Monday, April 19, 2010

Cem anos de República no Minho (3)



Apresentamos na crónica anterior algumas razões que explicam a lentidão da implantação dos ideais franceses em Portugal, cuja primeira tentativa aconteceu em 1820 e se traduziu na sua maior derrota, a independência do Brasil.

Depois vem nova reacção miguelista com a "abrilada" em 1824 e no ano seguinte Portugal reconhece a Independência do Brasil, um ano antes da morte de D. João VI, aproveitada por miguelistas que obrigam os liberais a fugir para França e Inglaterra.

D. Maria II tem sete anos de idade e D. Pedro IV, do Brasil, entrega o poder a D. Miguel que é aclamado rei em 1828, cargo que exerce até 1832, ano em que é destituído por D. Pedro, até D. Maria II atingir a maior idade. Foram anos difíceis para Portugal, com guerra civil e violenta repressão ideológica dos liberais sempre que "tentavam erguer a cabeça".

Novo revés para os ideais republicanos surge com a guerra civil entre liberais e absolutistas, entre 1832 e 1834, o que ajuda a explicar que a agonia e morte do absolutismo entre nós se apresentasse excessivamente longa.

A relativa precariedade da classe burguesa (porque dependente das benesses reais no Brasil) e a situação social do país, condenavam os militares (comandados por um britânico) a serem o fiel da balança nas situações revolucionárias e contra-revolucionárias que se anteviam entre liberais (D. Pedro) e absolutistas (D. Miguel), adiando a implantação dos ideais da República.

Nesse cenário, Braga e todo o Minho abraçam a causa miguelista devido, em primeiro lugar, à matriz religiosa do discurso político de D. Miguel, com a sua componente messiânica, factor que aliado à prática da hegemonização política (a partir de 1828) contribuem para a resistência miguelista entre 1836 e 1846.

Em Braga, os anos vividos entre 1828 e 1834 foram de grande agitação, com a Igreja Católica a colocar-se ao lado dos absolutistas de forma escandalosa — aos olhos do nosso tempo. Braga foi uma das cidades onde o miguelismo teve maior implantação mas onde a resistência liberal foi mais sacrificada, por três razões fundamentais apontadas no parágrafo anterior.

A matriz religiosa do discursos do miguelismo coincidia com os interesses de uma Igreja Católica feudalizada em que a ameaça de uma revolução à francesa — cujos ideias tinham sido disseminados por soldados durante as invasões e outras associações — perturbava os responsáveis eclesiásticos. Estes estremeceram de espanto e de horror face não só às atrocidades revolucionárias sofridas por diversos membros do clero francês mas sobretudo devido aos demolidores efeitos polí´ticos e sociais de um programa "descristianizador".

Valores e "verdades consagradas desde a Vinda de Cristo eram alvejadas com ousadia "diabólica" pela "deusa Razão" o que constituía uma ameaça concreta para a igreja romana. O recurso à defesa era entendido não só como um direito mas também como imperativo de sobrevivência. A contra-revolução miguelista teve assim no regaço católico o terreno propício para vingar, ao associar-se à denúncia do "assalto da impiedade à cidade de Deus".

A motivação do apoio do clero e D. Miguel não era apenas económica mas ideológica: estava em causa a sobrevivência de uma religião multissecular e esta ideia era vigorosamente defendida nas visitações feitas pelos clérigos de Braga às aldeias de Póvoa de Lanhoso, Barcelos, Famalicão, Vila Verde, Vieira do Minho, Esposende, Viana do Castelo, etc.

A militância era expressa nas prédicas litúrgicas e nas conversas paternais saturadas de miguelismo sucede a uma atitude de "esperar para ver" durante o liberalismo, como o comprova a Carta pastoral do Arcebispo D. Frei Miguel da madre de Deus, que secundava o apelo do Chantre da Sé, Dr. João José Vaz pereira, em 1823 e especialmente entre 1828 e 1834. "Em Braga e pode dizer-se que em todo o vasto território da respectiva arquidiocese (entre Ave e Minho) foi intenso o empenho da Mitra no sentido da mobilização pastoral dos párocos e da sensibilização dos crentes para o perigo das paixões e das más doutrinas, resvalando a partir de 1828 (chegada ao Poder de D. Miguel) na apologia veemente do "nosso legitimo Rey o senhor Dom Miguel Primeiro".

O arcebispo de Braga colocava em "primeiro lugar a fidelidade, e obediência devidas ao Soberano e as Leis, obrigação aliás reconhecida por Jesus Christo Nosso Senhor e Devino Salvador" (cf. Fundo de Visitas e devassas, Arquivo Distrital de Braga, nos Capítulos de visita da Igreja de S. Pedro de Riba d'Ave, fl. 3).

