Wednesday, September 23, 2009

A última oportunidade


O jornal espanhol “El mundo” publicava no início desta semana um excelente artigo de José Manuel Durão Barroso, recém reeleito para a presidência da Comissão Européia. Porque o tema tem sido silenciado na campanha eleitoral portuguesa, atrevo-me a citar aqui alguns dos parágrafos mais emblemáticos.

As mudanças climáticas estão a produzir-se mais rapidamente do que esperávamos há dois ou três anos atrás. Daí que os dirigentes mundiais, europeus e portugueses não possam continuar a assobiar para o ar como se nada significassem para si.

Estamos perante o desfio mais importante para a actual geração de políticos do mundo e reina um estranho silêncio em Portugal, desde a direita à esquerda.

A Cimeira de Copenhaga está a suscitar justificadas inquietações e tudo aponta para um buraco sem saída, face ao adivinhado afrontamento entre os países desenvolvidos e as nações em vias de desenvolvimento.

No entender de Durão Barroso, a nossa geração e a dos nossos filhos não pode tolerar “um resultado desastroso”.

Os líderes mundiais são desafiados a “contemplar o abismo que se abre sob os seus pés” e incitados a fazer alguma coisa para avançar as negociações porque o momento “não é de jogar póquer, mas de colocar os trunfos sobre a mesa e os trunfos devem chegar ao limite das suas possibilidades políticas”.

Em primeiro lugar, os paises mais desenvolvidos devem tornar claros os seus planos para reduzir as emissões de Dióxido de Carbono (CO2) a médio prazo, alem de darem provas concretas da sua liderança.

Só assim é possível reduzir em 80 por cento as emissões de CO2 até ao ano 2050. Deste modo, possuem autoridade moral para exigirem aos paises em vias de desenvolvimento uma redução entre os 25 e 40% até ao ano 2020.

São necessários cem mil milhões de euros para uma resposta eficaz à destruição da camada de Ozono que protege e permite a existência de vida na Terra. Uma parte é financiada pelos países mais avançados e outra parte deve ser obtida com o mercado do Carbono.

A parte que toca à Europa, nos cálculos de Durão Barroso, ascende a quinze mil milhões de euros.

Se fracassar a cimeira de Copenhaga, dentro de dois meses e meio, Durão Barroso afirma que os dirigentes mundiais estão a escrever a carta de suicídio maior e mais global da história.

E a opção é simples mas dramática. Simples porque só há acordo com dinheiro, mas sem acção não há dinheiro. Dramática porque o mundo está a sair de uma enorme depressão financeira mas pode cair numa dramática agonia mortal se nada fizer pelo ar que respiramos.

Mas nada disto parece inquietar os portugueses e muito menos os seus políticos em campanha eleitoral.

Friday, September 18, 2009

Duas pérolas de fim de Verão



São duas pérolas, uma em prosa (abaixo) e outra em gravura (acima).
mas não posso resistir a partilhá-las convosco.

TVI - A Minha Leitura (José Niza)


Fui director de programas da RTP e depois seu administrador. E garanto-vos que, se alguma vez algum apresentador ou jornalista desse uma entrevista a chamar-me "estúpido", a primeira coisa que aconteceria seria o cancelamento imediato do seu programa, independentemente de haver ou não eleições em curso.

Por isso me parece incompreensível que, embora rios de tinta já se tenham escrito sobre o cancelamento do jornal nacional que Manuela Moura Guedes (MMG) apresentava na TVI, todos os analistas e comentadores tenham ignorado a explosiva e provocatória entrevista que MMG deu ao Diário de Notícias dias antes de a administração da TVI lhe ter acabado com o programa.

Em meu entender essa entrevista, realizada com antecedência para ser publicada no dia do regresso de MMG com o seu jornal nacional, foi a gota de água que precipitou a decisão da TVI. É que, o seu conteúdo, de tão explosivo e provocatório que era, começou a ser divulgado dias antes. E se chegou ao meu conhecimento, mais cedo terá chegado à administração da TVI.

