Saturday, November 7, 2009

Regionalização: está na hora!





Luís Filipe Menezes tem o mérito de ter agitado as águas mornas em que vive a política portuguesa ao exigir ontem um "avanço sério" na regionalização para que "acabe o centralismo que está a destruir o país e a economia".

O autarca, reeleito com maioria absoluta, reivindicou um "reforço da capacidade afirmativa política da área metropolitana do Porto", e justificou a "necessidade de novos investimentos a Norte" como o caso da "ida do TGV ao aeroporto e à Galiza", do "alargamento da rede do Metro do Porto" e da "construção imediata de novos atravessamentos" entre as duas cidades separadas pelo Rio Douro.

O autarca de Gaia promete tudo fazer para que esta legislatura seja aquela em que se fará um avanço sério da regionalização, alertando para a urgência de um trabalho em conjunto dos partidos políticos, dos autarcas, dos deputados e dos órgãos descentralizados da administração.

Luís Filipe Menezes merece ser felicitado por retomar um tema que andou arredio — por causa de temas menores como as escutas e os casamentos de homossexuais — da Campanha eleitoral das eleições legislativas e também não se ouviu nenhum autarca de topo pugnar pela descentralização administrativa do país.

O caminho da regionalização foi apontado por unanimidade pela Constituição da República portuguesa, à boleia da criação das Regiões Autónomas que tão boa conta de si têm dado. Esta reforma fundamental para o desenvolvimento equilibrado do Continente tem sido travada porque grande parte dos seus defensores não conseguem disfarçar os seus interesses pessoais ou corporativos.

Ora, é o erro que, mais uma vez, o autarca de Gaia volta a cometer. A reincidência no erro não nos faz vislumbrar um debate inteligente, racional e sério sobre a descentralização administrativa do país, para alé´m de constituir um argumento a favor dos amigos e cúmplices sentados à mesa do terreiro do Paço.

No discurso de Menezes, mais uma vez o Norte é reduzido a Gaia e Porto. O resto continua a ser paisagem. Esta postura destes senhores que só olham para o umbigo do rio Douro retira-lhes toda a legitimidade para falarem em nome do Norte do país. Este foi, aliás, um dos argumentos que fez fracassar a primeira tentativa de Regionalização feita pelo Governo de António Guterres.

Está demonstrado — por toda a Europa — que a descentralização administrativa resulta num imenso rol de benefícios para as futuras regiões, a começar pela diminuição das desigualdades num país que assiste anestesiado ao fecho das escolas, de serviços de saúde, de serviços postais e culturais.

Apesar de mal colocado o problema — cinturado apenas no Porto e Gaia —, espera-se que este alerta de Filipe Menezes tenha seguimento. José Sócrates deve cumprir o que prometeu no começo da anterior legislatura mas parece ter-se esquecido à medida que o tempo foi passando.

Nós não esquecemos e os socialistas não podem permitir a violação flagrante da Constituição por omissão. Haja coragem para tomar esta decisão fracturante... na óptica do Terreiro do Paço. Com esclarecimento total e sem demagogia sabotadora e umbilical.

Resta esperar que os nossos autarcas do Minho não continuem distraídos com os seus quintais.

Franceses em Braga há 200 anos (23)


Na passagem das tropas francesas pelo Minho há 200 anos, Portugal foi o primeiro território de afrontamento entre dois grandes líderes militares europeus, antes do encontro final de Waterloo. Todos esquecemos que o "peso da mochila do soldado é incomparavelmente mais leve que o peso das algemas do escravo".

Como foi possível isto ter acontecido? Como foi possível sabendo nós que os "soldados portugueses vão a toda a parte e combatem quem se quiser, marcham sujeitos às maiores fadigas, sem um murmúrio, e vivendo apenas de pão e água com um dente de alho de condimento"?