Porquê? O Arcebispo justifica: "este Reino ve o seu sollo manchado naõ so com incredulos, mais com inimigos declarados da Religiaõ Santa e da sua Santa Igreja, da qual se achaõ separados por meio de hum scisma e o mais escandalozo, e com armas na maõ para firmarem o império da Anarquia e da erreligiaõ".

Num apelo final, o arcebispo de Braga pede ao povo que "naõ cece de orar pella vida i conservação do nosso legitimo Rey O Senhor Dom Miguel Primeiro cuja falta seria para nos mal e ainda maior que os orrores da peste".

Este discurso foi profusamente divulgado, em 1832, através de frades e de párocos "zelosos" cumpridores das circulares enviadas, expondo-se assim à retaliação dos Rebeldes do Porto (liberais), inevitável após 1834.

Para salvaguardar os seus ideias, a Igreja voltou a ser cúmplice de métodos miguelistas — que atingiram membros do clero — que recorriam à espionagem, as milícias que reprimiam os "liberais", com devassas, processos ilegais (como aconteceu com o padre Caetano Pipa, pároco de Adaúfe em que o povo obrigou o Arcebispo a dar o dito por não dito depois de o ter suspenso sem ou ouvir), sem esquecer a forca, o fuzilamento, o degredo para África ou as prisões na Metrópole.

É mais um período negro da História da Igreja em Braga e no resto do país que é reforçado com a malograda revolta do Porto, havendo conhecimento de incidentes vários no Minho, até ao eclodir da guerra civil em 1832.

Nesse tempo, escreve A. Minici Malheiro, Braga não era mais que "uma cidadela medieval, onde a vilanagem de roupeta e sandálias campeava como senhores feudais sobre bandos de imbecis imundos, fanatizados, narcotizados, como Endemiões condenados ao sono eterno, especialmente após a deportação dos valentões para a Índia".

Por sua vez, "o Povo de Minho, na sua maioria, continuava mergulhado na mais profunda ignorância do mundo, dos homens, das coisas, de si mesmo, supersticioso e hipócrita, o que só muito a custo se foi desvanecendo, graças à propaganda dos liberais do constitucionalismo", entre os quais pontificava o grande empresário Manuel Joaquim Gomes, a quem Braga deve hoje a pérola que é o elevador do Bom Jesus do Monte.

Nota: foto extraída de www.delcampe.net

Thursday, March 18, 2010

Cem anos de República no Minho (2)



Explicamos na crónica anterior que a implantação do regime republicano, há cem anos, começou com as invasões francesas que fizeram sangrar o Minho há 200 anos e semearam o terror, destruição e custaram milhares de vidas no Minho. Apontamos algumas razões que explicam a lentidão da implantação dos ideais franceses em Portugal, cuja primeira tentativa aconteceu em 1820.

Assim, estavam criados os ingredientes para novo conflito entre os portugueses, em 24 de Agosto de 1820, como eco da revolução liberal espanhola, aproveitando uma ida de Beresford ao Brasil para trazer de lá dinheiro para pagar as despesas militares. O país parecia não ter emenda, depois do desastre dez anos antes... como veremos na próxima crónica que não passará ao lado de Braga e dos arredores.

Pode dizer-se, à distância, que foi uma revoluçãozinha com estragos irreparáveis que não agradou nem a gregos nem a troianos, mantendo-se as mesmas ordens, os mesmos lugares, os mesmos ofícios, a magistratura e o livre exercício da autoridade que se acha depositado nas suas mãos.

Acrescentou-se apenas a possibilidade de "ninguém ser incomodado pelas suas opiniões ou conduta passada e as medidas para evitar tumultos e a satisfação de ódios ou vinganças particulares" - como decretava a Junta provincial do reino, naquele dia 24 de Agosto de 1820.

Esta revoluçãozinha não respondeu a três questões nacionais: "que ideias baseavam o pensamento dos homens que lideraram esta revolução? Como se integra na conjuntura nacional e internacional do momento? e Que transformações, a curto, a médio e longo prazo vai impor ao país?"

Sem respostas a estas perguntas, a 15 de Setembro, os liberais de Lisboa revoltam-se e expulsam os regentes com o objectivo de organizar eleições para as Cortes que são mandatadas a elaborar a nova Constituição do reino. Os Liberais exigem o regresso do rei D. João VI com a condição de prestar juramento à nova Constituição e o fim imediato do domínio inglês.

Os liberais assumiam-se como um movimento vincadamente nacionalista mas o rei D. João VI, não tinha qualquer noção da portugalidade, porque tinha ido em criança para o Brasil e dava-se bem por lá. Ele assumira o trono em 1816, com a morte de D. Maria I, mas deixara-se ficar no Brasil, apesar das tropas francesas há muito terem deixado Portugal.

