Palavras sobre bracarenses que fazem, porque há gente fantástica, não há? Há, a começar por ti.
Friday, July 10, 2009
TGV: calendário de bitola larga
Inesperadas informações, por um lado, e desconhecidas dificuldades nas negociações entre a Junta de Galiza e o Governo de Madrid, constituem uma margem de manobra mais dilatada para o Governo de Lisboa.
O TGV na Galiza não deve estar construído nem em 2012 e muito menos em 2015, como acaba de garantir o ministro espanhol José Blanco.
O novo calendário para o comboio voador nos carris galegos aponta agora para o calendário inicial, inscrito ao tempo do governo de Jose Maria Aznar, ou seja, 2020.
A este novo calendário deve juntar-se as dificuldades notadas, após algum optimismo desmedido, nas negociações para o financiamento da Região da Galiza por parte do Governo de Madrid.
Mais uma vez os calendários eleitorais e os da engenharia não coincidiram, nem tinham que coincidir, apesar das piedosas promessas de que o TGV começava a circular nesta legislatura.
A nova data — 2017 ou mais tarde — foi calculada agora por um especialista em engenharia ferroviária, segundo o qual o comboio de fogo não entrará nos carris dentro de oito anos na Galiza, porque as obras não se podem fazer nem em função da clientela desrespeitando a paisagem.
Cai por terra a pretensão do novo ministro do Fomento — natural da Galiza — se tivermos em conta o rtimo de construção do TGV em outras regiões de Espanha, quando o país vivia tempos de bonança e a Europa financiava tudo.
Agora, com as arcas do tesouro espanhol vazias e os baús europeus direccionados para o combate à crise económica e social, o novo calendário do TGV na Galiza (2017 ou 2020) parece ser mais realista.
Ora, sabendo, como sabemos, que os prazos da política são como as datas do almanaque — para não levar a sério — a margem de manobra do Governo português, para acelerar ou atrasar os calendários do TGV entre Porto e Valença, tem agora uma bitola mais larga.
Para aqueles que não acreditam em bons ventos de Espanha, aqui está o bom casamento que o Governo português esperava, para adiar este investimento e não irritar a oposição.
Resta saber se mais uns anos de sossego para o Governo (de Lisboa e de Madrid) não desassossegam o Minho e a Galiza nem os colocam no último comboio europeu.
Franceses em Braga há 200 anos (15)

O Grande exército que, em Pratzen, dobrou vencera dois Impérios e conquistou "a mais fulgurante e estimável vitória para as águias napoleónicas" — como descreve Carlos Azeredo, veio aqui ao Minho e Norte de Portugal saborear o travo amargo da derrota.
Foi uma humilhante derrota imposta pela tenacidade sem limites, pelo sacrifício sem reservas e pela coragem sem vacilações da humilde gente rural, incentivada pelos padres das aldeias e apoiada por alguns Militares, mostrando ao povo um grande General, Francisco Silveira.
O que restava dos homens e cavalos comandados por Soult estava a salvo, apesar de o General Silveira os ter perseguido pelo caminho de Montalegre até Padroso e passando junto ao Cabeço de Lamas a mais de 1200 metros de altitude, onde recebeu ordem de Wellesley para regressar, tendo entrado em Montalegre a 19 de Maio a caminho de Chaves onde entrou a 20 de Maio de 1809.
Deixando atrás de si um rasto de destruição, sangue e morte, assim acabou a «bela expedição» a Portugal, como se lhe referia o próprio Napoleão nas instruções para a sua execução.
O Marechal Soult perdeu mais de um quarto — 27% — dos efectivos com que violou a fronteira para pisar a Terra Lusitana, entrar na Póvoa de Lanhoso, invadir Braga e conquistar o Porto: mortos ou aprisionados foram cerca de 5700 homens, dos quais 2000 perdidos nesta terrível retirada entre por Lanhoso, Salamonde e Montalegre.
Vencido sem que se tivesse empenhado em qualquer grande e decisiva batalha, a não ser a da Serra do Carvalho, em Covelas e Carvalho d'Este, Soult viu-se obrigado a destruir a sua artilharia e a largar o produto das pilhagens, numa retirada humilhante e precipitada através de vielas com um exército, descalço e esfarrapado nos seus uniformes, faminto e atirado para um estado moral lastimável!
