Monday, March 24, 2008

D. António Ribeiro, 10 anos depois



Há precisamente dez anos, a morte desta minhoto “veio roubar à Igreja em Portugal uma das suas figuras mais carismáticas nestas três últimas décadas do século XX” .
Após prolongado sofrimento, no dia 24 de Março de 1998, faleceu, em Lisboa, D. António Ribeiro, este homem nascido em S. Clemente de Basto, na diocese de Braga.

Depois de frequentar os seminários de Braga foi ordenado em Julho de 1953. O arcebispo de Braga, D. António Bento Martins Júnior, manda-o estudar para Roma onde se doutorou sob inspiração de S. Tomás de Aquino.

Depois de uma séria formação humanística, filosófica e teológica, cedo foi lançado para a ribalta da Comunicação Social. De 1959 a 1964 apresenta, aos sábados, na RTP, o programa «Encruzilhadas da Vida», em que debate temas de actualidade, sugeridos pelos próprios telespectadores.

Nos três anos seguintes é o rosto do programa televisivo, «Dia do Senhor» onde demonstra todas as qualidades de comunicador, aliadas a apurado sentido crítico e rara capacidade de leitura cristã dos acontecimentos.

Quantos rituais são celebrados pelos cristãos sem saberem porquê. Se soubessem um pouco mais, saboreavam-nos melhor.

Para além de trabalhar na área da Comunicação Social, o futuro patriarca foi assistente nacional da Liga Universitária Católica e das associações de médicos, farmacêuticos, juristas, engenheiros e professores.

Aos 39 anos, a Igreja escolhe-o para suceder, na diocese moçambicana da Beira, ao carismático D. Sebastião Soares de Resende. Era uma tarefa difícil, mas Deus voltou a escrever direito por linhas tortas.

O regime fascista impediu que o novo bispo fosse para Moçambique, sendo nomeado auxiliar de Braga, em Setembro de 1967.

Oriundo da montanha, via o mundo a partir de cima e usava uma técnica jornalística requintada: o que podia dizer numa frase não gastava um discurso, e se fosse suficiente o gesto, não usava palavras.

Era um homem solene como uma catedral e simples como uma capela de aldeia.

«EX FIDE IN FIDEM» — Da fé na Fé — era a sua divisa de uma flagrante actualidade e necessidade: exprime a vontade de ajudar o Povo de Deus a crescer na fé, em ordem a um cristianismo cada vez mais consciente e adulto.

A festa da Paz(coa)



Os povos de Cristelo Côvo, em Valença, e de Sobrado, na Galiza, atravessam hoje o rio Minho, de barco, para dar a beijar a cruz na outra margem do rio.

A meio da tarde, o pároco de Cristelo Covo embarca até à outra margem, levando a cruz a beijar à população de Sobrado; depois a viagem é retribuída pelo pároco da aldeia galega, que cumpre idêntico ritual em solo português.

Os povos das duas margens acabam por se reunir em Cristelo Côvo, transformando o compasso pascal num arraial improvisado.

O rio enche-se de pequenas embarcações e na margem portuguesa os bombos misturam-se com as gaitas de foles e os viras com as "muinheiras", numa pura romaria luso-galaica.

Enquanto dura o "intercâmbio" de cruzes, os pescadores lançam as redes benzidas ao rio, e todo o peixe recolhido é entregue ao pároco português.

O "Lanço da Cruz" é o ponto alto dos tradicionais festejos em honra da Senhora da Cabeça, que decorrem em Cristelo Côvo amanhã.

Do programa da festa, destaca-se a missa para os galegos, celebrada em galego pelo pároco de Sobrado, na Capela da Senhora da Cabeça, a que se segue outra missa, mas desta vez em português.

Os peregrinos comem, depois, as suas merendas nas sombras do parque de Nossa Senhora da Cabeça, mandando a tradição que o farnel seja constituído sobretudo pelo que sobrou do carneiro da Páscoa.

