Saturday, April 12, 2008

A saudade parafraseada



Apertar o dedo numa porta dói.
Bater com o queixo no chão dói.
Um murro, um soco, um pontapé, doem.
Bater com a cabeça na quina da mesa,
dói morder a língua!
Dói a pedra no rim.

Mas o que mais dói é a saudade.
Saudade de um irmão que mora longe.
Saudade do gosto de uma fruta rara.
Saudade do amigo que nos deixou.
Saudade de uma cidade.
Saudade de nós, porque o tempo não perdoa.
Doem essas saudades todas.

Mas a saudade mais dolorosa é a saudade de quem se ama.
Saudade da pele, do cheiro, dos beijos.
Saudade da presença, da ausência forçada.

Podias ficar na sala e ela no quarto, sem se verem, mas sabiam-se lá.
Podias ir ao dentista e ele para a faculdade, mas sabiam-se onde.
Podias ficar o dia sem vê-lo, e ele o dia sem vê-la, mas viam-se amanhã.

Contudo, quando o amor de um acaba, ou torna-se menor,
ao outro sobra a saudade que ninguém sabe como matar.

Saudade é simplesmente
não saber, é ignorar.
É ignorar se ele continua a fungar num ambiente mais frio.
É ignorar se ele continua sem fazer a barba por causa daquela alergia.

É não saber

se ele tem comido bem
por causa daquela mania
de estar sempre ocupado,
se ele tem assistido às aulas,

Se ele ainda sorri com aqueles olhos que falam
Se ele ainda canta as músicas que eu adorava
Se ele continua a gostar dos mesmsos filmes
Se ele escarnece os meus desenhos

Saudade é não saber nada!
É não saber o que fazer com os dias que ficaram mais compridos,
É não saber como encontrar tarefas que lhe encham o pensamento,
É não saber como secar as lágrimas diante de uma música,
É não saber como vencer a dor do silêncio que nada preenche.

Saudade é não querer saber
se ele está com outra, e ao mesmo tempo querer.
É não saber se ele está feliz,

Saudade é nunca mais saber
de quem se ama e ainda assim dói.

Saudade é isso que senti enquanto escrevi
e o que tu, provavelmente, estás a sentir agora,
depois de saber que eu tenho saudades de ti.
Já agora mata-me a saudade
porque queres saber de mim.

Não faço a barba aos sábados
Não sorrio com aqueles olhos que falam
Não canto as tuas canções
Não voltei ao cinema
Nem rio dos teus desenhos.

Os meus dias são mais curtos,
Trabalho e trabalho para esquecer
A desilusão que tu foste
E secou as minhas lágrimas
Apos tanta dor silenciosa!

Nem sei se tenho saudade.
Gostava de lhe dar outro nome
Porque, para Pablo Neruda,
Saudade é "amar um passado que não passou,
É recusar um presente que nos machuca,
É não ver o futuro que nos convida"

... E eu começo a ter saudade
De a tua saudade ignorar
Para voltar a fazer
a barba ao sábado
Para voltar a cantar
Para voltar a sorrir
Para voltar falar alto
E fazer com que outra
Sinta saudade de mim.

Tuesday, April 1, 2008

D. Jorge Ortiga: não aos silêncios cúmplices




Anunciava-se grande expectativa e uma eleição incerta do presidente da Conferência episcopal Portuguesa, mas os bispos portugueses com a sua sabedoria proverbial, resolveram o assunto de uma assentada.

Não chegou a haver caso ou tema de especulação jornalística e D. Jorge Ortiga acabou por suceder a si mesmo, para mais um mandato à frente da Igreja Portuguesa.

O arcebispo Primaz de Braga considera como prioritária a regulamentação da Concordata e promete intensificar
os nossos contactos com o Governo, particularmente na área da regulamentação da Concordata.

Acabou por se registar uma “eleição sem programa nem campanha eleitoral, porque o objectivo é “dar continuidade a um projecto que já tinha assumido”, apostando no “trabalho na iniciação cristã” e procurando que “as dioceses trabalhem em sintonia”.

É uma dupla vitória da Igreja Bracarense que se deve também ao perfil humano e moderado de D. Jorge, dado que na segunda votação, dos 29 bispos eleitores, 16 votaram em D. Jorge Ortiga, enquanto o cardeal patriarca de Lisboa, D. José Policarpo, foi o segundo mais votado.