Nessa entrevista MMG chama "estúpidos" aos seus superiores. Aliás, as palavras "estúpidos" e "estupidez" aparecem várias vezes sempre que MMG se refere à administração.

É um documento que merece ser analisado, não somente do ângulo jornalístico, mas sobretudo do ponto de vista comportamental. É uma entrevista de uma pessoa claramente perturbada, convicta de que é a maior ("Eu sou a Manuela Moura Guedes"!) e que se sente perseguida por toda a gente. (Em psiquiatria esse tipo de fenómenos são conhecidos por "ideias delirantes", de grandeza ou de perseguição).

MMG diz-se perseguida pela administração da TVI; afirma que os accionistas da PRISA são "ignorantes"; considera-se "um alvo a abater"; acusa José Alberto de Carvalho, José Rodrigues dos Santos e Judite de Sousa de fazerem "fretes ao governo" e de serem "cobardes"; acusa o Sindicato dos Jornalistas de pessoas que "nunca fizeram a ponta de um corno na vida"; diz que o programa da RTP 2, Clube de Jornalistas, é uma "porcaria"; provoca a ERC (Entidade Reguladora da Comunicação Social); arrasa Miguel Sousa Tavares e Pacheco Pereira, etc.

E quando o entrevistador lhe pergunta se um pivô de telejornal não deve ser "imparcial", "equidistante", "ponderado", ela responde: "Então metam lá uma boneca insuflável"!

Como é que a uma pessoa que assim "pensa" e assim se comporta, pode ser dado tempo de antena em qualquer televisão minimamente responsável?

Ao contrário do que alguns pretendem fazer crer - e como sublinhou Mário Soares - esta questão não tem nada a ver com liberdade de imprensa ou com a falta dela. Trata-se, simplesmente, de um acto e de uma imperativa decisão administrativa, e de bom senso democrático.

Como é que alguém, ou algum programa, a coberto da liberdade de imprensa, pode impunemente acusar, sem provas, pessoas inocentes? É que a liberdade de imprensa não é um valor absoluto, tem os seus limites, implica também responsabilidades. E quando se pisa esse risco, está tudo caldeirado. Há, no entanto, uma coisa que falta: uma explicação totalmente clara e convincente por parte da administração da TVI, que ainda não foi dada.

Vale também a pena considerar os posicionamentos político-partidários de MMG e do seu marido.

J. E. Moniz tem, desde Mário Soares, um ódio visceral ao PS. Sei do que falo. MMG foi deputada do CDS na AR.Até aqui, nada de especialmente especial.

O que já não está bem - e é criminoso - é que ambos se sirvam de um telejornal para impunemente acusarem pessoas inocentes, sem quaisquer provas, instilando insinuações e induzindo suspeições.

Ainda mais reles é o miserável aproveitamento partidário que, a começar no PSD e em M. F. Leite, e a acabar em Louçã e no BE, está a ser feito. Estes líderes políticos, tal como Paulo Portas e Jerónimo de Sousa, sabem muito bem, que nem Sócrates nem o governo tiveram qualquer influência no caso TVI. Eles sabem isto. Mas Salazar dizia: "O que parece, é"!

E eles aprenderam.




- 1984. Eu era, então, administrador da RTP. Um dia a minha secretária disse-me que uma das apresentadoras tinha urgência em falar comigo: - "Venho pedir-lhe se me deixa ir para a informação, quero ser jornalista"! Perguntei-lhe se tinha algum curso de jornalismo. Não tinha. Perguntei-lhe se, ao menos, tinha alguma experiência jornalística, num jornal, numa rádio... Não tinha. "O que eu quero é ser jornalista"! Percebi que estava perante uma pessoa tão determinada quanto ignorante. E disse-lhe: "Vá falar com o director de informação; se ele a aceitar, eu passo-lhe a guia de marcha e deixo-a ir". A magricelas conseguiu. Dias depois, na primeira entrevista que fez - no caso, ao presidente do Sporting, João Rocha - a peixeirada foi tão grande que ficou de castigo e sem microfone uma data de tempo.

