Thursday, December 4, 2008

Até quando um concelho anão?



Antes de mais nada, devo confessar que sinto pena daquelas pessoas que me catalogam de inteligente e simpático — só para me agradarem — e, passados uns dias ou meses, agem como se eu fosse destituído, cego, surdo e anão de circo.
Não sabem quanto me enojam.

Escrito isto, sublinhamos que até amanhã, está a decorrer a III Semana do Desporto adaptado ou para pessoas com deficiências.

É intenção da Câmara Municipal de Braga quebrar muros, unir energias e motivar os clubes para que a expressão “igualdade de oportunidades” saia dos dicionários e seja realidade concreta todos os dias.

Concursos, exposições com trabalhos — que Mesquita Machado reconhece como notáveis — foram feitos pelas crianças dos ensino básico.

Esta semana incluiu um desfile de atletas prejudicado pelo mau tempo e frio que se fez sentir em Braga, para além de vários torneios como de Basquetebol, Boccia, Goalbal, futebol, além de uma corrida de atletismo, amanhã e uma peça de teatro com que fecha a semana.

É verdade que a Câmara Municipal de Braga leva a dianteira no trabalho de sensibilização para esta minoria que representa pouco mais de sete por cento da população do concelho.

A criação do Fórum Municipal da Pessoa com Deficiência testemunha o pioneirismo que a gestão socialista tem mostrado em outras áreas.

No entanto, é tempo da sociedade civil dar a sua resposta afectiva, efectiva e eficaz, após o trabalho de sensibilização que tem sido feito nos últimos anos, de que é expoente máximo a semana do desporto adaptado.

Como fez em outras áreas, também aqui a maioria que gere o município pode mostrar o seu pioneirismo e dar novo contributo para a efectiva igualdade de oportunidades na prática do desporto.

Os bracarenses, através dos seus impostos, desembolsam dezenas e desenas de milhares de euros para apoio a colectividades desportivas do concelho, com resultados competitivos que não interessa agora avaliar.

No panorama do excelente trabalho que tem sido feito com atletas deficientes e face aos maravilhosos resultados que são obtidos, verifica-se que apenas as IPSS estão a assumir o seu dever e responsabilidade.

Os clubes desportivos primam pela ausência nesta area mas são quem recebe dinheiros públicos para a dinamização e a formação desportiva.

A começar já no próximo ano, a Câmara Municipal devia exigir, numa das alíneas dos contratos programas que vai celebrar que cerca de sete por cento da verba disponibilizada para os clubes devia ficar cativa para o desenvolvimento do desporto para estas pessoas especiais que são os deficientes.


Haja coragem política para o fazer já no próximo orçamento do município para que não se possa continuar a escrever que, em Braga, os clubes desportivos estão cegos porque não vêem a sua obrigação de contribuir para o direito de todos à prática do desporto.

Surdos são os clubes que vivem sempre apressados para o trabalho dos resultados, embrulhados em chicotadas psicológicas, e se esquecem dos direitos das pessoas especiais.

Mudos são os autarcas que não conseguem impor o que dizem ser notável mas depois se escondem por trás da máscara da não interferência na vida dos clubes.

Braga tem aqui uma excelente oportunidade de deixar de ser um concelho anão que não sabe deixar crescer e promover a igualdade das pessoas.

Se nada disto for avante, as pessoas deficientes confessarão pena das pessoas que as catalogam de inteligentes e notáveis — só para agradarem num só dia — e passados umas semanas ou meses agem, todos os dias, como se elas fossem destituídas, cegas, surdas e anãs de circo.
Não sabem quanto as enojam.

Wednesday, December 3, 2008

A (des)ilusão do luxo do lixo



No meio da actual crise que nos foi dada como presente pelos grandes grupos financeiros neste final de 2008, façamos o exercício de folhear um daqueles suplementos de artigos de luxo que os nossos semanários teimam em impingir-nos pelos olhos dentro.

Ficamos tão desconcertados como curiosos, com aquela modelo loura que se cobre de peles e tem um cachorrito nos braços.

