Saturday, April 12, 2008

Adaúfe: Operária ensaia coros de Bom Sucesso e Santa Maria



A Capela da Senhora do Bom Sucesso mantém todo o esplendor davido ao carinho que os seus devotos lhe dedicam desde meados do século XVIII. Trata-se de um lugar muito conhecido pela festa em honra de Nossa Senhora do Bom Sucesso, que se venera numa capelinha construída em meados do século XVIII (1752), no primeiro Domingo de Setembro e pelas célebres papas de sarrabulho. É o coração de uma das freguesias antigas que, mais tarde, foi anexada pela grande Matriz de Adaúfe.
Todos os Domingos, às 9 horas, é celebrada a Eucaristia sempre solenizada pelo grupo coral que é constituído por dez vozes, duas delas masculinas.

Rosa Maria Carvalho é a coordenadora e ensaiadora desta força juvenil que já teve mais elementos mas que resiste a ensaiar todos os sábados à noite. Quem quiser cantar já sabe que pode aparecer às 21,30 horas.

A coordenadora está satisfeita porque “tem havido grande assiduidade ultimamente”.
Esta operária aprendeu a tocar piano na Escola EB 2/3 de Palmeira e gosta tanto de música que já esteve a coordenar também o coral da Capela de Santa Marinha, ao longo de duas décadas.

Com um repertório consttiuído por muitas dezenas de cânticos de música sacra, o coro é constituído por jovens estudantes e trabalhadores que funcionam como uma rede de amizade que se mantém há uns vinte anos.
A Rosa Maria é operária têxtil e continua apostada no recrutamento de novos elementos porque “faltam vozes masculinas. Só temos duas”.

A coordenadora começou a cantar e a tocar nas celebrações dominicais aos onze anos e nunca mais abandonou estas tarefas que lhe absorvem tempo porque “gosto muito de música”.

Al´m do envolvimento nas festas do segundo fim-de-semanna de Setembro, o grupo coral da capela do Bom Sucesso realiza quase sempre um jantar de Natal como forma de cimentar a união entre todos os elementos.

De resto, a dedicação de Rosa Maria acaba por contagiar outros elementos da paróquia, como foi o caso da Susana Raquel que se viu estimulada a aprender a tocar e a seguir uma formação na área do ensino da música.
Hoje é a coordenadora do grupo coral de Santa Marinha.



HÁ VINTE ANOS A CANTAR

Sabe-se que há vinte anos, pelo menos, um pequeno grupo de pessoas se reúne todas as semanas para ensaiar os cânticos e animar a Eucaristia dominical na Capela de Santa Marinha, agora bem alindada com um arranjo exterior que a enriqueceu.
A Capela surge aos olhos do visitante como um belo miradouro sobre o vale do rio Cávado e ostenta sobre a porta principal a data da sua construção.

Este pequeno templo acolheu até há dois anos uma festa em honra da padroeira mas não tem havido gente suficiente para retomar a celebração.
No entanto, um grupo de cinco jovens continua a manter o brilho necessário à Missa vespertina, sob coordenação da Susana Raquel Dias, finalista de Educação Musical na ESE de Viana do Castelo, desde Janeiro deste ano, em substituição da Rosa Maria (Bom Sucesso).

Aliás, foi a ver a Rosa a tocar que nasceu em Susana o gosto pela música na Escola EB 2/3 de Palmeira. Depois frequentou a Escola de Música Sacra.

Já fomos 26 elementos” — recorda Susana Dias que acompanha os restantes elementos à viola, entoando cãnticos mais jovens.
De vez em quando, tentamos angariar novos elementos mas as pesoas não estão para se prender a horas marcadas “ — lamenta a coorenadora deste grupo que ensaia às sextas-feiras, pelas 21 horas.

A Missa celebra-se aos sábados, às 18,30 horas, onde estes cinco canores mostram os que valem com um “vasto repertório”
Com alargamento e pavimentação recentes do caminho entre Ferreiros e Penela, foi facilitado o acesos condigno a outra capela antiquíssima: trata-se de um pequeno templo construído em 1760 que tem como patrona Santa Marinha, outra das antigas freguesias que foi anexada pela de Adaúfe.

Apreciada como deve ser a capela de Santa Marinha, podemos fazer inversão de marcha, enquanto apreciamos algumas proprie-dades agrícolas como bonitos exemplares da arqui- tectura rural minhota, em direcção ao centro da freguesia, onde, à face da estrada nacional, podemos apreciar outra capela bonita, a de S. João, onde também existe um pequeno grupo coral que é coordenado pelo ensaiador do grupo da Missa das 11 horas na Igreja Paroquial.

Adaúfe: a engenheira solidária dos sons e catequese



Com dezena e meia de elementos e com ensaios quinzenais, o Grupo Coral de Adolescentes é um dos sete existentes na paróquia de Adaúfe. Afirmou-se há 14 anos a esta parte, quando Ana Paula Teixeira Antunes lançou um desafio aos seus adolescentes da catequese do sétimo ano para animarem a Eucaristia que nesse tempo se celebrava aos Domingos à tarde.

Era uma Eucaristia participada por muita gente mas sem cânticos e eu notei que tinha um grupinho de rapazes e raparigas com boas vozes e desafiei-os a animar a Celebração. Eles aceitaram e ainda existem dois elementos desse tempo inicial” – recorda Ana Paula Antunes.