A desorganização do Estado era quase perfeita, derivada de posições contraditórias dos conselheiros do rei, D. Pedro, aconselhado a fugir com a família real para o Brasil. A preparação da fuga foi uma enorme trapalhada a tal ponto de Junot, desesperado, ainda poder avistar os barcos em fuga, quando chegou a Lisboa.

A 24 de Novembro de 1807, Junot já estava em Abrantes, quando os conselheiros reais ainda o julgavam em Salamanca, enquanto o general Tarranco ocupava o norte do país. os dias seguintes foram de completo desvairamento na Corte.

A fuga da família real resultou numa confusão indescritível, levando a que se perdessem muitos bens se preparassem mal os navios que sairam no dia 27 de Novembro, com cerca de 13 mil pessoas.

Uma delegação da maçonaria antecipava-se e ia abraçar Junot a Sacavém, acolhendo-o como libertador e foi o que se viu.
A resistência popular logo se começou a organizar perante a inoperância da Corte e dos que viviam à sua sombra, quando Junot enviava os melhores soldados para combater em França, e ganha novo impulso quando os franceses hasteiam a bandeira de FRança no castelo de S. Jorge e arreiam a Nacional.

De Madrid vinha uma preciosa ajuda no ano seguinte e em trás-os-Montes, o General Sepúlveda dava o primeiro grito pela independência de Portugal. que ecoa em todo o país e perguntava a todos os portugueses: porque não resistimos?

Hoje, podemos perguntar: porque nunca se encarou seiamente a hipótese de resistência e se optoupela fuga?

Basicamente, a resposta encontra-se na falta de liderança, na situação política, na confusão ideológica, na traição de muitos e no medo de alguns acomodados.

D. Pedro não tinha estatura moral, intelectual e psicológica para assumir qualquer liderança nacional: era um pau mandado numa altura em que se exigia decisão, audácia. exemplo, força de vontade. O futuro rei era tíbio, indeciso, sem astúcia, mal aconselhado e dominado pela mulher de quem se veio a afastar depois.

Daí resultou a ausência de uma linha de actuação política, com objectivos definidos e estratégias claras para os alcançar. A economia, a diplomacia, as forças armadas e as informações estavam desarticuladas por causas ideológicas enraizadas nas ideias da revolução francesa. A massa cinzenta dividiu-se entre os ideais franceses e os interesses da aliança inglesa: o 'partido' dos interesses portugueses baqueou, numa altura em que psicologicamente se pensava que as tropas de Napoleão eram invencíveis e o medo se apoderou de muitos.

Nesta confusão ideológica, alimentada pelo medo, todos esqueceram um direito e um dever de cidadania: resistir a quem nos assalta a casa (portuguesa) é uma questão de princípio e uma questão de honra.

A resistência reforça a coesão de uma nação e a alma de uma nação "tempera-se" nos actos praticados em comunidade em momentos difíceis. A resistência ao ladrão garante os nossos direitos e aumenta a autoridade noral.

Na história de Portugal há muitos momentos de resistência: quem consegue fazer as Linhas de Torres, em 1810, com 108 fortes, 151 redutos e baterias e guarnecê-las com 68 mil homens e mais de mil peças de artilharia também teria conseguido organizar a defesa de Portugal em 1808.

Quem possui um punhado de pescadores — como os de Olhão — que atravessa o oceano num pequeno barco de pesca para ir ao Brasil dar a notícia da expulsão dos franceses, não pode encolher os ombros quando invadem este país.

Se Napoleão afirma que a melhor infantaria de toda a Europa é a portuguesa, como se pode entender que Portugal não tenha resistido? Ninguém deu a ordem. É essa ainda hoje a nossa maior fragilidade.

As lições das invasões francesas, infelizmente, não foram apreendidas. Eis algumas delas: um exército não se improvisa do dia para a noite, as ideologias nem sempre se coadunam com a matriz nacional, as leis devem ser adequadas às pessoas a quem se aplicam, o desenvolvimento sustentado é preferível para não se gastar mais do que o que se produz, pois quando dobramos a cerviz, mas depressa mostramos o fundo das costas.

