Saturday, October 11, 2008

S. Geraldo: a vergonha foi tanta...


Três palestras (sem desfazer dos oradores), um concurso para as escolas, concertos, e peças de teatro é pouca coisa para assinalar o IX centenário da morte de S. Geraldo, padroeiro de Braga.

Apesar de alertados há um ano, a Arquidiocese, a Câmara Municipal e Cabido da Sé, não deram resposta à altura das suas capacidades e ao nível das suas responsabilidades.
 


O programa é simplório e tão pobre que envergonha os seus promotores. É verdade, estão todos corados e para não o mostrarem aos jornalistas nem a Câmara Municipal, nem a Diocese nem o Cabido deram a cara ao ao mais alto nível na sessão que deu a conhecer as comemorações.


O contributo decisivo de S. Geraldo nos primórdios da nacionalidade portuguesa, a sua importância na reforma da litúrgica e o papel de Geraldo no monaquismo peninsular mereciam um pouco mais no ano em que se assinalam os 900 anos da sua morte.

Em Viana do Castelo, por exemplo, para assinalar os sete anos da beatificação de outro grande arcebispo de Braga — Dom Frei Bartolomeu dos Mártires — a Câmara Municipal de Defensor Moura foi muito mais ambiciosa e vaidosa do seu passado. Um monumento esculpido por um artista vianense vai perpetuar a na Princesa do Lima os momentos fantásticos que marcaram a vida e obra do Arcebispo Santo.

Em Braga, para celebrar 900 anos da morte de um dos seus grandes arcebispos — que foi a Roma duas vezes implorar o reconhecimento do reino de Portugal e a primazia de Braga, além de reorganizar todo o território entre o Ave e o Minho — estas entidades todas, universidades incluídas, não foram capazes de mais.

Braga — com a sua autarquia, a Igreja e o Cabido — são a imagem daquela noite vivida por S. Geraldo muito doente, em Bornes, numa terra fria.

Braga assemelha-se àquele lugar invernoso onde as árvores estão despidas de folhagens de memória e frutos de gratidão.
Braga precisa de árvores floridas de memória e gratidão e recheadas de belos frutos como a paixão pelo seu passado, o amor aos que por obras valerosas a elevaram ao patamar da primazia ao longo de séculos.

Todos percebem isto. Se não percebessem tinham aparecido, mas a vergonha foi tanta que nem o presidente da Câmara, nem o Deão do Cabido ou um dos bispos de Braga apareceu a falar dos 900 anos da morte de S. Geraldo.

Ah! a vereadora da cultura da Câmara de Braga deve ter ido ver se o bolo de aniversário estava bonito.

S. Geraldo: 900 anos após a sua morte (3)

A purificação dos cultos religiosos na Galécia — conhecida pelo seu desalinhamento ortodoxo — atinge o auge com S. Martinho de Dume, o que o leva a escrever “De correctione rusticorum” que se afirma como um dos mais belos exemplos da catequese popular e mostra a sabedoria deste bispo bracarense.

Por esse tempo, os habitantes dos campos da Galécia adoravam astros, pedras, águas, espreitavam o futuro através dos voos de certas aves e do movimento das estrelas e usavam os ramos de loureiro à porta da casa para afastar os espíritos maus.

Acabar com estes cultos não foi fácil para a hierarquia cristã porque os cultos pagãos sobreviviam, tendo Martinho de Dume elevado a dignidade de certos santos cristãos para os contrapor aos cultos pagãos que ainda subsistem no século VIII.
Os concílios centram-se neste combate, incluindo o concílio de Braga, em 561, quando condenam a astrologia como prática religiosa e as restantes práticas pagãs. É um tempo difícil para a ortodoxia católica.

O II Concílio de Braga, em 572, impõe a visita dos bispos a todas a igrejas a fim de pregarem aos componenses (rústicos) e combaterem as práticas de idolatria.

