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Friday, June 20, 2014

Almada Negreiros: profeta do moderno (fim)

Almada Negreiros é um dos resultados mais felizes da colonização portuguesa, nascido na Roça da Saudade (que outro nome havia de ser), na Ilha de S. Tomé, em pleno equador, a 7 de Abril de 1893 – há 120 anos.
 
A mãe era uma santomense de 20 anos, Elvira Sobral, filha de um fazendeiro português e de uma mestiça. O pai, António Lobo de Almada Negreiros, de Aljustrel, no Alentejo, era jornalista, ensaísta e poeta que exercia  cargo de administrador do concelho de S. Tomé, que abrangia toda a ilha. José é o primeiro filho de ambos e foi baptizado na ilha segundo o ritual católico. 

Almada Negreiros nasce rodeado de familiares com histórias fora do comum, a começar pelo avô materno, dono da famosa Roça da Saudade, na parte alta da ilha e uma das mais ricas em café, cacau e madeiras. O seu contributo para o desenvlvimento da ilha leva o rei D. Luís a atribuir-lhe a comenda de mérito agrícola.

A vocação intelectual de Almada Negreiros vem do pai, jornalista em Ourique, funcionário dos Correios e director de um diário emLisboa até ser nomeado Governador de S. Tomé, onde conhece Elvira e com ela se casa. O pai de Almada é um dos organizadores  do Pavilhão das Colónias na Exposição Unversal de Paris, em 1900. A ele se deve a primeira monografia dos costumes de S. Tomé.

A harmonia familiar é quebrada em 1896 quando a mãe Elvira morre no parto de uma menina. Aperda da mulher é devastadora para o pai de Almada Negreiros que se refugia no trabalho, viaja para Paris e deixa os filhos (José e o irmão mais novo) no Colégio Jesuíta de Campolide em Lisboa.

José aprende a viver com os seus próprios meios e manifesta incontrolável inclinação para a escrita e para o desenho, fazendo caricaturas de professores e alunos. Os padres reconhecem tanto o seu talento como as suas travessuras extrovertidas. 

Adora desporto e adora correr pelos longos corredores do colégio, desafiando as proibições internas, ao ponto do director o repreender: “tenho trezentos e sessenta alunos e todos têm os olhos na cara, porque é que só tu tens a cara nos olhos?”

Já naquela altura, o rosto de José já é dominado por um olhar intenso e penetrante, saído de olhos salientes e esbugalhados, como esgazeados que não deixam nenhum interlocutor indiferente.






Monday, December 2, 2013

Os rostos da República de A a Z (18)


“Não sei o que trará o amanhã”

Nesse ano, António Ferro, seu camarada do Orpheu e seu editor é nomeado para a direcção do Secretariado da Propaganda Nacional. Este democrata fervoroso na sua juventude, escritor e jornalista era um apologista das letras e das artes do  Estado Novo.

Um ano antes, publicara no Diário de Notícias cinco entrevistas a Salazar e um artigo intitulado “Política do espírito”, inspirado em Paul Valéry, em que defendia o "desenvolvimento premeditado, consciente, da Arte e  da Literatura” como necessário ao “prestígio exterior da nação” e ao seu “prestígio interior, à sua razão de existir”.
Uma das suas primeiras iniciativas para fomentar a criação literária e o trabalho intelectual foi a instituição de prémios para livros em cinco áreas: história, ensaio, jornalismo, romance e poesia.

Há mais de vinte anos, concluído, Pessoa tinha um livro d versos a que deu o nome Portugal. Em Setembro de 1034 preenchia os requisitos para se candidatar ao prémio Antero de Quental (“inspiração bem portuguesa e um alto sentido de exaltação nacionalista”). 

Os amigos incentivaram Fernando Pessoa a concorrer e o próprio António ferro adiantou dinheiro para a publicação que à última hora viu  titulo alterado para Mensagem. Posto à venda em Dezembro, não tinha dimensão para o Prémio Antero de Quental mas venceu a segunda categoria (um poema). António Ferro, tendo em conta a simples questão do número de páginas multiplicou por cinco o valor do prémio (mil escudos), o mesmo valor da primeira categoria.

A reacção a Mensagem foi globalmente positiva, ao ponto de Um jornal ter escrito: “a riqueza poética deste livro é tanta que, ainda que o seu autor nunca mais escrevesse um verso, o seu nome  ficaria para sempre ligado à mais rica poesia portuguesa” ( in Diabo, 27 de Janeiro de 1935). Outros acusaram Pessoa de ser “excessivamente intelectual, falho de emoção e sensibilidade” sendo os seus poemas apenas “telegramas” de "um notável poeta (...) que raros decifrarão”.

Quando publicou Mensagem, Fernando Pessoa não tinha perdido inteiramente a esperança no governo de Salazar. Aceitava o Estado corporativista por “disciplina” e concedia-lhe o benefício da dúvida que acabaram de vez em Fevereiro do ano seguinte.

Em Janeiro de 1935, Pessoa indignara-se com um decreto que extinguia as “associações secretas” e no mês seguinte publica um artigo a defender a Maçonaria. Segue-se uma avalancha de artigos que caluniavam os Maçons e censuravam Pessoa por os defender. A lei acabou por ser aprovada a 5 de Abril sem um único voto contra.

Mais determinante para o desencanto de Pessoa em relação ao regime foi  o discurso de Oliveira Salazar na entrega dos prêmios do SPN, um dos quais galardoava  Mensagem

Fernando Pessoa não assistiu à cerimónia e ficou espantado ao ler nos jornais no dia seguinte a recomendação de Salazar: “as produções criativas e intelectuais dos escritores deveriam não só respeitar certas limitações mas também seguir algumas directrizes impostas pelos princípios morais e patrióticos do estado Novo”.

Nada me pesaria que invadissem ou tomassem Portugal, desde que não me incomodassem pessoalmente”, é a frase que ele acrescenta em “Livro do Desassossego” à afirmação “A minha pátria é a língua portuguesa”.

Foi isso que aconteceu. Fernando Pessoa sentiu-se incomodado, ultrajado pelo facto de a sua língua ter sido atacada, invadida, controlada.

Conclui-se agora que a idéia força de Mensagem centrava-se num Portugal não como estado político mas sim como "nação constituída por seres livres, unidos por uma língua, uma cultura e uma história notável”.

A ideologia patriótica de Pessoa era aberta e universalista, ideia que muitos nacionalistas na conseguiam entender de quem defendia a Maçonaria.

Face ao discurso de Salazar, Pessoa deixa de escrever porque “ficamos sabendo, todos nós que escrevemos, que estava substituída a regra restritiva" da Censura, “não se pode dizer isto ou aquilo”, pela regra soviética do poder, “tem que se dizer aquilo ou isto”.

