Saturday, June 6, 2009

Canto d'Aqui: o ouro da tradição



O Teatro Circo encheu-se na passada sexta-feira à noite para aplaudir — e aclamar — os vinte e cinco anos de canções do grupo de música popular tradicional "Canto d'Aqui", que oferece aos bracarenses um espectáculo memorável, com algumas melodias reforçadas pelo Ensemble da orquestra do Distrito de Braga e as vozes afinadas do Coro da Associação de Pais da Escola Calouste Gulbenkian. 


É o que se pode classificar  como um espectáculo de ouro para umas bodas de prata, perpetuado na gravação de um DVD — revelou ao Correio do Minho, Jaime Torres um dos três fundadores. Se não pôde estar no Teatro Circo, pode apreciar hoje o novo CD numa apresentação que o grupo faz à noite no espaço FNAC do Braga Parque.


O  espectáculo — com noventa minutos — foi apresentado  por Camilo Silva, um "compagnon de route" da cultura tradicional e do teatro amador bracarenses, e constituiu uma noite inesquecível para aqueles que gostam da música popular tradicional, especialmente quando em palco estiveram as vozes do Coro da Associação de Pais da Escola Calouste Gulbenkian para entoar "Ana Mariana" e "Chamateia", acompanhados pelo Ensemble da Orquestra de Câmara de Braga.


Foi uma festa sublime — apesar da "concorrência" da Braga romana — que consagra a dedicação de um punhado de bracarenses pela música do povo, sobrevivendo ainda, entre os fundadores, Jaime Torres, Domingos Oliveira e Sameiro Dias. A estes uniram-se mais amantes da música mantendo hoje um grupo com uma dezena de elementos que fazem da música uma paixão nos tempos livres das suas profissões como professores, arquitectos, engenheiros e outras.


O espectáculo foi preenchido em grande parte com oito das 17 canções do novo CD — que reproduz na capa o famoso e antiquíssimo mapa de Braga — mas acolheu cinco canções do CD anterior, "Cantigas d'Aqui", bem como dois temas da música popular mirandesa pelo grupo Galandum Galandaina. 


A cereja de ouro a coroar o bolo das bodas de prata foi a participação da orquestra de Câmara do Distrito de Braga — Ensemble — e do Coro da Associação de Pais da escola Calouste Gulbenkian, protagonizando a presença de oitenta elementos em palco para um momento que "arrepiou" os espectadores que aderiram em força a este espectáculo.


O grupo Canto d'Aqui possui em si mesmo uma riqueza que vem do talento de cada um dos dez elementos, desde o Luís Veloso, 'magister' da Tuna e fundador do grupo de Música Popular da Universidade do Minho e do Coro de Pais da Gulbenkian, até ao Miguel Oliveira que está a fazer furor como vocalista dos "Sinal" .


Depois, os arranjos estão entregues a quem sabe: o Filipe Cunha, dos Tramadix e Raízes do Minho, que é músico na Banda de Lanhelas e exímio instrumentista em Clarinete, bandolim, flauta transversal e adufe. A arquitecta Catarina Araújo, além da percussão, contribui com o seu talento para a confecção da capa do novo CD. Do Coral Porta Nova vem o tocador de viola braguesa e cavaquinho, Carlos Moutinho. 


Os restantes são os fundadores deste grupo que, com o estímulo de Jaime Torres, continua a animar os nossos palcos, como acontece já hoje, na FNAC do Braga Parque, no dia 11 de Junho na festa de S. António, na freguesia da Sé, e 22 de Junho, na Velha-a-Branca. 


Canto d'Aqui um a um...


Todos os elementos do "Canto d'Aqui" emprestam a sua voz nos espectáculos mas cada um dos dez elementos tem a sua especialidade em termos instrumentais.  

Deixamos, de seguida, as suas formações ou profissões e instrumentos que mais usam.


Carlos Moutinho — funcionário público, cavaquinho, viola braguesa;

Catarina Araújo — arquitecta, percussão;

Domingos Oliveira — professor de físico-química, bandolim;

Filipe Cunha — Professor de música (licenciado em Relações Internacionais) clarinete, flauta transversal e adufe;

Jaime Torres —  comerciante, viola;

José Manuel Ribeiro — Capataz, cavaquinho e viola braguesa;

Júlio Dias — funcionário público, concertina e acodeão e viola braguesa;

Luís Veloso — engenheiro civil, viola baixo;

Miguel Oliveira — professor de Português-Inglês voz e viola;

Sameiro Dias — professora primária, percussão.