Encontramos nesta festa um conjunto de sinais que nos despertam para uma forma de vida diferente: o dialogo entre os povos, com as suas melodias da sua alma espiritual através de línguas diferentes que anulam as barreiras das fronteiras que dividem e constroem a união.

A partilha do resultado do nosso trabalho abençoado, seja a pesca seja a festa, entre povos de aldeias diferentes com almas diversas é outra das lições destas duas terras de países diferentes.

Tudo isto para concluir mais uma vez que a festa da páscoa é a celebração da paz.

Cristo ressuscitado, quando aparece pela primeira vez aos seus apóstolos, ainda atônitos e desconsolados com a morte na Cruz, não se apresenta como o que está Vivo, mas saúda-os: a Paz esteja convosco.

A vida sem paz, dentro e fora de nós, não é Páscoa. Ao ressuscitar, Cristo torna-se assim a fonte de onde brota a verdadeira paz.

Wednesday, March 19, 2008

Braga: o alfaiate que lanchou com Oliveira Salazar




É um dos fundadores da sociedade constituída por dezenas de bracarenses que criou o antigo Nosso Café – como protesto contra o seu aumento - mas bem pode ser definido como o “alfaiate que lanchou com Oliveira Salazar”.

Dessa sociedade apenas resta ele e o “Paulo das Louças” e no seu atelier, à sombra da Capela da Lapa, na Arcada, guarda ainda uma velha fotografia encaixilhada, com todos os que se revoltaram contra o aumento do preço do café e fundaram aquela sociedade que há-de gerir aquela casa, na Avenida da Liberdade, até ao fim do século XX.

A sua arte de alfaiataria – masculina e feminina - foi conhecida por António Oliveira Salazar, uma vez que teve o privilégio de lanchar com ele, na casa do Comendador Nogueira da Silva, quando foi levar um dos seus trabalhos a casa deste cliente ilustre da Alfaiataria Oliveira, constituída pelos irmãos Alfredo e Geraldo, após a morte do pai.

Estamos a falar do Geraldo (Pereira de Oliveira) do alto dos seus 85 anos, “feitos em Setembro”, que herdou a arte do corte e costura de seu avô, Baltazar, que tinha uma alfaiataria onde hoje é a Loja Singer, frente à Brasileira, e do pai, Manuel Maria, cuja alfaiataria era no sítio onde depois foi construído o actual Posto de Turismo de Braga, há cerca de 75 anos.

Comecei a trabalhar aos sete anos, quando andava na escola, nos tempos livres e depois tirei o curso de tecelão debuxador, na Escola Industrial de Braga” – diz o nosso interlocutor.

Aprendia nuns teares, os primeiros que foram adquiridos por Jorge Segismundo para a Escola Industrial que funcionava na Cangosta da Palha.

Depois, ainda tirou um curso de corte por correspondência cujo exame final foi em Lisboa.

São esses tempos da juventude que recorda com nostalgia em que frequentava os salões de baile para dançar o tango, aos domingos de tarde, com as “cinco coroas” que o pai lhe dava e onde conheceu a sua “cara-metade” e mãe dos seus quatro filhos.

“Sempre a trabalhar enquanto estudava, porque nunca fiz outra coisa”, estabelece-se com o irmão e funda a Alfaiataria Oliveira. Quando casou foi morar para Nogueiró, até conhecer Mons. Manuel Vaz Coutinho, capelão da Lapa e administrador do Diário do Minho, “que era meu cliente e me trouxe para aqui”.



Para trás ficava a sociedade com “meu irmão, na Rua de S. Marcos, onde hoje é o Café da Olguinha” e depois de 1971, na Avenida da Liberdade, por cima do Fernando Simão.

Quando estalou a Revolução do 25 de Abril, a Alfaiataria Oliveira tinha 15 trabalhadores, com loja de fazendas e clientes que vinham de todo o Minho. Ali funcionou até 1988, quando a sociedade acabou por causa da diminuição de clientes.