Mais tarde, a Missa foi transferida para os sábados e agora a animação musical é repartida também pelo grupo coral de Jovens.
Os ensaios realizam-se nas sextas-feiras à noite: “é o único dia que há disponível porque a maioria dos elementos estuda”.
Ana Paula Antunes é a ensaiadora de cânticos mais ritmados adequados à idade dos membros do coro, acompanhando-os à viola enquanto alguns elementos tocam outros instrumentos de percussão. O grupo também era acompanhada por um organista mas “essa pessoa agora trabalha e não tem disponibilidade para o fazer”.

Depois de ter aprendido a tocar viola na Casa de Cultura, Ana Paula Antunes já enriqueceu o grupo coral com mais de cem cânticos que são também entoados em casamentos, baptizados, para além da festa do Dia da Mãe e dos Reis em Montariol.
A coordenadora e ensaiadora procura entre os compositores a maioria das músicas que ensaia mas busca também algumas de Espanha que traduz para a nossa língua porque “os espanhóis tem músicas muito lindas e que agradam aos adolescentes”.

O grupo coral dos adolescentes realiza também um passeio anual ao centro do país, a Torres Vedras e durante esses dias anima a Eucaristia naquela cidade. O passeio deste ano está marcado para o último fim-de-semana de Julho.

Quanto a reuniões de convívio, tornam-se mais raros por causa da dificuldade em reunir todas as pessoas, dado que a maioria são estudantes que “são bastante assíduos aos ensaios e nas celebrações”.



A ENGENHEIRA
DA MÚSICA
E DA SOLIDARIEDADE

Sem desprimor para outras pessoas muito sublimes que encontramos ao longo desta semana vivida em Adaúfe, Ana Paula Antunes é uma mulher fascinante quando se fala de doação de si e das suas capacidades em favor da comunidade em que vive.

Sem usar mais adjectivos, porque as suas acções falam melhor, Ana Paula Antunes é licenciada em Engenharia Agro-Pecuária pela Universidade de Coimbra.

Sempre gostei de cantar – remata, ao explicar-nos este gosto especial pela arte dos sons que nasceu na infância, quando duas tias que fizeram o Curso de Cristandade cantarolavam umas melodias que ela aprendeu “com facilidade”.
Já de pequenina cantava e o Padre Correia incentivou-me a tocar viola, no tempo da escola primária, quando já cantava nas festas da escola, como no Natal, etc.” – lembra a nossa interlocutora.

Este gosto pela música acompanhou-a ao longo da vida até se licenciar em Coimbra e uma primeira experiência profissional numa exploração em Vieira do Minho.

Desempregada, depois surgiu a oportunidade de vir trabalhar no Centro Social de Adaúfe, como acontece actualmente sem esquecer o “sonho de fazer aquilo que gosto e para o qual estudei. Tenho as minhas hortas em casa e continuo a praticar” – acrescenta, entre sorrisos.

Quanto ao seu trabalho actual, Ana Paula não esconde que gosta “do que faço aqui e continuo a estar a par daquilo que estudei”.

Esta engenheira da agro-pecuária dá explicações depois do trabalho nas disciplinas de matemática, ciências e físico-químicas e ainda descobre tempo para animar a Eucaristia em Montariol e fazer visitas à Cadeia de Braga, aos sábados à tarde, onde anima a Eucaristia com os acordes da sua viola e os sons da sua voz.

Além de coordenar o Grupo Coral dos Adolescentes faz catequese com o sétimo ano, em Adaúfe, e representa o Concelho de Braga no Conselho Pastoral Diocesano.

Com uma agenda “onde tenho tudo apontado”, Ana Paula encontra ainda um espaço para dar aulas de Viola em Celeirós, numa comunidade terapêutica.

Adaúfe: formação dos jovens é a prioridade


Com sete grupos corais, a paróquia de Adaúfe proporciona aos fieis celebrações litúrgicas de qualidade, com musica cujo ritmo se adapta aos participantes, desde os adolescentes aos seniores. Marcada pela emigração — com cerca de dois mil habitantes fora da freguesia e a ganhar o sustento no estrangeiro, Adaúfe é uma freguesia de transição entre a cidade e o meio rural interior minhoto.

Esta constitui uma das principais riquezas desta paróquia, embora os grupos das capelas sejam mais pequenos. Os grupos dos jovens e dos adolescentes e da missa das 7,30 horas tem cerca de dezena e meia de membros e o da missa das 11 horas possui mais alguns elementos que os outros.

Todos os grupos possuem um coordenador e ensaiador, excepto o da capela de S. João que é apoiado pelo ensaiador do grupo da missa das 11 horas na Igreja paroquial.

Com a Festa da Padroeira a 8 de Dezembro, dia da Imaculada Conceição, com cerimônias religiosas apenas, Adaúfe celebra com grande empenho a Festa da Assunção de Nossa Senhora, a 15 de Agosto. Esta festa tem uma procissão com certo nível, desde há três anos para cá, com a representação de quadros bíblicos que tem sido espectacular”.

Depois, a festa tem um programa popular profano e com a participação do rancho folclórico.

Quanto a Festas, a da Capela de Santa Marinha, no primeiro Domingo de Agosto, deixou de se fazer há dois mil anos. Este ano também não deverá haver por falta de gente para a Comissão de Festas. A Capela da Senhora do Bom Sucesso continua a manter sua festa no segundo domingo de Setembro, devido ao bairrismo dos lugares de Moinhos, Vale e Pinheirinho que fazem uma festa com “grande nível”.