Giovani Goulart — produtor.

Franceses em Braga há 200 anos (13)

Na cronica anterior falávamos sobre a decisão de Soult, depois de abandonar as terras de Lanhoso, à chegada a Salamonde, de abandonar a estrada para Chaves e seguir a vereda para Montalegre. Ninguém julgaria possível fazer passar por ali um exército, mas conseguiu, numa jornada épica digna de uma grande epopeia. Pela ponte de Misarela se lançaram as "tropas francesas, rotas, famintas, descalças e escorraçadas, qual fugitivo rebanho que lobos esfaimados perseguissem inexoravelmente" — escreve o General Carlos Azeredo na obra “As populações a norte do Douro e os Franceses em 1808 e 1809”, Porto, 1984, ed. Museu Militar.

Citando o diário do Marechal Soult, as suas tropas encontravam-se em terreno adversário que  nunca conhecera de quadrúpedes "senão algumas cabras selvagens" e os soldados eram obrigados a marchar a pé, conduzindo os cavalos pela rédea, puxando-os muitas vezes para os fazer transpor um rochedo que a todo o momento barrava o caminho.

O exército inteiro com cerca de 15 mil homens foi obrigado a passar por estes caminhos, desarmados porque tinham destruído os cunhetes da artilharia e os cartuchos tinham sido danificados pela chuva que caía há alguns dias.

Soult foi também informado de que e Ponte do Saltadouro, ou Ponte Nova estava defendida e cortada, por populares e algumas Ordenanças convocados pelos Capitão-Mor de Ruivães, António Luís de Miranda de Magalhães e Meneses que convocara através dos pelos párocos cerca de 1300 homens cujo armamento eram utensílios de trabalho, piques ou algumas espadas velhas.

O Capitão António Luís de Miranda, na manhã do dia 15 de Maio, coloca junto de cada ponte  uma das bocas de fogo de que dispunha, e mandou ainda algumas forças para a Ponte da Misarela.

Soult não perdeu tempo e tinha de salvar a passagem do Saltadouro e encarregou 100 homens dessa tarefa, numa acção de surpresa durante a noite.

Na noite de 15 para 16 de Maio, o grupo saiu de Salamonde e a coberto da noite aproximou-se em completo silêncio dos restos de velha Ponte.

Dulong deixou os seus homens escondidos nas proximidades e, rastejando, até à ponte e ali constatou "com espanto e incredulidade que os defensores, após tanto trabalho para cortar o velho e robusto arco de cantaria, tinham deixado uma prancha estendida entre os dois braços da ponte.

Esquecimento? Desleixo? «A imprudência portuguesa?».

Na verdade um daqueles acasos imprevistos e inacreditáveis que tantas vezes alteram o curso da História!" — comenta o General Carlos Azeredo.

Enquanto, poucos metros à sua frente, os defensores dormiam abrigados numa choupana e entregues a uma sentinela incauta e ensurdecida pelo bramir da corrente, Dulong recuou até junto dos seus homens.


Vale a pena agora seguir esta descrição: "Dulong voltou a rastejar até à ponte e fez passar atrás de si, um a um os seus militares ao longo da prancha, olhos fitos na voragem do abismo e músculos retezados para resistir à vertigem; um dos seus homens resvalou na madeira húmida e despenhou-se no turbilhão da corrente lançando no espaço um longo e dramático grito de pavor. Os assaltantes suspenderam a respiração e os movimentos, enquanto Dulong na frente olhava a imóvel sentinela portuguesa; mas o homem continuou mergulhado no seu turpor pois o trovão contínuo da violência das águas abafava todos os outros ruídos. Após alguns momentos de angustiada espera os assaltantes continuaram no seu lento avançar e assim o Major foi colocando a sua força na margem oposta e cercando nas trevas a cabana onde se abrigavam os incautos defensores da ponte, cuja sentinela fora abatida com um silencioso golpe de sabre.

E foi de súbito, sem tempo para reagir, que os ensonados camponeses vislumbraram, à luz ténue dos restos de uma fogueira, o lampejar do aço frio dos sabres e das baionetas empenhado no cruel afã da degola, do rasgar dos corpos indefesos, enfim, do abrir dessas fontes quentes e rubras por onde em borbotões se evola o sopro irrecuperável da vida.