A figura militar do Tenente-General Francisco da Silveira que se afirmou nesta II invasão e em batalhas posteriores, continua praticamente afastada das galerias das nossas unidades e as praças das nossas cidades foram bem mais pródigas em estátuas e placas de Generais mais políticos que militares, mas com menos projecção nacional que Silveira, sem dúvida o Militar mais notável do Exército Portugues durante as campanhas da Guerra Peninsular. Recentemente, foi feita alguma justiça, com a inauguração de um belo monumento em Chaves, na presença do presidente da República.
É que a fantástica vida militar do General Francisco da Silveira Pinto da Fonseca Teixeira, não terminou em Chaves no dia 20 de Maio, de 1809, uma vez que prosseguiu no ano seguinte, em Agosto, quando reconquista a vila leonesa de Puebla de Sanábria, ocupada em finais de Julho por tomas francesas que bateram o General espanhol Taboada; após 10 dias de cerco e de combates, o inimigo rendeu-se entregando nas mãos de Silveira 400 prisioneiros, material de guerra e uma insígnia imperial de um Batalhão Suíço.
Nesse ano, de 1810, desde o inicio de Setembro até meados de Novembro, bloqueia a praça de Almeida, e mais tarde, a 24 de Novembro, em Valverde, ataca a Divisão Gardanne que obriga a retirar, deixando no terreno mais de 300 mortos.
A 31 de Dezembro Silveira é batido com as suas pequenas forças transmontanas, pelos 8000 homens de uma divisão do 9.º Corpo, de Drouet, na Ponte do Abade, onde perde 200 homens, mas, a norte do Douro consegue opor-se com sucesso, durante todo o rude inverno de 1810-1811 às tentativa, de Claparéde para passar o Douro afim de recolher provisões no rico Entre-Douro-e-Minho para o faminto exército de Massena.
Em 1813, durante a Campanha do Sul da França, Silveira assume o comando da divisão do General Hamilton, a qual tem uma acção importante no ataque a Tormes a 25 de Maio.
A 21 de Junho, na batalha de Vitória (60 000 franceses contra 80000 aliados) a Divisão Silveira (única Divisão portuguesa na batalha), envolvendo a esquerda do inimigo caiu-lhe sobre a retaguarda pondo-o em fuga desordenada e capturando parte da sua Artilharia, bagagens e o célebre tesouro do Rei José Bonaparte.
O General Francisco Silveira foi condecorado pelo Governo Inglês com a Medalha de Ouro de Comando em Vitória, de que apenas foram cunhados três exemplares, cabendo um deles ao próprio Wellington, e pelo Rei de Espanha foi-lhe concedido o título de Grande de Espanha e a comenda da Grão Cruz da Ordem de São Fernando.
— D. João VI atribui-lhe a Grão-Cruz das Ordens de Cristo e da Torre e Espada e ainda o título de Grande de Portugal. antes de falecer a 28 de Maio de 1821 na sua casa em Vila Real de Trás-os-Montes. Os seus restos mortais descansam em sepultura própria, na Capela do Espírito Santo da povoação de Canelas do Douro.
Aliás, foi em memória e homenagem a este General e a todos anónimos Portugueses que, numa Pátria invadida, moribunda e arruinada, não desistiram e souberam lutar, que o general Carlos Azeredo dedicou o seu livro “As populações a norte do Douro e os Franceses em 1808 e 1809”, editado em 1984 pelo Museu Militar do Porto e constituiu importante apoio na elaboração de algumas das partes desta série de trabalhos.
Monday, June 29, 2009
PE — uma goleada do PI

O velho continente viveu uma das goleadas das antigas.
Foi a única prevista e aumentada pelas previsões dos comentadores na antevisão desta jornada: o ganhador das eleições para o Parlamento que arrebatou mais poderes foi o Partido da Indiferença (PI), em toda a Europa mas com especial gravidade em Portugal, onde atingiu quase 63 por cento.
O seu triunfo foi de tal calibre que quase duplicou os votos obtidos por todas as forças políticas que Domingo pediam o voto aos portugueses.