Em termos de confrarias, Adaúfe possui apenas a das Almas, uma vez que as restantes acabaram por agonizar e morrer, como a de S. António e de S. Sebastião, entre outras.
“As pessoas não estavam motivadas para trabalhar e por isso elas acabaram” — explica o pároco de Adaúfe.

ENCONTRAR
PESSOAS
PARA SERVIR
OS OUTROS

A maior dificuldade sentida pelo padre José Sepúlveda Costa consiste em encontrar “pessoas que se disponibilizem para assumir um compromisso continuado”. “É um pouco complicado” — acrescenta embora reconheça que, na Juventude, há dois sectores em que Adaúfe está bem servida. Um deles é o da catequese com um conjunto de catequistas de elevado nível, a maioria universitários e alguns já licenciados”. O outro é o grupo de jovens e a Companhia das Guias de Portugal, a viver um momento de grande pujança e crescimento.

Na catequese toda a acção é desenvolvida a partir da Igreja em que as reuniões incluem as catequistas da s capelas, onde não há catequistas suficientes para as várias cllasses. Ali tem as primeiras seis classes, excepto no Bom Sucesso.
A Catequese funciona toda nas salas do rés-do-chão da residência paroquial, do centro social e na sede da Confraria das Almas.

No que se refere aos jovens, o padre José Sepúlveda lembra o grupo de jovens e a Companhia de Guias. O padre Viana tentou criar um grupo de escuteiros que passado pouco tempo acabou por não vingar.As guias já existem desde o tempo do padre Correia e “hoje estão outra vez em força depois de há alguns anos terem passado por alguma crise”.

A Companhia de Guias de Adaúfe está motivada e talvez tenham hoje a melhor situação quer em quantidade quer em qualidade de trabalho e formação, sempre com a preocupação de estar ao serviço da paróquia que se nota bem no segundo domingo de cada mês”.

Mas há outras áreas como a Conferencia Vicentina que ajudam pessoas e famílias mais carenciadas, com um apoio de presença e distribuição de bens. São os membros da Conferencia Vicentina que fazem a ponte comigo, para passarem a receber a comunhão ao Domingo, o que é um trabalho importante mas há uma dificuldade em arranjar elementos para esse trabalho. As pessoas que pertencem à Conferência Vicentina são todas de meia idade e mais e há o perigo de acabar opor não haver “pessoas que queiram fazer isso”.



A dimensão social da actividade paroquial é assegurada também pelo Centro Social que presta apoio aos idosos, em regime de centro de Dia, apoio domiciliário e ATL para os mais pequenitos.

No centro de Dia presta apoio a dez idosos, no apoio domiciliário são servidos trinta idosos e no ATL também são servidas refeições para 25 crianças, mediante protocolo com a Junta de Freguesia.

À tarde, o ATL é frequentado por nove crianças face às alterações introduzidas pelo Ministério da Educação mas “vamos tentar resolver o problema sem despedir ninguém. Temos de ter presente que o nosso Centro tem uma dimensão pequena e o numero de funcionários — sete — não gera grandes preocupações”.

Em termos de apoio domiciliário, “vamos conseguindo dar resposta à procura mas o numero de utentes é flutuante”.
O Centro Social é uma IPSS e financeiramente vive com as comparticipações dos utentes e da Segurança Social.

CENTRO SOCIAL
SEM PAR(ES)
DO ESTADO

Nós não temos condições para mais. Só com um edifício de raiz. Temos um terreno aqui junto à Igreja, temos um projecto aprovado, estava em PIDDAC, agora candidatamos ao PARES e esse é o nosso sonho: um Centro social com mais valências e com melhores condições que este não tem Ao fazer uma obra de raiz, reuníamos todas as condições que a Segurança social exige”.

Nesse projecto, “não fomos nós que decidimos quais eram as valências. Foi a Segurança Social que fez um estudo e determinou as valências a constar como centro de Dia, apoio domiciliário e ATL. Contemplava creche e Lar de idosos com a capacidade para trinta pessoas. Retirou-se o ATL, devido às mudanças recentes”.

Que esperanças? “Não sabemos se pode haver alguma esperança. Não vamos desistir. Tivemos uma reunião com a Directora da Segurança Social de Braga. Se não íamos muito animados viemos pior. O PIDDAC está fechado, O PARES não está a dar dinheiro para obras desta envergadura. Agora abriu a terceira fase do PARES mas é só para o Porto e Lisboa. Não está fácil mas às vezes dá vontade de desanimar” — confessa o padre José Sepúlveda Costa.

“Dizem que temos um projecto espectacular mas não passa disso” — sublinhou.
Em termos de obras, há onze anos estavam a terminar as obras na Igreja que custaram cerca de 25 mil contos. Depois, começaram algumas obras nas residência paroquial e “estamos agora com o restauro que está quase concluída,onde gastamos à volta de onze mil contos”.

Também foi “restaurado o órgão de tubos, em que gastamos seis mil contos, mas metade foi financiada pela Junta de Freguesia”.
Para o Centro social, não foram feitas grandes obras e a “única coisa que fizemos foi aquele salão para o Centro de dia com mobiliário novo e ar condicionado”.

No que concerne às Capelas, junto à da Senhora do Bom Sucesso, estamos a fazer um pequeno salão num terreno que se comprou com o saldo das Comissões de festas para se transferir para lá a catequese e ensaios do grupo coral que agora são feitas na Capela.

“Temos aqui ao lado da Igreja uma casa devoluta e queríamos fazer um salão paroquial com espaço para festas e para a catequese. Esperamos pela vontade dos proprietários e enquanto isso não acontece vamos solicitando o salão da sede da Junta de Freguesia que tem tido uma colaboração muito boa, atenciosa e dedicada com a Paróquia” — prossegue o pároco de Adaúfe.