Poucos segundos, alguns gemidos prontamente abafados e o odor pegajoso do sangue fresco, bastaram para consumar aquela tragédia quase silenciosa.

Pobre gente! Vítima da sua ignorância e da sua excessiva confiança, merece bem, apesar de tudo, a nossa homenagem!

(...)

Mas após duas horas de marcha a tropa francesa foi detida no sítio da Ponte da Misarela, sobre o rio Rabagão: o pesadelo de Soult ainda não terminara!

Faltava a Ponte diabólica.

É numa paisagem estranha, no fundo de um desfiladeiro rasgado no flanco da Serra da Cabreira, entre escarpas medonhas, bravias e solitárias que se ergue a inesperada Ponte da Misarela!

Com o seu tabuleiro lajeado, estendido a cerca de 30 metros e dobrado sobre o fecho de um único arco de 12 metros de altura, a sua idade vem da sombra dos tempos e a crença popular afirma que na sua origem está um pacto maldito firmado entre um padre e o próprio Diabo.

Por debaixo de si, escumando e despedaçando-se contra a penedia abrupta, passa o Rabagão, grosso no Inverno e no Estio enfiado, a caminho do Cávado.

Entrincheirados na margem direita, guardando a ponte, cuja passagem estava barrada por pesados obstáculos, estavam cerca de 400 homens, comandados pelo Sargento-Mor José Maria de Miranda de Magalhães e Meneses, filho do Capitão-Mor de Ruivães.

Mandado na véspera para a Misarela, pelo pai, com a incumbência de cortar a ponte e efectuar a sua defesa, o José de Miranda não conseguira convencer a maior parte dos seus homens, naturais dali da região, da absoluta conveniência em cortar o arco da ponte.

Como haviam de passar o rio com as suas colheitas ou os seus gados? Como passar para irem à feira ou a Ruivães, quando as águas fossem grossas? Para mais o que era necessário era pôr fora da nossa Terra os franceses! Para quê cortar-lhes a passagem para a fronteira? Quem fez a Ponte de Misarela não nos faz outra como ela!, e nada deste mundo demoveu os rijos e casmurros montanheses a deixar cortar a sua Ponte."

Consentiram em que fossem derrubadas as guardas, atolaram o tabuleiro com troncos, penedos e obstáculos vários e nada mais.

A meio da manhã do dia 16 de Maio foram avistados os primeiros militares inimigos: eram urna longa fila, interminável, de homens e animais, fatigados, que marchavam para norte acossados, mas que a fome, o número e o ódio ainda mantinham temíveis, perigosos e violentos.

Assim que a guarda avançada do II Corpo chegou à distância de tiro, os defensores romperam com um fogo nutrido que dizimou o pelotão da frente e fez recuar, surpreendidos, os que se lhe seguiam.

Mas a Ponte Misarela estava ali e era preciosa atravessá-la para que os homens de Soult chegassem à Galiza e abandonassem o Minho. Esperavam-nos momentos de grande dramatismo e lágrimas.

Friday, May 29, 2009

Canto d'Aqui: bodas de prata oferecem ouro no Teatro Circo



O Teatro Circo enche-se esta noite para aplaudir — e aclamar — os vinte e cinco anos de canções do grupo de música popular tradicional "Canto d'Aqui", que oferece aos bracarenses um espectáculo memorável, com algumas melodias reforçadas pelo Ensemble da orquestra do Distrito de Braga e as vozes afinadas do Coro da Associação de Pais da Escola Calouste Gulbenkian. É o que se pode classificar como um espectáculo de ouro para umas bodas de prata, perpetuado na gravação de um DVD — revelou ao Correio do Minho, Jaime Torres um dos três fundadores.

O ingresso custa dez euros e o espectáculo — com noventa minutos, a começar às 21,45 horas — é apresentado por Camilo Silva, um "compagnon de route" da cultura tradicional e do teatro amador bracarenses.

É uma festa que consagra a dedicação de um punhado de bracarenses pela música do povo, sobrevivendo ainda, entre os fundadores, Jaime Torres, Domingos Oliveira e Sameiro Dias. A estes uniram-se mais amantes da música mantendo hoje um grupo com uma dezena de elementos que fazem da música uma paixão nos tempos livres das suas profissões como professores, arquitectos, engenheiros e outras.