O cachorro desafia-nos com olhos arregaladitos como a dizer-nos que está ali contrafeito. A única pobreza naquela foto deve ser a do fotógrafo que não se vê e da modelo que não tem direito a mostrar a cara.

De resto, luxo não falta no cenário que nos é proposto ao olhar, desde as malas de pele de todos os feitios e tamanhos, sobre a relva, aos pés da beldade. Um Mercedes descapotável e desportivo tem como cenário uma mansão para onde olha a dama.

Depois de nos fixarmos neste quadro durante alguns momentos, somos despertados para a pobreza, a tal realidade que, por mais que se oculte, não nos sai da memória de ontem e de hoje.

Os mesmos jornais que nos mostram a opulência do luxo para uma minoria são os mesmos que chamam a imensa maioria a dar de si nas campanhas de solidariedade, porque é politicamente correcto associar-se a estas iniciativas.

À medida que avançamos no suplemento e nos descrevem os luxos de outras marcas, vamos descobrindo que até o luxo é uma mentira, tendo em conta a multidão de artigos contrafeitos que aparecem no mercado.

Afinal, agora, nestas semanas que antecedem o Natal, não existe outra verdade que não seja a pobreza.

A pobreza daqueles que apenas têm o luxo de apreciar suplementos com artigos inacessíveis mas possuem a riqueza de se prontificarem a dar alguma coisa aos pobres, de entre o pouco que possuem.

A miséria daqueles que falsificam artigos de luxo e a pobreza daqueles que compram artigos falsos para ostentarem luxo falso contribuem, cada um a seu modo, para o empobrecimento da imensa maioria que mastiga a mágoa em silêncio e seca as lágrimas com as mãos calejadas de trabalhar de sol a sol... para confeccionar esses artigos com salários miseráveis.

Neste tempo de inverno, a maioria dos portugueses é convidada a fazer como o urso que, nos invernos, não tem que comer nem que caçar.

Todavia, até o urso tem mais sorte que a maioria de nós: pode hibernar e nós não. Ele espera que o Inverno passe. Nós não sabemos se a crise tem fim.

Terras de Bouro: "Um poema é uma flor..."


Ser poeta é ser maior, uma vez que não se limita à imitação (mimesis) mas é autor da criação (Poiesis): esta foi a ideia máxima que marcou a apresentação do livro "Um poema, uma flor", sábado no auditório municipal de Terras de Bouro.
Costa Guimarães falava na sessão de apresentação da obra mais recente de João Luís Dias, escritor e presidente do Clube de Autores Galaico-Minhotos (Calidum), que encheu aquela sala com pessoas, poemas, sabores e canções, ao longo de duas horas.

O jornalista bracarense lembrou Teixeira de Pascoaes para quem a poesia é a "mais profunda e etérea manifestação da nossa alma" e o que "dá o sentido mais perfeito e harmónico da vida".

No seu entender, a poesia aperfeiçoa o ser humano, aproximando-o do "antropos" e, enraizando-se nos conceitos gregos (poiesis e mimesis), o jornalista Costa Guimarães partilhou a dimensão do poeta ao longo das várias épocas e civilizações, como alguém que cria a linguagem e o objecto que entusiasma e inspira, ao ponto de possuir o sentido do divino, como defendia Platão.

Se na Bíblia, o poeta era equiparado a profeta, a voz de Deus, no sentido profético e de ser aquele que fala em nome dEle, no hinduísmo, a poesia integrava a contemplação do sábio.

A ideia de uma ser humano privilegiado pelo talento é comprovada ao longo dos tempos na Europa com a protecção que reis e príncipes prestavam aos poetas e trovadores, até aos tempos em que Rimbaud promoveu a quebra desta mordomias assumindo a poesia como confissão, contestação e denúncia que não vive de temas como o amor, a morte, a saudade e o mar.