Se esse espaço ficar disponível é o nosso projecto a lançar.
Com boas relações com a autarquia e outras instituições da localidade, “tendo sempre a noção das nossas competências e o serviço da comunidade, unindo forças e colaborando muito bem” porque o facto de “ser de Adaúfe me trouxe mais vantagens que desvantagens na relação com as pessoas”.

Alem da relação institucional, “existe uma relação de amizade que simplifica muito as coisas” – acrescenta o padre José Sepúlveda é responsável por um jornal mensal que envia 500 exemplares para os emigrantes no estrangeiro. O jornal está a aberto a ser veículo de informação para todas as instituições.

Sobre o futuro, como pároco de Adaúfe, “tenho coisas que gostava de fazer e um dos desejos é “ver se conseguimos fazer qualquer coisa com a Juventude. Já tivemos um grupo de jovens mas as coisas descambaram e a imagem que ficou foi negativa. Estamos a ver se tentamos avançar com alguma coisa para trabalhar com a Juventude porque eles são os homens e s mulheres de amanhã”.

Aproveitar aqueles que queiram, nos últimos anos da catequese, para trabalhar com eles e dar-lhes formação através de um grupo de jovens “seria o grande trabalho a fazer e mais necessário neste momento”.

Olhando para os onze anos de serviço aos seus conterrâneos, o padre José Sepúlveda Costa destaca as alterações na procissão da Festa de 15 de Agosto, porque havia algum receio das reacções das pessoas mas “o resultado final foi muito bom”.

No ano passado “fizemos uma encenação da Paixão ao vivo e as pessoas ficaram encantadas. Faz-nos bem porque as pessoas aderem e gostam”.

ATLETA E JORNALISTA

“Posso dizer que me custou um bocado quando deixei o futebol, aos 29 anos. Como dizia o meu treinador, naquela altura é que eu podia por a render tudo o que eu tinha mas entendi que o futebol me roubava muito tempo”.

A nostalgia dos campos de futebol ainda está presente no coração do padre José Sepúlveda, um excelente médio ala direito” que brilhou ao serviço da selecção do Seminário e na equipa da sua terra natal, o Adaúfe.

O padre José Sepúlveda Costa tinha talento para o futebol enquanto seminarista e mesmo já depois de ordenado padre, ao serviço da equipa da sua terra, o Grupo Desportivo de Adaúfe, durante oito anos. “Com 29 anos, ainda era o jogador mais rápido do Adaúfe, quando deixei o futebol. A velocidade era uma das minhas armas” — admite este sacerdote que entrou ao serviço dos seus conterrâneos no dia 16 de Fevereiro de 1997, para substituir o padre Hugo Viana, depois de ter estado treze anos ao serviço dos seminários deiocesanos como professor e prefeito.

Em 21 de Setembro do mesmo ano assume definitivamente a paroquialidade mantendo as estruturas existentes que encontrou e dinamizando outras. A conclusão das obras na Igreja e a recuperação da residência paroquial, colocada ao serviço do Centro Social e dos movimentos pastorais assinalam onze anos de serviço a Adaúfe.

Servindo-se do jornal “Mensagem nova”, fundado pelo padre Correia, o pároco de Adaúfe dialoga com a comunidade emigrante constituída por cerca de duas mil almas que abandonou a terra à procura de melhores ganhos para si e para as suas famílias.

Os jovens constituem agora a sua principal preocupação enquanto o projecto para o novo Centro Social está em “banho maria” à espera de financiamento por parte do Estado que idealizou aquele projecto de acordo com as necessidades daquela freguesia e das localidades vizinhas.

A saudade parafraseada



Apertar o dedo numa porta dói.
Bater com o queixo no chão dói.
Um murro, um soco, um pontapé, doem.
Bater com a cabeça na quina da mesa,
dói morder a língua!
Dói a pedra no rim.

Mas o que mais dói é a saudade.
Saudade de um irmão que mora longe.
Saudade do gosto de uma fruta rara.
Saudade do amigo que nos deixou.
Saudade de uma cidade.
Saudade de nós, porque o tempo não perdoa.
Doem essas saudades todas.

Mas a saudade mais dolorosa é a saudade de quem se ama.
Saudade da pele, do cheiro, dos beijos.
Saudade da presença, da ausência forçada.

Podias ficar na sala e ela no quarto, sem se verem, mas sabiam-se lá.
Podias ir ao dentista e ele para a faculdade, mas sabiam-se onde.
Podias ficar o dia sem vê-lo, e ele o dia sem vê-la, mas viam-se amanhã.

Contudo, quando o amor de um acaba, ou torna-se menor,
ao outro sobra a saudade que ninguém sabe como matar.

Saudade é simplesmente
não saber, é ignorar.
É ignorar se ele continua a fungar num ambiente mais frio.
É ignorar se ele continua sem fazer a barba por causa daquela alergia.

É não saber

se ele tem comido bem
por causa daquela mania
de estar sempre ocupado,
se ele tem assistido às aulas,

Se ele ainda sorri com aqueles olhos que falam
Se ele ainda canta as músicas que eu adorava
Se ele continua a gostar dos mesmsos filmes
Se ele escarnece os meus desenhos

Saudade é não saber nada!
É não saber o que fazer com os dias que ficaram mais compridos,
É não saber como encontrar tarefas que lhe encham o pensamento,
É não saber como secar as lágrimas diante de uma música,
É não saber como vencer a dor do silêncio que nada preenche.