É nesta acção purificadora dos costumes religiosos que se inclui toda a pregação de S. Martinho de Dume, numa altura em que aparecia uma das primeiras divisões dentro dios cristãos: o arianismo. Esta heresia inspira os reis visigodos e vai dar origem a momentos de grande tensão na Galécia.

Mal refeitos da derrota do arianismo em Mérida, com a ajuda de Santa Eulália, os cristãos da Península são fustigados pelo priscilianismo, um ascetismo que impunha o jejum dominical todo o ano, o desprezo dos bens deste mundo e o conhecimento aprofundado da Sagrada escritura.

Acusações de magia desacreditaram Prisciliano, enfraquecido pelo aparecimento do maniqueísmo mas o gnosticismo das suas ideias tiveram forte penetração nas aldeias da Galécia. O concílio de Saragoça condena o priscilianismo e dá origem a um purga de bispos, alguns deles, através da morte a que fora condenado Prisciliano. Morto o fundador, a heresia continuou tendo mesmo chegado a Braga, cujo bispo Profuturo é elogiado pelo Papa pelo seu combate ao priscilianismo que só é extinto com S. Martinho de Dume.

Os historiadores Idácio de Chaves e Paulo Orósio, de Braga, dão nos conta dos esforços da hierarquia para afastar os usos priscilianistas que tiveram grande culto no mundo rural da Galécia.

O debate em torno do arianismo alonga-se até ao século VI, sendo recuperado pelos povos germânicos, suevos e visigodos, ao ponto de, no tempo do rei Leovigildo, alguns bispos do Norte da Península (entre eles o do Porto) terem renegado o catolicismo.

No tempo de Recaredo, o arianismo resistia na Lusitânia. O bracarense Paulo Orósio dá conta do convívio pacífico entre católicos e arianos, até que, no século VI, surgem os primeiro conflitos na Galécia, entre o rei e bispos até ao grande confronto de Mérida, numa altura em que Prisciliano começava a divulgar a sua forma ascética de religião cristã: jejum todos os domingos, retiros no Advento e Quaresma, desprezo dos bens deste mundo e conhecimento profundo da Bíblia.

O priscialianismo constituiu o maior desafio do primeiro milénio ao catolicismo na Galécia, uma vez que singrava nas zonas rurais que escapavam à influência das cidades, mesmo depois da sua repressão pelo concílio de Saragoça e condenação à morte de Prisciliano, em Trèves. O bispo metropolita da Galécia torna-se o principal seguidor de Prisciliano após a morte deste em 387, como notam as acctas do concílio de Toledo e de Braga (561).

Para atestar a heterodoxia da Galécia, antes de S. Geraldo, no Norte de Portugal, Galiza e norte de Espanha convíviam o catolicismo urbano com o maniqueísmo, o origenismo e pelagianismo rurais, como tão bem descreve o bracarense Paulo Orósio, apesar dos esforços do bispo de Braga, Profuturo.

Mais, a heresia do origenismo terá sido trazida para a Galécia por uma peregrino de Braga, Avito, após uma viagem à Terra Santa, como escreve o historiador bracarense na sua obra dedicada a Santo Agostinho, Commonitorum, onde fala não só os priscilianistas e dos origenistas, bem como do pelagianismo.

Aliás, estas tendências religiosas da gnose e misticismo vão atravessar os séculos de presença dos árabes na Península Ibérica, como foi o caso do século VIII em que surge uma corrente religiosa anti-trindade, como foi a inspirada por Migécio para quem a Trindade era constituída assim: o Pai, David; o filho, era Jesus Cristo; e o Espírito Santo, era S. Paulo.

Depois surge o adopcionismo, segundo o qual Jesus Cristo era apenas Filho adoptivo de Deus, e filho de Maria.
É neste contexto de fragilidade que chegam os muçulmanos e começa a ficar completo o retrato da região que S. Geraldo vai encontrar quando chega a Braga.