Como há 200 anos, Portugal resiste em aprender a saber estar, a saber fazer e saber prever.

Monday, November 2, 2009

Gondoriz: na margem do rio Homem



"Entre o Homem e a Amarela — Gondoriz" pode significar o regresso de Manuel da Silva Martins à sua terra natal, que deixou ainda criança, realizando uma monografia completa sobre esta freguesia do concelho de Terras de Bouro que a Calidum editou agora.

Integrada na colecção "Cadernos de Cultura", da Câmara Municipal de Terras de Bouro que está empenhada na edição de obras do grande impulsionador da florestação da serra do Gerês e estudioso das tradições e usos dos povos serranos, Tude de Sousa, pretende dar resposta a uma lacuna pois Gondoriz era uma das freguesias cuja história mais se desconhecia e "ninguém imaginava que pudesse dar origem a um volume desta grandeza" — refere António ferreira Afonso.

Com 412 páginas, Manuel Martins — "sem pretensões a arqueólogo ou etnólogo" — assinala da melhor forma o regresso das suas lides de Lisboa à terra Natal, cujo nome germânico significa chefe de combate, estudando os seus lugares e as casas mais importantes, as capelas, as tradições, o património imaterial das lendas e crenças deste povo encarregado de defender a "porta da Amarela", desde o século XIII.

Situada na margem direita do rio Homem, Gondoriz encerra um "passado antiquíssimo de grande importância que valoriza o concelho" de Terras de Bouro e a obra de Manuel Martins faz sair esta terra do "asfixiante anonimato a que tinha sido arremessada", sem receio do erro porque se está sempre pronto a corrigí-lo, como escreve o autor no prefácio.

Esta monografia é o resultado de muitas leituras — devidamente citadas — que contribuem para dar fundamento científico ao autor que se socorre dos grandes historiadores das coisas do Minho, com destaque para Avelino Jesus da Costa, José Marques e Arlindo Cunha, para se situar no antigo Julgado de Regalados, no séc. XII, momento a partir do qual os documentos escritos são mais frequentes.

Só com a reforma de Mouzinho da Silveira, em 1836, Gondoriz integra o concelho de Terras de Bouro.
O texto é acompanhado de documentos e fotografias que credibilizam as palavras de quem prova que conhece bem a sua terra e as freguesias vizinhas, algumas delas absorvidas por Gondoriz, como Gomesende e São Cristóvão.

Gondoriz, intimamente ligada à serra Amarela, está em perda de população depois de já ter sido habitada por 660 pessoas na década de 50 do século passado, estando hoje reduzida a metade que vai conservando alguns usos e tradições seculares. Destacam-se a religiosidade, as tradições pascais, as romarias e os clamores, confrarias e ditados populares, receitas medicinais como colocar um colar de alhos ao pescoço da criança com lombrigas.

Um glossário típico de Gondoriz e documentação (fotos e biografia) diversa concluem este livro escrito por um economista e técnico superior das alfândegas e dos impostos especiais sobre o consumo, actualmente aposentado, que também foi professor em Lisboa.

Franceses em Braga há 200 anos (22)


Não podemos reduzir a passagem das tropas francesas pelo Minho há 200 anos às batalhas ou aos saques e mortes causadas pelas tropas de Soult, durante a segunda invasão, nem separar esta das restantes. Os efeitos destas invasões bem se podem catalogar como um longo calvário para a Nação portuguesa.

Portugal foi o primeiro território de afrontamento entre dois grandes líderes militares europeus, antes do encontro final de Waterloo. O Minho foi também um território onde Wellington praticou - através dos seus chefes militares Wellesley ou Beresford - a política da terra queimada: 50 mil portugueses morreram de fome, durante os cinco meses de cerco de Massena nas linhas de Torres Vedras.