Costa Guimarães destacou a parceria entre o fundador e presidente do Calidum — Clube de Autores Minhoto/Galaicos — com Sun Lam, de Pequim, directora do Instituto Confúcio, da Universidade do Minho, autora das fotografias a cores que enriquecem o livro com 35 poemas.

Além dos olhares de Sun Lam, plasmados em fotos de flores, o livro de poemas é também um conjunto de "olhares" que soletram "cada palavra rasgada à garganta" para desfazer no leitor "o glaciar de silêncio"

Com 110 páginas, a mais recente obra deste funcionário do Instituto de Registos e Notariado, tem prefácio do músico e cantor Pedro Barroso que lhe chama "o poeta da montanha" que descreve com "mãos talhadas de cetim" neste livro em que "cada poema é uma flor e cada flor é um poema" — como definiu o próprio autor.

Citando Pablo Neruda, Costa Guimarães disse que este livro — com poemas e fotos de flores — corporiza a poesia como uma "acção passageira ou solene em que entram em doses medidas a solidão e a solidariedade, o sentimento e a acção, a intimidade da própria pessoa, a intimidade do homem e a revelação secreta da natureza".

O jornalista encerrou a sua apresentação convidando todos os presentes a recitarem em coro um dos 35 poemas de "Um poema, um flor" porque a poesia não vive de adeptos, precisa de amantes.

No final, João Luís Dias agradeceu a presença do presidente do município terrabourense, António Ferreira Afonso, e do alcaide de Lobios, José Lamela, e com patrocínio da empresa bracarense Arlindo Correia & Filhos.

O presidente da Câmara de Terras de Bouro destacou a dupla faceta de João Luís Dias, enquanto escritor que revela todo o talento na poesia deste livro e enquanto editor e promotor da divulgação de autores minhotos e galegos, através do Calidum.
João Luís Dias publicou há 20 anos "Ecos do silêncio", "Sonho em hora de ponta" (1992) e reuniu crónicas em "Antes que o tinteiro entorne" (2003.

O grupo da Calidum encerrou esta tarde cultural com a interpretação de canções de Pedro Barroso e de poemas de João Luís Dias, musicados por Manuel Afonso, nas vozes de Bárbara Passos, Luís Pinho e Nuno Queirós.

S. Vítor investe... devagarinho



Uma das dificuldades da acção reside na falta de espaços para a dinamização de outras actividades pastorais, especialmente na Quinta da Armada e junto à Igreja Paroquial. Os projectos, tendo em conta os tempos que se vivem, “exigem que se vá devagarinho” — assegura o padre Sérgio Torres.

De acordo com um dos párocos de S. Vítor, o terreno pra o Centro da Quinta da Armada foi comprado mas neste momento “não temos meios para isso. Queremos acabar de pagar o terreno e depois a prioridade absoluta é construir o Centro Pastoral na Quinta da Armada. Temos cerca de 300 crianças na catequese, mais os escuteiros, as guias e jovens. É muita gente que ali trabalha semanalmente. Foi apresentada uma candidatura na CCDRN que prescreveu e agora teve de reapresentar-se a candidatura que depende muito de vontades políticas. Só podemos fazer obras em S. Vítor quando tivermos um sítio para deslocar as pessoas que aqui estão, durante um ano ou dois” — assegura o Padre Sérgio.

Para S. Vítor, depois de construído o Centro Pastoral da Quinta da Armada, “já fizemos o concurso de ideias. Apareceram 12 propostas e estamos a trabalhar a proposta vencedora mas temos de ter prudência e perceber um pouco o que pode ser necessário em termos de rede de apoio infantil”.

O nosso objectivo é dar novas instalações à creche que já temos e ampliar esse serviço da creche”, bem como a construção do centro pastoral para catequese e construir três capelas mortuárias porque a actual é muito pequenina. Queremos dar condições para que as pessoas possa ter outra tranquilidade quando estão a velar e rezar pelos seus mortos”.