Saudade é não querer saber
se ele está com outra, e ao mesmo tempo querer.
É não saber se ele está feliz,

Saudade é nunca mais saber
de quem se ama e ainda assim dói.

Saudade é isso que senti enquanto escrevi
e o que tu, provavelmente, estás a sentir agora,
depois de saber que eu tenho saudades de ti.
Já agora mata-me a saudade
porque queres saber de mim.

Não faço a barba aos sábados
Não sorrio com aqueles olhos que falam
Não canto as tuas canções
Não voltei ao cinema
Nem rio dos teus desenhos.

Os meus dias são mais curtos,
Trabalho e trabalho para esquecer
A desilusão que tu foste
E secou as minhas lágrimas
Apos tanta dor silenciosa!

Nem sei se tenho saudade.
Gostava de lhe dar outro nome
Porque, para Pablo Neruda,
Saudade é "amar um passado que não passou,
É recusar um presente que nos machuca,
É não ver o futuro que nos convida"

... E eu começo a ter saudade
De a tua saudade ignorar
Para voltar a fazer
a barba ao sábado
Para voltar a cantar
Para voltar a sorrir
Para voltar falar alto
E fazer com que outra
Sinta saudade de mim.

Tuesday, April 1, 2008

D. Jorge Ortiga: não aos silêncios cúmplices




Anunciava-se grande expectativa e uma eleição incerta do presidente da Conferência episcopal Portuguesa, mas os bispos portugueses com a sua sabedoria proverbial, resolveram o assunto de uma assentada.

Não chegou a haver caso ou tema de especulação jornalística e D. Jorge Ortiga acabou por suceder a si mesmo, para mais um mandato à frente da Igreja Portuguesa.

O arcebispo Primaz de Braga considera como prioritária a regulamentação da Concordata e promete intensificar
os nossos contactos com o Governo, particularmente na área da regulamentação da Concordata.

Acabou por se registar uma “eleição sem programa nem campanha eleitoral, porque o objectivo é “dar continuidade a um projecto que já tinha assumido”, apostando no “trabalho na iniciação cristã” e procurando que “as dioceses trabalhem em sintonia”.

É uma dupla vitória da Igreja Bracarense que se deve também ao perfil humano e moderado de D. Jorge, dado que na segunda votação, dos 29 bispos eleitores, 16 votaram em D. Jorge Ortiga, enquanto o cardeal patriarca de Lisboa, D. José Policarpo, foi o segundo mais votado.

O vice-presidente, D. António Marto, ex-bispo auxiliar de Braga, foi eleito à terceira volta. Os bispos portugueses aprovaram uma alteração dos estatutos da CEP, que dá a um padre o cargo de secretário e porta-voz. O escolhido é Manuel Morujão, antigo Provincial dos Jesuítas, a servir na Arquidiocese de Braga.

Cansado do cargo e da exposição mediática, o Arcebispo de Braga acabou por se constituir como a ponte que fez o consenso entre dois blocos liderados por Lisboa e Porto.

A Igreja Portuguesa, os cristãos portugueses esperam, para alem da postura consensual de D. Jorge, uma intervenção mais vincada na defesa da dimensão social do homem crente que espera respostas da Igreja e não silêncios coniventes e comprometedores.

Os portugueses anseiam que a Igreja não se enrede nem desgaste energias a lutar pelos seus direitos na Concordata. Esses direitos apenas são importantes se a Igreja Católica Portuguea (pelo seu presidente e no seu conjunto) não correndo se esquecer dos seus deveres: ser a voz dos (cada vez mais) sem voz.

De Arentim até as pedras falam


Arentim — deriva de Argentinim, prateada ou de prata — alarga-se em campos verdes riscados pelo rio Este e pela linha do comboio, colocados em anfiteatro demarcado pelos montes de Santo André e da Pedra Bela de onde s e olha cá para baixo e se vê o velho rio Este. Se olhar ao longe avista a cidade de Braga, à distância de uma légua. Se estiver bom tempo também se avistam as “lanchas no mar”.

A Câmara Municipal de Braga propõe agora aos habitantes das freguesias urbanas uma rota pelas freguesias. Eis o nosso humilde contributo, para que não vão passear sem nada nas mãos que os ajudem num itinerário.

No Monte de S. André terá havido uma capela com o mesmo nome mas existe um penedo “santo” que tem o feitio de uma cama onde dizem estar aí o Santo.

Outrora, este rio tinha águas cristalinas, muitos peixes e, junto aos açudes, os miúdos davam uns mergulhos no Verão, mas agora segue como doente incurável e alquebrado pela poluição visível nos trapos, plásticos e toda a forma de lixo deixada nas suas margens.

No século XVIII, escrevia-se que os peixes mais encontrados no rio eram as “vogas e trutas, escallos e bardos, a maior abundância escallos e som muito gostozos”.

Nessa altura o rio era atravessado através de uma “ponte de traves e paus na estrada que passa da vila de Guimarães para a vila de Barcelos, feita e conservada á custa da freguesia”.

Nascida à sombra de uma villa romana duvidosa ou de um certo e comprovado mosteiro, as pedras são encontradas aqui e ali no lugar do Assento e no Campo da seara — a merecer uma prospecção arqueológica quando houver dinheiro — e até serviram para construir, no século XVII a Velha igreja de Arentim.