Geraldo Oliveira tem quatro filhos, dois engenheiros (Francisco e a Ernestina) e dois professores Adelino e a Maria da Conceição), que lhe deram, para já, nove netos, uma já licenciada em Engenharia e outro a seguir a carreira musical com sucesso.

Das suas memórias guarda um lanche com António Oliveira Salazar: “uma vez fui a casa do Nogueira da Silva, que era meu cliente, estava lá o Salazar e lanchei com ele”. Outro dos meus cientes era o “prof. Machado Vilela, de Barbudo, Vila Verde, outro era o Teotónio Santos, e muitos outros ilustres de Montalegre, Vieira do Minho e Braga”.

Cliente do senhor Gerado era o Almitrante Cayres Braga, de Tebosa. A esposa era sobrinha do Sidónio Pais e "um dia fui a casa dele e estava lá o Rosa Coutinho a lanchar”.

Apesar destes conhecimentos, com políticos nacionais e locais, diz-nos com segurança: “não ligo ao futebol nem à política. Não prendo a cabeça com isso”.

Enquanto folheia os livros onde se podem encontrar todos os conselhos, boas práticas, medidas e cálculos para qualquer que seja a encomenda de vestuário masculino e feminino, o nosso artista reconhece que “ainda tenho clientes fiéis mas não dá para viver”.

No entanto, não tem dúvidas em afirmar que “hoje se veste pior embora ainda haja alguns bons alfaiates em Braga como o Gaspar, o Cunha e o Carneiro da Rua Nova, mas o trabalho é muito pouco”.

Numa sala, rodeado de estantes com fazendas, Geraldo Oliveira dá-nos algumas razões que ajudam a explicar o declínio da arte de alfaiate: “olhe, há uns anos, havia três armazéns de fazendas em Braga. Eram o Oliveira, o Sousa & Maia e o Lopes dos Reis, e agora não há nenhum. Eles vendiam muito, eram muito fortes, tão fortes que chegavam às tecelagens e exigiam desenhos exclusivos e tudo isso acabou”.

Depois levanta-se e mostra-nos algumas das excelentes fazendas do catálogo da Scabal e dos armazéns ingleses da Harris Tweed. São fazendas de “grande categoria mas um fato custa aí uns 55 contos, em nota antiga. Quem é que está para mandar fazer um fato se compra dois ou três no pronto-a-vestir pelo mesmo dinheiro”?

Há por aí “fatos a dez contos, é tudo colado, é feito em série e sem inter-telas” mas é o que as pessoas compram.
É pena que estas artes acabem, mas o que se passa connosco está a acontecer com as costureiras. As casas estão a fechar”.
Enquanto as artes se perdem, os artistas vão se alimentando de memórias, das fardas que faziam para a Segurança Social, para os contínuos dos bancos ou para os motoristas dos grandes senhores da cidade.

O nosso interlocutor executa todos os trabalhos para senhora, desde os casacos, saias e calças a outras peças, com sucesso.

Ainda há alguns tempos, recorda com orgulho, “fiz um casaco para uma senhora de Viana do Castelo, de acordo com o figurino que ela escolheu. Levou-o ao Brasil e quando veio, o seu marido telefonou-me a dar os parabéns e a dizer: “olhe, você é um doutor. No Brasil, toda a gente perguntava onde comprámos o casaco”.

Brincalhão, Geraldo Oliveira conta que um dia fez um fato de cerimónia – um fraque – para um bracarense nomeado deputado na Assembleia Nacional. No regresso da sessão plenária, o deputado veio dar um abraço ao “nosso” alfaiate e dizer-lhe: “olhe que o Salazar não tirava os olhos do meu fraque”.

Na sua humildade, como são os grandes criadores, minimizou o elogio do seu ciente – “O Salazar lá ia estar a olhar para o fraque dele...”





A revolta
da Velha
Brasileira


Não podíamos deixar escapar a oportunidade de recordar as origens de “O Nosso café”, construído num edifício que ainda hoje é um belo exemplar da arquitectura civil na Avenida da Liberdade.