A paróquia de S. Vítor vive num momento de compasso de espera dos grandes investimentos para dotar esta comunidade das infra-estruturas de apoio às actividades sociais e pastorais. São os Centros pastorais de Quinta da Armada e em S. Vítor que aguardam por melhores dias e exigem maior reflexão antes de lançar as obras

Mas há também muitas alegrias nesta comunidade cristã, como a capacidade de as pessoas da “paróquia se encontrem uma vez que somos uma paróquia muito dispersa” — sublinha o padre Sérgio Torres.

As distâncias são curtas mas as pessoas tem formas de estar e de viver diferentes. Nós temos tentado trabalhar dentro desta pluralidade que as pessoas trabalhem junts e haja uma certa unidade naquilo que fazemos, juntando os catequistas, as crianças de catequese, os grupos de jovens, apesar das várias polaridades”.

Juntamente com o padre José Carlos Azevedo, o padre Sérgio Torres da conta de terem conseguido reunir, para a visita pastoral do Arcebispo os padres todos que prestam serviço para um momento de reunião e convívio, à semelhança do que foi feito com a catequese, os escuteiros, os jovens que animam os três centros (Montariol, Armada e S. Vítor).

No que se refere às dificuldades com que se debate esta dupla de sacerdotes, Sérgio Torres destaca “a resposta que a Igreja vai dando às pessoas”.

Ou seja, quem vem aqui à Missa gosta, diz que as missas são bonitas, a parte ritual é bem feita bem como a catequese também é bem feita. Mas, é só isto que as pessoas que vivem na nossa paróquia, esperam? Que imagem nós damos de Igreja. As pessoas só querem missas bem cantadas e bem rezadas, catequese bem organizada e atraente ou querem mais qualquer coisa da Igreja? Será que estamos a responder às expectativas das pessoas?

As questões económicas e sociais, as famílias divorciadas ou as uniões de facto e outras devem preocupar a Igreja. O Padre Sérgio Torres revelou que há dois anos dos 220 baptizados, cerca de 80 eram de pessoas que não estavam casadas pela Igreja. É um dado que nos deve fazer pensar e ir ao encontro das pessoas. Neste momento não temos essa capacidade. Temos mais capacidade para estar em casa e receber as pessoas e isso temos tentado fazer bem.

A minha preocupação nesta paróquia, por exemplo, uma vez que temos cerca de 130 funerais por ano, era ter uma equipa que possa ir ao encontro das pessoas numa hora de dificuldade para elas. Que possam fazer o acompanhamento das pessoas”.

Se reparar bem, nós acompanhamos as pessoas que vêm ao nosso encontro, no baptismo, na catequese, no casamento, temos resposta. Mas quando passa destes momentos, não damos resposta a ninguém. Só nestes momentos conseguimos o contacto com as famílias. É a nossa dificuldade em construir uma comunidade onde haja mais solidariedade, comunhão, mas seremos capazes de conseguir se mostrarmos às pessoas que a nossa missão deve ir para além do ritual. As nossas missas têm que despertar mais qualquer coisa para termos uma Igreja que tenha uma presença diferente na nossa sociedade”.

É uma marca que se deixa mas “não devemos entrar em desespero e ficar sem fazer nada” — conclui o padre Sérgio Torres.

S. Geraldo: 900 anos após a sua morte (fim)



Amanhã, dia 5 de Dezembro de 2008, precisamente, cumprem-se 900 anos da morte do grande Arcebispo e padroeiro de Braga, S. Geraldo, a quem se deve o resgate da primazia sobre Compostela e Toledo (no Concílio de Palência, em Dezembro de 1100).

Mais uma vez o altar da capela com o seu nome vai recuperar a antiga tradição de ser ornamentado com fruta — que há décadas atrás era oferecida pelas vendedoras de fruta do mercado municipal.

Os fiéis recorrem a ele para se protegerem as cefaleias, asma, chagas, tumores e paralisia dos membros e males que afectam a cabeça. Braga passa por esta data como "a raposa pela ramada vindimada", indiferente como sempre, ingrata como é desde há algumas décadas ou como sempre foi?