O vice-presidente, D. António Marto, ex-bispo auxiliar de Braga, foi eleito à terceira volta. Os bispos portugueses aprovaram uma alteração dos estatutos da CEP, que dá a um padre o cargo de secretário e porta-voz. O escolhido é Manuel Morujão, antigo Provincial dos Jesuítas, a servir na Arquidiocese de Braga.

Cansado do cargo e da exposição mediática, o Arcebispo de Braga acabou por se constituir como a ponte que fez o consenso entre dois blocos liderados por Lisboa e Porto.

A Igreja Portuguesa, os cristãos portugueses esperam, para alem da postura consensual de D. Jorge, uma intervenção mais vincada na defesa da dimensão social do homem crente que espera respostas da Igreja e não silêncios coniventes e comprometedores.

Os portugueses anseiam que a Igreja não se enrede nem desgaste energias a lutar pelos seus direitos na Concordata. Esses direitos apenas são importantes se a Igreja Católica Portuguea (pelo seu presidente e no seu conjunto) não correndo se esquecer dos seus deveres: ser a voz dos (cada vez mais) sem voz.

De Arentim até as pedras falam


Arentim — deriva de Argentinim, prateada ou de prata — alarga-se em campos verdes riscados pelo rio Este e pela linha do comboio, colocados em anfiteatro demarcado pelos montes de Santo André e da Pedra Bela de onde s e olha cá para baixo e se vê o velho rio Este. Se olhar ao longe avista a cidade de Braga, à distância de uma légua. Se estiver bom tempo também se avistam as “lanchas no mar”.

A Câmara Municipal de Braga propõe agora aos habitantes das freguesias urbanas uma rota pelas freguesias. Eis o nosso humilde contributo, para que não vão passear sem nada nas mãos que os ajudem num itinerário.

No Monte de S. André terá havido uma capela com o mesmo nome mas existe um penedo “santo” que tem o feitio de uma cama onde dizem estar aí o Santo.

Outrora, este rio tinha águas cristalinas, muitos peixes e, junto aos açudes, os miúdos davam uns mergulhos no Verão, mas agora segue como doente incurável e alquebrado pela poluição visível nos trapos, plásticos e toda a forma de lixo deixada nas suas margens.

No século XVIII, escrevia-se que os peixes mais encontrados no rio eram as “vogas e trutas, escallos e bardos, a maior abundância escallos e som muito gostozos”.

Nessa altura o rio era atravessado através de uma “ponte de traves e paus na estrada que passa da vila de Guimarães para a vila de Barcelos, feita e conservada á custa da freguesia”.

Nascida à sombra de uma villa romana duvidosa ou de um certo e comprovado mosteiro, as pedras são encontradas aqui e ali no lugar do Assento e no Campo da seara — a merecer uma prospecção arqueológica quando houver dinheiro — e até serviram para construir, no século XVII a Velha igreja de Arentim.

O mosteiro de Argintym é mencionado em documentos de 1088, onde se fala do abade Aloitus, seguindo-se outros de 1188 onde já se escreve Arintin e 1477 onde o nome evolui para Aremtim. Em 1514, os documentos disponíveis escrevem Aremtym até que a Corografia Portuguesa de Carvalho da Costa escreve Arentim.

O crescimento de Arentim fica a dever-se à conhecida revolução do milho. Em 1758, as Memórias Paroquiais afirmam a existência de 80 casas e 230 habitantes contra as 270 famílias actuais com quase mil pessoas.

De Arentim, até as pedras falam e podem inspirar o seu tratamento museológico como boa forma de reutilização da Velha Igreja, abandonada há cerca de trinta anos.

No pequeno núcleo museológico instalado provisoriamente na sede da Junta de Freguesia, podemos ver um capitel coríntio dos tempos romanos e é um dos primeiros locais onde se encontraram peças de origem moçárabe.
Existem também dois modilhões de rolos que são os primeiros aparecidos em Portugal e datáveis do século X.


Por falar de pedras, convém fazer uma visita à velha igreja de Arentim, presumivelmente construída no século XVII e com um interior remodelado no século seguinte. Tem pouco valor artístico a sua torre sineira de 1879 (‘os sinos se achavam pendurados em uns paus quasi podres e que ameaçavam ruina o que seria não só de grave prejuízo, quebrando os sinos, mas além disso, indecência e vergonha para a freguesia’).