Alguns anos após a segunda Grande Guerra, os clientes de “A Brasileira Velha”, do sr. Queirós, foram confrontados com um aumento do preço do café. Os clientes, liderados por Gil Macedo decidiram alugar a “Auto-Palace”, do grande piloto de Fórmula Um, Vasco Sameiro, fizeram obras e abriram um café com um espaço destinado a jogos de bilhar e de snooker.

Os fundadores “tinham acções de cem escudos cada um; eu tinha dez e o meu pai tinha outras dez. Éramos uns vinte e tal até que o solicitador Armandino Oliveira foi comprando as acções a um, depois a outro e por aí fora até concentrar as acções todas em si e vendeu o Nosso Café aos seus novos proprietários”.

Geraldo Oliveira recorda os tempos em que a Avenida da Liberdade começava a ser rasgada na antiga rua da Água onde existiam as Pensões Comercial e do Lage (pai do António Lage presidente da unta de S. Lázaro após o 25 de Abril que morreu há algumas semanas e afamada por ser um dos poucos sítios onde se comiam umas belas enguias).

Do pós-25 de Abril não esquece a nacionalização da Viação Auto-Motora, do Marinho. “Ia a passar na Avenida da Liberdade e vi muitos militares dentro da garagem. Um Capitão subiu para um palanque e anunciou aos trabalhadores que a empresa passava a ser do Estado”. Era o fim de uma das grandes empresas de Braga.

Casa Cabeça Negra: loja com sala, cozinha e WC em Braga





É inovadora na distribuição dos espaços, é moderna nos produtos que oferece e é multifacetada nos eventos que organiza: eis a Casa Cabeça Negra. Foi buscar a um nome antigo a autenticidade e a tradição. O projecto é fruto do desejo de empreendedorismo de uma jovem licenciada em Psicologia, especializada em Direcção Comercial e Vendas.

“Queremos e estamos a conseguir ultrapassar o conceito meramente comercial, criando um espaço onde as pessoas se sintam bem” — diz-nos Nádia Dória Ribeiro, referindo os primeiros quatro meses de actividade “assentes na qualidade e na diferença”.

Sabendo que “é difícil contrariar a tendência para as grandes superfícies comerciais”, esta jovem empresária aposta em iniciativas inovadoras, paredes meias com a saída do Bragashopping, pela rua de Santo André. O cliente “pode deliciar-se provando novos sabores da selecção gourmet da cozinha, experimentar a roupa e acessórios de moda de criadores nacionais e estrangeiros e deliciar-se com os cheiros e texturas suaves dos sabonetes e produtos de banho”.

“Sempre tive um gosto pessoal pelo mundo das artes e da moda” — lembra Nádia ao justificar este investimento nascido após dois anos em que andou “a adiar o inadiável, até que encontrei este espaço e me apaixonei por ele”.

Atendendo à conjuntura económica, estamos perante uma atitude corajosa, em que Nádia tem contado com a preciosa ajuda da irmã — Raquel Dória, finalista do curso de Design em Aveiro.

Nádia Dória lançou-se de alma e coração num conceito novo de loja que “tem uma vertente cultural e artística associada ao comércio” e confessa agora que “tem valido a pena, é sempre bom quando trabalhamos num projecto nosso”.

A designação da loja, enriquecida com jardim interior — situada na Rua de Santo André, 93, bem junto à Praça dominada pela estátua a D. Pedro V — remonta ao avô que se dedicava ao comércio de ferragens, num estabelecimento de renome na cidade de Braga, fundado em 1898, no Campo da Vinha.