Diogo Geraldo, assim se chamava, assumiu a Diocese de Braga após a obscura destituição de Dom Pedro e cinco anos de sede vacante. Encontrou a cidade “ainda em grande ruína e os serviços eclesiásticos um pouco anarquizados

Desorganizada a administração eclesiástica após a conquista muçulmana de 711, a diocese de Braga só volta a ser restaurada em 1070, por acção do Bispo D. Pedro (cujo episcopado está bem retratado no cartulário “Liber Fidei”), antecessor de S. Geraldo, que professara na abadia de Moissac e vivia em Toledo.

Chega a Braga, após escolha de D. Afonso e do Conde D. Henrique, a 26 de Abril de 1096, iniciando de imediato a reestruturação da Escola da Catedral que D. Pedro havia fundado, sem esquecer as obras na Sé iniciadas pelo antecessor.

A recuperação dos bens usurpados a Braga durante o exílio dos bispos bracarenses em Lugo (entre 710 e 1170), a reforma da Liturgia romana e um Sínodo para disciplinar os costumes e os clérigos foram outras acções estratégicas que marcaram o seu episcopado.

Sempre perto das populações, iniciou um plano de visitas às paróquias mesmo a smais recônditas, como aquela onde morreu, nos contrafortes das serra de Bornes.
Teve ainda tempo para ir a Roma duas vezes reivindicar a primazia de Braga sobre Astorga, Lugo, Mondonhedo, Orense, Tui, Porto, Coimbra, Lamego e Viseu.

S. Geraldo está sepultado na capela com o seu nome, na Sé, devidamente restaurada há oito anos. Nesta capela são visíveis sete quadros com pinturas que retratam os momentos essenciais da sua vida.

Diogo Geraldo, assim se chamava, assumiu a Diocese de Braga após a obscura destituição de Dom Pedro e cinco anos de sede vacante. Foi durante o seu episcopado que aconteceu o pio latrocínio protagonizado pelo bispo de Compostela, Diego Gelmirez.

S. Geraldo recebeu Gelmirez no próprio Paço, este pela calada da noite levou para Compostela as relíquias de S. Vítor, S. Frutuoso, Santa Susana, S. Silvestre e S. Cucufate, retiradas de várias igrejas de Braga.
Esta acção do grande arcebispo faz com que desapareçam de Braga os surtos heréticos ou tentativas heterodoxas de afirmação da fé cristã.

Com o virar do novo milénio surge uma nova ordem — a feudalidade associada a uma imensa expectativa do milenarismo: o fim do mundo.

Só no século XII vamos assistir a novo surto de heterodoxia: passados os medos do milénio e com a transformação da sociedade rural em sociedade urbana. O predomínio rural cedeu lugar à troca de produtos, ao comércio e à primazia doo lucro.

O clero começou a ser criticado pela sua opulência e os fiéis empobrecidos reivindicam o direito de pregar a palavra de Deus, originando movimentos de espiritualidade for a da hierarquia como são exemplos os valdenses, os cátaros e os cultos dualistas.

Os abusos dos comerciantes e do clero levam as populações a ressuscitar antigos cultos, através de superstições. Baqueavam as conquistas resultantes do grande esforço desenvolvido por S. Martinho de Dume que procurou extirpar através da pregação, da destruição dos templos e ídolos pagãos.

De facto, algumas superstições que ressurgem nos séculos XII e XIII remetem para formas de culto cujas origens se perdem no tempo, como é o caso das missas realizadas for a dos templos, nos montes, campos e outros “lugares desonestos” — como descreve o “Tratado da confissom”, de Martim Perez, quando alude “às mulheres que saem de noite, andam pelos ares e pelas terras, que entram nos buracos e comem e sugam as criaturas” (espécie de bruxas arraçadas de vampiras).

As recomendações dos Sínodos de Braga e não só para que a eucaristia e os santos óleos fiquem bem fechados e para que a pia baptismal seja devidamente guardada revelam o medo que o seu uso fosse desviado para fins menos cristãos.
O Sínodo de Braga de 1281 condenava os clérigos e leigos que consultassem agoureiros e feiticeiros e praticassem estas magias.