Monday, September 29, 2008

Costa Lopes: Trovadores, Camilo e IMA perdem um amigo




Os trovadores medievais, os estudos camilianos e a filosofia perderam um dos seus maiores amigos e divulgadores: o professor doutor António da Costa Lopes, que faleceu Domingo no Lar Conde de Agrolongo.

Chegava ao fim da peregrinação de um padre, de um homem, de um professor, de um investigador, de um amante das artes do teatro e da música que nunca se deixou mergulhar nos “vulcões da lama”.

A poucos dias de completar 80 anos — que celebrava no dia 23 de Outubro — este barcelense doutorado em Filosofia pela Universidade Gregoriana de Roma, na década de 50, deixou a sua marca indelével em milhares de alunos que passaram pelos Seminários de Braga e pela Universidade Católica Portuguesa (Instituto Superior de Teologia e Faculdade de Filosofia de Braga), através das suas aulas de Teoria do Conhecimento.

Apaixonado pela música, pela literatura portuguesa e pela Filosofia, o prof. António da Costa Lopes deixa o seu nome indelevelmente ligado ao Instituto Monsenhor Airosa de que foi director durante trinta anos (1969-1999). Ali foi enriquecendo o seu espólio bibliográfico nas áreas da música, da literatura medieval e camiliana, bem como na dinamização do ensino das artes às jovens que aquela Instituição acolhia, através do teatro e da música.

O Minho perde um grande pedagogo da juventude feminina e um dos maiores investigadores da poesia trovadoresca, especialmente dos cantores e poetas medievais nascidos no Minho, especialmente na sua terra (Barcelos) e em Famalicão.

Esta foi uma as suas predilecções ao longo de toda a sua vida, especialmente desde que descobriu a possibilidade que confirmou a naturalidade de João de Guilhade.

A Gil Vicente, Soren Kierkegaard, o polaco Emile Meyerson (o seu filósfo preferido), o pessimista António Feijó e o monismo de Leibniz uniu a sua afeição pela vida e obra de Camilo Castelo Branco.

Esta foi fomentada pela presença de Ana Plácido, no fim do século XIX — nas instalações que hoje são ocupadas pelo Instituto Mons. Airosa, permitiu a publicação de edições críticas de alguns inéditos camilianos sem se deixar contaminar “pela gangrena das materialidades e a subversão dos sentimentos nobres”.

Pela sua sabedoria e competência, foi escolhido para o cabido da Sé de Braga em 1967 onde teve e seu cargo a tarefa de revisão dos livros litúrgicos da diocese de Braga.

Pode dizer-se, com o mesmo rigor que ele cultivava escrupulosamente nos textos que publicou, que morreu embrenhado nos seus livros e nos seus escritos que, como poucos, fizeram a ponte cultural entre o Minho e a Galiza onde passava longas temporadas a investigar as raízes da poesia medieval galaico-portuguesa.

Braga deve sentir-se agradecida e manifestar esta gratidão a este barcelense que dignificou a sua produção cultural, enquanto a Igreja se pode sentir feliz por o ter tido dentro de si como requintado servidor.

Lá onde está, de certeza junto de Deus, padre Costa Lopes, não leva a mal que revele aqui um segredo: já temos saudades daquelas garrafas de licor da Galiza com que nos prendava. Fazia isso com toda a amizade, quando nos encontrávamos para dar mais um inédito para publicar no Correio do Minho e lembrarmos as aulas de Teoria do Conhecimento e os espectáculos musicais do Instituto Monsenhor Airosa.

Da nossa parte, fomos felizes enquanto nos enriqueceu com os seus livros e artigos. Dentro de dias, vamos publicar no Correio do Minho o último que nos trouxe. Foi o seu abraço camiliano a dizer-nos “até já”.

S. Geraldo — 900 anos da sua morte (2)


Para percebermos a importância de S. Geraldo para Braga, o norte de Portugal e o nascimento de Portugal enquanto país, temos de recuar no tempo.
Devidamente enquadrada a sua figura, o seu valor ainda se destaca mais aos olhos dos que vivem neste século XXI em que se celebram os 900 anos da sua morte.