Do antigo livro de facturas foi recuperado o logótipo, concebido pela irmã, Raquel Dória, responsável pela concepção gráfica e fotográfica deste projecto “onde pontifica o atendimento personalizado próprio do comércio tradicional, mas com carácter de modernidade”



Hoje, a Casa Cabeça Negra é, simbolicamente, “uma casa privada de portas abertas ao público” — prossegue Nádia Dória Ribeiro, que se lançou neste empreendimento em Novembro passado e não parece arrependida. A aposta mais significativa é na moda e acessórios de autor, vocacionados para uma “mulher jovem, elegante e feminina”, que procura exclusividade a preços acessíveis.

A resposta a este desafio foi a escolha de marcas de designers londrinos, cujo estilo inconfundível se harmoniza com o “ambiente cosy e trendy da loja, onde cada peça é exposta como um objecto de arte”. Esta é a estratégia da Casa Cabeça Negra que dispõe, no mesmo espaço, de um leque variado de acessórios de moda e bijutaria de autor, sempre “aberto a novas propostas” de criadores que ali queiram expor os seus trabalhos.

Foi o que aconteceu com a exposição do projecto “Walk the dog”, em Fevereiro. Sobre esse evento, a Nádia afirma que “é gratificante para nós saber que há pessoas que expõem aqui, pela primeira vez, os seus trabalhos”. O sucesso foi de tal ordem que este trio de criadoras se sente agora incentivado “a divulgar o seu trabalho noutros espaços” — destaca a nossa interlocutora.

Na loja, o cliente pode encontrar produtos “diversificados, originais e de qualidade, enquadrados num espaço inspirador, elegante e acolhedor”.

A casa de banho, como em qualquer casa, é o espaço menor, dedicado aos produtos de beleza de marcas portuguesas e inglesas destinadas a quem procura cuidar de si ou oferecer uma prenda requintada. “Possui uma pequena amostra para homem (cerca de 20% dos produtos) e o resto para mulher, do qual destaco a linha de coco da Asquith & Sommerset, muito procurada pelo seu agradável aroma” — refere Nádia Dória. Existe também uma linha unissexo SPA, “com uma fragrância mais suave”.



Na Cozinha, a Casa Cabeça Negra disponibiliza produtos nacionais e internacionais. Nos primeiros, a referência vai para os licores, compotas, azeites e vinagres Afarrobinha, bem como para os patés “La Gondola”. As massas são italianas, as batatas fritas inglesas, os chocolates franceses e belgas e a selecção de chás é variada, destacando-se os ingleses e a conhecida marca Gorreana, dos Açores.

Estamos em Março, o mês da Primavera, e por isso a Casa Cabeça Negra foi decorada com arranjos florais.

Na semana passada, este espaço recebeu uma iniciativa diferente: uma tarde para saborear novos produtos da "cozinha". Experimentar compotas, licores, biscoitos artesanais e outras surpresas… confeccionados por Arminda Costa (www.quelha-branca.blogspot.com).


Para Abril, Nádia Dória prepara já uma exposição de pintura com obras de Júlia Neto, enquanto que o mês de Maio é preenchido com uma exposição mais eclética com trabalhos do Atelier Manga Rosa.

A loja é divulgada através do blog www.casacabecanegra.blogspot.com, que também faculta o conhecimento dos seus criadores, através dos links propostos.

No mesmo blog, manifesta-se a vontade de receber propostas de novos autores nas áreas de joalharia, moda e design. Os seleccionados? “Aqueles cujas peças nos apaixonem e cuja relação qualidade/preço seja exequível”.

Pode visitar a loja de Segunda a Sexta das 10h às 13h e das 14h às 19h 30m. Ao Sábado está aberta desde as 10h até às 19h 30m.

Braga: restam sete Calvários mas um destaca-se




Eram 14 pequenas capelas incrustadas nas paredes, todas parecidas, onde se evocava o percurso sofredor de Cristo a caminho da execução na cruz. São os Calvários ou estações, locais onde a procissão do Senhor dos Passos se detém para os fiéis poderem rezar e reflectir sobre os derradeiros passos do filho de Deus.