O mosteiro de Argintym é mencionado em documentos de 1088, onde se fala do abade Aloitus, seguindo-se outros de 1188 onde já se escreve Arintin e 1477 onde o nome evolui para Aremtim. Em 1514, os documentos disponíveis escrevem Aremtym até que a Corografia Portuguesa de Carvalho da Costa escreve Arentim.

O crescimento de Arentim fica a dever-se à conhecida revolução do milho. Em 1758, as Memórias Paroquiais afirmam a existência de 80 casas e 230 habitantes contra as 270 famílias actuais com quase mil pessoas.

De Arentim, até as pedras falam e podem inspirar o seu tratamento museológico como boa forma de reutilização da Velha Igreja, abandonada há cerca de trinta anos.

No pequeno núcleo museológico instalado provisoriamente na sede da Junta de Freguesia, podemos ver um capitel coríntio dos tempos romanos e é um dos primeiros locais onde se encontraram peças de origem moçárabe.
Existem também dois modilhões de rolos que são os primeiros aparecidos em Portugal e datáveis do século X.


Por falar de pedras, convém fazer uma visita à velha igreja de Arentim, presumivelmente construída no século XVII e com um interior remodelado no século seguinte. Tem pouco valor artístico a sua torre sineira de 1879 (‘os sinos se achavam pendurados em uns paus quasi podres e que ameaçavam ruina o que seria não só de grave prejuízo, quebrando os sinos, mas além disso, indecência e vergonha para a freguesia’).

As alterações à sacristia datam dos anos 60 do século passado, mas encerra um enorme valor sentimental: foi ali que muitos dos habitantes de Arentim casaram, foram baptizados e frequentaram a catequese. Verifica-se que na sua construção foram usadas pedras do antigo mosteiro do lugar do Assento mas sai-se de lá um pouco triste com a sensação de abandono e descuido com que os moradores envolvem as ruas de acesso ao templo.

Do lado direito da porta principal da Igreja Velha pode observar-se uma pedra aparelhada de grandes dimensões que faz recordar a cultura castreja mas também foi utilizada em monumentos medievais.

Na sacristia da Igreja existem outras pedras visigóticas ou moçárabes, eventualmente vindas do antigo mosteiro, citado pela primeira vez nas doações que D. Afonso Henriques faz à Sé de Braga.



O templo original possuía três altares, o maior com a imagem de S. Salvador, outro com a imagem da Senhora do Rosário e um terceiro com a imagem de S. Sebastião e S. António. Em 1758, o pároco dizia que a Igreja pertencera aos Templários…
O povo de Arentim tem agora um novo templo, construído na década de 70, por estímulo do Padre David de Oliveira Martins, com um centro paroquial, onde após o 25 de Abril funcionou sede da Junta de Freguesia e o Grupo Cénico.

Na década de oitenta, uma estudiosa do Museu Martins Sarmento propôs que a Igreja Velha fosse transformada em museu da freguesia de Arentim. Esta igreja corre o risco de ser destruída ou degradada com funções em nada condignas. A comunidade não aceitaria a sua degradação sem protesto. Foi um edifício que congregou ao longo de três séculos a comunidade e o arcebispado, interessado na preservação do seu património não gostará de o ver destruído ou indignadamente degradado.

Por isso, Maria Isabel Fernandes sugeria a recuperação e reutilização da Igreja Velha em núcleo de arqueologia com o material que já existe e com o que encontrará quando se realizarem escavações no Campo da Seara.

E por que não se podem guardar aí os abandonados arados com dentes em pau ou em ferro, os malhos, limpadores de cereais, grades de dentes em pau ou em ferro de preparar a terra para as sementeiras, as sacholas, enxadas, alviões, sachos, engaços ou as carrelas, espadelas, vassouras de giestas ou codeços, sedeiros, jugos ou cangas de arcos ou brocha, cofos, cofinhos, forcalhos, rasas com rasão, etc.?

Capela a merecer classificação

No lugar da estrada existe a melhor pérola do património construído em Arentim: a capela da Senhora das Neves ou de S. Gonçalo, com um altar barroco que o povo diz ter vindo da Velha igreja, quando se fez a sua remodelação, no século XVIII.
A ASPA já pediu a sua classificação, ao IPPAR (então IPPC) em 1982 e até agora não foi tomada qualquer decisão.

A mesma estudiosa que citámos antes, aponta esta capela como escolha alternativa para um núcleo museológico vocacionado para a arte sacra como imagens das antiga Igreja, os oratórios, presépios, imagens em marfim ou madeira existentes em muitas casas da freguesia. Nas “Memórias Paroquiais” de 1758 escreve-se que a festa era celebrada a 5 de Agosto e que nesta capela havia uma imagem de Santa Catarina.

De acordo com um levantamento feito pela ASPA, a pedido do presidente da Junta de Freguesia, em 1980, Alcino Pinto Faria, no interior, esta capela possui boa talha, do segundo período do barroco, e o pavimento está recoberto por lajes de ardósia, o que “parece não ter paralelo no concelho”.

Foram realizadas naquela década obras de recuperação do telhado que estava em ruína total de modo a proteger a talha do altar principal de “excelente qualidade”.

Não estamos perante um grande monumento mas de um “modesto templo rural, construído numa época determinada (antes de 1769) e com personalidade própria que não deve perder”.



Os moinhos negreiros

Arentim possuía em 1758 oito moinhos negreiros no rio Este e alguns ainda se mantinham em funcionamento há pouco mais de uma década mas agora estão abandonados e em decomposição.