As alterações à sacristia datam dos anos 60 do século passado, mas encerra um enorme valor sentimental: foi ali que muitos dos habitantes de Arentim casaram, foram baptizados e frequentaram a catequese. Verifica-se que na sua construção foram usadas pedras do antigo mosteiro do lugar do Assento mas sai-se de lá um pouco triste com a sensação de abandono e descuido com que os moradores envolvem as ruas de acesso ao templo.

Do lado direito da porta principal da Igreja Velha pode observar-se uma pedra aparelhada de grandes dimensões que faz recordar a cultura castreja mas também foi utilizada em monumentos medievais.

Na sacristia da Igreja existem outras pedras visigóticas ou moçárabes, eventualmente vindas do antigo mosteiro, citado pela primeira vez nas doações que D. Afonso Henriques faz à Sé de Braga.



O templo original possuía três altares, o maior com a imagem de S. Salvador, outro com a imagem da Senhora do Rosário e um terceiro com a imagem de S. Sebastião e S. António. Em 1758, o pároco dizia que a Igreja pertencera aos Templários…
O povo de Arentim tem agora um novo templo, construído na década de 70, por estímulo do Padre David de Oliveira Martins, com um centro paroquial, onde após o 25 de Abril funcionou sede da Junta de Freguesia e o Grupo Cénico.

Na década de oitenta, uma estudiosa do Museu Martins Sarmento propôs que a Igreja Velha fosse transformada em museu da freguesia de Arentim. Esta igreja corre o risco de ser destruída ou degradada com funções em nada condignas. A comunidade não aceitaria a sua degradação sem protesto. Foi um edifício que congregou ao longo de três séculos a comunidade e o arcebispado, interessado na preservação do seu património não gostará de o ver destruído ou indignadamente degradado.

Por isso, Maria Isabel Fernandes sugeria a recuperação e reutilização da Igreja Velha em núcleo de arqueologia com o material que já existe e com o que encontrará quando se realizarem escavações no Campo da Seara.

E por que não se podem guardar aí os abandonados arados com dentes em pau ou em ferro, os malhos, limpadores de cereais, grades de dentes em pau ou em ferro de preparar a terra para as sementeiras, as sacholas, enxadas, alviões, sachos, engaços ou as carrelas, espadelas, vassouras de giestas ou codeços, sedeiros, jugos ou cangas de arcos ou brocha, cofos, cofinhos, forcalhos, rasas com rasão, etc.?

Capela a merecer classificação

No lugar da estrada existe a melhor pérola do património construído em Arentim: a capela da Senhora das Neves ou de S. Gonçalo, com um altar barroco que o povo diz ter vindo da Velha igreja, quando se fez a sua remodelação, no século XVIII.
A ASPA já pediu a sua classificação, ao IPPAR (então IPPC) em 1982 e até agora não foi tomada qualquer decisão.

A mesma estudiosa que citámos antes, aponta esta capela como escolha alternativa para um núcleo museológico vocacionado para a arte sacra como imagens das antiga Igreja, os oratórios, presépios, imagens em marfim ou madeira existentes em muitas casas da freguesia. Nas “Memórias Paroquiais” de 1758 escreve-se que a festa era celebrada a 5 de Agosto e que nesta capela havia uma imagem de Santa Catarina.

De acordo com um levantamento feito pela ASPA, a pedido do presidente da Junta de Freguesia, em 1980, Alcino Pinto Faria, no interior, esta capela possui boa talha, do segundo período do barroco, e o pavimento está recoberto por lajes de ardósia, o que “parece não ter paralelo no concelho”.

Foram realizadas naquela década obras de recuperação do telhado que estava em ruína total de modo a proteger a talha do altar principal de “excelente qualidade”.

Não estamos perante um grande monumento mas de um “modesto templo rural, construído numa época determinada (antes de 1769) e com personalidade própria que não deve perder”.



Os moinhos negreiros

Arentim possuía em 1758 oito moinhos negreiros no rio Este e alguns ainda se mantinham em funcionamento há pouco mais de uma década mas agora estão abandonados e em decomposição.

Não faz sentido levar as mós para um museu, longe do rio e sem qualquer utilização e onde não se ouvem as águas que correm, o barulho da roda a moer nem se vê o milho transformar-se em farinha.