Conciliar o antigo com o novo — a velha monarquia com ideais constitucionais — foi o desafio nunca conseguido pelos liberais, porque também não conseguiram a adesão do povo à revolução. Este gostava muito mais do popular D. Miguel e a revolução deu um fruto: a criação do Sinédrio, um conjunto de magistrados, negociantes, proprietários e militares.

São eles quem fazem uma constituição que D. João VI aprova em 1822 mesmo reduzindo-lhe os poderes separados agora em Judicial, legislativo e executivo. A Europa olhava para a revolução de 1820 como "democrática e perigosamente progressista" e Joel Serrão descreve de forma brilhante como "os países da Santa Aliança tentaram travar a revolução, recorrendo ao bloqueio comercial, à recusa d e passaportes para portugueses e à intervenção militar apoiando os contra-revolucionários".

Apesar das tentativas de conciliação do rei D. João VI, a independência do Brasil é uma consequência da revolução liberal, em 1822, bem como do aumento da população brancas, a vida cultural própria, o desenvolvimento económico com a abertura dos portos ao comércio mundial e a instituição de uma forte administração pública durante os treze anos em que a monarquia portuguesa se refugiou no Brasil, criando tribunais, sistemas fiscais e diversas repartições de serviços públicos, para além de um Governo central que unificou o território.

A influência dos ingleses traduziu-se no incentivo por todos os meios ao rompimento da colónia com o regime "liberal" de Portugal e tudo se consumou a 7 de Setembro de 1822, nas margens do Ipiranga, em S. Paulo, quando D. Pedro se decide: "É tempo! Independência ou morte. estamos separados de Portugal".

D. Pedro assinava um acto profundamente revolucionário e destruía os alicerces da economia portuguesa mas este acto "é um fracasso dos principais objectivos da revolução Liberal. A partir daqui, o novo regime parece condenado. A facilidade com que se eclipsa atesta a estreiteza da base social do liberalismo" (cf. Manuel Villaverde Cabral, in "O desenvolvimento do Capitalismo em Portugal no século XIX", Ed.. A regra do jogo, Lisboa, 1977, p. 74).

O primeiro alerta era dado em 1823, por D. Miguel, o príncipe da Vilafrancada, a quem a "força dos males nacionais, já sem limites, não deixam escolha" acusando os liberais de darem a ruína ao povo e transformarem o rei num "fantasma" de um país onde a "magistratura é diariamente ultrajada e a religião e seus ministros objecto de mofa e de escárnio".

Depois vem nova reacção miguelista com a "abrilada" em 1824 e no ano seguinte Portugal reconhece a Independência do Brasil, um ano antes da morte de D. João VI, aproveitada por miguelistas que obrigam os liberais a fugir para França e Inglaterra.

D. Maria II tem sete anos de idade e D. Pedro IV, do Brasil, entrega o poder a D. Miguel que é aclamado rei em 1828, cargo que exerce até 1832, ano em que é destituído por D. Pedro, até D. Maria II atingir a maior idade. Foram anos difíceis para Portugal, com guerra civil e violenta repressão ideológica dos liberais sempre que "tentavam erguer a cabeça".

Novo revés para os ideais republicanos surge com a guerra civil entre liberais e absolutistas, entre 1832 e 1834, o que ajuda a explicar que a agonia e morte do absolutismo entre nós se apresentasse excessivamente longa.

A relativa precariedade da classe burguesa (porque dependente das benesses reais no Brasil) e a situação social do país, condenavam os militares (comandados por um britânico) a serem o fiel da balança nas situações revolucionárias e contra-revolucionárias que se anteviam entre liberais (D. Pedro) e absolutistas (D. Miguel), adiando a implantação dos ideais da República.

Wednesday, March 3, 2010

Cem anos de República no Minho (1)


A implantação do regime republicano, há cem anos, começou com as invasões francesas que fizeram sangrar o Minho há 200 anos e semearam o terror, destruição e custaram milhares de vidas no Minho.

Quatro anos de guerra deixaram o país em situação "miserável" — como escreve o historiador Oliveira Marques na sua "História de Portugal" ao sublinhar que aquelas invasões "devastaram boa parte de Portugal, sobretudo a norte do Tejo. A agricultura, o comércio e a indústria foram profundamente afectados, já sem falar das perdas de vidas, das crueldades habituais e das destruições sem conta".

A esta primeira das cinco causas que hão-de conduzir mais tarde cem anos à implantação da República, junta-se o saque de franceses e ingleses de um bom número de mosteiros, igrejas, palácios, levando consigo toda a casta de objectos preciosos, incluindo quadros, esculturas, móveis, jóias, livros e manuscritos de incalculável valor. Eram riquezas que faziam imensa falta a um país pequeno como o nosso.