O espectáculo será preenchido em grande parte com oito das 17 canções do novo CD — que reproduz na capa o famoso e antiquíssimo mapa da cidade de Braga — mas acolhe cinco canções do CD anterior, "Cantigas d'Aqui", bem como dois temas da música popular mirandesa pelo grupo Galandum Galandaina.

A cereja de ouro a coroar o bolo das bodas de prata é a participação da orquestra de Câmara do Distrito de Braga — Ensemble — e do Coro da Associação de Pais da escola Calouste Gulbenkian, protagonizando a presença de oitenta elementos em palco para um momento que promete "arrepiar" os espectadores que aderiram em força a este espectáculo.

"QUEM OUVE COMPRA"

Quanto ao novo CD, o grupo Canto d'Aqui, aproveitou para re-gravar a canção popular da Póvoa de Lanhoso "Ana Mariana" e o tema do açoriano Luís Alberto Bettencourt "Chamateia", com a participação da Orquestra de Braga e o Coro da Associação de Pais da Escola Calouste Gulbekian, que conferem ás novas versões outra grandiosidade e expressividade, apesar de já serem duas versões fantásticas.

Para Jaime Torres, passados 25 anos, o grupo mantém-se fiel aos lemas da sua criação, como sejam a aposta na recolha, promoção e divulgação da música tradicional, embora o novo disco inclua três temas de autor, como já acontecia no CD "Cantigas d'Aqui", com a "Chamateia". Outro dos temas é "Boi do mar" sobre a luta dos baleeiros, um tema feito para a série "Xailes negros" que foi exibida há alguns anos pela RTP-Açores e RTP 1.

O terceiro tema de autor, acrescenta Jaime Torres, é uma oferta do etnógrafo e prof. José Machado, intitulada "O Minho" que se afigura como uma evocação do Minho e do vinho verde. As restantes composições deste novo CD "25 anos de cantigas" passam pelo Alentejo com a "Amora madura" entoada como os corais alentejanos, Minho, Trás-os-Montes, etc.

A qualidade do trabalho do "Canto d'Aqui" é assegurada por quem ouve. O problema está em chegar ao ouvido das pessoas pois quando "elas ouvem, compram o CD. O problema é fazê-lo ouvir" — alerta Jaime Torres, dando o exemplo de uma experiência feota no verão do ano passado e lamentando-se do facto de terem nascido em Braga e não em Lisboa, o que impede que as rádios nacionais e locais "passem" o disco.



Com o novo disco, o grupo Canto d'Aqui continua a "valorizar a beleza sonora da nossa música tradicional e a reabilitar a beleza das nossas tradições" — assegura Jaime Torres, confiante no sucesso das novas orquestrações de Filipe Cunha que constituem uma "mais-valia" dada a sua formação e dedicação ao ensino da música.

O grupo Canto d'Aqui possui em si mesmo uma riqueza que vem do talento de cada um dos dez elementos, desde o Luís Veloso, 'magister' da Tuna e fundador do grupo de Música Popular da Universidade do Minho e do Coro de Pais da Gulbenkian, até ao Miguel Oliveira que está a fazer furor como vocalista dos "Sinal" .

Depois, os arranjos estão entregues a quem sabe: o Filipe Cunha, dos Tramadix e Raízes do Minho, que é músico na Banda de Lanhelas e exímio instrumentista em Clarinete, bandolim, flauta transversal e adufe. A arquitecta Catarina Araújo, além da percussão, contribui com o seu talento para a confecção da capa do novo CD.

Do Coral Porta Nova vem o tocador de viola braguesa e cavaquinho, Carlos Moutinho. Os restantes são os fundadores deste grupo que, com o estímulo de Jaime Torres, continua a animar os nossos palcos, como acontece já no dia 7 de Junho, na FNAC do Braga Parque, 11 de Junho na festa de S. António na freguesia da Sé, e 22 de Junho, na Velha-a-Branca.

No final de Agosto, o Canto d'Aqui participa no Festival de Música Tradicional de Braga, na Avenida Central, para além de outros espectáculos já agendados, para além de um convite declinado para cantar em França, por indisponibilidade profissional e pessoal dos elementos do grupo.