Monday, March 31, 2008

Economia clandestina fragiliza sector têxtil



Adão Mendes não tem dúvida que “o trabalho infantil está a regressar ao Minho, porque a pobreza no nosso distrito está a aumentar para níveis preocupantes, devido ao desemprego de longa duração”.

Para o Coordenador da União dos Sindicatos de Braga, para além da progressiva perda do direito ao subsídio de desemprego, “as baixas reformas, agravadas com a alteração ao cálculo de reforma lançaram na miséria milhares de trabalhadores do nosso distrito que contavam com reformas de 410 euros e vieram para 360 euros. Os prazos de subsídio de desemprego esgotam-se as pessoas ficam sem nada”.

A prova do que afirma vai buscá-la aos inscritos no Rendimento Social de Inserção que “aumentou quase 20 por cento e há a pobreza envergonhada. Eu vejo aqui em Braga – já não falo do Vale do Ave profundo — algumas pessoas e fico assustado, porque quase não as conheço. São professores e outros que não tem qualquer apoio e estão a entrar numa exclusão social altamente preocupante.

Por isso, o abandono e o insucesso escolar aumentam porque se vêem crianças a fazer tarefas – com menos visibilidade – porque há muitas famílias em que os filhos saíram da escola para serem o único sustento das famílias porque os pais perderam os empregos”.

Estas são algumas das preocupações expressas por Adão Mendes numa entrevista à rádio Antena Minho que transcrevemos hoje, em parte, deixando para próxima edição as suas posições acerca do seu futuro na coordenação da União dos Sindicatos de Braga, ao fim de 19 anos à frente do sindicalismo no distrito de Braga.

PREPARAR
A SUCESSÃO
SEM SOBRESSALTOS

Adão Mendes quer preparar com tranquilidade a sua sucessão na liderança da União dos Sindicatos de Braga (USB), o que pode acontecer ou não no final do mandato, em Outubro.
Adão Mendes considera que deve ser encontrado um novo coordenador já no próximo congresso da USB, marcado para Outubro.

"É minha vontade criar condições para que a alteração seja feita o mais rápido possível, contribuir para isso e não deixar que o processo se arraste até ao limite, podendo depois chegar a um vazio. Por isso, estamos todos a trabalhar para que as coisas se façam com serenidade", adianta.

Eleito no 1.º Congresso da Confederação geral dos Trabalhadores Portugueses para a direcção da estrutura sindical de Braga, Adão Mendes, é natural de Ronfe, Guimarães, operário têxtil na Riopele, com actividade suspensa, é o rosto mais visível do sindicalismo distrital desde há 19 anos.

Numa semana marcada pela descida do IVA em um ponto percentual e a apresentação do Plano estratégico dos Têxteis, Adão Mendes começa por alertar “que boas medidas e bons anúncios nesta região fazem-se muitos”.
Embora sendo “importantes, é bom que depois a gente faça uma retrospectiva àquilo que foram as boas notícias dadas há muitos anos e que se traduziram em pouco mais que nada.

Estas boas notícias trazem-me surpresas negativas. Uma delas é que eu pensava que o dr. Daniel Bessa iria apresentar projectos actualizadíssimos. O que verificamos que quase todas eles assentam em pilares já apresentados em 2002”.

No entender de Adão Mendes, “foi o retomar de um estudo e lembrar caminhos que todos nós já identificamos como necessários. A questão que se coloca é como chegar lá. Que problemas temos de resolver e alguns deles são estruturais que não se querem resolver. São problemas que tem a ver com o sector em si e requerem uma atenção especial. Agora, dizer-se que a chave do sucesso está no design , na moda, na marca e na comercialização, mal de nós se não soubéssemos disso há dez ou quinze anos”.

O problema que se coloca é que o tecido produtivo tradicional, de mono-indústria nos vales do Cavado e do Ave resultou num desemprego elevado. “Se queremos resolver o problema do desemprego temos de começar por estancar os problemas que geram esse desemprego e a destruição do aparelho produtivo”.

E quais são esses problemas? “Se me perguntarem: acentua-se o problema do desemprego na região. Eu digo, acentua-se todos os dias. Quase todas as semanas assistimos a empresas a encerrar e algumas deixam-nos de boca aberta e a perguntar como é que foi possível. Temos trabalhadores que dois dias antes não acreditavam que isso fosse possível .