A terceira causa resulta da presença, entre 1808 e 1821, dos ingleses que transformaram este reino numa colónia, enquanto a fuga da família real transformava Portugal numa colónia do Brasil.

O Brasil fora proclamado Reino, unido a Portugal, cuja Rainha D. Maria I, que morrera em 1816, deixara no poder um D. João VI que não manifestava desejo de regressar a Lisboa. Aqui começa o descrédito da Monarquia da qual nunca mais se vai levantar.

Os príncipes revelavam-se mais brasileiros que portugueses, uma vez que o mais velho saíra de Lisboa com apenas nove anos. A reg~encia do reino mantinha os métodos de governação indiferente aos novos ventos liberais que sopravam de França, trazidos pelos soldados e pela presença francesa.

Começava a germinar, um pouco por todo o país, o descontentamento contra o rei e contra os ingleses que se apoderavam do território, do exército e dos pontos fulcrais do Governo.

A situação económica do povo e da classe burguesa, devastada pelas invasões francesas e pelos pesados tributos aos ingleses, agravava-se sem horizontes positivos à vista.

Por toda a parte, havia sinais do fermento da revolução republicana que há-se florir cem anos depois.
Perguntar-me-ão os leitores: porque resistiu tanto tempo a monarquia decrépita ao avanço dos ideais republicanos, num país esvaído e pobre?

Com a presença dos ingleses, apenas 40 anos depois da revolução Francesa começam a despertar os ideais, devido à situação periférica do país em relação á Europa e ao atraso económico, financeiro, técnico, social e cultural do povo.
A onda de inovação não encontrou eco no povo mas apenas em alguns pilares da burguesia comercial dos principais centros urbanos porque o resto do país — com a nobreza e família real no "bem bom" do Brasil — retomava as actividades primárias na agricultura, permanecia no senhorialismo, sob omnipotência e omnipresença da Igreja Católica e do padre sobre as massas camponesas mais ou menos miseráveis e analfabetas.

A situação em que vivia o povo é bem descrita pelo bracarense A. Ménici Malheiro, quando diz em letra de forma, um dos grandes republicanos: "Dos arceispos, só um merece o nosso aplauso, por isso mesmo não foi canonizado: — D. Frei caetano Brandão, antigo bispo do Pará, onde fez um excelente lugar para a causa da humanidade, visto que, sob o ponto de vista religioso, não nos interessa.
Dos restantes, uns - muito poucos - merecem o nosso respeito, apenas, como homens, pelo que fizeram em benefício de Braga, a outros, que são a grande maioria, unicamente votamos a nossa mais revoltante indignação, pela falta de patriotismo, como Frei Bartolomeu dos Mártires, e pelo muito que fizeram sofrer os nossos pobres antepassados, explorando-os, vexando-os e, o que é mais, conservando-os mergulhados na mais profunda ignorância, para melhor tripudiarem sobre eles
".

E tanto é assim que o marechal Beresford, além de comandar a vida portuguesa e reorganizar o exército, foi ao ponto de restabelecer a Inquisição e o Juízo de Inconfidência e encheu as prisões de suspeitos da "pedreirada" — maçonaria.

As fainas comerciais entre Lisboa e o Brasil levaram algum tempo a reforçar a burguesia como agente político e social contra a monarquia (brasileira) até porque esta ajudava-os a levar a sua vidinha. "Não havia motivos suficientemente fortes para que a burguesia se sentisse muito lesada pela monarquia absolutista" — como assegura Joel Serrão no seu Dicionário de História de Portugal.

A revolução era ideia de desembargadores. alguns frades e foreiros apelidados de "maçons" pelo clero receoso de perder muitos dos seus direitos e regalias.

Ménici Malheiro refere, em Braga, havia "três classes: a dos cónegos capitaneada pelo arcebispo, a dos nobres, cuja nobreza hoje sobejamente conhecemos, e a dos servos ou párias, a quem só era dado trabalhar para as duas primeiras classes, rezar e, quando já velhos, estender as mãos dos conventos".

Novo revés para os ideais republicanos surge coma guerra civil entre liberais e absolutistas, entre 1832 e 1834, o que ajuda a explicar que a agonia e morte do absolutismo entre nós se apresentasse excessivamente longa.


A relativa precariedade da classe burguesa (porque dependente das benesses reais no Brasil) e a situação social do país, condenavam os militares (comandados por um britânico) a serem o fiel da balança nas situações revolucionárias e contra-revolucionárias que se anteviam entre liberais (D. Pedro) e absolutistas (D. Miguel).