O cristianismo, quando entrou na Península Ibérica — de que Braga era um dos maiores pólos urbanos e centro de difusão cultural — encontra um lastro religioso de muitos séculos cuja matriz era a multiplicidade de deuses e de cultos.

Os berços religiosos da Galécia situam-se antes dos romanos cá chegarem, mas estes pensaram que por cá não se prestava culto aos deuses, dada a inexistência de templos e de imagens, como escreveu Estrabão na sua “Geographia”.
Os habitantes da Galécia veneravam os seus deuses juntoa a rios e fontes, sem templos, de que é exemplo máximo a Fonte do Ídolo em Braga.

É a romanização que leva os habitantes da Galécia à construção de templos e com eles à alteração da prática da religião, embora os deuses indígenas tenham começado a desaparecer com a chegada de Fenícios, gregos e cartagineses.

Com a romanização acontece também que a um deus romano era dado um nome indígena, o que traduz a resistência dos autóctones da Galécia às divindades trazidas pelos romanos. Por exemplo, em Vilar de Perdizes, o culto ao deus Larouco fundiu-se com o de Júpiter, o que também pode querer significar que Roma não quis impôr aos habitantes da Galécia os seus deuses.

Sabe-se que o culto de Júpiter foi o mais difundido entre nós, sobretudo nas cidades, mas subsistiam devoções a Serápis ou à egípcia Ísis, enquanto não chegavam as ondas do culto ao Imperador.

O cristianismo terá chegado á península Ibérica no séc. II- S. Irineu de Lião, na sua “Adversus Haereses”, escrita em 188, fala das igrejas da Ibéria ao destacar o seu fervor no combate às heresias.

Tertuliano, duas décadas depois, alude ao cristianismo espalhado por todo o mundo incluindo os “hispaniarum omnes termini”, sobretudo trazido pelos comerciantes, navegadores e soldados. Outra prova consiste na perseguição de Diocleciano, no ano 303, que faz muitos mártires nas cidades lusitanas, sobretudo nas cidades.

A escassez documental torna quase impossível descrever a chegada do cristianismo à Península Ibérica, apesar das lendas referentes a S. Tiago, apesar dos esforço para relacionar o cristianismo ibérico com os tempos dos Apóstolos (Rom. 15, 24).

O documento mais antigo refere-se à Galécia mas sabe-se que o cristianismo chegou mais depressa e mais cedo ao sul da Península Ibérica. O Concílio de Elvira testemunha isso mesmo em meados do século III, separando judeus de cristãos e cristãos de pagãos. Quando Teodósio oficializa o cristianismo, em 394, começa a adaptação dos templos romanos à nova religião e dava-se às antigas práticas religiosas um novo sentido.

Uma vez que a Norte a romanização não fora tão forte, nos século V dá-se a entrada dos povos suevos e visigóticos, uns mais a norte e outros na Lusitânia.

É por esta altura que surge em Braga Paulo Orósio com a sua “Historiarum adversus paganos”, a primeira tentativa de elaborar uma filosofia cristã da História. Expurgar os cultos pagãos eram um dos objectivos desta obra, mas eles iam subsistindo sobretudo entre as gentes do campo que continuavam a rezar-lhes nos montes, nos bosques, nos rios e nas fontes. As fontes miraculosas são cristianizadas com a concessão do nome de um santo.

O “paganus” era o habitante do campo que se mantinha fiel ao politeísmo em contraponto ao habitante urbano monoteísta.

Saturday, September 20, 2008

Braga: Geraldo de Moissac morreu há 900 anos


Geraldo de Moissac, nasceu numa família nobre, muito religiosa, na Diocese de Cahors, em França.