Não faz sentido levar as mós para um museu, longe do rio e sem qualquer utilização e onde não se ouvem as águas que correm, o barulho da roda a moer nem se vê o milho transformar-se em farinha.

Monday, March 31, 2008

Economia clandestina fragiliza sector têxtil



Adão Mendes não tem dúvida que “o trabalho infantil está a regressar ao Minho, porque a pobreza no nosso distrito está a aumentar para níveis preocupantes, devido ao desemprego de longa duração”.

Para o Coordenador da União dos Sindicatos de Braga, para além da progressiva perda do direito ao subsídio de desemprego, “as baixas reformas, agravadas com a alteração ao cálculo de reforma lançaram na miséria milhares de trabalhadores do nosso distrito que contavam com reformas de 410 euros e vieram para 360 euros. Os prazos de subsídio de desemprego esgotam-se as pessoas ficam sem nada”.

A prova do que afirma vai buscá-la aos inscritos no Rendimento Social de Inserção que “aumentou quase 20 por cento e há a pobreza envergonhada. Eu vejo aqui em Braga – já não falo do Vale do Ave profundo — algumas pessoas e fico assustado, porque quase não as conheço. São professores e outros que não tem qualquer apoio e estão a entrar numa exclusão social altamente preocupante.

Por isso, o abandono e o insucesso escolar aumentam porque se vêem crianças a fazer tarefas – com menos visibilidade – porque há muitas famílias em que os filhos saíram da escola para serem o único sustento das famílias porque os pais perderam os empregos”.

Estas são algumas das preocupações expressas por Adão Mendes numa entrevista à rádio Antena Minho que transcrevemos hoje, em parte, deixando para próxima edição as suas posições acerca do seu futuro na coordenação da União dos Sindicatos de Braga, ao fim de 19 anos à frente do sindicalismo no distrito de Braga.

PREPARAR
A SUCESSÃO
SEM SOBRESSALTOS

Adão Mendes quer preparar com tranquilidade a sua sucessão na liderança da União dos Sindicatos de Braga (USB), o que pode acontecer ou não no final do mandato, em Outubro.
Adão Mendes considera que deve ser encontrado um novo coordenador já no próximo congresso da USB, marcado para Outubro.

"É minha vontade criar condições para que a alteração seja feita o mais rápido possível, contribuir para isso e não deixar que o processo se arraste até ao limite, podendo depois chegar a um vazio. Por isso, estamos todos a trabalhar para que as coisas se façam com serenidade", adianta.

Eleito no 1.º Congresso da Confederação geral dos Trabalhadores Portugueses para a direcção da estrutura sindical de Braga, Adão Mendes, é natural de Ronfe, Guimarães, operário têxtil na Riopele, com actividade suspensa, é o rosto mais visível do sindicalismo distrital desde há 19 anos.

Numa semana marcada pela descida do IVA em um ponto percentual e a apresentação do Plano estratégico dos Têxteis, Adão Mendes começa por alertar “que boas medidas e bons anúncios nesta região fazem-se muitos”.
Embora sendo “importantes, é bom que depois a gente faça uma retrospectiva àquilo que foram as boas notícias dadas há muitos anos e que se traduziram em pouco mais que nada.

Estas boas notícias trazem-me surpresas negativas. Uma delas é que eu pensava que o dr. Daniel Bessa iria apresentar projectos actualizadíssimos. O que verificamos que quase todas eles assentam em pilares já apresentados em 2002”.

No entender de Adão Mendes, “foi o retomar de um estudo e lembrar caminhos que todos nós já identificamos como necessários. A questão que se coloca é como chegar lá. Que problemas temos de resolver e alguns deles são estruturais que não se querem resolver. São problemas que tem a ver com o sector em si e requerem uma atenção especial. Agora, dizer-se que a chave do sucesso está no design , na moda, na marca e na comercialização, mal de nós se não soubéssemos disso há dez ou quinze anos”.

O problema que se coloca é que o tecido produtivo tradicional, de mono-indústria nos vales do Cavado e do Ave resultou num desemprego elevado. “Se queremos resolver o problema do desemprego temos de começar por estancar os problemas que geram esse desemprego e a destruição do aparelho produtivo”.

E quais são esses problemas? “Se me perguntarem: acentua-se o problema do desemprego na região. Eu digo, acentua-se todos os dias. Quase todas as semanas assistimos a empresas a encerrar e algumas deixam-nos de boca aberta e a perguntar como é que foi possível. Temos trabalhadores que dois dias antes não acreditavam que isso fosse possível .

Outras continuam a emagrecer os seus quadros, de trabalhadores desqualificados mas também trabalhadores qualificados. Normalmente, depois, essas empresas não admitem outros trabalha-dores qualificados para outras actividades de ponta tendo em vista a sua modernização e re-estruturação. É emagrecer, emagrecer mas modernizar muito pouco. A destruição do aparelho produtivo acentua-se com a diminuição da produção.

Quanto ao que há a fazer, perante esta situação, o Coordenador da US aponta medidas.

“É preciso estancar isso, porque se não continuamos a ter desemprego. Depois, o sector vive exclusivamente de mão-de-obra barata e assim não é apetecível para ninguém. Já me convencia que nos próximos 5 ou 7 anos, ou o sector têxtil começa a pagar aos trabalhadores um salário muito acima do salário mínimo nacional, que já é pago noutros sectores, ou vão precisar de trabalha-dores mesmo qualificados e não os tem”.
Para Adão Mendes, “ninguém está disponível neste momento para ter futuro, estabilidade na família, com um salário como este”.
“O que se verifica hoje é que a generalidade dos jovens está a afastar-se dos têxteis” — conclui Adão Mendes para quem o desafio de futuro que se coloca às empresas é este: “as suas exportações estão efectivamente a traduzir mais valia para si, para a região e para o nosso tecido económico?”