P.S.

A jovem apresentadora chamava-se Manuela Moura Guedes.

E se eu soubesse o que sei hoje...



Ribatejo - Portugal

Tuesday, September 8, 2009

Franceses em Braga há 200 anos (19)


Quando se encontrava no cativeiro na ilha de Santa Helena, Napoleão, nas suas memórias, escreveu que "a Guerra peninsular perdeu-me. Destruiu a minha moralidade, complicou os meus embaraços e abriu uma escola para os soldados ingleses".

Anteriormente, falamos de três valentes portugueses que dominaram as segunda invasão de Soult que quis tomar Portugal entrando pelo Minho, em direcção ao Porto: Freire de Andrade, assassinado em Braga, Silveira de Brito, grande responsável pela derrota de Soult e o eng. Vilas Boas.

O trabalho sobre a Invasão francesa que devastou as terras de Lanhoso, antes da batalha de Braga, e na retirada, até Misarela, ficava incompleto se não falássemos de três estrangeiros: o marechal Soult, o tenente-general irlandês Wellesley e o seu compatriota Beresford que comandou os portugueses por terras de Lanhoso e Braga.

Se é certo que os militares franceses não contavam com a força da resistência do povo, também é verdade que a Inglaterra enviou para Portugal um punhado de oficiais, alguns dos quais perderam a vida aqui, que ajudaram a libertar o país e se cobriram de glória em todas as campanhas levadas a cabo no Minho e no resto do país.

“O DUQUE DE FERRO”

Acima de todos, brilha com grande luminosidade o duque de Wellington, hoje considerado como um dos maiores chefes militares de sempre. Ele foi o chefe que soube conduzir, em condições muito difíceis e em completo isolamento, sempre doloroso, os exércitos aliados ao triunfo.
É a ele que Napoleão dedica as palavras com que iniciamos esta crónica.
O tenente-general Artur Wellesley, nasceu em Dublin, a 1 de Maio de 1769.

Depois de estudar em França, iniciou a sua carreira militar com a batalha da Flandres e foi ferido na Índia, onde se tornou um militar exímio e um organizador ponderado e eficiente.

PORTUGAL TALISMÃ

Em 1808 já se opusera com glória a Junot, nas batalhas da Roliça e Vimeiro. Volta a Portugal, um ano depois, para expulsar Soult da cidade do Porto, através de uma manobra bem concebida e bem coordenada com o comandante do exército português Beresford.

No ano seguinte é ele quem obriga Massena a deixar Portugal, derrotando-o no Buçaco. Vencidos os franceses em Portugal, em três anos consecutivos, Wellesley persegue os franceses em território espanhol, ao ponto das Cortes espanholas o nomearem Generalíssimo.

Em 1813 perseguiu as tropas de Napoleão até ao território gaulês, chegando à cidade de Toulouse.

Com a destituição de Napoleão, regressa a Londres onde é triunfalmente recebido e agraciado com o título de Duque de Wellington, mas faltava-lhe vencer o próprio Napoleão e esse triunfo aconteceu na última e decisiva batalha de Waterloo, sendo nomeado comandante supremo das forças de ocupação de França.

Os documentos que nos deixou mostram-nos um chefe militar sóbrio, perseverante, intransigente na disciplina e prudente nas decisões, características que lhe valeram o cognome de "Duque de Ferro".

De facto, ele não captava a simpatia dos seus soldados que, na manhã de uma batalha diziam que "a presença da sua figura imponente valia por muitos homens". Os soldados respeitavam-no mais do que o amavam, por causa dos insultos que dirigia às vezes aos súbditos.

Centralizador, sem dar iniciativa aos seus subordinados, Wellesley era brilhante na táctica e eficaz na estratégia contrariando a afirmação de Napoleão segundo a qual "a sorte fez mais por ele do que ele fez pela sorte".

