ingleses que se apoderavam do território, do exército e dos pontos fulcrais do Governo.

A situação económica do povo e da classe burguesa, devastada pelas invasões francesas e pelos pesados tributos aos ingleses, agravava-se sem horizontes positivos à vista.

Por toda a parte, havia sinais do fermento da revolução republicana que há-se florir cem anos depois.
Perguntar-me-ão os leitores: porque resistiu tanto tempo a monarquia decrépita ao avanço dos ideais republicanos, num país esvaído e pobre?

Com a presença dos ingleses, apenas 40 anos depois da revolução Francesa começam a despertar os ideais, devido à situação periférica do país em relação á Europa e ao atraso económico, financeiro, técnico, social e cultural do povo.
A onda de inovação não encontrou eco no povo mas apenas em alguns pilares da burguesia comercial dos principais centros urbanos porque o resto do país — com a nobreza e família real no "bem bom" do Brasil — retomava as actividades primárias na agricultura, permanecia no senhorialismo, sob omnipotência e omnipresença da Igreja Católica e do padre sobre as massas camponesas mais ou menos miseráveis e analfabetas.

A situação em que vivia o povo é bem descrita pelo bracarense A. Ménici Malheiro, quando diz em letra de forma, um dos grandes republicanos: "Dos arceispos, só um merece o nosso aplauso, por isso mesmo não foi canonizado: — D. Frei caetano Brandão, antigo bispo do Pará, onde fez um excelente lugar para a causa da humanidade, visto que, sob o ponto de vista religioso, não nos interessa.
Dos restantes, uns - muito poucos - merecem o nosso respeito, apenas, como homens, pelo que fizeram em benefício de Braga, a outros, que são a grande maioria, unicamente votamos a nossa mais revoltante indignação, pela falta de patriotismo, como Frei Bartolomeu dos Mártires, e pelo muito que fizeram sofrer os nossos pobres antepassados, explorando-os, vexando-os e, o que é mais, conservando-os mergulhados na mais profunda ignorância, para melhor tripudiarem sobre eles
".

E tanto é assim que o marechal Beresford, além de comandar a vida portuguesa e reorganizar o exército, foi ao ponto de restabelecer a Inquisição e o Juízo de Inconfidência e encheu as prisões de suspeitos da "pedreirada" — maçonaria.

As fainas comerciais entre Lisboa e o Brasil levaram algum tempo a reforçar a burguesia como agente político e social contra a monarquia (brasileira) até porque esta ajudava-os a levar a sua vidinha. "Não havia motivos suficientemente fortes para que a burguesia se sentisse muito lesada pela monarquia absolutista" — como assegura Joel Serrão no seu Dicionário de História de Portugal.

A revolução era ideia de desembargadores. alguns frades e foreiros apelidados de "maçons" pelo clero receoso de perder muitos dos seus direitos e regalias.

Ménici Malheiro refere, em Braga, havia "três classes: a dos cónegos capitaneada pelo arcebispo, a dos nobres, cuja nobreza hoje sobejamente conhecemos, e a dos servos ou párias, a quem só era dado trabalhar para as duas primeiras classes, rezar e, quando já velhos, estender as mãos dos conventos".

Novo revés para os ideais republicanos surge coma guerra civil entre liberais e absolutistas, entre 1832 e 1834, o que ajuda a explicar que a agonia e morte do absolutismo entre nós se apresentasse excessivamente longa.


A relativa precariedade da classe burguesa (porque dependente das benesses reais no Brasil) e a situação social do país, condenavam os militares (comandados por um britânico) a serem o fiel da balança nas situações revolucionárias e contra-revolucionárias que se anteviam entre liberais (D. Pedro) e absolutistas (D. Miguel).

Assim, estavam criados os ingredientes para novo conflito entre os portugueses, em 24 de Agosto de 1820, como eco da revolução liberal espanhola, aproveitando uma ida de Beresford ao Brasil para trazer de lá dinheiro para pagar as despesas militares. O país parecia não ter emenda, depois do desastre dez anos antes... como veremos na próxima crónica que não passará ao lado de Braga e dos arredores.

Monday, February 1, 2010

Jorge Coutinho: Deus ignora o "porque sim"



Destinado a "um razoável número de crentes que crê 'porque sim', tal como boa parte dos descrentes não crê 'porque não', o professor Jorge Coutinho acaba de lançar um livro racionalmente apaixonante para aqueles que gostam de seguir os "Caminhos da razão no horizonte de Deus", encontrando aí "as razões de crer".

Com a chancela editorial de "Tenacitas", de Coimbra, o livro foi apresentado no recente Congresso Internacional sobre o Presbítero, em Braga, e tem uma capa que reproduz "Seara numa tarde de Verão" pintado por Marc Chagall, em 1942.