As invasões francesas marcaram de tal forma este país que ainda se mantêm hoje os seus efeitos. A análise demográfica aponta para a perda de dez por cento da população portuguesa, quer pela força das armas, quer pelas doenças, pela fome e frio. Foram cerca de 300 mil portugueses que morreram, um número inimaginável hoje quando somos quatro vezes mais.

A nossa agricultura e pecuária foram arrasadas, os monumentos roubados, as igrejas profanadas, cidades e vilas incendiadas, pontes e outras obras de arte destruídas, população deslocada. Atrás das linhas de Torres estiveram 600 mil portugueses!

A presença de mais de 25 mil militares de Napoleão deixou marcas no nosso Minho, muito para além da destruição e saque de edifícios do nosso património. Basta evocar o ditado "tudo como dantes, quartel em Abrantes" ou aquele que "come à grande e à francesa" ou passa a vida a "ver navios". São expressões que ficaram por cá.

Para além da nossa linguagem, as invasões francesas tiveram profundas consequências na maneira de pensar dos portugueses, especialmente o ideário político liberal e a introdução das bases administrativas de um estado moderno.

Há quem afirme que os exércitos de Soult, Junot e Massena foram os parteiros da modernidade política, organizacional e até constitucional. A monarquia portuguesa, cujo titular se refugiou no Brasil, foi "atacada" por um constitucionalismo moderado, em que a figura do rei vai perdendo terreno. A influência política foi muito mais forte que o descalabro causado pelas armas ou pelos militares.

A imposição das ideias da revolução francesa num país ainda quase feudal, deram origem a divisões profundas na família real e nas elites que derivaram para uma guerra civil de quase cem anos que só terminou em 1933 com uma nova Constituição.

Se é verdade que as invasões semearam ódios profundos do povo contra os franceses, não é menos certo que semearam novas aspirações e ideias, anseios de reivindicações sociais que desabrocharam depois. A revolta da Maria Fonte só pôde ser possível se a entendermos como consequência da invasão francesa.

Mais grave que as malfeitorias dos militares franceses e foram muitas, os ingleses que eram aliados portugueses contribuíram para a desertificação e para o ruinoso tratado comercial de 1810 que concluiu a aniquilação económica de um país, sem rei, nem roque.

Foi um país sem rei nem roque que abriu as portas a estas invasões francesas, sem ter "boas tropas e bons navios" face à ameaça de Napoleão em toda a Europa e depois da aventura desgraçada do Roussilhão que levou à perda de Olivença.

Este país sem ideias e identidade facilmente se atordoou com a dinâmica exportadora de ideologia francesa, após a subida o poder de Napoleão que transformou cada soldado num cidadão e cada cidadão num soldado. Até a amiga Inglaterra nos menorizou quando o primeiro ministro William Pitt respondeu: "O governo de sua Majestade só ajuda os Governos que, em primeiro lugar, se queiram ajudar a si próprios". Era o que Portugal não sabia fazer, ajudar-se a si próprio.

A lição que fica para a história parece não ter sido aprendida: as cúpulas erram e quem paga os erros é o povo porque a Corte fugiu, literalmente, acompanhada de dez a quinze mil nobres e burgueses, com todas as riquezas que puderam transportar.

Como foi possível isto ter acontecido?

A esta e outras perguntas vamos tentar responder na próxima crónica e confirmar que mantêm uma flagrante actualidade, 200 anos depois.

Tuesday, October 27, 2009

Franceses em Braga há 200 anos (21)


Não podemos reduzir a passagem das tropas francesas pelo Minho há 200 anos às batalhas ou aos saques e mortes causadas pelas tropas de Soult, durante a segunda invasão, nem separar esta das restantes. Os efeitos destas invasões bem se podem catalogar como um longo calvário para a Nação portuguesa.

Portugal foi o primeiro território de afrontamento entre dois grandes líderes militares europeus, antes do encontro final de Waterloo. O Minho foi também um território onde Wellington praticou - através dos seus chefes militares Wellesley ou Beresford - a política da terra queimada: 50 mil portugueses morreram de fome, durante os cinco meses de cerco de Massena nas linhas de Torres Vedras.