Outras continuam a emagrecer os seus quadros, de trabalhadores desqualificados mas também trabalhadores qualificados. Normalmente, depois, essas empresas não admitem outros trabalha-dores qualificados para outras actividades de ponta tendo em vista a sua modernização e re-estruturação. É emagrecer, emagrecer mas modernizar muito pouco. A destruição do aparelho produtivo acentua-se com a diminuição da produção.

Quanto ao que há a fazer, perante esta situação, o Coordenador da US aponta medidas.

“É preciso estancar isso, porque se não continuamos a ter desemprego. Depois, o sector vive exclusivamente de mão-de-obra barata e assim não é apetecível para ninguém. Já me convencia que nos próximos 5 ou 7 anos, ou o sector têxtil começa a pagar aos trabalhadores um salário muito acima do salário mínimo nacional, que já é pago noutros sectores, ou vão precisar de trabalha-dores mesmo qualificados e não os tem”.
Para Adão Mendes, “ninguém está disponível neste momento para ter futuro, estabilidade na família, com um salário como este”.
“O que se verifica hoje é que a generalidade dos jovens está a afastar-se dos têxteis” — conclui Adão Mendes para quem o desafio de futuro que se coloca às empresas é este: “as suas exportações estão efectivamente a traduzir mais valia para si, para a região e para o nosso tecido económico?”

A resposta é não, porque, diz, “vamos à vizinha Galiza, temos muitos portugueses a trabalhar nos têxteis e eles trabalham em máquinas iguais às nossas, produzem os mesmos produtos, e chegam ao fim do mês e levam 800 ou 900 euros de salários. Os trabalhadores são os mesmos, as máquinas as mesmas e os produtos os mesmos mas os salários são o dobro”.
Onde está o problema? No entender de Adão Mendes, “está, em primeiro lugar, nas mais valias e para onde elas vão. Se os nossos empresários estão ou não disponíveis para deixarem estas mais valias cá e poderem pagar salários semelhantes aos de Espanha?”

Provando o que disse, prossegue o coordenador da USB: “conheço dois casos de cor, estive com eles na mão. Duas confecções, de Guimarães, produzem diariamente camisas a quatro e cinco euros e já é preciso fazer um sacrifício muito grande nessas pequenas confecções para as venderem a esse preço. As camisas são colocadas no dia seguinte ou passado oito dias a 50 ou 70 euros mas nenhuma mais valia fica naquelas duas empresas. Elas limitam-se a fabricar e alguém fica com todas as mais valias da marca e da etiqueta”.

Por isso, o Adão Mendes não vê com bons olhos a criação daquilo a que chamaram um mega-cluster dos têxteis entre Norte de Portugal e a Galiza e pergunta: “isso reverte para quem? Eles podem fazer tudo o que entenderem mas reverter tudo para Espanha, não. Então façam um contrato de trabalho igual para os trabalhadores do Norte de Portugal àquele que fazem na Galiza”.

ECONOMIA CLANDESTINA
DESTRÓI BOAS EMPRESAS

Grande parte das nossas empresas já estão nas mãos dos espanhóis. Os nomes das nossas empresas familiares, fundadas há 50 anos são quase todas de capital espanhol ou outras e os rendimentos vão todos para lá.

Outro problema é a economia paralela ou clandestina que “funciona na nossa região, com sub-facturação, em alta dimensão. Estamos a falar de 30 a 50 por cento e funciona quase exclusivamente nos têxteis”.

“Eu conheço empresários, não são patrões... — esclarece — que se vêem em dificuldades todos os dias para conseguirem encomendas porque há quem ofereça preços mais baratos mas só querem facturações a meio ou a 30 por cento e por aí fora. Era bom que se chamasse também para esta economia clandestina que funciona no sector e que gera concorrência desleal. Há entidades patronais que tem, quase na clandestinidade, de fazer queixa aos sindicatos ou ao Adão Mendes por causa desta e daquela situação em que são vítimas. Nós temos de actuar porque muitas vezes eles próprios, tendo a sua Associação, tem receio de o fazer sob medo de represálias e por causa do mercado.