Ele tinha razão. Entregara poemas para a revista Sudoeste (dirigida por Almada Negreiros) e três deles foram omitidos.

A última metade do século XX não confirma o pedido de Pessoa à namorada Ofélia para nunca dizer a ninguém que era poeta (“quando muito, escrevo versos”). A omnipresença do poeta levou muitos a dizer que “tanto Pessoa já enjoa”.
Era o cumprimento da paráfrase de Álvaro de Campos: “cada vez mais perto do mito, cada vez menos perto de mim”.

Pessoa sentia-se cansado: “tenho estado velho por causa do Estado Novo”. É verdade que as crises hepáticas devidas ao consumo excessivo de álcool massacravam-no, ao ponto de concluir um poema, em meados de Novembro de 1935, assim: “dá-me mais vinho, porque a vida é nada” porque “há doenças piores que as doenças” e “há tanta coisa que, sem existir, /Existe, existe demoradamente, /E demoradamente é nossa, é nós...”.

Oito dias depois sofre mais uma crise que não consegue vencer. Foi em 27 de Novembro, aniversário da irmã, que estava com a família na casa do Estoril.

Estranhando a ausência de Fernando para o jantar comemorativo, o cunhado procurou-m no dia seguinte. Pessoa é internado no dia 29, no Hospital de S. Luís dos Franceses, onde é assistido pelo primo , e escreve as suas últimas palavras: “Não sei o que trará o amanhã”.

O amanhã trouxe-lhe a morte, devida a uma pancreatite aguda. No funeral estiveram umas 50 pessoas. Aberta a herança, o defunto deixava uma arca de madeira, com milhares de textos originais e inéditos, dactilografados ou manuscritos em cadernos, agendas, papel dos cafés, folhas volantes, facturas e pedaços de papel rasgado...

No Jazigo da sua avó Dionísia, o Grande Poeta ficou a aguardar que as suas obras fossem devidamente publicadas e que o tempo passasse, trazendo uma próxima geração de leitores entendesse o seu génio.

A fragmentação da sua obra e o seu viver, no desencantado pós-guerra, acaba por encontrar uma receptividade e compreensão impossíveis em vida de Fernando Pessoa.

João Gaspar Simões é um dos responsáveis ao escrever uma biografia pessoana de 700 páginas, em 1950, contribuindo para o catapultar para o patamar de grande glória das letras portuguesas.
Mas este autor não chegou a compreender totalmente o poeta, especialmente os heterónimos que são hoje a poesia mais rica e original.

Se quase todos consideram Ode Marítima a obra maior, outros consideram de pouco  calor a poesia heteronímica (como José Régio).

Não fora polémica que Pessoa não pressentisse quando revelava a Adolfo Casais Monteiro, em 1935, a intenção de deixar para segundo plano os escritos de Caeiro, Campos, Reis, etc. por recear “nenhuma venda de livros desse género e tipo”, apesar de reconhecer: “pus no Caeiro todo o meu poder de despersonalização dramática, pus em Ricardo Reis toda a minha disciplina mental, vestida da musica que lhe é própria, pus em Álvaro de campos toda a emoção que não dou nem a mim nem à vida” em contraponto a um Fernando Pessoa ”impuro e simples”.

Casais Monteiro faz a primeira edição póstuma da obra poética de Fernando Pessoa, uma recolha com cem poemas e Gaspar Simões continua o trabalho de publicação das obras dos heterónimos nos anos entre 1944 a 1952, que, juntamente com A Mensagem, formam o primeiro núcleo substancial da poesia pessoana ao dispor do grade público.

Apenas em 1960 Maria Aliete Galhoz organiza a primeira grande edição de Pessoa publicada no... Brasil, que serviu de “bíblia” a uma grande geração de leitores de Pessoa.

A divulgação da prosa pessoana é mais lenta e atravessa as décadas de 60 e 70 do século passado. Só em 1974 surge uma mudança cósmica no universo criativo de Pessoa com a publicação do Livro do Desassossego, traduzido em várias línguas. 

É um livro que Pessoa deixou como um amontoado de fragmentos (mais de 500), sem qualquer ordem ou fio organizativo que desencadeou uma febre colectiva sobre tudo o que era pessoano, lançando aquele que “não era nada, nunca serei nada” para a celebridade póstuma em que tinha apostado toda a vida.
Eduardo Lourenço e Richard Zenith (nosso companheiro nestas crónicas) fazem com que Pessoa se afirme, “no crepúsculo do milénio, como o emblema da nossa perda de certezas sobre o ‘eu’ e sobre tudo o mais".

Teresa Rita Lopes, em 1977, dá a pancada final na tarefa e mostrar toda a obra de Fernando Pessoa e facetas pouco conhecidas do poeta levando a toda a Europa uma curiosidade sem precedentes sobre a Língua Portuguesa celebrada com o prémio Nobel de José Saramago.

De facto,  consumava-se o Livro do Desassossego: “Eu, longe dos caminhos de mim próprio, cego da visão da vida que amo (...), cheguei por fim, também, ao extremo vazio da coisas, à borda intransponível do limite dos entes, à porta sem lugar do abismo abstracto do mundo”.

Hoje, Fernando Pessoa é publicado em todos os continentes, em 40 línguas, desde o norueguês ao vietnamita, do afrikaans ao urdu.






Os rostos da República de A a Z (17)


“Nunca dei crença
àquilo em que acreditei”

Fernando Pessoa criava o novo império, ao lado dos grandes impérios grego, romano ou cristão: Portugal, através da língua e da cultura, e sobretudo da sua literatura, dominaria o resto da Europa. Um império de poetas.

Foi em 1923 que Fernando Pessoa se referiu pela primeira vez ao Quinto Império mas a doutrina vinha já de 1912, quando Fernando Pessoa profetizou uma “Renascença portuguesa” que iria nortear toda  a cultura europeia.

Nessa nova ordem cultural, o catolicismo era sepultado pelo "paganismo superior” que incluirá todos os deus e todos os credos e a política devia deixar de existir.

Possuído pela necessidade de sanear a República, ao eliminar todos os vestígios da velha monarquia, varria todos os seus símbolos e rituais.

É em Janeiro de 1928 – pouco antes da entrada de António Oliveira Salazar para o governo, como ministro das Finanças — que Fernando pessoa entende a ditadura militar como um “intervalo” necessário para o caminho de “salvação e renascimento”.

Aguardando a “hora que se prometera” – que há-de concluir A Mensagem (“É a hora!”) — , Fernando Pessoa assume que a existência dele próprio é o primeiro sinal de que o Quinto Império está a chegar, a seguir ao “Estado de transição” ditatorial.