Este livro assume-se como um acto de "ousadia", onde "sem complexos" porque a "metafísica não se evita por negação, só por renúncia", até porque o autor é o primeiro a saber que a "faculdade de 'ver' Deus é, não propriamente a razão, mas o coração".

Este professor da Faculdade de Teologia da Universidade Católica (Braga) — na foto em cima à esquerda — dirige-se àqueles que não se contentam com "razões de superfície" porque o ser humano é um animal racional e "tem, por isso, uma necessidade natural de razões para justificar as suas atitudes". A crença e a descrença, sem razões, constituem atitudes "pré.racionais" ou infantis, dai que "o homem e a mulher intelectualmente adultos carecem de razões de crer, como de razões para descrer".

Situado o plano deste livro, a exposição de Jorge Coutinho inclui duas partes, a primeira das quais aborda a situação actual da religião e do problema de Deus, de modo a justificar a reflexão seguinte em que o autor não "a pretensão, nem podemos ter, de dizer o indizível de Deus na dizível palavra humana".

No balbuciar das palavras humanas, Jorge Coutinho tenta encaminhar o leitor no horizonte de um Deus "vivo e verdadeiro" que longe de ser "um rival ou de constituir uma alienação para o homem, só pode ser, antes, o sentido absoluto do seu existir, a verdadeira plenitude de que ele carece, aquele, afinal, por quem o seu coração bate mais fundo e forte".

Por outras palavras, nos caminhos da razão, o autor procura ajudar o leitor a encontrar Deus não como infinita ilusão teológica, mas o Ser necessário sem o qual tudo - o mundo, a verdade, o valor, o sentido, a ética, a pedagogia, o direito, o bem e o mal, o próprio ser — carece de sentido ou de consistência".

A MORTE DE DEUS?

Este livro de Jorge Coutinho, conhecido dos bracarenses por ser também o presidente da Comissão das Solenidades da Semana Santa e Arcediago do Cabido da Sé, surge num tempo em que "o niilismo proclama, a par com a morte de Deus, também a morte da razão e da verdade, da metafísica e da filosofia".

É um tempo em que, por causa dessas proclamações, "ser religioso soa a ser obscurantista, retrógrado e anti-moderno" baseadas em "provas" da inexistência de Deus como as "provas" de Auschwitz mas também do Gulag, as duas guerras mundiais e os atentados de 11 de Setembro perpetrados in nomine Dei. É por isso, reafirma o autor, que é oportuno "continuar a fazer hoje de Deus um problema do pensamento" até porque a morte de Deus é apresentada como "epopeia da humana libertação da sua tutela".

Quanto mais não seja "porque Deus continua a dar que pensar" e, nesta perspectiva, o autor adverte os seus leitores que encontrarão neste livro um "discurso aberto, embora crítico e orientado: aberto, justamente porque procurará ter em conta tanto as razões a favor como as contrárias; crítico, porque procurará dar a cada um o que se julgar nela ser razoável; e orientado, porque terá na sua mira evidenciar, quanto possível, a prevalência das razões a favor de Deus sobre as suas contrárias".


ENSINO
E SABEDORIA

João Duque, Director adjunto da Faculdade de teologia de Braga, no prefácio, destaca que este livro é uma "releitura perfeitamente contemporânea dos temas tradicionais da teologia filosófica magistralmente desenvolvida por S. Tomás de Aquino" num tempo em que "Deus enfrenta novos desafios" e qualquer crente pretenda pensar a sua fé nestas 250 páginas enriquecidas com vasta bibiliografia.

Jorge Coutinho, natural de Viana do Castelo, tem uma vida dedicada ao ensino e à Juventude e é licenciado em Filosofia pela Pontifícia Universidade Gregoriana de Roma (1965) e em Filologia Românica pela Universidade de Coimbra (1974), tendo-se doutorado em Filosofia pela Faculdade de Filosofia de Braga da UCP (1995).

Professor associado da Faculdade de Teologia de Braga, leccionou, como convidado, na Faculdade de Filosofia, disciplinas como História da Filosofia Medieval, Filosofia do Conhecimento, Fenomenologia e Hermenêutica da Religião, enquanto dava assistência religiosa no Colégio dos Órfãos de S. Caetano.

É director da revista Theologia, da Faculdade de Teologia-Braga e coordenador do Departamento de Filosofia da mesma faculdade em plano nacional. Antes deste livro, publicou outras obras como "Os caminhos de Deus nos caminhos dos Homens", "Introdução ao Mistério da Salvação", "O Pensamento de Teixeira de Pascoaes, Estudo Hermenêutico e Crítico" e "Filosofia do Conhecimento".