Tudo está na questão das mais valias — justifica. Por exemplo, “há uma empresa de Valença que fechou há 6 ou 7 anos, com 600 trabalhadores, e foram quase todos co-locados na Galiza. Muitos deles, dizem ainda bem porque descobrimos uma forma de ganhar o dobro fazendo o mesmo e porque é que a nossa empresa não fechou há mais tempo.

GALIZA EVITA E TRAZ NOVOS PROBLEMAS

A Galiza é desde há alguns anos é uma almofada para o desemprego no Minho, apesar de surgirem aqui e ali alguns problemas.

Primeiro, há uma virtude muito importante: nas parcerias de diálogo do lado da Galiza, com as empresas, o Governo regional e existe uma grande disponibilidade para o diálogo e convidam os minhotos a participar em acções de debate sobre os sectores de actividade.

“A mim surpreende-me o que se passa na Galiza — adverte Adão Mendes que explica: “há quatro anos havia quatro mil trabalhadores. Hoje estão quinze mil registados na Galiza. Dez mil e pouco são do distrito de Braga e se eles vêm por aí abaixo um dia, o que vai ser de nós? Ou se a Galiza não tivesse capacidade para absorver esta mão-de-obra do nosso distrito, o que seria de nós agora?”

MUITOS JOVENS QUALIFICADOS
NA GALIZA

O problema que temos é que a “imensa maioria desta gente que lá está são jovens e são jovens com qualificações superiores aos que ficaram cá. Eles estão lá e quem paga a factura somos nós porque não temos jovens qualificados para trabalhar na nossa região pois os salários não são apetecíveis”.

Na construção civil está sobre a mesa um problema que o preocupa pelas dimensões que pode ter. Um deles é o dumping social que se verifica na Galiza e os problemas que isso pode trazer, embora não seja para já. Mas há outro problema.

“Na Galiza, há um contrato de trabalho, com valores salariais mínimos, à volta dos 900 euros por mês, mas há quem se sujeite a trabalhar mais para ganhar mais do que cá mas ganham menos que os espanhóis que trabalham no mesmo sector. Está a criar um problema para os operários espanhóis e de concorrência desleal entre as empresas que apresentam orçamentos para projectos e depois recorrem a sub-contratação de empreiteiros portugueses que pagam menos. Há gente a ganhar dinheiro no meio deste mercado negro sem fazer nada”.

Daí, o anúncio de de greves na próxima semana pela não aplicação dos contratos.

A escola numa encruzilhada vital



Alunos e professores do ensino pré-escolar ao secundário regressam às aulas, para começar o terceiro período escolar que fica marcado pela contestação dos docentes, com protestos e manifestações todas as segundas-feiras contra a política educativa do Governo.

O arranque do último período escolar fica marcado pela discussão em torno da violência escolar, depois do episódio vivido na escola Carolina Michaelis, no Porto, que envolveu uma aluna de 15 anos e uma professora, no último dia de aulas antes das férias da Páscoa.

Este triste facto deve levar-nos a pensar em escolas com um projecto educativo construído por todos e, mais do que castigar, têm de mudar, para que os alunos se sintam lá bem e aprendam.

Enquanto não construirmos uma escola que seja um lugar de educação, onde todos estão empenhados numa boa gestão, capaz de influenciar a vida dentro do estabelecimento, de prevenir situações de indisciplina ou violência, não podemos dormir sossegados.

Os casos de indisciplina e violência voltam a tornar clara a necessidade da escola escolas ser dotada de psicólogos, mediadores de conflitos, assistentes sociais, animadores, técnicos de educação que possam colaborar com os professores na prevenção e resolução destes problemas.

O ambiente anunciado para este terceiro período não deixa antever que os verdadeiros problemas da escola sejam estudados com a serenidade que merecem.

Afinal, está em causa o futuro do país e do melhor que ele possui: os seus adolescentes e jovens.

Era bom que as segundas-feiras de protesto, anunciadas pelos professores fossem substituídas por terça, quartas, quintas e sextas-feiras de diálogo sobre a melhor forma de construir a escola do futuro.

É hora de pais, professores, alunos e governo colocarem os interesses do pais acima do caminho para o abismo que a escola portuguesa está a palmilhar, com culpa e responsabilidade de todos. Ninguém pode estender o dedo acusador.