Assim, estavam criados os ingredientes para novo conflito entre os portugueses, em 24 de Agosto de 1820, como eco da revolução liberal espanhola, aproveitando uma ida de Beresford ao Brasil para trazer de lá dinheiro para pagar as despesas militares. O país parecia não ter emenda, depois do desastre dez anos antes... como veremos na próxima crónica que não passará ao lado de Braga e dos arredores.

Monday, February 1, 2010

Jorge Coutinho: Deus ignora o "porque sim"



Destinado a "um razoável número de crentes que crê 'porque sim', tal como boa parte dos descrentes não crê 'porque não', o professor Jorge Coutinho acaba de lançar um livro racionalmente apaixonante para aqueles que gostam de seguir os "Caminhos da razão no horizonte de Deus", encontrando aí "as razões de crer".

Com a chancela editorial de "Tenacitas", de Coimbra, o livro foi apresentado no recente Congresso Internacional sobre o Presbítero, em Braga, e tem uma capa que reproduz "Seara numa tarde de Verão" pintado por Marc Chagall, em 1942.

Este livro assume-se como um acto de "ousadia", onde "sem complexos" porque a "metafísica não se evita por negação, só por renúncia", até porque o autor é o primeiro a saber que a "faculdade de 'ver' Deus é, não propriamente a razão, mas o coração".

Este professor da Faculdade de Teologia da Universidade Católica (Braga) — na foto em cima à esquerda — dirige-se àqueles que não se contentam com "razões de superfície" porque o ser humano é um animal racional e "tem, por isso, uma necessidade natural de razões para justificar as suas atitudes". A crença e a descrença, sem razões, constituem atitudes "pré.racionais" ou infantis, dai que "o homem e a mulher intelectualmente adultos carecem de razões de crer, como de razões para descrer".

Situado o plano deste livro, a exposição de Jorge Coutinho inclui duas partes, a primeira das quais aborda a situação actual da religião e do problema de Deus, de modo a justificar a reflexão seguinte em que o autor não "a pretensão, nem podemos ter, de dizer o indizível de Deus na dizível palavra humana".

No balbuciar das palavras humanas, Jorge Coutinho tenta encaminhar o leitor no horizonte de um Deus "vivo e verdadeiro" que longe de ser "um rival ou de constituir uma alienação para o homem, só pode ser, antes, o sentido absoluto do seu existir, a verdadeira plenitude de que ele carece, aquele, afinal, por quem o seu coração bate mais fundo e forte".

Por outras palavras, nos caminhos da razão, o autor procura ajudar o leitor a encontrar Deus não como infinita ilusão teológica, mas o Ser necessário sem o qual tudo - o mundo, a verdade, o valor, o sentido, a ética, a pedagogia, o direito, o bem e o mal, o próprio ser — carece de sentido ou de consistência".

A MORTE DE DEUS?

Este livro de Jorge Coutinho, conhecido dos bracarenses por ser também o presidente da Comissão das Solenidades da Semana Santa e Arcediago do Cabido da Sé, surge num tempo em que "o niilismo proclama, a par com a morte de Deus, também a morte da razão e da verdade, da metafísica e da filosofia".

É um tempo em que, por causa dessas proclamações, "ser religioso soa a ser obscurantista, retrógrado e anti-moderno" baseadas em "provas" da inexistência de Deus como as "provas" de Auschwitz mas também do Gulag, as duas guerras mundiais e os atentados de 11 de Setembro perpetrados in nomine Dei. É por isso, reafirma o autor, que é oportuno "continuar a fazer hoje de Deus um problema do pensamento" até porque a morte de Deus é apresentada como "epopeia da humana libertação da sua tutela".

Quanto mais não seja "porque Deus continua a dar que pensar" e, nesta perspectiva, o autor adverte os seus leitores que encontrarão neste livro um "discurso aberto, embora crítico e orientado: aberto, justamente porque procurará ter em conta tanto as razões a favor como as contrárias; crítico, porque procurará dar a cada um o que se julgar nela ser razoável; e orientado, porque terá na sua mira evidenciar, quanto possível, a prevalência das razões a favor de Deus sobre as suas contrárias".


ENSINO
E SABEDORIA

João Duque, Director adjunto da Faculdade de teologia de Braga, no prefácio, destaca que este livro é uma "releitura perfeitamente contemporânea dos temas tradicionais da teologia filosófica magistralmente desenvolvida por S. Tomás de Aquino" num tempo em que "Deus enfrenta novos desafios" e qualquer crente pretenda pensar a sua fé nestas 250 páginas enriquecidas com vasta bibiliografia.