Não deixa de ser injusta esta indiferença pelas instituições da Europa, especialmente nos países menos ricos, como é o caso de Portugal, que deviam sentir ao menos algum sentido de gratidão: se não fossem os milionários cheques que desde 1986 os países mais ricos assinaram para países como a Grécia e Portugal e agora para o Leste Europeu, tinha sido impossível a construção de auto-estradas, aeroportos, linhas ferroviárias e fundos sociais que aumentaram o rendimento per capita dos lusitanos.
Provavelmente, a apatia tradicional dos europeus nas eleições para o Parlamento Europeu estará na falta de um estímulo concreto: saber qual das equipas vencerá e vai governar.
Nas eleições europeias, semelhantes a uma jogo amigável, como se disse, não está em causa nenhum título e isso faz com que as equipas se limitem a pôr em campo os reservistas.
Mais, estamos perante umas eleições contraditórias em si mesmas; elas não escolhem um governo. Que escolhem os eleitores? Nada e se é nada deixam de ser eleitores.
Se deixam de ser eleitores, não põem os pés nas bancadas do jogo a feijões... entre equipas de candidatos promovidos pelas televisões para que o espectáculo continue, diante da indiferença dos eleitores.
Por isso, os comícios destas ditas eleições tinham os mesmos de sempre, aqueles que não perdem um treino da equipa e comparecem mesmo nos jogos sem interesse, para o espectáculo da televisão que depois promove até à exaustão o pitoresco e o anedótico.
Assim, pouco importa que as franjas incondicionais de cada partido, dos conservadores aos progressistas tenham gritado vitória na noite fria de Domingo. O resultado tem o valor que se dá a um desafio amigável de pré-temporada ou de uma sondagem, uma vez que as empresas de sondagens também estavam a treinar, a avaliar pelos resultados.
Não há nada de estranho na vitórias de uns ou na derrota de outros se tivermos em conta que elas suscitam o mesmo desinteresse entre os cidadãos que não votaram que entre os seus deputados.
Basta as cadeiras frequentemente vazias do Parlamento de Estrasburgo para chegar à dedução fácil de quem nem sequer aos luxuosamente pagos parlamentares do Continente lhes interessa grande coisa o que ali se decide.
A mesma indiferença atravessa os partidos e os eleitores porque, longe de considerarem o grande areópago um organismo influente e digno de respeito, é habitual que todos os utilizem como nos senados para colocar políticos fracassados nos combates domésticos e onde não são exigidos grandes atributos de competência, salvo honrosas excepções.
Mas aí está o grande engano: são estes senhores deputados que vão decidir o preço do leite e os abates aos barcos da pesca, ou os cheques para os investimentos necessários à modernização do nosso país, a começar pela requalificação dos portugueses.
Como explicar tudo isto. Só indo aos livros. Está tudo inventado mas continua sem servir de lição para ninguém, nem para quem está no poder nem para os que anseiam sofregamente por ele. Ora leiam. se fazem favor, sim?
Um dos piores sintomas de desorganização social, que num povo livre se pode manifestar, é a indiferença da parte dos governados para o que diz respeito aos homens e às cousas do governo, porque, num povo livre, esses homens e essas cousas são os símbolos da actividade, das energias, da vida social, são os depositários da vontade e da soberania nacional.
Que um povo de escravos folgue indiferente ou durma o sono solto enquanto em cima se forjam as algemas servis, enquanto sobre o seu mesmo peito, como em bigorna insensível se bate a espada que lho há-de trespassar, é triste, mas compreende-se porque esse sono é o da abjecção e da ignomínia.
Mas quando é livre esse povo, quando a paz lhe é ainda convalescença para as feridas ganhadas em defesa dessa liberdade, quando começa a ter consciência de si e da sua soberania... que então, como tomado de vertigem, desvie os olhos do norte que tanto lhe custara a avistar e deixe correr indiferente a sabor do vento e da onda o navio que tanto risco lhe dera a lançar do porto; para esse povo é como de morte este sintoma, porque é o olvido da ideia que há pouco ainda lhe custara tanto suor tinto com tanto sangue, porque é renegar da bandeira da sua fé, porque é uma nação apóstata da religião das nações – a liberdade!
Antero de Quental, in 'Prosas da Época de Coimbra'
Que andamos aqui a fazer?

A Cruz Vermelha Portuguesa convidou todos os portugueses para que esta Quinta-feira, às 17h00, fazerem "um minuto de silêncio evocando todas as vítimas de conflitos e catástrofes dos últimos 150 anos".