Eram 14 capelinhas que, na chamada Roma portuguesa, mas hoje são apenas sete embora continuem a merecer forte veneração durante as solenidades da Semana Santa. Passada esta, as portadas fecham e escondem os quadros dos “passos” de Cristo.

No sábado, antes do Domingo de Ramos, a imagem do Senhor dos Passos sai da Igreja de Santa Cruz para o templo do Seminário no Largo de S. Paulo. Depois, a via sacra segue o itinerário dos calvá-rios pela zona histórica, acompanhada pelo coro da paróquia da Sé.

Só que na urbe dos arcebispos apenas sobreviveram sete calvários disseminados pela casco histórico, pretendendo a Igreja que a câmara municipal colabore na reconstrução dos oito restantes, vítimas da erosão do tempo, condenados à voragem do progresso.

RECUPERAÇÃO
ADIADA

Várias vezes foi assinalada a importância "da recuperação deste património", porquanto os calvários de Braga remontam aos séculos XVI e XVII. Os que faltam foram "arrasados" no século XIX, com a expansão da cidade.


Os "Calvários",terão sido construidos no séc XVll e XVlll, no barroco e com desenho de Carlos Amarante.
Dos que restam, um destaca-se dos restantes. É o da Casa de Santa Cruz do Igo, sofreu modificações interiores ao longo do tempo.

Os donos da casa, a Família de João Sousa Machado, foram sempre os conservadores, recuperadores, responsaveis e seus donos. “Donos?...Não!Nem El-Rei, nem o Arcebispo! Fieis depositários de uma ideia...Trata-se de um espaço, de um altar, para chamar à oração os fieis e os cidadãos. Trata-se de homens, de utopia e fé!” — lê-se no blogue da casa em que este Calvário está incrustado.

A imagem do Senhor dos Passos foi mandada fazer pela família, a um marceneiro, no SÉc XlX, que depois a ofereceu como penitência. A última intervenção e recuperação foi feita em 2004, respeitando integralmente o que existia.

“Além da imagem do Senhor e das pinturas tão populares, humildes até, e do altar com dourados (para "ganhar" aos outros Calvários o título de mais bonito),o "Senhor do Igo" olha de frente a Sé de Braga e a sua imponência, mas competindo com ela no dever, humildade e respeito para com as pessoas que o vêm e visitam. Também é lugar de Deus e está na rua!”

A Família Sousa Machado a quem se deve o trabalho notável de recuperação da Casa Santa Cruz do Igo — abre o Calvário todos os dias da Semana Santa, em datas importantes para a família, assim como para cumpri- mento de qualquer pro-messa de alguém que o deseje. E existe muita fé à volta deste "Senhor"...

Nós pudemos constatar a total disponibilidade desta família para aceder a este Calvário do Senhor do Igo...

António Lima: pintor de arte sacra desde menino



A crise económica dos últimos anos fez aparecer no seio da arte sacra — pintura e restauro de igrejas, altares e imagens — pessoas da construção civil, sem as qualificações necessárias para um trabalho que exige maiores qualificações.

Mais que uma denúncia é uma constatação de António da Silva Lima, um pintor de arte sacra, com loja instalada há ooito anos na rua de santa Margarida que trabalha nesta arte desde pequenino.

“Nasci entre imagens de santos e altares ou peças de talha de igrejas” — lembra António Lima que nos recebe na sua oficina, situada por debaixo da loja.

“O meu pai — Fernando Lima — já estava nesta arte, pois tinha uma fábrica muito grande de marcenaria e talha que trabalhava para os Fonsecas. Eu preferi enveredar pela pintura. Desde pequenito comecei a ver os pintores a cuidar das imagens em casa e hoje faço tudo na pintura, bem como restauro de imagens antigas que exigem uma técnica diferente” — esclarece António Lima apontando para uma imagem vinda d eum museu para restauro.

Nessa oficina, que mantém há 18 anos, desde que se instalou inicialmente em Santa Tecla, onde nasceu, continua a dar trabalho a quatro colaboradores, embora já tenha tido mais, porque “saíram dois no ano passado”.