DUPLA COM BERESFORD

Sabia fazer retiradas quando lhe parecia peri-goso não o fazer (como em Talavera ou Madrid), por-que gostava de atacar com eficácia (como na Roliça e Vimieiro) e ser arrasador como foi em Vitória aproveitando as falhas do adversário, como sucedeu em Salamanca.

A perseguição a Soult no fim da segunda invasão — pelo Minho — até aos Pirinéus revelam-nos um general confiante e determinado até à aniquilação total do inimigo em fuga e a sua rendição.

Adepto incondicional da formação em linha, Wellesley teve no Marechal Beresford um dos seus mais eloquentes colaboradores, apesar da derrota em Braga, na Serra do Carvalho.

Sobre este irlandês, William Beresford, escreveremos na próxima crónica.

Saturday, August 29, 2009

Um ataque para distrair os cidadãos

Veio de onde não se esperava um dos mais violentos ataques ao mandato de Cavaco Silva enquanto Presidente da República.
É a ele que a Constituição da República Portuguesa atribui a missão de ser o garante do regular funcionamento das instituições democráticas.

Ora, o seu mandato acaba de ser posto em causa por um vice-presidente do PSD, quando este vem acusar o Governo socialista de ter uma visão “sovietizada” da sociedade ao querer intervir em “todos os sectores da sociedade portuguesa”.

Cavaco Silva é acusado, desta forma, de apadrinhar um Governo que tem uma “visão clientelar do Estado, não para servir os portugueses mas para servir o próprio Partido Socialista”, desde a banca à comunicação social.

O presidente da República foi também acusado de fechar os olhos e ser cúmplice de um Governo que se encontra “sob suspeita” e permitir que seja minada a autoridade do Estado, corroendo, desta forma as instituições democráticas de cujo regular funcionamento é o primeiro responsável.

O PSD acusou ainda o Presidente da República alimentar uma cooperação estratégica com um primeiro-ministro que mente e tem falta de carácter.

Além de serem afirmações graves, mesmo percebendo que são feitas no contexto pré-eleitoral, inquietam porque são o sintoma de uma estratégia de recurso à insinuação, à maledicência, ao combate político ao seu mais baixo nível, colocando em causa o trabalho e a missão constitucional do Presidente da República.

As dificuldades reconhecidas de apresentar um programa político não justificam o regresso à política da difamação, dos ataques de carácter, que colocam em perigo a acção política de forma elevada com que instituições democráticas como a Presidência da República merecem ser tratadas.

Usar esta linguagem é iniciar um caminho inaceitável para dar resposta eficaz e positiva que os portugueses esperam e merecem face aos desafios e problemas que os portugueses enfrentam.

Os portugueses merecem e exigem um debate sério e responsável, e educado porque o tempo do vale-tudo não consegue estimular os portugueses a vencer a mais séria crise económica do último meio século.

A resposta passa apenas por políticas sérias que devem ser apresentadas neste período pré-eleitoral. Ataques pessoais só podem servir para distrair os portugueses para a ausência de propostas de quem os faz. E esse é mais um truque para ajudar o Governo e esquecer os dramas dos portugueses.

Franceses em Braga há 200 anos (18)



Já aqui falamos de três valentes portugueses que dominaram as segunda invasão de Soult que quis tomar Portugal entrando pelo Minho, em direcção ao Porto: Freire de Andrade, assassinado em Braga, Silveira de Brito, grande responsável pela derrota de Soult e o eng. Vilas Boas.

O trabalho sobre a Invasão francesa que devastou as terras de Lanhoso, antes da batalha de Braga, e na retirada, até Misarela, ficava incompleto se não falássemos de dois estrangeiros: o marechal Soult e o general inglês Wellesley.

Falemos hoje do marechal Francês que alguns bracarenses chegaram a aclamar com príncipe de Portugal: Jean de Dieu Soult, duque da Dalmácia (1769-1851). Nasceu no mesmo ano que o seu Imperador Napoleão Bonaparte, tendo-se alistado em 1786, passando por todos os postos inferiores até achegar a capitão, em 1793.