Em Braga, foram poucos os que aderiram a esta forma simbólica e simples de celebrar o 150.º aniversário da Batalha de Solferino.
Talvez tenhamos todos ignorado que estava em marcha a da campanha mundial "O nosso mundo. A sua acção", lançada em Maio para responder aos actuais desafios humanitários — desde conflitos a efeitos das alterações climáticas, como a pobreza, migrações, violência, insegurança alimentar, falta de água para beber, entre tantos outros.
Há 150 anos, no dia 24 de Junho, deu-se a Batalha de Solferino e alguém não ficou indiferente ao sofrimento humano.
Henry Dunant reuniu as mulheres das aldeias vizinhas para socorrer os soldados feridos que jaziam por terra, sem qualquer ajuda. Eram os primeiros passos na criação da Cruz Vermelha, a maior organização humanitária do mundo, com 100 milhões de voluntários.
Com a nossa indiferença vivemos sossegadamente num mundo onde 40% da população que vive com menos de 2 euros por dia.
Com a nossa indiferença estamos a construir um planeta onde 18 milhões de pessoas — 50 mil por dia — morrem devido à pobreza.
Estamos a construir um mundo onde mil milhões de pessoas vivem em bairros pobres urbanos.
Com a nossa apatia vivemos num mundo onde quase mil milhões de pessoas no mundo têm fome. Todos os dias quase 16 mil crianças morrem devido a causas relacionadas com a fome, uma criança a cada 5 segundos.
Todos os dias tapamos os ouvidos para não ouvir os gritos de mais de mil milhões de pessoas que nos países em desenvolvimento têm um acesso inadequado à água.
Também não queremos saber se, na última década, o número de crianças que a diarreia matou é superior ao de mortos causado pelos conflitos armados desde a II Guerra Mundial.
E será que nos inquieta saber que todos os anos, a malária afecta 500 milhões de pessoas e ceifa um milhão de vidas – três mil crianças por dia?
Também não, pois não? Então, que andamos a fazer por cá?
Não nos pedem para imitar Hernry Dunant. As vinte crianças que morreram enquanto lia este texto apenas lhe pediam que fosse uma das mulheres das aldeias vizinhas que há 150 anos curaram as feridas dos soldados de Solferino. Que andamos aqui a fazer? Será que temos alguma utilidade para o planeta humano?
Poveiro, jovem e tremendo

O jovem poveiro Raul Costa que venceu em Fevereiro, ao fazer16 anos, o primeiro prémio no Concurso Internacional de Piano ‘Alexander Scriabin', realizado no conservatório russo de Paris, volta a ser notícia.
Entre candidatos de todo o mundo, Raul Peixoto da Costa foi o único dos premiados não russo, tendo interpretado peças dos compositores Johann Sebastian Bach, Frédéric Chopin, Beethoven e Sergei Prokofiev.
Raul tem ganho vários prémios, não só em Portugal, mas também no estrangeiro e contabiliza várias participações em espaços como a Casa da Música, no Porto, e o CCB, em Lisboa, entre outras.
No ano passado, conquistou o primeiro prémio no Concurso Internacional de Jovens Pianistas, em San Sebastian, Espanha.
Agora, Raúl Peixoto da Costa, é um dos quatro finalistas, de um total de 24 países, de um concurso que está a decorrer na cidade de Praga, República Checa, à hora que esccrevo esta crónica.
É uma organização da Associação Europeia de Professores de Piano e envolve um júri composto por professores oriundos da Áustria, Irlanda e República Checa.
Além de Raúl Peixoto da Costa, só foram seleccionados mais três pianistas de Espanha, França e Suécia, e o jovem poveiro é o mais novo esta final, porque os outros finalistas têm idades entre aos 20 e 30 anos.
Ontem é dia de ensaios e a final realiza-se ontem à noite, em que interpretaram, com uma orquestra, o concerto para piano, número 1, de Frédéric Chopin.
Não interessa agora saber quem venceu porque este jovem nortenho já foi aplaudido de pé neste concurso e é já um caso raro de enorme talento que Portugal tem que o apoiar, tendo em conta o que ele pode fazer pela nossa cultura.