Ao longo destes 25 anos, o Canto d'Aqui foi escola para outros grupos que apareceram a cantar muitos dos temas deste grupo de Braga que começou quando se realizou o II Encontro de Teatro Amador de Braga, em Gualtar, a partir do grupo de canto para teatro do Grupo Experimental de Teatro Amador (GETA), em 1978.

A aterragem da Companhia de Teatro Cena coincide com a agonia a desaparecimento do teatro de amadores em Braga, mas as solicitações ao grupo de canto continuaram, ao ponto de os seus elementos sentirem a necessidade da emancipação, com seis ou sete elementos.

O grupo consolida-se em 2003 com a edição do primeiro disco "Cantigas d'Aqui" merecedor de segunda edição porque nenhum tema começa ou acaba da mesma maneira, em que todos cantam e não é um disco monótono — diz Jaime Torres, explicando o seu sucesso.

Depois surge o ano 2005, "inesquecível" pela digressão ao ceará, no Brasil, a convite da Universidade Federal daquele Estado — na celebração dos seus 30 anos — surpreendendo tudo e todos com os sons e as melodias da música portuguesa num país onde muitos pensam que Portugal é fado e ranchos folclóricos. O grupo bracarense mostra-se ao Brasil através de programas televisivos como a TV Cabloca, TV Bom Dia Ceará e TV Globo e de um espectáculo no teatro José Alencar, com mais de cem anos.

São estes momentos que "nos permitem continuar a remar contra a maré" — reafirma Jaime Torres, explicando que o grupo de socorre das recolhas feitas por José Alberto Sardinha e Michel Giacometti bem como do Cancioneiro de Gonçalo Sampaio.

Canto d'Aqui
um a um...


Todos os elementos do "Canto d'Aqui" emprestam a sua voz nos espectáculos mas cada um dos dez elementos tem a sua especialidade em termos instrumentais. Deixamos de seguida as suas formações ou profissões e instrumentos que mais usam.

Carlos Moutinho — funcionário público, cavaquinho, viola braguesa;

Catarina Araújo — arquitecta, percussão;

Domingos Oliveira — professor de físico-química, bandolim;

Filipe Cunha — Professor de música (Licenciado em Relações Internacionais) clarinete, flauta transversal e adufe;

Jaime Torres — comerciante, viola;

José Manuel Ribeiro — Capataz, cavaquinho e viola braguesa;

Júlio Dias — funcionário público, concertina e acodeão e viola braguesa;

Luís Veloso — engenheiro civil, viola baixo;

Miguel Oliveira — professor de Português-Inglês voz e viola;

Sameiro Dias — professora primária, percussão.

Giovani Goulart — produtor.

Wednesday, May 20, 2009

Guimarães: um(a) capital a aproveitar por Braga



A cidade de Guimarães deve aproveitar a designação como Capital Europeia da Cultura'2012 para se renovar, a nível industrial, urbano e social, através de um programa "muito ousado" que conta com o apoio da União Europeia e pode beneficiar os concelhos vizinhos. Quando se dissiparam as fronteiras europeias, queiram os homens que a consagração de Guimarães como capital europeia da cultura destrua barreiras parolas que ainda existem à volta dos seus limites.

Guimarães apresentou uma candidatura ousada na área da revitalização do património arqueológico industrial e na área da inovação e do conhecimento através de três eixos que se complementam: — social, urbano e económico — que permitem à Cidade Berço prosseguir o trabalho de recuperação e reabilitação urbana, no centro da cidade, levar as pessoas a "ocupar de novo" esse centro, e tornar a cidade base de uma indústria muito tocada pelas indústrias criativas.

Estamos a falar de uma cidade que tem já muito trabalho de recuperação e de reabilitação patrimonial, nomeadamente em todo o centro antigo, que é apresentado como modelo a seguir por outras cidades com história.

O "eixo social" da renovação de Guimarães traduz essa vontade de que as pessoas sejam de novo entrosadas com a cidade, venham de novo ocupar esse centro, numa perspectiva de futuro, de superação de crise, de capacidade de renovação dos tecidos urbanos e industriais, e das pessoas cada vez mais cosmopolita — como destacou ontem o ministro da Cultura.

Guimarães tem 110 milhões de euros, num esforço comum da autarquia e do Governo, com recurso a fundos comunitários para se alindar e preparar para receber muitos espectáculos culturais.