Na oficina da Casa Arte Sacra, António Lima e seus colaboradores fazem trabalhos de pintura e restauros em imagens, altares e “tudo o que s erelacione com a arte sacra, como estandartes, bandeiras, ambões, tectos, sanefas, etc.”



A sua experiência na pintura de artigos religiosos começou aos 15 anos, na Casa de Arte Cristã, onde esteve durante 19 anos, até que se estabeleceu por conta própria com uma oficina em Santa tecla, há 18 anos. Dez anos depois abriu a loja de comercalização de artigos religiosos.

Para trás fica aquele belo dia em que conseguiu fazer um restauro difícil de uma imagem de pasta de papel. O seu encarregado não conseguia dar conta do recado e desistiu.

“Eu ofereci-me para fazer o trabalho. O patrão perguntou-me: és capaz? Em desespero de causa, enchi-me de coragem, demorei bastante tempo, mas acabei por conseguir fazer aquele restauro bem complicado, com uma técnica imaginada naquela altura”.

“O nosso forte são as imagens, desde o restauro à pintura mas temos trabalhos de restauro de talha, que encomendamos a outras empresas” – revela António Lima, dando exemplos de trabalhos como a Igreja de S. Torcato, outro templo em Alvaiázere (Tomar).

PINTAR
RENDA
DE S. TORCATO
DEMORA
UMA SEMANA

“Andamos por todo o lado. Recentemente estivemos a restaurar a Igreja de Carapeços, antes em Chorense (Terras de Bouro) e em Montalegre”. De momento, a Casa de Arte Sacra tem uma encomenda de dez sanefas para a Igreja de Riba d’Ave.

O sector de actividade ligado à arte sacra também sente os efeitos da recessão económica até porque “há muito artista vindo de outras artes que escolheram a arte sacra a pensar que estava a dar mais dinheiro”.

Esta “invasão” não é positiva para o nosso património porque a falta de preparação de alguns deles conduz a que se estejam “a restaurar altares e imagens com muita asneira e isso está a prejudicar-nos um pouco pois misturam tudo sem perceber de arte sacra”.

António da Silva Lima também desenha as peças e depois encomenda a sua execução em talha a outras casas. De lá vêm para a oficina da Casa Arte Sacra para “aparelhar, depois é montada no local e fazemos os acabamentos”.

Com outro trabalho entre mãos para a Igreja de S. Miguel de Vizela, António Lima confessa a sua paixão: “gosto de pintar uma imagem que dê muito trabalho”.

É o caso da imagem que “mais nome dá a esta casa, a de S. Torcato, porque só a renda dá para uma semana de trabalho de pintura”.



O seu gosto pela pintura deves-se também “à variedade de cada imagem e isso não cansa” mas também lhe dão gozo os “estofados”, estilo de pintura usado no século XVIII, porque é uma pintura diferente, pois a peça é doirada primeiro e depois ppinta-se sobre o ouro”.

Quanto à formação de novos artistas, um pouco descuidada por algumas empresas, para perpetuar esta arte tão forte em Braga, António Lima reconhece a dificuldade desta aposta por parte das empresas: “tenho investido muito tempo a ensinar porque para fazer um artista tem de se gastar muito tempo e muitas vzes refazer o que ele fez. Os mais novos querem um emprego, não querem ter muito trabalho nem se sujeitam a ser corrigidos. A juventude, hoje, não está para isso e prefere empregos mais banais que este da arte sacra”.

Ricardo Campos: pintor de Monção mostra-se em Braga




“Como a arte não é essencial para a nossa vida, acho que é isso que dá alguma importância à arte é ela não ser essencial” – disse o pintor monçanense Ricardo Campos. Este trabalhador da hotelaria que já expôs em Roma enriquece a Semana Santa de Braga com um exposição de Cristos no Museu Pio XII que ali está patente até ao dia de Pentecostes.