O Quinto  império apenas chegará com a “segunda vinda de Dom Sebastião” — ocorrida em 1888, a darmos crédito às profecias de Bandarra. Nesse Quinto Império de poetas, Pessoa era o Super-Camões, arauto de uma “Nova renascença” destinada a fazer com que Portugal irradiasse nova luz para todo o mundo.

Sentindo tudo de todas as maneiras e aceitando todos os deus e credos, Fernando Pessoa conferia a si mesmo uma universalidade inédita e transformava-se, só por si, em toda a geração literária.
Fernando Pessoa advertia não ser defensor da ditadura – tolerada como medida temporária — até evoluir para a negação completa desta doutrina, dedicando a Salazar um “desprezo irreprimível”. 

Afinal, em 1931, havia de escrever: “nunca dei crença àquilo em que acreditei”. 
Um ano antes, escrevera: “Merda! Sou lúcido”.
Em 1928 cria o último heterónimo, Barão de Teive, e de todas as máscaras inventadas por Fernando Pessoa, esta era a mais transparente e a mais inquietante.

O barão, desanimado por não conseguir escrever nada de jeito, queima as prosas no fogão e resolve suicidar-se. Mas, antes de dar este último passo, tenta explicar-se em “A educação do estóico” sobre a “impossibilidade de fazer arte superior”.

O barão, além da frustração literária, era sexualmente frustrado, sendo tão tímido com as mulheres que ficava impotente.
Teive reunia várias condições que o seu criador cobiçava mas as suas obras não saíam como ele sonhava e irritava-se com a tibieza da sua vontade, com a sua castidade e com a sua lucidez, que o leva a matar-se num gesto de orgulho.

Pessoa era mais complicado que o Barão de Teive. Sofria das mesmas frustrações mas não lhe escasseava a fantasia a escrita, o que lhe tirava o gosto do amor e das pequenas glórias mundanas com que os outros homens se iludem. A sua esperança residia na celebridade após a morte. Há que acelerar essa hora, organizando as obras, faze-las bem acabadas, o que não era o seu forte. Tinha medo de as acabar. Continuava inquieto, à procura, mas era urgente para Fernando Pessoa encontrar algo... um sentido, um bom caminho.
Mas ele continua sem saber se 
deitando dados
Se chega a qualquer conclusão. 
Mas também não sei
Se vivendo como o comum dos homens
Se atinge qualquer coisa”.

No começo de 1929, Fernando Pessoa está a escrever O Livro do Desassossego, obra que estivera a cargo de Vicente Guedes, antes de entrar em demência,uns dez anos antes.

Bernardo Soares já existia no universo pessoano mas como autor de contos. Agora pessoa assume a biografia de Vicente Guedes, que trabalhava num escritório e era um diarista muito lúcido.
A expressão dos seus desassossegos era diferente, menos abstracta e impessoal, era sentido na pele, nos factos mais corriqueiros do dia-a-dia.

Bernardo Soares era, segundo Pessoa, meio heterónimo, uma mutilação da sua personalidade, ou seja, um instrumento do qual Pessoa se servia para se auto-exprimir.

Álvaro de Campos, na sua Tabacaria, escrita em 1928, já não se distinguia também do seu criador.

Neste momento da vida, a saudade do passado e de tudo o que não vivera intensifica-se em Fernando Pessoa, perdão, Bernardo Soares. Volta-se para locais de infância como Durban ou Pedrouços e desperta, de novo, as afectividades, ao ponto de querer reatar com Ofélia Queiros, no Outono de 1929, numa tentativa mal sucedida. Para ele era impensável casar mas Ofélia insistia em cartas que se trocaram até Janeiro de 1930.

O último poema de Álvaro de Campos que considera as cartas de amor menos ridículas do que as pessoas que nunca as escreveram é uma alusão a estas cartas para Ofélia.

É por esta altura que Pessoa ressuscita Alberto Caeiro para escrever os seis poemas de Pastor Amoroso a cantar a paixão por uma jovem loura e com dentes que “são limpos como as pedras de um rio”.
Contraditoriamente, Bernardo Soares defende a castidade no Livro do Desassossego num momento e depois admite que as relações amorosas são um “complexo barulho que faço aos ouvidos da minha inteligência, quase para não perceber que, no fundo, não há senão a minha timidez, a minha incompetência para a vida”.

O Desassossego afectivo aliava-se a uma forçada procura espiritual através de escritos sobre Cabala, alquimia e ordens iniciáticas (Rosa Cruz, Maçonaria e Templários), tradições esotéricas e a religião em geral e magia negra.

A simulação do suicídio de Crowley, um editor inglês, mostra que Pessoa não se importava de dedicar tempo e energia a uma burla, ao ponto de elaborar uma novela policial sobre este desaparecimento que nunca aconteceu mas teve amplo eco nos jornais, dada a conivência do jornalista amigo Augusto Ferreira Gomes.

Pessoa acreditava em tudo, sem ter fé em nada. Estava aberto a tudo, absorvia tudo e servia-se de tudo para depois fazer o seu caminho, sem se submeter a nenhum credo ou dogma.

Pessoa preferiu não viver como o “comum dos homens”, passou a vida inteira na procura da verdade, quando não a inventava na sua escrita mas nunca chegou a uma certeza, a não ser que a sua certeza fosse esta:
Tenho o corrimão da escada absolutamente seguro,
Seguro com a mão —
O corrimão que não me pertence
E apoiado ao qual ascendo...
Sim... ascendo...
Ascendo até isto:
Não sei se os astros mandam neste mundo...

No início de 1933, Pessoa parecia mais velho do que os seus 44 anos. Não a-guentava a solidão, mais pesada com a passagem dos anos em que não se preocupara em ser ou não feliz.

Isto reflecte-se na sua po-esia e chega a ser pungente no Livro do Desassossego, numa altura em que contnuava a escrever cartas comerciais em francês e inglês ou dava explicações desta última língua.

Bebia mais, fumava muito e estava cansado e concorre pela primeira vez a um posto de trabalho, no Museu Biblioteca de Cascais. 

Não foi escolhido por falta de perfil e carácter adequados, apesar do extenso curriculum que apresentou.


Os rostos da República de A a Z (16)


A produção poética de Pessoa diminui na década de vinte devido às suas actividades empresarias e desperta com a revista Contemporânea onde revela ser mais multifacetado do que alguém podia imaginar.

Dos 23 poemas ali publicados, incluem-se doze que foram mais tarde a segunda parte de Mensagem e eram assinados por Álvaro de Campos. É a primeira aparição do heterônimo como poeta desde o Orpheu.

Foi também nesta revista e no primeiro dos seus 13 números que Pessoa publicou o Banqueiro Anarquista, uma espécie de dialogo socrático que era muito caro ao autor.