Nem interessa se ele ganhou ontem à noite, em Praga, pois só o facto de ter chegado a esta fase é um sucesso tremendo e grandioso, porque estamos a falar do concurso mais importante do mundo.
O jovem poveiro frequenta o 10.º ano e estuda ainda na Escola de Música S. Pio X, em Vila do Conde, sob orientação do professor Álvaro Teixeira Lopes.
Raúl Peixoto Costa também toca clarinete e descobriu aquilo que costuma denominar de maravilhoso mundo da música quando tinha apenas 7 anos e ouviu a mãe tocar.
Começou aí a ensaiar as primeiras notas e nunca mais largou o piano ou não continuasse a ser verdade que é de menino que se torce o pepino.
Monday, June 22, 2009
Braga: um (bom) primeiro passo

A Câmara de Braga celebrou há dias, em Santiago de Compostela, um acordo de colaboração económica sob pretexto do turismo
O pretexto deste acordo consistiu em divulgar um dos momentos de maior atracção turística bracarense, o popular São João.
A presença da Comunicação Social galega e bracarense, pôde testemunhar «o potencial turístico que as Festas da Cidade carregam», estimulando nuestros hermanos a «uma escapadinha» até à Capital do Minho.
Todos sabemos que Braga é uma cidade que gosta e sabe receber bem quem a visita e este é um primeiro passo que deve ter continuidade no estreitamento das relações entre as duas capitais.
Essa colaboração, com benefícios recíprocos, deve assentar nas históricas relações que unem Santiago de Compostela à sede de Província Eclesiástica que é Braga.
Está aí uma oportunidade de ouro para Braga e Compostela. A promoção do “Jacobeu 2010”, Ano Santo Compostelano passa forçosamente por Braga, uma espécie de irmã gêmea de Santiago no que se refere à monumentalidade religiosa que ambas carregam desde há muitos séculos.
O S. João e S. Tiago podem ser os padrinhos de uma cooperação turística com benefícios para ambas as regiões.
A monumentalidade do Bom Jesus e do Sameiro, a riqueza natural do Geres/Xurês, a solenidade da Semana Santa constituem outras vias que devem ser palmihadas na construção de um eixo monumental e religioso responsável pela visita de seis ou sete milhões de pessoas.
As velhas pedras e os valores a elas associados podem ser factores de riqueza amanhã se Braga e Santiago de Compostela, hoje, unirem esforços na criação de um produto turístico e esquecerem posturas de desconfiança empobrecedoras.
O Caminho Português de Santiago — que liga as duas cidades — pode ser a inspiração para um produto turístico de excelência benéfico para ambas.
Hoje ninguém pode negar a importância económica que o turismo religioso e cultural e os números não enganam quando afirmam Braga e Compostela como cidades com maior relevância para o enraizamento e desenvolvimento de actividades turísticas ligadas à Fé e ao Saber.
Ambas possuem um inegável património, diversidade de recurso turísticos a começar na qualidade ambiental e paisagística dos espaços rurais, a prosseguir na religiosidade e hospitalidade das suas gentes e a terminar num cenário único para a procura do saber, vivência da Fé e da espiritualidade.

Franceses em Braga há 200 anos (14)

Na última crónica, dávamos conta dos factos que aconteceram a 16 de Maio de 1809, quando após vários assaltos frustrados que se prolongaram ao longo do dia, as tropas de Soult conquistam a passagem do Saltadouro e desalojam das posições mais próximas os camponeses, com algumas dezenas de mortos que os zagalotes certeiros dos populares causaram.
Adolfo Tiers, um militar francês descreve esta fuga a terminar a invasão do Minho como mais humilhante que a batalha do Vimeiro: esta "custou menos à glória do exército e ao seu efectivo que a surpresa do Porto, destruição da nossa artilharia em Penafiel e esta marcha precipitada através desfiladeiros da província de Trás-os-Montes".
Todavia, a situação dramática vivda entre Saltadouro e Misarela podia ter sido uma catástrofe se a noite não acalmasse os ataques dos dos minhotos.
"Houve desordens e os papéis e bagagens salvas em Penafiel, perderam-se nesta passagem...
Dois esquadrões de cavalaria ligeira e uma brigada da 1.ª divisão saindo de Salamonde para descerem à Ponte (do Saltadouro), foram atacados por oito ou dez mil homens de infantaria, com artilharia, que tinham chegado em duas colunas, pela estrada de Braga e pela de Basto, desde Cavez.