As invasões francesas marcaram de tal forma este país que ainda se mantêm hoje os seus efeitos. A análise demográfica aponta para a perda de dez por cento da população portuguesa, quer pela força das armas, quer pelas doenças, pela fome e frio. Foram cerca de 300 mil portugueses que morreram, um número inimaginável hoje quando somos quatro vezes mais.

A nossa agricultura e pecuária foram arrasadas, os monumentos roubados, as igrejas profanadas, cidades e vilas incendiadas, pontes e outras obras de arte destruídas, população deslocada. Atrás das linhas de Torres estiveram 600 mil portugueses!
A presença de mais de 25 mil militares de Napoleão deixou marcas no nosso Minho, muito para além da destruição e saque de edifícios do nosso património. Basta evocar o ditado "tudo como dantes, quartel em Abrantes" ou aquele que "come à grande e à francesa" ou passa a vida a "ver navios". São expressões que ficaram por cá.

Para além da nossa linguagem, as invasões francesas tiveram profundas consequências na maneira de pensar dos portugueses, especialmente o ideário político liberal e a introdução das bases administrativas de um estado moderno.

Há quem afirme que os exércitos de Soult, Junot e Massena foram os parteiros da modernidade política, organizacional e até constitucional. A monarquia portuguesa, cujo titular se refugiou no Brasil, foi "atacada" por um constitucionalismo moderado, em que a figura do rei vai perdendo terreno. A influência política foi muito mais forte que o descalabro causado pelas armas ou pelos militares.

A imposição das ideias da revolução francesa num país ainda quase feudal, deram origem a divisões profundas na família real e nas elites que derivaram para uma guerra civil de quase cem anos que só terminou em 1933 com uma nova Constituição.
Se é verdade que as invasões semearam ódios profundos do povo contra os franceses, não é menos certo que semearam novas aspirações e ideias, anseios de reivindicações sociais que desabrocharam depois. A revolta da Maria Fonte só pôde ser possível se a entendermos como consequência da invasão francesa.

Mais grave que as malfeitorias dos militares franceses e foram muitas, os ingleses que eram aliados portugueses contribuíram para a desertificação e para o ruinoso tratado comercial de 1810 que concluiu a aniquilação económica de um país, sem rei, nem roque.

Foi um país sem rei nem roque que abriu as portas a estas invasões francesas, sem ter "boas tropas e bons navios" face à ameaça de Napoleão em toda a Europa e depois da aventura desgraçada do Roussilhão que levou à perda de Olivença.

Este país sem ideias e identidade facilmente se atordoou com a dinâmica exportadora de ideologia francesa, após a subida o poder de Napoleão que transformou cada soldado num cidadão e cada cidadão num soldado. Até a amiga Inglaterra nos menorizou quando o primeiro ministro William Pitt respondeu: "O governo de sua Majestade só ajuda os Governos que, em primeiro lugar, se queiram ajudar a si próprios". Era o que Portugal não sabia fazer, ajudar-se a si próprio.

A lição que fica para a história parece não ter sido aprendida: as cúpulas erram e quem paga os erros é o povo porque a Corte fugiu, literalmente, acompanhada de dez a quinze mil nobres e burgueses, com todas as riquezas que puderam transportar.

Como foi possível isto ter acontecido? A esta e outras perguntas vamos tentar responder na próxima crónica e confirmar que mantêm uma flagrante actualidade, 200 anos depois.

Thursday, October 8, 2009

Antecipar o futuro de Braga: quem tem capacidade?




Nas últimas semanas, uma frase tem sido repetida de forma tão sistemática que constitui um insulto à inteligência de quem a ouve: a gestão de Mesquita Machado e do PS está gasta, cansada e incapaz de antecipar o futuro pois não tem respostas novas para os novos problemas.
Se fosse assim, dizem, há que dar lugar a outros com provas dadas na sua vida profissional, ta-ta-ta, etc. e tal.