Fernando Pessoa era muito céptico em relação às ideologias anarquista, socialista e comunista chegando mesmo a escrever que esta revolução ia “atrasar dezenas de anos a realização da sociedade livre”, previsão que depois se revela acertada.

A mais importante revelação literária de Pessoa foi, nessa época, Albero Caeiro e Ricardo Reis. É misterioso que os tenha mantido em segredo durante tantos anos, uma vez que a maior parte da poesia de Caeiro foi publicada em 1916.

Aguardou certamente um contexto adequado para o revelar e foi ele quem criou esse contexto com a revista Athena, Revista de Arte, com os cinco números publicados entre 1924 e 1925.

Foi uma revista à Pessoa em que ele desenvolveu a sua campanha pela elevação da cultura portuguesa. Era uma ilustração perfeita da Nova Renascença promulgada por Fernando Pessoa doze anos antes.

É neste ambiente sóbrio, mas clássico, e ao mesmo tempo moderno, português e universal, que Pessoa deu a conhecer Reis e Caeiro, com ampla selecção de poemas de  cada um deles.
O renascimento neogrego que estes dois heterónimos deviam prefigurar baseava-se no neopaganismo, um sistema filosófico e religioso inscrito na sua poesia.

O fenómeno dos heterónimos reflecte a convicção de Fernando Pessoa de que nem no apertado âmbito do eu existe a unidade. Fernando Pessoa rejeitava a visão da unidade última e divina promovida pelo cristianismo e outras religiões monoteístas. Isso não significa que ele não desejasse a unidade. 

Na heteronomia do seu eu fragmentado, o poeta tentou, paradoxalmente, construir um pequeno mas completo universo de partes interligadas que formassem um todo coerente.

A morte da mãe coincide com o quinto e último numero da revista Athena e ninguém tinha reparado nos poemas do mestre triunfal, Alberto Caeiro... Não saiu qualquer critica ou referencia nos jornais. Fernando Pessoa estava mais só do que nunca, humana e literariamente falando. 

Em 31 de Agosto de 1925 escreve a um amigo a dizer que sofria de “loucura psicasténica” e perguntava  que tinha de fazer para requerer o seu próprio internamento num manicómio.

O seu velho receio de enlouquecer ressuscitava e o medo revela o grau de abatimento emocional em que caiu.
Nesse Outono dedica-se a escrever muitos artigos sobre o comercio e gestão de empresas na Revista de Comércio e Contabilidade, dedicando-se à história, teoria do comercio e numerosos preceitos e sugestões para o bom funcionamento de uma empresa.

Pessoa manifesta então o seu desprezo pelo capitalismo, mostrando-se grande defensor do comercio livre e opondo-se a qualquer proteccionismo.

A carreira literária de Pessoa parecia estar em ponto morto, quando nasceu a revista Presença, primeiro órgão a reconhecer o seu estatuto de poeta cimeiro do modernismo em Portugal.

Foram responsáveis por este regorgitar pessoano José Régio, João Gaspar Simões e Adolfo Casais Monteiro. Logo no terceiro numero de Presença, José Régio (na foto) escreve: “Fernando Pessoa tem estofo de mestre e é o mais rico em direcções dos nossos chamados modernistas”. 

No numero seguinte, Fernando Pessoa dá começou a uma longa colaboração que inclui alguns dos seus mais belos poemas: Aniversário, parte de O guardador de rebanhos e Tabacaria.

Ainda não era a “larga celebridade” que Pessoa desejava como “sinónimo psíquico da liberdade” mas o poeta esperava isso.
Entre 1919 e 1931 escreve dezenas de trechos para um ensaio em inglês Erostratus (homenagem ao grego que destruiu o templo de Diana) e argumenta que o "verdadeiro génio, por representar um avanço qualitativo sobre os seus contemporâneos, nunca será devidamente reconhecido pela sua própria geração”.

Explicava-se o escasso renome alcançado por Pessoa em vida, sinal de que podia vir a ser reconhecido pela futura história da literatura universal.

Pessoa era um megalómano – natural num criador artístico que pretende ser usurpador da função divina — desde tenra idade. No entanto, os seus anseios de glória associavam-se ao sonho de um Portugal glorioso e triunfal. Ele queria ser um grande escritor, suplantar Luís de Camões, para engrandecer a cultura portuguesa e coloca-la ao nível da inglesa e da francesa. Sendo Portugal um pais pequeno nunca podia distinguir-se como potencia militar ou económica e tinha de se impor como força interior, pelo espírito, pela cultura.

É a função redentora da cultura, com Pessoa no leme de salvador das letras.
Assim, quando o Marechal Manuel Gomes da Costa inicia em Braga a revolta militar, tem o apoio de Pessoa, cansado, como a maioria dos portugueses, de tanta instabilidade política e desordem social.

Pela mesma razão que foi sidonista, Pessoa apoiou a revolta contra a república parlamentar, que nada representava de novo.
Fazer tabua rasa do sistema para criar algo diferente e melhor em que a cultura era a força governativa.

Era o novo império, ao lado dos grandes impérios grego, romano ou cristão: Portugal, através da língua e da cultura, e sobretudo da sua literatura, dominaria o resto da Europa. 

Um império de poetas.




Os rostos da República de A a Z (15)


Em 1922, publica uma edição aumentada de Canções de António Botto, um livro de versos que celebrizava a beleza masculina. Para promover o livro publica um artigo “António Botto e o ideal de estética em Portugal”. O monárquico Álvaro Maia responde-lhe com “Literatura de Sodoma: o sr. Fernando Pessoa e o ideal estético em Portugal”. Raul Leal contrapõe com “Sodoma divinizada” e surge uma Liga de Acção de Estudantes de Lisboa contra a “literatura de Sodoma”.

O livro de Botto e o artigo de Leal são apreendidos pelo governdor civil de Lisboa enquanto é distribuído um manifesto contra “a inversão da inteligência, da moral e da sensibilidade”.

Pessoa responde, numa folha assinada por Álvaro de Campos: “Ó meninos, estudem, divirtam-se e calem-se”. Enceta depois um combate escrito pela liberdade de expressão que contrasta com o seu sidonismo anterior. Pessoa, após o assassínio de Sidónio Pais, glorificou-o com o poema “À memoria do Presidente-Rei Sidónio Pais”, em 1920, prenúncio do regresso do Desejado D. Sebastião. 

É a primeira manifestação de sebastianismo. Baseado nas profecias do sapateiro de Trancoso (séc. XVI), Pessoa quer afirmar-se como Salvador da literatura de Portugal, o super-Camões, ao mesmo tempo que desejava um super-homem politico, um grande estadista, que pudesse salvar o país do caos em que este se afundara.