A dificuldade em formar e a obscuridade deram lugar a algumas desordens; uns trinta cavaleiros caíram com os seus cavalos no precipício, sem que os pudessem salvar» — escreve um dos militares que conseguiu salvar-se.
"Infantes e cavaleiros precipitavam-se uns sobre os outros, atiravam fora as suas armas e lutavam para conseguir correr mais depressa.
A ponte estreita e sem parapeitos não podia satisfazer a impaciência dos fugitivos, que se empurravam de tal modo que um grande número de homens foram precipitados e afogados na torrente, ou esmagados sob as patas dos cavalos.
Se os Ingleses estivessem em estado de aproveitar este terror, não sei em verdade o que nos teria acontecido, de tal modo o medo é contagioso mesmo entre os mais bravos soldados».
Mas a noite veio pôr fim a este verdadeiro holocausto, e as restantes tropas do II Corpo puderam, mais acalmadas, continuar durante toda a noite a passar a fatídica Ponte da Misarela, porque o general Silveira e Wellesley suspenderam a perseguição.
Quando na manhã seguinte os perseguidores de Soult se aproximaram da Misarela, encontraram um espectáculo que lhes deu a dimensão do terror e da tragédia por que tinham passado os franceses.
Lord Munster descreve assim o que viu no leito do Rabagão: "Homens o cavalos, animais decepados e bagagens, tinham sido despenhados no rio e juncavam literalmente o seu curso.
Aqui, nesta fatal companhia de morte e angústia, foi vomitado o resto do saque do Porto.
Toda a espécie de bons e de valores foram abandonados na estrada, enquanto mais de 300 cavalos boiavam na água e mulas ainda carregadas com bagagens foram içadas pelos granadeiros e pelas companhias ligeiras Guarda; estes desembaraçados e bons rapazes descobriram que pescar caixas e corpos da corrente poderia proporcionar-lhes moedas de prata, e boina ou cintos cheios de moedas de ouro, e, entre cenas de morte e desolação, subiam os seus gritos da mais ruidosa alegria».
A última tropa de Soult a passar a Ponte da Misarela e a deixar aquele cenário de morte e horror, foi a brigada Reynaud, entre as dez e a meia-noite de 16 para 17; na tarde de 16 o Marechal Soult já estava em Paradela, onde estabelecera o seu quartel-general.
O general inglês Wellesley desistiu de apanhar o II Corpo com a infantaria britânica em Ruivães e mandou apenas em perseguição a divisão Silveira porque a Ponte de Misarela era imprópria para os cavaleiros.
Os franceses tinham passado e foi apenas na manhã do dia 17 que o General Silveira os seguiu no caminho de Montalegre. Soult, partindo de Paradela a 17 para norte, foi saqueando e destruindo as pequenas povoações que encontrou a caminho da fronteira pela linha de alturas do Gerês que divide as águas do Cávado e do Rabagão.
Era uma zona pobre mas mesmo assim foram assaltadas e destruídas as povoações de Covelo do Gerez, Paradela, Loivos, Fiães do Rio, Vilaça, Coutim, Cambezes e Montalegre, cujos habitantes refugiados na serra, não deixaram de perseguir e atacar os franceses.
O ódio aos franceses era tanto que, anos depois, alguns habitantes daquelas localidades usavam nas suas camisas botões feitos de osso de franceses, onde gravaram a palavra LADRÃO!
Chegado ao desfiladeiro de Cortiços, Soult reconhece a estrada de Verim, quando as forças de Silveira levavam um dia de atraso.
Os pouco mais de quinze mil homens que Soult salvou da sua invasão a Portugal com 2000 cavalos (dos 4700 iniciais) atingem Guinzo onde pernoitam no dia 18 de Maio de 1809, exaustos, famintos, rotos e descalços em Orense.
Era um exército de soldados esfarrapados, descalços, sem artilharia e com o moral abatido, após oito dias, alimentados milho assado. "Muitos ficaram pelo caminho com a certeza de serem assassinados, mas não podendo mais andar não escutavam qualquer súplica para que continuassem" — escreve um oficial de cavalaria francês citado no livro do general Carlos Azeredo, a que nos temos referido em crónicas anteriores.