No ano seguinte consegue ser graduado em comandante de batalhão, coronel e General de brigada, ao colaborar de forma notável na conquista da Bélgica.

General de divisão em 1799, pelos seus feitos no cerco de Luxemburgo, Soult inicia uma colecção fantástica de sucessos militares, ao ponto de Bonaparte, fracassada a primeira invasão, perceber que ele era o único capaz de anexar este rectângulo da Península Ibérica.

Por isso, é enviado para a campanha de Itália, em 1804, acabando por ser um dos 44 elevados ººa categoria de Marechal. No ano seguinte já comandava o quarto corpo do Grande Exército de Napoleão, quando fez capitular Memmington e está na base da batalha de Austerlitz, antes de ter uma acção gloriosa durante a campanha da Prússia, em Iena e Eylau, nos anos seguintes.

Após o desaire de Junot, na primeira invasão, reforçada com a revolta dos espanhóis, torna-se parceiro de Napoleão no comando do segundo corpo, impondo-se notavelmente ao conquistar a cidade de Burgos e ocupar a Corunha, depois de perseguir o exército inglês, obrigado a retirar-se em condições trágicas em Janeiro de 1809.

Era o militar com todos os pergaminhos capazes de invadir com sucesso o pequeno reino e entra em Portugal a 7 de Março de 1809, chegando ao Porto 20 dias depois, deixando no caminho entre Chaves, Braga e a Cidade Invicta um rasto de destruição e morte.

A sua competência militar rivalizava com a sua vaidade e ambição, copiando o sonho de Junot ao desejar ser rei de Portugal, mas a contra-ofesiva portuguesa, delineada pelos ingleses e apoiada na fortíssima e surpreendente resistência dos povos nortenhos obrigaram-no a retirar do Porto em Maio de 1809.

Mesmo na retirada, como já recordamos em crónicas anteriores, ele demonstrou todas as capacidades do seu génio militar, protegendo até à exaustão a vida dos seus homens.

Na retirada para Espanha, por Montalegre, desce depois até Sevilha que conquista naquele ano para aí instalar o seu quartel-general, ocupando toda a Andaluzia, sendo apenas derrotado dois anos depois pelo mesmo general que o afastara no Minho, Beresford, na batalha de Ambuera, uma das mais sangrentas da Guerra Peninsular.

Após a vitória de espanhóis, portugueses e ingleses em Salamanca, no ano 1812, toma conhecimento que Wellington se prepara para conquistar Madrid. Soult sai de Sevilha e com outros corpos franceses força á retirada dos portugueses e ingleses.

Depois da ofensiva vitoriosa dos portugueses e ingleses em Vitória, no ano 1813, Napoleão atribui-lhe o comando de todo os exército francês na Península Ibérica, com o qual encetou uma retirada notável, tendo ainda tentado defender a cidade gaulesa de Toulouse.

Soult mostrou, em circunstâncias difícílimas, ser um militar de eleição, ao ponto de Napoleão o considerar o "primeiro estratega da Europa".

Só descansou quando os Bourbons chegaram ao poder em França e lhe confiaram o comando do 13.º Exército, combatendo ao lado do Rei contra Napoleão na batalha de Waterloo, ascendendo depois a Ministro da Guerra, em 1830.

Era tão elevado o seu talento que os próprios ingleses — que tantas vezes o derrotaram na Península — o homenagearam, sendo aclamado de forma notável em Londres. Possui a mais alta distinção militar do, Marechal-General de França, atribuída apenas a mais três militares até então, em 1847.

Soult morreu em 21 de Abril de 1851, desaparecendo assim, provavelmente, um dos melhores marechais do grande imperador Napoleão. O seu perfil, a sua capacidade e o seu génio valorizam muito mais a resistência minhota na segunda invasão.