Jorge Coutinho, natural de Viana do Castelo, tem uma vida dedicada ao ensino e à Juventude e é licenciado em Filosofia pela Pontifícia Universidade Gregoriana de Roma (1965) e em Filologia Românica pela Universidade de Coimbra (1974), tendo-se doutorado em Filosofia pela Faculdade de Filosofia de Braga da UCP (1995).

Professor associado da Faculdade de Teologia de Braga, leccionou, como convidado, na Faculdade de Filosofia, disciplinas como História da Filosofia Medieval, Filosofia do Conhecimento, Fenomenologia e Hermenêutica da Religião, enquanto dava assistência religiosa no Colégio dos Órfãos de S. Caetano.

É director da revista Theologia, da Faculdade de Teologia-Braga e coordenador do Departamento de Filosofia da mesma faculdade em plano nacional. Antes deste livro, publicou outras obras como "Os caminhos de Deus nos caminhos dos Homens", "Introdução ao Mistério da Salvação", "O Pensamento de Teixeira de Pascoaes, Estudo Hermenêutico e Crítico" e "Filosofia do Conhecimento".

Friday, January 29, 2010

Franceses em Braga há 200 anos (fim)


Um ano depois, concluímos esta série de crónicas para assinalar os 200 anos da batalha de Covelas ou Carvalho d'Este, um momento dramático só comparável ao desastre da Ponte das Barcas no Porto ou à titânica defesa da ponte de Amarante, dando conta do ambiente que o clero tinha incutido na alma do povo para receber as tropas de Soult.

A aliança entre o clero, as autoridades locais e o povo, no objectivo patriótico na região de Entre Douro e Minho, estimulando em cadeia o mesmo sentimento anti-francês para lá do Marão, como testemunho as grandes celebrações de que há documentação em Melgaço, Guimarães, Viana do Castelo, Braga e Póvoa de Lanhoso foi decisiva na expulsão dos franceses há 200 anos.

Depois do desaire da primeira invasão, frades e padres seculares foram os primeiros a alistar-se em corpos de voluntários e às rendas do Cabido de Braga, destinadas à defesa, juntavam-se listas abertas a donativos e subscrições públicas em que a participação dos clérigos era saliente.

Neste movimento de base religiosa contra os gauleses participaram também os conventos femininos: enquanto as religiosas do Convento de Santa Clara de Vila do Conde enviam a oferta de seis contos de reis em metal, todas as congregações femininas portuenses não só acodem com donativos como confeccionaram muitos milhares de mochilas e tudo o mais que se destinava a vestuário dos soldados.

No meio deste fervor patriótico e religioso que raiou tantas vezes o apaixonado fanatismo, alguns acaram por ser vítimas inocentes da sua ambiguidade, provando, mais uma vez, que os conflitos com motivações religiosas não ficam a dever em selvajaria aos conflitos puramente militares. É a retaliação do povo aos colaboracionistas, suspeitos ou comprovados, pela intriga ou pela calúnia que enchem as prisões até de inocentes, entre eles alguns padres...

É neste frenesim que entra o episódio do eng. Custódio José Gomes Vilas-Boas, vítima de invejas e interesses egoístas, por causa de lhe terem sido entregues as obras de encanamento do Cávado.
A residir em Esposende, acusam-no de "afrancesado inconfidente" á Junta de Viana, sendo salvo pelo Frei Pedro de S. José — como é descrito pelo historiador Luís de Oliveira ramos. Casos como estes, de falsas denúncias, aconteceram bem perto da Póvoa de Lanhoso, em Guimarães, e em Braga.

Os actos de resistência possuíam uma forte componente religiosa, com diversas celebrações, desde procissões a Te Deum onde eram aclamados os membros da família real e Portugal, em todas as vilas a norte do Douro.

Este fervor religioso e patriótico alimentado entre a primeira e a segunda invasão reforça a resistência popular, quando as tropas de Soult entram pela Galiza, em Portugal, através de Chaves, em direcção a Braga, apesar da desorganização e falta de armas para que as milícias as pudessem deter.

O Deão da Sé de Braga, Luiz António Carlos Furtado de Mendonça, é um dos exemplos através dos seus sermões proferidos em Braga e em Coimbra, em que são exultados os feitos portugueses na defesa da pátria, sublinhando a heroicidade dos naturais na expulsão de um governo odiado pelo "estendal de crimes cometidos e pela injusta apropriação da liberdade", com Junot. Este padre nascido no Rio de Janeiro, há-de mostrar-se depois um convicto miguelista até à sua morte em 1832.