Ora, quem assim se atreve a falar ou a escrever, está a esquecer-se de três pormenores.
Em primeiro, os bracarenses vivem numa cidade bimilenar e se há alguma coisa que eles têm entranhada na alma é a memória, uma preciosa ferramenta da sua inteligência.
Em segundo, o anseio íntimo dos bracarenses em viver numa cidade e concelho de Braga que sejam inovadores porque só assim conseguimos todos antecipar o futuro não lhes tolda a consciência nem embrutece a inteligência.

Em terceiro, uma alternativa credível e inteligente constrói-se por propostas positivas e não por um sistemático exercício de maledicência, como se os bracarenses fossem ceguinhos.
Os socialistas têm provas dadas na criatividade de soluções e no pioneirismo de respostas aos novos problemas. Tantas começaram em Braga e depois foram copiadas por outros municípios, mesmo sabendo que as cópias ficam sempre a dever aos originais.

Vamos dar apenas alguns exemplos que ninguém, tenha a cor partidária que tiver, pode desmentir-
São factos concretos, não artigos de economia ou probabilidades. São realidades comprovadas.

Os socialistas foram inovadores com a criação de uma empresa municipal de transportes públicos que aproximasse as populações das freguesias umas das outras e da cidade. É talvez – juntamente com a política de solos para habitação – uma das mais profundas medidas estruturantes do tecido humano de Braga. Impediu que as populações das aldeias engordassem a cidade porque, através dos transportes continuavam próximas da cidade sempre fascinante.

Foram inovadores com a compra dos primeiros autocarros a gás natural, combustível que hoje está vulgarizado por outras empresas de transportes.

Foi assim com os subsídios de sub-arrendamento de habitação e a aquisição de habitações no mercado paras as disponibilizar no arrendamento a famílias carenciadas. Braga foi o primeiro concelho a rejeitar construir bairros sociais porque os socialistas querem uma cidade para todos e sem “guetos”. Só uma década depois o Estado acabou com essa política e elogiou o modelo de Braga. Já se esqueceram?

Foi assim com o premiado trabalho desenvolvido pela Bragabrinca no enriquecimento educativo das crianças e adolescentes das minorias étnicas ou lançados na rua, envolvendo-os nos livros, nos discos e nos computadores . É mentira?

Foi assim com a criação e entrada em funcionamento das primeiras escolas Profissional e de Educação Rodoviária para ampliar os horizontes profissionais dos jovens e reforçar a educação para a segurança na estrada. Não se lembram?

Foi assim com a inovadora criação de empresas municipais de capitais maioritariamente públicos que agora são recurso de muitos outros autarcas por esse país fora. Concordam ou não?

Foi assim com a construção dos primeiros parques de estacionamento subterrâneo para aumentar a mobilidade de peões e automóveis dentro da cidade e dinamizar o comércio tradicional que agora são construídos em todas as vilas e cidades. É mentira?

Se tantas vezes foi assim, com o PS e Mesquita Machado, não há dúvidas que é esta dupla que oferece melhores garantias para que Braga seja conhecida como a cidade que antecipa o futuro.
O PS e Mesquita Machado fazem Braga antecipar o futuro, com soluções que os outros copiam porque reconhecem que são boas para as pessoas.

Quando o PS e Mesquita Machado antecipam o futuro de Braga, colocam as pessoas em primeiro lugar.

Como as colocam em primeiro lugar? Passem os olhos pelas tarifas de bens públicos (água, saneamento, lixo, transportes) de concelhos vizinhos e depois digam-nos que o PS e Mesquita Machado são incapazes de antecipar o futuro.