Ricardo Campos explica que “esta exposição já estava prevista para ser feita na Páscoa do ano passado mas surgiu esta oportunidade de fazer esta mostra em Roma e eu pedi ao dr. José Paulo Abreu para ver se atrasávamos um ano a exposição em Braga para eu poder mostrá-la em Roma, na Igreja de S. António dos Portugueses”.

Em relação a essa exposição na Igreja de Santo António dos Portugueses, em Roma, a que está agora patente no Museu Pio XII até ao Pentecostes “tem algumas alterações: metade da exposição esteve em Roma e outra metade foi feita para esta exposição”.

Quando lhe perguntamos que podem apreciar os bracarenses e forasteiros qre se dirigem ao Museu Pio XII, no Largo de Santiago, Ricardo Campos explica que “podem ver Cristos que são homens, que se podem identificar com qualquer um de nós, porque me centro especificamente no momento “Meu Deus, meu Deus porque me abandonaste”.

São momentos de grande solidão, de grande sofrimento e é isso que eu tento mostrar nestes trabalhos que estão aqui expostos”.

Sobre as origens estes gosto ou paixão pelas artes, Ricardo Campos, encostado a uma pequena escultura com um Cristo pregado na Cruz responde: “é o meu vício, se calhar, e não sei como é que nasceu”.
No entanto, todas as paixões e artes têm um começo: “foi surgindo aos vinte anos e faz este ano dez anos que fiz a minha exposição primeira e tentei melhorar a minha arte e a partir daí quis tentar ser melhor e porque não chegar a este ou àquele espaço.

Eu comecei a pintar como autodidacta, depois com alguns artistas, depois comecei a estudar na Cooperativa Arvora, depois em Guimarães, na Escola Superior Galaecia, em Cerveira, e fiz agora um ano na Faculdade de Belas Artes no Porto.
“Tenho a preocupação de me cultivar e vindo a aperfeiçoar as minhas técnicas.



Esta exposição e temática religiosa mas tenho participado noutras exposições, concursos, prémios e bienais, com quadros sobre a religião e a vida rural”.

Explicando a temática dominante, o jovem pintor de 31 anos não duvida: “é uma arte que tem a ver com a minha infância vivida com as minhas avós, na freguesia de Valadares e isso deixa-nos algumas marcas e tento transmitir essas marcas das tradições rurais, rituais, mitos, etc”.

Ricardo Campos, após quase uma centena e exposições colectivas e individuais, ainda se recorda da primeira mostra: “foi uma exposição colectiva na escola primária de Valadares, uma freguesia de Monção. Em1998. Foi interessante porque, na altura, cheguei a casa muito contente porque esteve lá o presidente da Câmara. Eu vinha eufórico coma sua presença. Já lá vão mais de cem exposições.

Quando a prémios, Ricardo Campos lembra que, no ano passado, tive um segundo prémio em Penedono, e um primeiro prémio em Viana o Castelo, no concurso “Descobrir Viana”, e depois fui tendo algumas menções honrosas aqui e acolá.

Em Santo António dos Portugueses, recorda-nos, “não me dei conta do sucesso nem da euforia que se deu em vota da exposição. Depois daquele sucesso disse para mim mesmo que não queria ficar como o artista que foi a Roma, acabou aí a carreira e não se preocupou com mais nada”.

Por isso, assegura, “comecei a querer ir mais longe e a programar esta exposição. Tentei, a partir de Roma, fazer novas coisas e fiz uma exposição em Fátima no ano passado na nova Basílica. Roma é ponto de partida e não um ponto de chegada”.
Quanto ao futuro, Ricardo Campos espera continuar a “equilibrar os espaços entre o trabalho na hotelaria e a pintura” mas promete que, a partir de 24 de Março vai estar presente com uma exposição numa galeria em Lisboa.

Os quadros patentes no Museu Pio XII têm preços que oscilam entre os 300 e os 750 euros, embora metade dos 33 quadros já tenham sido assegurados para o espólio do Museu Pio XII.