Nesta fantástica campanha religiosa se insere a jornada festiva de Fontarcada, na Póvoa de Lanhoso, a 30 de Outubro de 1808, onde não ficou "um só espectador a quem não rebentassem por várias vezes as lágrimas", como escrevemos na edição de 18 de Dezembro de 2009. Percebe-se agora a importância daquela celebração: depois de Viana do Castelo, de Braga, Guimarães e Porto, a onda patriótico-religiosa chegava, por mão dos párocos, aos locais mais recônditos do Minho. Agora se percebe, com tais campanhas, como foi fervorosa a resistência e tenacidade dos povoenses e bracarenses na Batalha de Braga ou do Carvalho d'Este, tão dignamente celebrada pela Junta de Freguesia de Covelas e pela Câmara Municipal de Braga.

A aproximação de Soult faz estremecer de pânico os habitantes de Vieira, da Póvoa de Lanhoso, de Braga e do Minho inteiro, onde os sinos tocam a rebate e os clérigos pregam em tom apocalíptico nos templos pejados de gente.

Com a saída de Soult, os pregadores não viam nos factos senão o milagre esperado. Na perspectiva messiância, a nação fora uma vez mais salva e a promessa de Ourique prevalecia. O Portugal católico e legitimista via a liberdade da Pátria afirmada e o trono mantido na posse do seu rei natural. Repetia-se o que sucedera na época restauracionista de 1640".

Os anos vão passar e vai verificar-se que o povo dá ouvidos ao clero quando se trata de combater um invasor e alimentar a resistência patriótica mas esquece-se dos párocos quando os ventos liberais varrem o território.

Deixara de ser verdade aquela descrição de José Acúrsio neves: "um abade, ou mesmo um cura, à frente do seu povo, valia por um general: as suas ordens eram obedecidas sem réplica".

Longe iam os ecos das palavras do Deão da Sé de Braga: "estalaram já os pesados ferros, os duros grilhões, as insuportáveis algemas, com que o mais ímpio tirano do universo afligia e vexava em cativeiro infame, a mais bela, a mais formosa Rainha das Nações. Passou o tormentoso Inverno de tantos males, desgraças e sustos, que repassaram os nossos corações, e sucedendo-lhe a alegre estação da mais doce alegria: acabou o negro, o denso chuveiro de funestas calamidades, que engrossando a caudalosa torrente dos nossos infortúnios assolava o Reino e a Pátria; acalmaram os vetos furiosos que soprando indómitos e desencadeados, pretendiam revolver e derrubar o trono e o Altar".

Desgraçadamente, não se cumpriram as profecias prometidas àqueles que lutassem pela sua Pátria, como confiava o arcebispo de Braga: "o lavrador cultivará sem custo os seus campos que via assolados, o negociante verá empolar o comércio, o sábio reviverem as artes, as ciências, o proprietário respeitarem-se os seus direitos, os ricos não temerão a pobreza, nem os pobres a miséria, todos seremos felizes, porque já não dita as leis a impiedade" dos tiranos. Eles estavam a chegar, para a segunda invasão e tentariam ainda uma terceira...

Nunca mais se vão esquecer quadras como esta:

"O patife do Junot
Vinha p'ra nos proteger!
Veio mas foi p'ra nos roubar,
E p'rás pratas recolhe
r"

Ou este Pai Nosso político rezado no Minho;

"Ai, S.ra da Abadia
melhora a nossa sorte
Quando não súbita morte
.
(Nos dai hoje)."

Depois de Junot, chegava ao Minho, Soult cujas tropas causaram súbita morte a muitos povoenses em Covelas.

Franceses em Braga há 200 anos (28)


Na crónica anterior, recordamos como foram lançadas as sementes para a aliança entre o clero, as autoridades locais e o povo, no mesmo objectivo patriótico na região de Entre Douro e Minho, estimulando em cadeia o mesmo sentimento anti-francês para lá do Marão, como testemunho as grandes celebrações de que há documentação em Melgaço, Guimarães, Viana do Castelo, Braga e Póvoa de Lanhoso. Esta aliança foi decisiva na expulsão dos franceses há 200 anos.

Ao lado desta movimentação do povo em armas, há o trabalho desenvolvido pelas Juntas, onde igualmente a igreja estava presente, aliadas às hierarquias militares, uma vez que o exército Português estava praticamente sem efectivos de combate no terreno, para a formação dos milicianos. Os casos de Braga e de Viana do Castelo são paradigmáticos.

Os documentos que nos testemunham este movimento são os cartórios notariais ou então documentos oriundos dos mosteiros que, poucos anos depois, vão ser banidos. De alguns deles daremos conta na próxima crónica os quais atestam até que ponto o clero do Minho se envolveu de forma decidida e directa no combate aos franceses.

Já aqui recordamos que foi de expectativa e de reserva a atitude do clero, nos primeiros meses de presença em Portugal do exército invasor napoleónico e de hostilidade crescente, depois, até à expulsão de Massena. Junot, na primeira invasão, dera a conhecer a hipocrisia das suas intenções marcadas pelo engodo em que caiu o Patriarca de Lisboa, morto pouco depois de senilidade e desgosto.