Mas sabe-se que o então jovem Geraldo professou na Abadia Clunycence de Moissac . Foi um erudito, com uma grande cultura e é considerado o grande arcebispo que reorganizou a cidade de Braga. Morreu no dia 5 de Dezembro de 1108 e esta série de artigos que hoje inciamos tem o humilde objectivo de assinalar os novecentos anos da sua morte. É um tema que não interessa apenas aos bracarenses, mas a todos os minhotos, uma vez que ele foi um dos grandes arcebispos de uma diocese que ia desde o rio Ave até ao rio Minho e “mergulhava” em terras transmontanas.

Hoje sintetizamos apenas alguns dados sobre a sua vida e obra mas é nossa intenção trazer aqui o antes, o durante e o depois do espiscopado desenvolvido por S. Geraldo. digno herdeiro de prelados como S. Frutuoso ou S. Martinho de Dume.
Em 1096 é nomeado Bispo, Arcebispo de Braga, tendo-se empenhado em elevar o nível cultural, religioso e moral do clero e do povo.

Durante 12 anos apoiou o conde D. Henrique, foi 2 vezes (em 1100 e 1103) a Roma, uma delas acompanhando o conde. Assim, este homem da Igreja é um dos "pioneiros" da fundação de Portugal, através de esforços para obter junto de Roma a restauração da metrópole (Arcebispado de Braga), com autonomia eclesiástica, assumindo assim uma dimensão que ultrapassa os muros da ‘civitas bracarensis’.

É o padroeiro de Braga que celebra a sua festa no dia da sua morte, a 5 de Dezembro de 1108 e está sepultado na Capela de São Geraldo na Sé Catedral de Braga.

Assinalam-se-ão, pois, em 2008, os 900 anos da morte do Padroeiro de Braga e nós, além de lembrar esta eminente figura de Braga, queremos alertar boas vontades para condignas celebrações.

A evocação do Padroeiro de Braga deve servir também para evocar a ligação íntima da sua História — passado, presente e futuro — ao papel que vem sendo assumido pela Igreja, enquanto motor do desenvolvimento do Concelho nas mais diversas vertentes, ao longo dos últimos 900 anos.

A primitiva Capela de São Geraldo, da qual apenas resta a estrutura das paredes, foi mandada construir pelo arcebispo Geraldo de Moissac, em honra de são Nicolau.

Em 1418-1467 o arcebispo D. Fernando da Guerra, depois de Geraldo ser considerado santo, dedicou a Capela a este arcebispo de Braga, e o santo sepultado no retábulo principal.

A capela está decorada em talha barroca. Os azulejos são atribuídos ao pintor António de Oliveira Bernardes (1662-1731). No dia da festa, o altar fica repleto de fruta, numa alusão aos seus últimos momentos de vida.

S. Geraldo, o organizador da cidade de Braga depois do período da reconquista, “no cumprimento do seu dever pastoral e nobre desempenho da sua missão”, já doente, arrastou-se até Bornes, concelho de Vila Pouca de Aguiar, onde consagrou a Igreja, pregou e administrou o Sacramento do Crisma, “ e no dia 5 de Dezembro de 1108, reunidos os padres da sua comitiva, deu-lhes a bênção, ouviu Missa, comungou e morreu, voando a sua alma gentil ao céu, para viver com Deus”.

Assim Mons. José Augusto Ferreira descreve nos “Fastos” a morte de S. Geraldo. Acontecida no dia 5 de Dezembro de 1108.
Os tempos são outros e os âmbitos de intervenção alteraram-se. O tempo do Senhorio dos Arcebispos está, graças a Deus, ultrapassado mas resta o dever de rever o relacionamento entre o poder político e o serviço religioso. ecomo natural e humana, esta proposta eclesial.

Esta série de textos que hoje iniciámos apenas pretende contribuir, dentro do possível, para que todos os bracarenses e minhotos se preparem para celebrar — como deve ser — os 900 anos da morte de S. Geraldo e delas se retirem abundantes frutos para toda a comunidade minhota.
Ou nós não conhecemos — e perdoem-nos a ignorância — ou a Igreja, a autarquia e as instituições de Braga não têm apetite para assinalar esta data emblemática do passado da Roma Portuguesa.