Thursday, August 6, 2009

(I)mortais lições de Quibir



Com a derrota na Batalha de Alcácer-Quibir, a 4 de Agosto, entre os Portugueses liderados por D. Sebastião, e os mouros de Marrocos, a nação lusitana mergulhaa numa das suas maiores crises da sua história.

Desta batalha dos três reis — assinalada hoje com um singelo monumento em Alcácer Quibir — resultou a derrota dos portugueses e o desaparecimento de cerca de sete mil nobres e cavaleiros.

Foi um desastre nacional que não devemos esquecer, para retirar lições quanto ao futuro deste país, a primeira das quais reside na sofreguidão que mata os governantes que cedem às pressões da burguesia mercantil e aos caprichos da nobreza.

Em Marrocos eram constantes as lutas entre as várias facções e D. Sebastião surge como imperialista a interferir nos assuntos internos de um país vizinho.

Os despojos da batalha caíram sobre os portugueses sem independência de Portugal face a Espanha, arruinados economicamente e sem liderança.

Portugal ficou decepado de massa crítica — como hoje se diz — porque a maioria da nobreza morreu ou foi feita prisioneira.
Para pagar os elevados resgates exigidos pelos marroquinos, o país ficou depauperado nas suas finanças.

A afeição à Pátria, por parte de cada um de nós, da nossa classe política e das nossas lideranças, não deve ser camoniana.

Ele não se contentou em morrer nela, faleceu com ela. O que se diz da pátria pode ser lição para a vida de cada um de nós: quantas vezes, os problemas dos outros nos absorvem mais que os nossos, ao ponto de nem solucionarmos os dos outros e criarmos mais problemas em nossa casa.

A sofreguidão do poder, a saudade de orgulhosos feitos do passado, a exploração dos recursos sem regras, tal como decapitaram Portugal há 431 anos, podem decepar-nos, pessoal e profissionalmente.

Viver com alegria decente



Se fosse vivo, José Afonso tinha celebrado Domingo oitenta anos de vida, mas ele continua vivo, 24 anos anos depois, através das suas canções e das suas letras.

Neste país socialmente aviltado e politicamente traficado, onde os valores sofrem desavergonhado escárnio no dicionário do lucro, José Afonso incomoda a esquerda que hoje está nos vários poderes, onde cultiva a falta de escrúpulos a troco das migalhas da 'democracia burguesa' recusada pelo intérprete de Cantigas de Maio.

Este professor de História que contava muitas histórias é o modelo de uma nova forma de estar na vida, na profissão e na política que marca cada vez menos a vida dos portugueses.

José Afonso continua a desafiar-nos hoje a um pouco mais de beleza e decência nas nossas acções, nos nossos princípios de vida e nos nossos comportamentos.

Esta combinação de decência e de beleza está reservada aos melhores de cada geração, que são sempre poucos, mas cada um de nós não pode excluir-se dela.

Jose Afonso é a garantia de que vale a pena ser mais bonito e mais decente pois nos deixou o testemunho feito vida, na poesia, na escola e no combate da cidadania, desse acorde perfeito, que podemos ouvir de manhã ao pequeno almoço, à tarde, na praia ou entre a folhagem das árvores.

O cantor e compositor de "Grândola, Vila Morena" era Terno e agressivo, sarcástico e sensual, cantor de raízes populares mas erudito, credor de um trabalho personalizado mas aberto à criação colectiva, sentimental irónico, andarilho dos grandes espaços, implacável quando afrontava a hipocrisia, humilde, contraditório e teimoso mas nunca sectário, atrevido frente à doença.

Quando desapareceu de entre os vivos, José Afonso explicou-nos calaremente que é possível viver como os melhores sabem viver: solitário e solidário, intransigente e dialéctico, leal nos ódios e nas paixões.

Agora, 24 anos volvidos sobre a morte do cantor, José Afonso desafia cada um de nós a viver no trabalho, na vida, no lazer e na política "todo o alfabeto dessa alegria" com decência e beleza.