A resposta é não, porque, diz, “vamos à vizinha Galiza, temos muitos portugueses a trabalhar nos têxteis e eles trabalham em máquinas iguais às nossas, produzem os mesmos produtos, e chegam ao fim do mês e levam 800 ou 900 euros de salários. Os trabalhadores são os mesmos, as máquinas as mesmas e os produtos os mesmos mas os salários são o dobro”.
Onde está o problema? No entender de Adão Mendes, “está, em primeiro lugar, nas mais valias e para onde elas vão. Se os nossos empresários estão ou não disponíveis para deixarem estas mais valias cá e poderem pagar salários semelhantes aos de Espanha?”

Provando o que disse, prossegue o coordenador da USB: “conheço dois casos de cor, estive com eles na mão. Duas confecções, de Guimarães, produzem diariamente camisas a quatro e cinco euros e já é preciso fazer um sacrifício muito grande nessas pequenas confecções para as venderem a esse preço. As camisas são colocadas no dia seguinte ou passado oito dias a 50 ou 70 euros mas nenhuma mais valia fica naquelas duas empresas. Elas limitam-se a fabricar e alguém fica com todas as mais valias da marca e da etiqueta”.

Por isso, o Adão Mendes não vê com bons olhos a criação daquilo a que chamaram um mega-cluster dos têxteis entre Norte de Portugal e a Galiza e pergunta: “isso reverte para quem? Eles podem fazer tudo o que entenderem mas reverter tudo para Espanha, não. Então façam um contrato de trabalho igual para os trabalhadores do Norte de Portugal àquele que fazem na Galiza”.

ECONOMIA CLANDESTINA
DESTRÓI BOAS EMPRESAS

Grande parte das nossas empresas já estão nas mãos dos espanhóis. Os nomes das nossas empresas familiares, fundadas há 50 anos são quase todas de capital espanhol ou outras e os rendimentos vão todos para lá.

Outro problema é a economia paralela ou clandestina que “funciona na nossa região, com sub-facturação, em alta dimensão. Estamos a falar de 30 a 50 por cento e funciona quase exclusivamente nos têxteis”.

“Eu conheço empresários, não são patrões... — esclarece — que se vêem em dificuldades todos os dias para conseguirem encomendas porque há quem ofereça preços mais baratos mas só querem facturações a meio ou a 30 por cento e por aí fora. Era bom que se chamasse também para esta economia clandestina que funciona no sector e que gera concorrência desleal. Há entidades patronais que tem, quase na clandestinidade, de fazer queixa aos sindicatos ou ao Adão Mendes por causa desta e daquela situação em que são vítimas. Nós temos de actuar porque muitas vezes eles próprios, tendo a sua Associação, tem receio de o fazer sob medo de represálias e por causa do mercado.

Tudo está na questão das mais valias — justifica. Por exemplo, “há uma empresa de Valença que fechou há 6 ou 7 anos, com 600 trabalhadores, e foram quase todos co-locados na Galiza. Muitos deles, dizem ainda bem porque descobrimos uma forma de ganhar o dobro fazendo o mesmo e porque é que a nossa empresa não fechou há mais tempo.

GALIZA EVITA E TRAZ NOVOS PROBLEMAS

A Galiza é desde há alguns anos é uma almofada para o desemprego no Minho, apesar de surgirem aqui e ali alguns problemas.

Primeiro, há uma virtude muito importante: nas parcerias de diálogo do lado da Galiza, com as empresas, o Governo regional e existe uma grande disponibilidade para o diálogo e convidam os minhotos a participar em acções de debate sobre os sectores de actividade.

“A mim surpreende-me o que se passa na Galiza — adverte Adão Mendes que explica: “há quatro anos havia quatro mil trabalhadores. Hoje estão quinze mil registados na Galiza. Dez mil e pouco são do distrito de Braga e se eles vêm por aí abaixo um dia, o que vai ser de nós? Ou se a Galiza não tivesse capacidade para absorver esta mão-de-obra do nosso distrito, o que seria de nós agora?”

MUITOS JOVENS QUALIFICADOS
NA GALIZA

O problema que temos é que a “imensa maioria desta gente que lá está são jovens e são jovens com qualificações superiores aos que ficaram cá. Eles estão lá e quem paga a factura somos nós porque não temos jovens qualificados para trabalhar na nossa região pois os salários não são apetecíveis”.

Na construção civil está sobre a mesa um problema que o preocupa pelas dimensões que pode ter. Um deles é o dumping social que se verifica na Galiza e os problemas que isso pode trazer, embora não seja para já. Mas há outro problema.

“Na Galiza, há um contrato de trabalho, com valores salariais mínimos, à volta dos 900 euros por mês, mas há quem se sujeite a trabalhar mais para ganhar mais do que cá mas ganham menos que os espanhóis que trabalham no mesmo sector. Está a criar um problema para os operários espanhóis e de concorrência desleal entre as empresas que apresentam orçamentos para projectos e depois recorrem a sub-contratação de empreiteiros portugueses que pagam menos. Há gente a ganhar dinheiro no meio deste mercado negro sem fazer nada”.

Daí, o anúncio de de greves na próxima semana pela não aplicação dos contratos.