Apesar do gosto pelo escândalo, Pessoa já não era visto como um jovem irrequieto, desejoso de dar nas vistas. Tornara-se um homem respeitado, recatado e de hábitos certos,  admitindo, em 1920, a possibilidadde de se casar com Ofélia Queirós, a quem declara um “amor extremo”.

No entanto, nas cartas trocadas entre ambos, Fernando Pessoa falava-lhe de assuntos corriqueiros. Costumavam passear a pé mas Fernando nunca quis ir a casa dela e conhecer os seus familiares. A relação ficou numa caixa, num compartimento, isolada do resto da vida de Pessoa, apesar de ter tido grande importância para ele. 

Guardou as muitas cartas e postais de Ofélia. Ele queria amá-la mas faltava-lhe o essencial: a entrega. Quando o namoro acabou, ele sentiu-se “aliviado e sem vocação" para “outras afeições”.
Com o país em crise, por sete mudanças de governo em 1920, inúmeras greves e manifestações, a vida de Pessoa entra numa fase de estabilidade. 

Vive na casa de Ourique até ao fim da vida, com pequenas viagens ao Alentejo ou ao Estoril, para visitar a sobrinha, filha do irmão Luís, nascida em 1931.

Abandonada a ideia de emigrar para Londres, Fernando Pessoa convenceu-se a ficar em Lisboa para consolidar a sua obra e pros-seguir a sua missão “civilizadora”.

Ele fazia questão de afirmar que “o imperialismo dos gramáticos dura  mais e vai mais fundo que o dos generais” e interiorizava que “a única compensação moral que devo à literatura é a glória futura de ter escrito as minhas obras presentes”, numa década em que a produção de Pessoa diminuía.





Tuesday, July 30, 2013

Os rostos da República: Fernando Pessoa (14)


O conselho de Henry More apontava para uma mulher desvirginadora no seu caminho, bastando que ele não tivesse medo e há descrições bastante pormenorizadas de mulheres que deviam resolver o “problema” de Pessoa, ao ponto de se apontarem três filhos de três mães diferentes.

Pessoa acreditava nesta previsões do seu alter ego Henry More? Ou eram apenas as suas aventuras astrais que substituíam o amor terrestre para amortecerem uma relação carnal?

Seja o que for, Pessoa continua a escrever até 1930, por entre um ou outro conselho para Pessoa “acasalar”. Estes despertares coincidiram com um acordar espiritual que fazem crescer “aversão às mulheres” ao ponto de se consideram artisticamente incompleto por não ser completo sexualmente.

Afinal, Pessoa vivia assustado pela solidão para não ser o tal Deus suspenso do vazio e começa a interessar-se pela grandes religiões como forma d encontrar a ligação da sua vida aos outros seres humanos.

Daí a té se deixar seduzir pela Cabala, Rosa Cruz ou a Maçonaria foi um pequenino passo, numa fase de grande incerteza e vulnerabilidade intelectual, de alguém pedido que se agarra ao que houve para agarrar.

Passara a grande explosão de Alberto Caeiro e o poeta vivia sozinho, em quartos alugados, confrontando-se consigo mesmo.
Devorando jornais, Pessoa assistia ao descalabro do mundo, com a I Guerra Mundial, em que defendeu a posição alemã, antes de Portugal ter entrado no conflito.

Pessoa era uma personalidade profundamente abalada. À guerra junta-se a trombose que atinge a mãe e ele sentia-se rodeado pela ausência, morte e precariedade. Só o mundo espiritual e religioso lhe davam algum conforto através do contacto com o “mestre” Henry More.

É nesta fase que Pessoas se aborrece com a mediunidade como um menino larga os seus brinquedos, mas é provável que tenha acreditado tanto nela como nos seus heterónimos ou na astrologia.

Pessoa assume-se como a criança que brinca com amigos imaginários – os seus heterónimos – porque fingir para uma criança não é muito diferente de acreditar. Não fosse o poeta um fingidor e não o fosse mais ainda quando perde o dom de acreditar naquilo que ele próprio gerou.

Encomendou horóscopos astrólogos ingleses ou era cliente que queria ser fornecedor? Elaborava horóscopos para desconhecidos ou procurava fontes de receitas alternativas? Há mistérios pessoanos que permanecem indecifráveis.

Nestas distracções da mediundade que “provoca um desequilíbrio mental, nálogo ao produzido pelo alcoolismo”, Pessoa comete um dos seus grandes erros: não se aperceber que o destino ia decapitar o “esfinge gordo”, o seu maior amigo, Mário de Sá-Carneiro.

Explica também que chegados aos 30 anos, Fernando Pessoa não tivesse publicado ainda nenhum livro, ao contrário de tantos amigos menos talentosos? Era um projecto que adiava desde 1913 e anunciava aos amigos mas “nada saía” mesmo que o jornal A Capital considerasse a Ode Marítima como a “trapalhada mais extraordinária” mas “se torna forçoso reconhecer que há nela qualquer coisa de superior ao resto e que o seu auto tem talento apesar da sua maluqueira”?

Pessoa nunca se empenhou seriamente em que lhe publicassem os livros por culpa sua: a sua exigência de perfeição absoluta tornava difícil esse acto. Ele não queria ser mais um daqueles que frequentam cafés, publicam uns versos e se tornam mais ou menos conhecidos e morrem depois.

Publicar-se era para Fernando Pessoa uma “ignóbil necessidade”. Daí que apenas o tenha feito em 1918, com Antinous e 35 sonnets. A edição comprovou o seu receio: ninguém leu. Era na Inglaterra que ele esperava ter êxito e abordara já várias editoras sem sucesso ou sequer uma resposta.

Na Inglaterra, um jornal avalia Antinous e 35 sonnets e coloca em causa a qualidade do inglês do poeta e o escasso interesse “pelo valor do que os poemas têm para dizer”. Outro jornal acusava-o de “excessivo artifício shakespeariano”.

O mesmo destino têm os mil exemplares de “English poems”, inspirados em modelos gregos. Sobraram-lhe 900 exemplares. A sua aposta – ou tentativa de emigrar – londrina falhava completamente. Nesta altura da vida, Pessoa não sabia o que fazer: ficar ou sair de Lisboa para Londres, deixar de escrever e criar uma empresa import-export. As ideias fervilhavam à mesma velocidade que fracassavam no terreno. É no meio desta convulsão pessoal, literária e económica que Fernando Pessoa desencadeia uma polémica de grandes proporções.