D. Antonino Dias: a sorte de Portalegre e Castelo Branco


Na hora da despedida, o bispo auxiliar de Braga, D. Antonino Dias reconhece que “somos uma Igreja de muito culto e às vezes pouca cultura na Fé; o culto também é uma expressão da Fé mas penso que a grande aposta é a cultura da Fé”.

Braga fica com saudades desde servidor da Igreja que nos deixa a herança da sua lição diária de alegria serena, simplicidade e preocupação com os problemas dos seus padres. Vai ser a sorte dos fiéis e dos padres de Castelo Branco e de Portalegre.

Em jeito de balanço “muito positivo” a esta nova passagem por Braga D. Antonio Dias destaca “toda a riqueza que recebi no contacto com o sr. Arcebispo, os bispos auxiliares e sobretudo com o clero que foi sempre muito delicado, atencioso e pela forma como sensibilizavam o povo para as visitas pastorais e como o povo nos acolhiam”.

“É muito positivo aquilo que sinto” — assegura D. Antonino Dias na hora da despedida da Dioceses de Braga depois de ser nomeado bispo de Portalegre e Castelo Branco, a partir de 7 de Outubro.

“Eu corri a arquidiocese toda uma vez e já ia perto do fim da segunda ronda de visitas pastorais e causou incómodo esta mudança porque o arciprestado de Braga já tinha tudo programado e delineado a contar comigo” — recorda o novo Bispo de Portalegre e Castelo Branco, nascido em Longos Vales, Monção.

Há uma zona da arquidiocese que está em desertificação e há outra a faixa litoral que cresce (“a que me estava atribuída territorialmente”) — acrescenta o bispo auxiliar de Braga, em entrevista à rádio de Braga Antena Minho, emitida no programa “Sinais — a religião é notícia”.

Fazendo um retrato religioso da diocese de Braga, o prelado refere que “somos uma zona de muito culto e às vezes pouca cultura na Fé; o culto também é uma expressão da Fé mas penso que a grande aposta é a cultura da Fé, como defende o senhor Arcebispo e está a ser feito”.

“Uma Fé um pouco tradicional, que às vezes parece que não é uma opção radical da pessoa mas por que vem pda tradição” — é assim que D. Antonino define grande parte do comportamento religioso mas admite que as coisas estão a mudar.
Uma das marcas do seu episcopado foi uma ligação estreita com os padres, sendo um bispo muito próximo dos seus padres.

Daí que ele conheça bem as maiores inquietações dos sacerdotes: “aquilo que mais admirei foi a unidade e comunhão do clero mas aquilo que mais me preocupa é quando algum padre se afasta de viver com os outros padres, deixa de participar nas actividades com outros , deixar de fazer formação permanente, se coloca um pouco à margem. Isso não é um bom sinal e muitas vezes é um sinal de que outras coisas estão acontecer na vida do padre. Queremos muitas vezes ir ao seu encontro mas há sempre uma resistência quando se chega a determinado de viver e de estar que é difícil de contrariar. Mais tarde vão se arrepender mas...”

Para D. Antonino Dias, a solidão dos padres não é o problema porque um”padre não tem o direito de dizer que vive na solidão. O padre só está só se quiser e só sente a solidão se quiser. Esse é o perigo, o padre isolar-se dos outros e de Deus. Quem crê nunca vive só e se isso é verdade para qualquer pessoa, muito mais para um sacerdote.”

Nas suas visitas, D. Antonino Dias reconheceu situações de grande fragilidade de alguns padres pois “admirava como é que alguns senhores padres, com paróquias pequeníssimas, com pouca gente, ali passaram uma vida inteira, com uma austeridade que me surpreendia. São heróis e exercem um autêntico sacerdócio na multiplicidade dos sentidos”.