Ora é aqui que Guimarães não deve ficar sozinha, como expoente de um bairrismo bacoco e ultrapassado para uma cidade que se pretende moderna e aberta à inovação. Mas sozinha, Guimarães não o pode desmantelar esta rivalidade parola que é alimentada por idênticos comportamentos dos vizinhos.

Algumas autarquias já perceberam que só têm a ganhar com uma estreita cooperação com Guimarães, como é o caso da Póvoa de Lanhoso.

Aguarda-se que outras autarquias vizinhas de Guimarães tenham a grandeza de saber aproveitar as potencialidades que uma Capital Europeia da Cultura proporciona.

Braga, por exemplo, pode somar ao seu valor e à sua capacidade instalada, a mais valia da proximidade e beneficiar muito — enriquecendo os seus munícipes — com a escolha de Guimarães como Capital Europeia da Cultura, desde que os seus responsáveis não se perpetuem nessa contemplação inócua e vazia do seu umbigo carcomido de ciúme.

Têxteis: a banca, o Governo e as empresas



São inquestionáveis a estabilidade e saúde do sistema financeiro num país e por isso o Governo, em nome dos interesses nacionais, procedeu a algumas intervenções, escudadas no Banco que contRola, para consolidar algumas instituições em apuros. Fez estas intervenções no pressuposto do sistema financeiro ser alavanca — como tem sido — do tecido produtivo nacional, dando apoio ás empresas que também estão em apuros.

Se o Governo fez o que lhe competia, de forma genérica, o sistema bancário não está a cumprir o que devia. Mais não está ao serviço do país numa atitude que pode vir a pagar mais caro e ter de ir ao beija-mão do Estado.

Os empresários — aqueles que aplicam o seu dinheiro, o seu talento e a sua capacidade de inovação — continuam sem a resposta que mereciam, depois do Governo ter dado ao sistema financeiro as condições de estabilidade.

Ora, a Norte e especialmente no Minho, essa queixa é todos os dias sublinhada sem que se vejam respostas concretas por parte das entidades bancárias. Mantêm-se os problemas ligados ao acesso ao crédito, aos seguros à exportação e à fiscalidade apontados — mais uma vez — pelos empresários do sector têxtil, em Guimarães, numa reunião com o grupo de trabalho para o sector da Assembleia da República.

A deputada socialista Teresa Venda, que coordena o grupo da Comissão de Economia, disse que o relatório, a elaborar dentro de dias, irá reflectir as preocupações dos empresários, em especial o da dificuldade de acesso a garantias de crédito à exportação.

Os problemas de acesso ao crédito bancário prendem-se essencialmente com a política bancária e com o risco associado ao sector têxtil, assinalando e se, nesta área o Governo tem actuado através de medidas de garantia para as pequenas e médias empresas, falta a complementaridade da Banca portuguesa que não pode singrar divorciada da economia nacional.

O Governo pode, nesta fase difícil das nossas empresas, alterar ou suspender o pagamento especial por conta e deve cumprir aquilo que anunciou em Fevereiro e ainda não o fez: garantir 60 por cento dos créditos à exportação. Talvez seja este o pequeno sinal do Governo que falta às instituições bancárias

Num tempo em que todas as ajudas são bem vindas, o pagamento do IVA apenas quando a factura for recebida é outra das medidas que o Governo devia implementar de modo a dar algum alívio ás tesourarias das empresas.

Evitar mais falências e desemprego deve ser uma prioridade real — não apenas apregoada — do Governo que pode fazer mais alguma coisa e se não fazer mais nada, basta que realize o que prometeu. Só assim terá autoridade moral e legitimidade para obrigar a banca a cumprir as suas obrigações para com os empresários e a economia nacional, para bem da saúde do sistema financeiro.

Sem empresas não se criam postos de trabalho e não há riqueza produzida pelo trabalho, traduzida em salários que permitem estancar a queda do consumo que constitui um dos pilares de uma economia tão frágil como a nossa.

Se continuarmos a olhar todos uns para os outros, para ver quem dá o primeiro passo, sem fazer nada, estamos todos a caminhar e a contribuir para o precipício do vazio: Governo, banca, empresas e o país,

Viana: o Estado não merece estas pessoas

Um paraplégico vianense prometeu ir de cadeira de rodas até Bruxelas, numa viagem de 2300 quilómetros, para protestar contra a decisão da Segurança Social de lhe retirar o complemento por dependência.
É um exemplo perfeito da lei que foi feita para tudo, menos para servir as pessoas. E quando assim é, esta lei é apenas letra morta e mata.