Em 1922, publica uma edição aumentada de Canções de António Botto, um livro de versos que celebrizava a beleza masculina. Para promover o livro publica um artigo “António Botto e o ideal de estética em Portugal”. O monárquico Álvaro Maia responde-lhe com “Literatura de Sodoma: o sr. Fernando Pessoa e o ideal estético em Portugal”. Raul Leal contrapõe com “Sodoma divinizada” e surge uma Liga de Acção de Estudantes de Lisboa contra a “literatura de Sodoma”. 

O livro de Botto e o artigo de Leal são apreendidos pelo governdor civil de Lisboa enquanto é distribuído um manifesto contra “a inversão da inteligência, da moral e da sensibilidade”.
Pessoa responde, numa folha assinada por Álvaro de Campos: “Ó meninos, estudem, divirtam-se e calem-se”. Enceta depois um combate escrito pela liberdade de expressão que contrasta com o seu sidonismo anterior. 

Pessoa, após o assassínio de Sidónio Pais, glorificou-o com o poema “À memoria do Presidente-Rei Sidónio Pais”, em 1920, prenúncio do regresso do Desejado D. Sebastião. É a primeira manifestação de sebastianismo. Baseado nas profecias do sapateiro de Trancoso (séc. XVI), Pessoa quer afirmar-se como Salvador da literatura de Portugal, o super-Camões, ao mesmo tempo que desejava um super-homem politico, um grande estadista, que pudesse salvar o país do caos em que este se afundara.

Apesar do gosto pelo escândalo, Pessoa já não era visto como um jovem irrequieto, desejoso de dar nas vistas. Tornara-se um homem respeitado, recatado e de hábitos certos,  admitindo, em 1920, a possibilidadde de se casar com Ofélia Queirós, a quem declara um “amor extremo”.

No entanto, nas cartas trocadas entre ambos, Fernando Pessoa falava-lhe de assuntos corriqueiros. Costumavam passear a pé mas Fernando nunca quis ir a casa dela e conhecer os seus familiares. A relação ficou numa caixa, num compartimento, isolada do resto da vida de Pessoa, apesar de ter tido grande importância para ele. Guardou as muitas cartas e postais de Ofélia. 

Ele queria amá-la mas faltava-lhe o essencial: a entrega. Quando o namoro acabou, ele sentiu-se “aliviado e sem vocação para outras afeições”.





Os rostos da República: Fernando Pessoa (13)


Pode ter perpassado a ideia, nas últimas crónicas, que Fernando Pessoa passou pela miséria, mas a verdade é que nunca esteve à beira dela, apesar de todos os percalços.

No entanto, é verdade que Fernando Pessoa foi afligido, durante toda a sua vida adulta, a começar na adolescência, por crises de depressão, devidas ao seu exacerbado sentimento de solidão.
Já em criança sentia necessidade de se isolar dos outros e mais tarde reconhece que apenas Mário de Sá-Carneiro era “o maior e mais íntimo amigo”.

Em que consistia essa intimidade, na troca de poemas para serem comentados reciprocamente.
Estranhamente nunca se tratam por tu, mas falam das suas angústias, receios e depressões, mas quase sempre num tom literário, elevado, com recurso a metáforas, imagens requintadas e recurso a passagens das suas obras.

Sá-Carneiro queixava-se mais vezes da falta de dinheiro e pedia a Pessoa para ir pedir ou cobrar dívidas a amigos em Lisboa.
Quando Sá- Carneiro caminhava para o suicídio, Fernando pessoa escreve-lhe que “há barcos para muitos portos, mas nenhum para a vida não doer, nem há desembarque onde se esqueça. Tudo isto aconteceu há muito tempo mas a minha mágoa é muito antiga”.

Sá-Carneiro era o mais inseguro dos dois, com receio de ofender ou incomodar o outro mas sempre aflito quando as cartas de Pessoa tardavam a chegar. Pessoa tinha uma irresistível capacidade para se distanciar das suas emoções, algo impessoais, como se fosse um observador de si próprio… até ao dia em que o seu amigo Mário se entregou numa aventura sem retorno com uma “personagem feminina”.

Pessoa reagiu com ciúmes face à prostituta Helena ou estava a reagir ao afastamento definitivo – o suicídio de Mário, a 26 de Abril de 1916?

Pessoa entendia o sexo como “elementos de obscenidade” que eram um “estorvo a certos processos mentais superiores” mas estava ainda vivo, como demonstra numa carta publicada em 1915, embora com uma orientação pouco clara.

Em Agosto desse ano escreve Antinous, em que o imperador canta a sua dor e o seu amor perante o cadáver do jovem amante, que morrera afogado no Nilo. É o mais belo poema de amor que Fernando escreveu, com muito desejo sublimado, com a expressão repetida “Ai de mim!” perante uma rapariga a quem fez olhinhos mas não teve atrevimento para mais.

O jovem poeta estava confuso e baralhado. Queria relacionar-se com mulheres (entre 1914 e 1920) ou colocar-se em causa sexualmente devido à sua timidez com as mulheres? Em parte, era assim, como demonstra uma carta que escreve a João Gaspar Simões. Nessa carte, Pessoa reconhece ter duas sexualidades à parida, representadas pelos poemas Epithalamium e Antinous.

Em 1916 ainda confessa ser virgem, enquanto Mário de Sá-Carneiro se desenvencilhava desse problema com uma prostituta, em Paris. Na gravura, o seu poema Aquele outro.

Um dia, um dos seus heterónimos, Henry More, avisa-o a 28 de Junho de 1916: “não deves continuar a manter a castidade. És tão misógino que te encontrarás moralmente impotente e, dessa forma, não produzirás nenhuma obra completa na literatura”.

Esta inquietação sexual coincide com o despertar espiritual de Fernando Pessoa, entre 1915 e 1918: “um génio inteiramente só, por mais genial que seja, é tão carente de sentido como um Deus suspenso no vazio”.

Fernando Pessoa necessitava de ligar a sua vida com outros seres humanos, no plano afectivo, ou seres superiores, no plano espiritual. A verdadeira busca começa agora para ao autor de “A Mensagem”.

Os rostos da República: Fernando Pessoa (12)


A ‘heterocracia’ de Fernando Pessoa chegou ao ponto de criar um Thomas Crosse, suposto tradutor e crítico inglês, criado depois para distinguir Alberto Caeiro, Ricardo Reis e Álvaro Campos, chegando ao ponto de planear, em 1916, uma Antologia dos poetas sensacionistas portugueses.

O Thomas Crosse não “cumpriu” essa tarefa e apenas escreveu parte do prefácio dessa obra.
Pessoa ou Thomas Crosse chegou a traduzir para inglês alguns versos de um poema de Alberto Caeiro, dois poemas inteiros de Álvaro Campos e o início da Ode Marítima.