S. Geraldo: 900 anos da sua morte (6)

Não foi fácil o encontro da Cristandade do Norte, influenciada pela França, com os moçárabes, especialmente em Braga, após a desorganização de 711.
Para trás ficam escassos ecos da reorganização do império romano levada a cabo por Diocledciano, até 388, a qual substitui a de Augusto (27 a.C.) que dividia a Península em três províncias: Bética, Tarraconense e Lusitânia.

Com Diocleciano surge a Galécia, ao lado da Lusitânia, e assim se manteve apesar das inavsões suévicas e islâmicas.
Nos concílios de Braga (561 e 572) são referidas novas dioceses do reino Suevo que chegava da Galiza até ao Douro, com algumas províncias da Lusitânia. O Bispo de Braga dirigia as dioceses de Lamego, Viseu, Conimbriga e Idanha.

No “Parochial Suevorum” — documento único em todo o seu género no ocidente —, em 582, encontramos a lista das paróquias da Província Eclesiástica de Braga. Se não podemos falar de uma rede de paróquias, é legítimo falar de uma constelação de paróquias rurais e urbanas.

É ao bispo Dom Pedro, por volta de 1070, que cabe a tarefa de reorganizar a administração eclesiástica de Braga, para a qual contribui a extinção da dinastia das Astúrias-Leão. Os reis de Oviedo favoreceram a manutenção de Braga sob tutela de Lugo (até século X) e depois de Compostela. Cerca de 1070, D. Pedro, primeiro Bispo de Braga, reorganiza a Diocese, conhecendo a cidade e a área envolvente um clima de franco fortalecimento das suas estruturas fundamentais.

O bispo D. Pedro (r. 1071-1091) ordenou a construção da Catedral, que foi concluída em 1089. Desde então, os bispos de Braga foram verdadeiros governadores.

Prosseguindo o trabalho de D. pedro, é no tempo de S. Geraldo que começam a fixar-se as funções da paróquia e a constituição de uma rede, com a introdução de algumas normas de direito deixado pelos romanos. Era o momento de agregar as paróquias em rede, depois da desunião registada com a invasão árabe e a fuga dos bispos e clérigos.

A estreita cooperação entre Igreja e príncipes, condes e reis fidelíssimos a Roma foi decisiva para esta reorganização. Com a reconquista, foram restauradas dioceses e recuperados mosteiros de tradição visigótica à luz do espírito reformador das abadias de Cluny (de onde há-de vir S. Geraldo para Braga) e Cister.

O Conde D. Henrique e seu filho encarregaram-se em colaboração com os bispos de Braga (D. Pedro, Dom João Peculiar e depois S. Geraldo) da restauração das dioceses por esta ordem cronológica: Braga (arquidiocese), Coimbra, Porto, Lamego, Viseu, Lisboa, Évora, Silves e Guarda. Os Cartulários são um fabuloso manancial de informações sobre este tempo.

Isto implicava a substituição do rito moçárabe pelo romano, dando origem a um longo e conflituoso processo de introdução do rito romano na Península Ibérica. Depois de dominada por romanos e árabes, a França ocupava lentamente o lugar daqueles.

Apesar disso, foi impressionante o movimento de reconversão monástica que acompanha a formação do Condado Portucalense. Os mosteiros de tradição visigótica, masculinos ou femininos trocam a regra de S. Frutuoso (Regula Communis) pela regra de Cluny. Depois segue-se a troca, a partir de 1143, em Alcobaça, pela regra de Cister.

A invasão árabe provoca um fenómeno singular na península, mais visível no território que futuramente será o reino português: a necessidade de união contra um inimigo faz unir os povos da Lusitânia numa só crença e numa só Língua.

Essa união de forças faz com que desapareçam os surtos heréticos ou tentativas heterodoxas de afirmação da fé cristã. Com o virar do novo milénio surge uma nova ordem — a feudalidade associada a uma imensa expectativa do milenarismo: o fim do mundo.