Wednesday, October 7, 2009

Braga é fantástico: um texto insuspeito

"Braga é fantástico" é o título de um texto de Miguel Esteves Cardoso, na revista "J" do jornal o jogo que não resisto a partilhar consigo, dada a insuspeição do seu autor.
É uma lição para alguns bracarenses que não encontram nada que lhes sirva na Cidade de Braga.

"Às vezes, fica-se com a impressão que é Braga que deveria mandar neste país. Veio do Sporting de Braga o treinador que está a salvar o Benfica. Mas, mesmo sem esse treinador, o Sporting de Braga está em primeiro lugar.


Acho que o Sporting de Braga é o único clube de que todos os portugueses gostam secretamente. Os benfiquistas acham que eles são do Benfica; os do Sporting apontam para o nome e os portistas, por muito que lhes custe, são nortenhos e não se pode ser nortenho sem gostar de Braga.

Toda a gente tem medo - e com razão - do Sporting de Braga. Há a mania de engraçar com a Académica de Coimbra ou com o Belenenses, mas são amores fáceis, que não fazem medo nem potenciam tragédias.

O Sporting de Braga não se presta a essas condescendências simpáticas. É po ser temido que o admiramos. Mais do que genica, tem brio. É uma atitude com que se nasce; não se pode ensinar nem aprender.

A primeira vez que fui a Braga já estava à espera de encontrar uma cidade grande e diferente de todas as outras. Mas fiquei siderado. Acho que Braga se dá a conhecer a quem lá entra, sem receios ou desejos de impressionar.

A primeira impressão foi a modernidade de Braga - pareceu-me Portugal, mas no futuro. E num futuro feliz. O Porto e Lisboa são mais provincianos do que Braga; tem mais complexos; tem mais manias; tem mais questiúnculas por resolver e mais coisas para provar.

Braga fez-me lembrar Milão. É verdade. Eu adoro Milão mas Milão é (mais ou menos) Italiano, enquanto Braga é descaradamente português. Havia muitas motas; muitas luzes; muita alegria; muito à-vontade.

Lisboa e Porto digladiam-se; confrontam-se; definem-se por oposição uma à outra. Braga está-se nas tintas. E Coimbra - que é outra cidade feliz de Portugal - também é muito gira, mas não tem o poderio e a prosperidade de Braga.

Em Braga, ninguém está preocupado com a afirmação de Braga em Portugal ou no mundo. Braga já era e Braga continua a ser. Sem ir a Roma, só em Braga se compreende o sentido da palavra "Augusta".

Em contrapartida, na Rua Augusta, em Lisboa, não há boa vontade que chegue para nos convencer que o adjectivo tenha proveniência romana. A Rua Augusta é "augusta" como a Avenida da Liberdade é da "liberdade" e a Avenida dos Aliados é dos "aliados", mas Braga é augusta no sentido original, conferido pelo próprio Augusto.

Em Braga, a questão de se "comer bem" ou "comer mal" não existe. Come-se. E, para se comer, não pode ser mal. Pronto. Em Lisboa, por muito bem que se conheçam os poucos bons restaurantes, está-se sempre à espera de uma desilusãozinha.

No Porto, apesar de ser difícil, ainda se consegue arranjar alguma ansiedade de se ser mal servido; de ir a um restaurante desconhecido e, por um cósmico azar, comer menos do que bem. Em Braga isso é impossível.

O problema da ansiedade não existe.
Braga tem tudo.
Passa bem sem nós.
Mas nós é que não passamos sem ela, porque os bracarenses ensinam-nos a não perder tempo a medir o comprimento das pilinhas uns dos outros ou a arranjar termómetros de portuguesismo ou de autenticidade.

É por isso que o Sporting de Braga está à frente. Não é por se chamar Sporting. Não é por ter cedido o treinador ao Benfica. O Benfica ganhou muito com isso. Mas é o Sporting de Braga que está à frente.

É por ser de Braga.

É uma coisa que, infelizmente, nem todos nós podemos ser.

Fique então apenas a gentileza de ficar aqui dito de ter pena de não ser.