Alguém neste país pode achar justo obrigar um deficiente, com 80 por cento de incapacidade, a sobreviver com 180 euros por mês, por querer escrever e vender livros?

Este vianense ficou paraplégico em 1997, num acidente de trabalho e penou durante dez anos para receber uma pensão de 180 euros, mais tarde seria acrescida de um complemento por dependência, de 97 euros.

Como esta miserável pensão não permite pagar as despesas mensais, em 2006 começou a escrever e editar os seus livros numa gráfica que ele mesmo criou. Para cumprir a lei, inscreve-se nas Finanças como editor para poder passar recibos verdes.
Com toda a atenção e rapidez que se lhe conhece, excepto quando se atrasa a pagar o que deve invocando uma qualquer avaria no sistema informático, a Segurança Social, mal 'descobriu' que estava a trabalhar, tirou os 97 euros.

Como achou que ficava rico, agora a Segurança Social retira-lhe, a partir de Junho, o complemento por dependência.
Legalmente, nada a fazer — justifica-se o director da Segurança Social vianense.

Dirão que a culpa é da burocracia que gera leis cegas e impessoais. Mentira pura, a culpa é desta povo portugês que mantem um estado que olha para as pessoas como um simples número.

Konrad Adenauer, o pai da Alemanha moderna dizia algumas vezes que, na política, o importante não é ter razão, mas dar a razão a alguém.

Este vianense não quer ter razão, mas sim que o Estado entenda a sua situação concreta e lhe dê razão, quanto mais não seja por ser um cidadão de boa fé e cumpridor.

Franceses em Braga há 200 anos (12)


Fugindo para Espanha, acompanhamos a marcha, entre a Póvoa de Lanhoso até Salamonde (Vieira do Minho), com Loison a comandar a vanguarda e Soult na rectaguarda, preparado para enfrentar Wellesley, que estava em Braga, vindo do Porto.

Desde o vale do rio Ave as populações, conduzidas pelos clérigos e elementos preponderantes das localidades, atacavam sem descanso a tropa francesa, a quem o mau tempo e os péssimos caminhos dificultavam a marcha tornando-a numa autêntica via-sacra para os gauleses.

A marcha prosseguia, em condições duríssimas, na noite de 14 de Maio foi atingido o vale do Cávado a norte de Póvoa de Lanhoso.

Como descreve o general Carlos Azeredo, na obra citada na crónica anterior, o ambiente nas hostes francesas, desde a ribeira do Lanhoso até abaixo de São João de Rei, "era a fome generalizada, os pés descalços e em ferida dos seus homens, os uniformes rotos e sujos, uma chuva inclemente e um inimigo a morder-lhe nos calcanhares". Aqui chegado, Soult tenta uma saída pelo Alto Minho, mas as tropas inglesas já estavam em Braga, a tapar-lhe o caminho, menos sinuoso que as montanhas do Barroso.

Só restava ao Duque da Dalmácia lançar-se na direcção de Salamonde através das íngremes vertentes da Serra da Cabreira sobre o rio Cavado.

Silveira parte para Ruivães no dia 15 de Maio, para cortar a passagem aos franceses para Chaves. Soult atinge ao fim do dia a região de São João de Rei, junto ao Cávado, sobre a estrada para Salamonde reforçando o seu avanço. Beresford teve a possibilidade de ter cortado em Salamonde a passagem se em vez de se ter limitado a enviar com uma pequena escolta dois Oficiais, desde Cavez (Cabeceiras de Basto) tivesse avançado uma companhia que fosse, capaz de guardar qualquer das difíceis passagens por onde Soult tinha de se aventurar, orientando a defesa das pontes do Saltadouro, de Rês e da Misarela, a fim de demorar ali os franceses até que o grosso das suas forças e as de Wellesley pudessem cair-lhe em cima.