O ano de 1914 marca também uma viragem na poesia do ortónimo Fernando Pessoa (outro que “vivia” com a tia Anica) ou seja o verdadeiro Pessoa que, ao conhecer Alberto Caeiro, “teve naquele momento a sua libertação" ao dar a conhecer qualquer coisa diferente nos seus poemas que têm datas posteriores a 8 de Março de 1914.

Que confusão, dirá o leitor. A esta observação camiliana, devemos lembrar que pessoa encarnava outras pessoas, com nomes diferentes, mas que eram a mesma pessoa que escreveu 
Ó sino da minha aldeia,
Já lenta na tarde calma,
Cada tua badalada
 Soa dentro da minha alma

Ou então:
A cada tua pancada,
Vibrante no céu aberto,
Sinto mais longe o passado,
Sinto a saudade mais perto”.

É uma verdadeira ficção em torno de si próprio que Pessoa urde ao longo deste período de desdobramento dos seus “eu”, numa caminhada de despersonalização – e de desresponsabilização? – porque todos eles estavam artisticamente vivos, com vida própria, verdadeira e responsabilidade nenhuma.

Mas é neste ano de 1914 que desponta uma Primavera triunfal, a explosão de Pessoa como um grande escritor que resulta de uma mistura da escola inglesa, os estudos de Latim e das literaturas clássicas, os românticos e simbolistas franceses em que ele mergulhara oito anos antes.

O rastilho foi um poeta americano – Walt Whitman — , a chave que abriu Pessoa para ‘O Canto de Mim mesmo’ que é um hino ao cosmo inteiro e galvaniza Pessoa a libertar-se dos heterónimos de forma progressiva, sem que deixe de os criar, como António Mora (continuador de Caeiro) ou Rafael Baldai (astrónomo de barbas longas que filosofava no seu Tratado de Negação).

Também temos os irmãos de Thomas Crosse (I. I. Crosse ou A. A. Crosse) que assinava ensaios a favor de Alberto Caeiro (I. I.) ou concorria a prémios literários (A. A.). Estes heterónimos comentavam entre si as obras dos anteriores Ricardo Reis e Álvaro de Campos, críticos um do outro e envolvendo-se numa discussão acalorada que respeitava a grandeza incondicional do mestre Caeiro… Devem ter sido divinais estes anos para Fernando Pessoa no diálogo com os seus outros “eu” (alter ego).

O único conhecedor destas multifacetadas personagens era Mário de Sá-Carneiro e daí que se entenda que tenha definido Pessoa como “Homem-Nação – o Prometeu que dentro do seu mundo interior de génio arrastaria toda uma nacionalidade: uma raça e uma civilização”.

Pessoa gerou a sua própria civilização sem sair de casa e nutria a esperança de impor esta civilização - dos heterónimos – no mundo real.
Álvaro de Campos assinava cartas para os jornais e dava entrevistas. Há dezenas de páginas elogiosas que Pessoa queria publicar em jornais portugueses e estrangeiros para Lançar Caeiro, enquanto Frederico Reis escreveu um longo folheto sobre a escola de lisboa que era constituída por Caeiro, Reis e campos e se opunha a Teixeira de Pascoais e aos saudosistas do Porto. Sozinho, desdobrando-se em muitos autores, Pessoa estava pronto a transformar a literatura nacional.

Era uma ambição desmesurada. Sejamos simpáticos: era uma forte desejo de afirmação pessoal ou o maior monumento conhecido ao narcisismo na Europa, pelo menos.

Uns dividem para reinar, Fernando Pessoa “dividia-se para reinar” e afirma-o ousadamente em Ultimatum pela pena de Álvaro de Campos, onde condena a época de então por “incapacidade de criar grandes valores” e luta pela “abolição do dogma da personalidade” quando afirma que nenhum artista deve ter “só uma personalidade” uma vez que o maior artista é aquele que “menos se define, escreve em mais géneros com mais contradições e dissemelhanças”.

Em 5 de Junho, o poeta fingidor escreve à mãe: “os meus amigos dizem-me que eu serei um dos maiores poetas contemporâneos”. É uma altura de inquietude que procura o regaço da mãe e o reconhecimento público que receava e o levava a refugiar-se nos “Hetero”.

Os rostos da República: Fernando Pessoa (11)


O maior artista, escreve Campos (perdão, Pessoa) terá múltiplas personalidades (quinze ou vinte), exactamente como Fernando Pessoa (um poeta fingidor) que tinha dias “monotamente agradáveis” em que se consolava “com o pensamento astrológico de que não podia acontecer nada realmente grave”.

Mesmo que acabasse o dia “sem jantar porque não tinha dinheiro” nada se comparava à “mistura de megalomania e ideias religiosas (que de modo algum atacaram a lucidez)”…porque a astrologia era uma das razões mais úteis para ocupar o seu tempo de leituras. Fernando Pessoa chegou mesmo a fazer o horóscopo de Álvaro de Campos e de Ricardo Reis.

Nesse mesmo ano, Fernando Pessoa escreve uma frase que deixa o mundo português escandalizado: “o desdobramento do eu é um fenómeno em grande número de casos de masturbação” só possível explicar por um adulto que “nunca fui senão uma criança que brincava” – conforme palavras postas na boca de Alberto Caeiro, a 7 de Novembro de 1915. 

Melhor dito, Fernando Pessoa foi um bebé crescido num corpo adulto que jogava xadrez onde as peças eram personagens criadas por si.
Em JUnho de 1914, no momento do parto de Álvaro de Campos e de Ricardo Reis, Fernando Pessoa escreve à mãe, em Pretória, onde afirma: “os meus amigos dizem-me que eu serei um dos maiores poetas contemporâneos”.

Apesar disso, Pessoa sentia-se inquieto, apesar de consciente do seu génio invulgar que ansiava pelo reconhecimento público que receava.
Sentia que o rumo da sua vida estava a mudar, o que era terrivel para quem entendia que “mudar é uma morte parcial; morre qualquer coisa de nós” bem como “mudar é mau, é sempre mudar para pior”.

Pessoa falava muito das saudades de infância e estas aumentaram com a idade, em reacção à morte que lentamente se aproximava dele, dele como de toda a gente.

Pessoa tinha um medo de crescer. Podia viver para a celeridade póstuma mas não se sentia preparado para a vida que o comum dos homens leva “casado, fútil, quotidiano e tributável”.

Não era um homem de família, que justificava com as suas ambições literárias e por ter um lugar seguro na família que o trouxera ao mundo. Contudo, essa família desmoronara-se com o correr dos anos, passando então a viver sozinho, numa série de quartos alugados todos eles entre os bairros da Estfânia e dos Anjos.

Os apuros económicos – sem apoio familiar — não eram novidade mas começaram a ser maiores, manifestando-se especialmente na década de 1910. Para poder dedicar mais tempo à sua escrita, Pessoa recusava trabalhos com horário fixo numa altura em que todos os amigos e familiares lhe tinham emprestado dinheiro, às vezes montantes elevados.