Saturday, March 29, 2008

Braga:sair da cidade para as aldeias




Mais Braga... na rota das freguesias’ é o programa que a Câmara Municipal propõe para todos. aos sábados, já a partir de hoje e até 5 de Julho. O objectivo é mostrar toda a realidade do concelho de Braga aos bracarenses.

O programa ‘Na rota das freguesias’ pretende mostrar as áreas rurais ao público que vive no perímetro urbano; e ‘Jogos sem Limites’ visa proporcionar momentos de convívio e “Saudável competição” entre as diversas freguesias.

Os ‘Jogos sem Limites’ começam hoje, na Avenida Central, com a primeira eliminatória a envolver as freguesias da Sé, Cividade, S.Victor, S. Lázaro, S. João do Souto, S. Vicente e Maximinos.
Em cada sábado, disputam-se as restantes eliminatórias.

Depois da Feira das Freguesias, em 2007, em que estas mostraram algum do seu vasto património, este ano, o município propõe um movimento inverso: levar os residentes na área urbana a conhecer os aglomerados populacionais nas freguesias rurais.

Pela minha experiência profissional, posso garantir àqueles que aderirem a estas visitas que vão ficar e ser surpreendidos com algumas coisas que vão encontrar nas freguesias rurais.

Qualquer pessoa pode participar nas visitas, bastando fazer a inscrição no Posto de Turismo ou na sede da Junta.

Aos bracarenses da cidade é dada assim oportunidade de constatar que Braga é um concelho homogéneo e que há boa qualidade de vida nas freguesias e uma enorme riqueza patrimonial, cultural, histórica e económica.



As freguesias de Braga oferecem a cada visitante algo de surpreendente que desconhecemos e quem não conhece não ama.

Há muito boa gente que não conhece essa realidade concreta das 55 freguesias e, para alem de não a apreciar, inspira muito disparate.

É por isso que esta iniciativa pode contribuir muito para a criação de uma alma bracarense, não assente num bairrismo bacoco, mas numa sadia vaidade de ser bracarense.

Braga é assim tão forreta?

Leio uma vez no site da Internet e não acredito. Deve ser erro e procuro ler a notícia no jornal e é igual.
Não posso acreditar que seja verdade o que aconteceu em Braga, com os seus mais de 170 mil habitants, durante quarto dias de Fevereiro.

A Cáritas de Braga recolheu 770 euros no peditório de rua realizado nos dias 21 a 24 de Fevereiro passado, no âmbito da Semana Nacional da Cáritas.

Este ano, o lema era: “Acolhe a diversidade – abre portas à igualdade” mas os bracarenses fecharam as portas e as bolsas ao desenvolvimento da acção social levada a cabo por esta estrutura ligada à Igreja.

A Cáritas presta diariamente tendimento social; dispõe de um refeitório social; balneários sociais para cuidados de higiene; roupeiros; coordena voluntários; possui um banco de equipamento médico-hospitalar; acompanha vítimas de violência doméstica; forma agentes sócio-caritativos e de grupos desfavorecidos.

A realização deste peditório público, apenas mostra que a Cáritas não pode contar com a colaboração e generosidade das pessoas, que, através da partilha dos seus bens, constituem o sustento de toda a acção sócio-caritativa da instituição.

Muito menos, os 770 euros recolhidos, numa cidade com mais de uma centena de milhar de habitantes, constituem o incentivo para aqueles que voluntariamente tornam possível a ajuda das pessoas mais desfavorecidas da nossa sociedade.

Os bracarenses não podem dizer que ignoram que a Cáritas assegura roupas, cobertores, calçado… a centenas de carenciados oriundos dos principais “bairros” e zonas pobres de Braga

A maioria dos bracarenses não pode dizer que desconhece o fornecimento de uma refeição por dia gratuitamente, a cerca de 45 pessoas, totalizando quase sete mil refeições no ano passado.

A esmagadora maioria dos bracarenses não pode ignorar a dedicação de dezenas de voluntários e generosidade de imensas escolas, juntas de freguesia, empresas e parceiros sociais.

Sem as empresas e outros parceiros sociais era impossível manter o serviço diário de tantos voluntários e os 770 euros e oitenta centavos recolhidos em quatro dias apenas semeiam desânimo junto de quem teima em dar de si, do seu tempo em favor dos outros.

Recuso-me a acreditar que Braga seja uma cidade tão ingrata e tão forreta ou sumítica.