Quem acabou por impor a Soult um novo itinerário e barrar a progressão do II Corpo para Chaves foi o General Silveira, posicionado em Ruivães sobre a estrada para Chaves. O diário de Soult — citado por Carlos Azeredo — explica a opção por Montalegre: «eu não podia, também, retomar a direcção de Chaves, o caminho pelo qual tínhamos vindo aquando da minha entrada em Portugal. Na sequência do abandono de Amarante, Silveira pôde marchar para o norte tão rapidamente como os ingleses. Ele tinha ultrapassado Chaves e cortado a ponte de Ruivães, sobre a qual passa a estrada de Braga.
O General português, instalado à rectaguarda dessa ponte, ocupava uma posição impossível de forçar».
No dia 15 de madrugada, Soult e as suas tropas deixam S. João de Rei, depois de pilharem e incendiarem vários povoados chegando a Salamonde ao fim do dia.

Salamonde estava deserta, porque os habitantes preferiram o gelo da Serra da Cabreira às atrocidades dos soldados franceses.
Soult acantonou tropas na Igreja e nas casas que após o normal saque, foram incendiadas.

Naquele tempo, a estrada, a partir de Salamonde, bifurcava-se, seguindo a via da direita para Ruivães, Venda Nova e Boticas, até Chaves, bem conhecida mas tapada pelas tropas do General Silveira. A "estrada" da esquerda, era uma autêntica vereda áspera que descia de Salamonde, em zig-zagues, a íngreme vertente do Cavado e depois a do rio de Ruivães, até à Ponte do Saltadouro; seguia depois junto à margem esquerda do Cávado para passar a impressionante e tormentosa Ponte da Misarela, insubstituível na chegada a Paradela e Montalegre, já na fronteira.

Soult preparava os seus milhares de homens para uma fuga heróica, digna de um filme épico, com todos os ingredientes — temos de reconhecer, a avaliar pela descrição que o marechal francês faz, pormenorizadamente.

Os dias 16 e 17 de Maio foram vividos intensa e tragicamente por milhares de homens sob o comando de Soult. Veja-se a descrição de um combatente francês: «Tinha-se à rectaguarda um excelente regimento de infantaria ligeira (o 4.º de Infantaria Ligeira, um dos melhores do Exército Francês, segundo Oman), o qual, dada a natureza do terreno, poderia facilmente conter um exército inteiro: pois bem, à vista do inimigo debandou sem que o pudessem convencer a ficar.

A confusão que resultou deste pânico estarrecido foi espantosa. Infantes e cavaleiros precipitavam-se uns sobre os outros, atiravam fora as suas armas e lutavam para conseguir correr mais depressa.

A ponte estreita e sem parapeitos não podia satisfazer a impaciência dos fugitivos, que se empurravam de tal modo que um grande número de homens foram precipitados e afogados na torrente, ou esmagados sob as patas dos cavalos.

Se os Ingleses estivessem em estado de aproveitar este terror, não sei em verdade o que nos teria acontecido, de tal modo o medo é contagioso mesmo entre os mais bravos soldados
»

Mas a sombra misericordiosa da noite veio pôr fim a este verdadeiro holocausto, e as restantes tropas do II Corpo puderam, mais acalmadas, continuar durante toda a noite a passar a fatídica Ponte da Misarela; Silveira e Wellesley suspenderam as operações de perseguição e ataque retaguarda de Soult.

Quando na manhã seguinte os perseguidores de Soult se aproximaram da Misarela, encontraram um espectáculo que lhes deu a dimensão do terror e da tragédia por que tinham passado os franceses:
"Homens e cavalos, animais decepados e bagagens, tinham sido despenhados no rio e juncavam literalmente o seu curso.
Aqui, nesta fatal companhia de morte e angústia, foi vomitado o resto do saque do Porto.
Toda a espécie de bens e de valores foram abandonados na estrada, enquanto mais de 300 cavalos boiavam na água e mulas ainda carregadas com bagagens foram içadas pelos granadeiros e pelas companhias ligeiras Guarda
" (cf. AZEREDO, CARLOS, in “As populações a norte do Douro e os Franceses em 1808 e 1809”, Porto, 1984, ed. Museu Militar).
A última tropa de Soult a passar a Ponte da Misarela e a deixar aquele cenário de morte e horror, foi a brigada Reynaud da divisão Merle, entre as dez e a meia-noite de 16 para 17 de Maio; o Marechal Soult atingira Paradela, onde estabelecera o seu quartel-general e dois dias depois entrava na Galiza.

Os preparativos e a passagem da ponte de Misarela são uma história tão trágica quanto épica, só à altura de um grande militar — Soult — e de um grande povo — os portugueses. Fez ontem, 200 anos, já não havia franceses no Minho.