D. Antonino Dias recebe a nomeação para o alto Alentejo como surpresa pela altura em que foi nomeado, quando novo ano pastoral está em marcha e quanto ao local, porque esperava que fosse escolhida outra pessoa que conhecesse melhor Portalegre e Castelo Branco.

Na romaria de Porto d’Ave, D. Antonino Dias lançou a “ameaça da explosão de uma bomba social no distrito de Braga”: “preocupa-nos muito a situação económica das família, porque ela é geradora de instabilidade e aqui e no Alto Minho todos os dias vimos fábricas a fechar. Há pessoas que não gostem que se fale nisto mas há certas realidades que a dimensão profética da Igreja não pode ser ignorada. O que eu disse em Porto d’Ave, nem são dados meus, são da União de Sindicatos de Braga — que tem feito um grande trabalho nesse sentido — foi confirmado pelas Instituições de Solidariedade Social. Estamos prestes a que, em Braga, estoure esta bomba social. É uma situação difícil e não se prevê que esteja a desanuviar. Dá impressão que vão vir tempos mais escuros mas tem de haver esperança. Temos de reagir e agir contra a situação, para acém de agradecer àqueles que são capazes de investir para criar novos empregos e procurar a solidariedade de uns com os outros, nas paróquias temos de ser cristãos e ajudar quem precisa”.

Aos “meus parceiros, os padres”, D. Antonino deixa uma palavra de gratidão — “por tudo quanto fizeram e pela sua gentileza e delicadeza que tiveram sempre comigo, e que não desanimem” — e um convite: “Portalegre e Castelo Branco não são sítios turísticos mas passem por lá para recordarmos os momentos bons que aqui vivemos”.

Guadalupe: Braga é uma cidade mais feliz



Braga é uma cidade mais feliz e com mais vida, porque este fim-de-semana, um dos seus pulmões, o Parque de Guadalupe voltou a ter vida em abundancia, ao acolher as festas de São Marçal (padroeiro dos Bombeiros) e Nossa Senhora da Piedade ao fim de três décadas de silêncio e apagada vil tristeza.

Quem proporcionou nova vida e alegria ao parque de Guadalupe merece o reconhecimento dos bracarenses.
A Confraria de Nossa Senhora da Guadalupe, a Jovem Cooperante Natureza/Cultura e a Rusga de S. Vicente são os culpados desta bonita iniciativa que tanta falta faz ao coração de Braga para bater com mais ânimo e mergulhar nas suas raízes.

Por iniciativa daquelas entidades, com apoio da Junta de Freguesia, durante este fim-de-semana, o parque de Guadalupe voltou a acolher um leque de actividades de cariz popular e religioso, que noutros tempos marcaram o ritmo da vida daquela parte alta da cidade.

Outra das tradições retomadas que merece o aplauso é a adesão dos bombeiros voluntários à festa do seu padroeiro, dando um invulgar colorido às ruas de Braga na manhã de Domingo, com o andor do padroeiro.

No coração da cidade vibraram de novo tradições que apenas se vão recuperando e vivendo nas aldeias, como são os jogos populares da lata, corrida do saco e quebra do púcaro e ouviram-se os ritmos dos Bombos da Rusga de S. Vicente, os acordes da grande ‘Tuna FP’, as vozes melodiosas do grupo de fados e música tradicional e os sons populares da Rusga de S. Vicente.



O regresso das festas de S. Marçal ao parque de Guadalupe resulta sobretudo da união de boas vontades de várias agremiações e constitui um bom exemplo de que a união de esforços tem muita força e pode proporcionar coisas fantásticas em Braga.

Se outras colectividades derem as mãos, as festas de S. Marçal podem adquirir mais fulgor no próximo ano. Oxalá não falte o engenho e a arte de mais alguns para fazerem forte uma tradição que anima o coração da Cidade dos Arcebispos e estava em risco de morte.

São iniciativas como esta que dão vida em abundância e colorido alegre aos cinzentos e envelhecidos centros históricos das cidades, cada vez mais conhecidos por serem um amontoado de prédios sem vida e sem raízes culturais.