Só no século XII vamos assistir a novo surto de heterodoxia: passados os medos do milénio e com a transformação da sociedade rural em sociedade urbana. O predomínio rural cedeu lugar à troca de produtos, ao comércio e à primazia doo lucro.

O clero começou a ser criticado pela sua opulência e os fiéis empobrecidos reivindicam o direito de pregar a palavra de Deus, originando movimentos de espiritualidade for a da hierarquia como são exemplos os valdenses, os cátaros e os cultos dualistas.

Os abusos dos comerciantes e do clero levam as populações a ressuscitar amtigos cultos, através de superstições. Baqueavam as conquistas resultantes do grande esforço desenvolvido por S. Martinho de Dume que procurou extirpar através da pregação, da destruição dos templos e ídolos pagãos.

De facto, algumas superstições que ressurgem nos séculos XII e XIII remetem para formas de culto cujas origens se perdem no tempo, como é o caso das missas realizadas for a dos templos, nos montes, campos e outros “lugares desonesos” — como descreve o “Tratado da confissom”, de Martim Perez, quando alude “às mulheres que saem de noite, andam pelos ares e pelas terras, que entram nos buracos e comem e sugam as cristuras” (espécie de bruxas arraçadas de vampiras).

As recomendações dos Sínodos de Braga e não só para que a eucaristia e os santos óleos fiquem bem fechados e para que a pia baptismal seja devidamente guardada revelam o medo que o seu uso fosse desviado para fins menos cristãos.
O Sínodo de Braga de 1281 condenava os clérigos e leigos que consultassem agoureiros e feiticeiros e praticassem estas magias.

Thursday, November 13, 2008

Um deserto à beira mar plantado



O primeiro-ministro, José Sócrates, vangloriou-se ontem do encerramento, nos últimos três anos, de mais de 3.000 escolas primárias com menos de 10 alunos definindo este fecho como uma das bandeiras da aposta do actual Governo na Educação.
O primeiro-ministro falava em Ponte de Lima, no decorrer da inauguração de duas escolas que permitiram o encerramento de 16 naquele concelho do Alto Minho.

O primeiro ministro contrapôs a universalização do Inglês a todos os alunos do primeiro ciclo e a aposta nas novas tecnologias, esta traduzida nos computadores "Magalhães".

Com a distribuição de mais 4.000 'Magalhães' em algumas escolas do País", José Sócrates aponta o computador como um "instrumento vital" para a aprendizagem.

Está por contabilizar os efeitos de desertificação que este fecho de escolas pode provocar quando sabemos que os pais procuram deslocar-se para perto dos locais ou freguesias que possuem escola, de modo a evitar maiores despesas, viagens longas e sacrifícios para os seus filhos.

De entro de alguns anos vamos saber, mas o que já sabemos é dos efeitos da desertificação das nossas aldeias por falta de emprego.

Para isso este Governo não tem medidas tão eficazes como a generalização do inglês e dos computadores porque cresce o número dos minhotos que segue as pisadas de Fernão de Magalhães: sai do país em procura de mundos melhores.
Há dias era notícia que a falta de emprego em Guimarães leva os filhos da terra a abandonarem o país em busca de melhores condições de vida.

Mais de metade da população de Santa Cristina de Longos, a quarta maior freguesia do concelho vimaranense, emigrou para França, Mónaco, Guiné e Angola.

Santa Cristina de Longos registou, no último censo, dois mil habitantes, sendo 1.400 eleitores. Actualmente, na freguesia não vivem mais que oitocentas pessoas.

É preciso dar mais exemplos para que quem manda neste país faça alguma coisa por aqueles que não sabem nem estão em idade de aprender a falar ingles nem mexer num computador?

A continuarmos assim, o nosso interior está condenado a ser uma reserva natural para inglês ver, sem alma, sem vida, sem tradições, sem identidade porque para quem lá vive a pátria é madrasta.