É dessa fase intermédia o comportamento do Arcebispo de Braga que decidiu cumprir uma parte das decisões de Junot, ao contrário de muitos sacerdotes da arquidiocese, mas ignorou a vontade dos franceses no que respeita ao reconhecimento da rainha, continuando a celebrar missa solene no dia de aniversário da raínha.

Quando se dá a segunda invasão, por terras de Barroso e Lanhoso, em direcção ao Porto, com a batalha de Carvalho d'Este, em Covelas, já o sentimento popular anti-gaulês estava bem vivo, alimentado pelos ecos que vinham de Espanha.

Tanto é assim que em Junho de 1808, Braga proclamava-se a favor dos franceses mas encontrou no clero um agente da resistência patriótica, apesar das vozes em contrário de alguns afrancesados. Por força disso, o ambíguo D. José da Costa Torres, arcebispo de Braga, mandou descobrir as armas reais na fachada do paço e restaurou na missa a colecta pelo príncipe regente e sua família.

Na fronteira norte da dioceses (que incluía então o Alto Minho), Melgaço estava em rebelião aberta contra os franceses, assistindo no dia 9 de Junho ao te Deum e ao sermão de circunstância na igreja da vila com a presença das autoridades. A resistência aos franceses faz-se ouvir depois em Guimarães, liderada por Mons. Miranda, no dia 16, e no dia 18 de Junho, em Viana do Castelo.

A sintonia entre o clero, as autoridades locais e o povo, no mesmo combate patriótico era um facto em toda a região do Minho que se espalha em cadeia a Trás-os-Montes e ao Douro, apesar de alguma indecisão no Porto.
Ao lado desta movimentação do povo, há o trabalho desenvolvido pelas Juntas, onde igualmente a igreja estava presente e os casos de Braga e de Viana do castelo são paradigmáticos.

Na verdade, é a Junta de Viana que envia ao Arcebispo primaz de Braga a carta em que lhe dá conta da revolta e o convida a juntar, onde se destaca o monge beneditino Frei Francisco de S. Luís, do Mosteiro de Carvoeiro — como destaca o historiador Oliveira Ramos in "A resistência contra o expansionismo napoleónico".

São também os vianenses que exortam os portuenses à rebelião em nome do Príncipe regente e contactam o comando naval inglês estacionado em águas de Portugal.
Na carta endereçada pela Junta de Viana ao Arcebispo de Braga agita-se o argumento religioso de modo a dar importância à intervenção do clero para "dinamizar e sustentar a luta armada" porque repelir o jugo estrangeiro "constitui um dever sagrado pela exigência de fidelidade ao juramento político, fundado no religioso".

O Arcebispo de Braga mostra-se receptivo ao apelo e escreve aos "vereadores da Câmara de Braga a solicitar-lhes a adesão oficial, mostrando conhecer o que sucedera na região nortenha". A resposta da Câmara de Braga é positiva embora alerte que o "sucesso de causa tão justa e religiosa" deve contar com o apoio da Junta Suprema provisional do Porto.

Em Braga, coube ao arcebispo presidir à Junta provisória, sendo eleitos pelo clero o abade de Maximinos, Manuel José Leite, e o deão da Sé, Luís Furtado de Mendonça: A Junta de Braga merece o assentimento de Guimarães que acicata os ânimos ao pedir que "as forças não ficassem apenas na defensiva, mas passassem de imediato à acção" — escreve Bernardino da Senna de Freitas em "Memórias de Braga, II, Braga, ed. Imprensa católica, 1890, pp. 365 e ss.

Frades e padres seculares foram os primeiros a alistar-se em corpos de voluntários e às rendas do cabido de Braga, destinadas à defesa, juntavam-se listas abertas a donativos e subscrições públicas em que a participação dos clérigos era saliente.

Neste movimento de base religiosa contra os gauleses participaram também os conventos femininos: enquanto as religiosas do Convento de Santa Clara de Vila do Conde enviam a oferta de seis contos de reis em metal, todas as congregações femininas portuenses não só acodem com donativos como confeccionaåram muitos milhares de mochilas e tudo o mais que se destinava a vestuário dos soldados.

No meio deste fervor patriótico e religioso que raiou tantas vezes o apaixonado fanatismo, alguns acaram por ser vítimas inocentes da sua ambiguidade, provando mais uma vez que os conflitos com motivações religiosas não ficam a dever em selvajaria aos conflitos puramente militares. É a retaliação do povo aos colaboracionistas, suspeitos ou comprovados, pela intriga ou pela calúnia que enchem as prisões até de inocentes, entre eles alguns padres...