Acrescem a estas dificuldades, a aflição durante toda a sua vida adulta por crises de depressão, derivadas do seu exacerbado sentimento de solidão, neceesidade sentida desde a infância. “Um amigo íntimo é um dos meus ideais, um dos meus sonhos, mas um amigo íntimo é algo que nunca terei” – confessava Fernando Pessoa, em 1917, profetizando está dolorosa estranha forma de vida.

Numa carta escrita à mãe, em 1914, Fernando Pessoa referia-se a Mário de Sá-Carneiro como o “meu maior e mais íntimo amigo” traduzida em mais de 200 cartas e postais desta e quase nenhuma de Fernando Pessoa. Era uma amizade literária  de troca de poemas e de textos ou a pedir a Pessoa que visitassem amigos lisboetas que lhe deviam dinheiro.

Raramente Fernando Pessoa era banal nas poucas cartas que restam para Sá-Carneiro que se revelava o mais inseguro dos dois e neceesitava da aprovação de Pessoa para se libertar das suas depressões em que “me dói a vida aos poucos, a goles, por interstícios. Tudo isto está impresso em tipo muito pequeno num livro com a brochura a descozer-se”. 

Antecipava-se um momento dramático para Fernando Pessoa: a morte do seu amigo.









Os rostos da República: Fernando Pessoa (10)



Quem era Alberto Caeiro? O  autor de “O Guardador de Rebanhos”, heterónimo de Fernando Pessoa, “nasceu” a 16 de Abril de 1889, numa homenagem a melhor amigo de Pessoa: Mário de Sá-Carneiro.
O nome Caeiro é Carneiro sem a carne, dado a um "pastor cujas ovelhas foram espiritualizadas em pensamentos” até porque “A minha alma é como um pastor” e “o Rebanho é os meus pensamentos”. O seu amigo do zodíaco era Sá-Carneiro.

Sá-Carneiro suicidou-se antes de completar 26 anos e Alberto Caeiro também morreu jovem, com 26 anos, de tuberculose (a doença que inquietava Pessoa desde a infância, por razões familiares).
Pessoa escreveu sobre ambos “Morre jovem o que os Deuses amam”. Pessoa concebeu Alberto Caeiro como o poeta da Natureza, além de ser um vanguardista multifacetado, cuja “morte” prematura leva Pessoa a transferir as ambições futuristas para Álvaro de Campos., como um rebento de Alberto Caeiro, a partir de 1914.

A relação entre os dois heterónimos reflecte-se nos nomes (Alberto e Álvaro), com semelhança fonética, alem de Álvaro vir dos campos onde Alberto guardava os seus rebanhos imaginários.

Álvaro de Campos nasce em Tavira, em 1890, estuda engenharia naval em Glasgow, viaja pelo Oriente, viveu alguns anos em Inglaterra, onde cortejava rapazes e raparigas por igual, até se fixar em Lisboa.

Dos seu s primeiros poemas, o destaque vi para a Ode Triunfal que celebra as máquinas e a idade moderna com fôlego exuberante.
Com o passar os anos, os poemas de Álvaro tornam-s mais curtos e melancólicos “Na passagem das horas”...

Sentir tudo de todas as maneiras,
Viver tudo de todos os lados,
Ser a mesma cousa de todos os modos possíveis, ao mesmo tempo,
Realizar em si toda a humanidade de todos os momentos
Num só momento difuso, profuso, completo e longínquo".

O que hoje podemos escrever sobre Álvaro e Alberto foi impossível até 1924. Se é verdade que Álvaro teve projecto mediática imediata, só neste ano se conheceram o Alberto e o Ricardo Reis.

Campos assinava cartas para jornais, dava entrevistas e entrava em polémicas, opondo-se muitas vezes às teses do seu criador (Pessoa). Álvaro Campos era tão “real” que intervinha na vida diária do seu criador, substituindo-o em alguns encontros com Ofélia Queiros que não gostava nada do engenheiro nem em pessoa (ou melhor, “em Pessoa” nem nas cartas que dele recebia (cf. ZANITH, Richard, op.cit. pp. 99-108).

Os directores da Presença (Gaspar Simões e José Régio) ficaram desgostosos quando foram ao café Montanha, em Junho de 1930, na expectativa de conhecer o seu mais ilustre colaborador e quem apareceu não foi Pessoa mas o engenheiro Álvaro de Campos. Mera brincadeira ou mecanismo de defesa de Pessoa inseguro perante pessoas desconhecidas? Álvaro de Campos existia para alem das páginas por si escritas.

Vamos ao terceiro heterônimo: Ricardo Reis, que surge uns dia apos Campos, na personagem de medico que Pessoa define como “Horácio grego que escreve em português”.

Reis era especialista em odes métricas sem rima sobre a futilidade da vida e a necessidade de aceitar o destino, muito contrários, à partida, ao espírito inovador do Álvaro e do Alberto. 

No entanto, este “portuense nascido” em 1887, denotava atenção ao renascimento italiano que revalorizava o legado cultural da antiguidade. Como o apelido sugere é monárquico e tem de exilar-se no Brasil, deixando-nos milhares de papeis com poemas e textos soltos.

O intersecccionismo é um movimento literário de vanguarda criado por Fernando Pessoa e que se caracteriza pela inclusão alternada no poema de vários níveis simultâneos de realidade: a interior e a exterior, a objectiva e a subjectiva, o sonho e a realidade, o presente e o passado, o eu e o outro (cf. GUIMARÃES, Fernando - O Modernismo Português e a sua Poética , Lello, Porto, 1999, pp.71-72).

O poema "Chuva Oblíqua", de Fernando Pessoa (in "Orpheu" n.º 2, 1915), é o exemplo mais significativo deste novo processo, porque nele se cruzam a paisagem presente e ausente, o actual e o pretérito, o real e o onírico:

"Ilumina-se a Igreja por dentro da chuva deste dia
E cada vela que se acende é a chuva a bater na vidraça..."

No entanto, os três heterônimos são a expressão do “sensacionismo”, um movimento nascido do interseccionismo, que Pessoa define: “Caeiro tem uma disciplina: as coisas devem ser sentidas tais como são. Para Ricardo Reis, as coisas devem  ser sentidas, não só como são, mas de modo a integrarem-se num certo ideal de medida e regra clássicas. Em Álvaro de Campos, as coisas devem ser simplesmente sentidas”. 
Este último é quem melhor exprime o sensacionismo mas cabe a Caeiro chefiar o movimento... em 1916.

O sensacionismo deriva de três movimentos: do simbolismo francês, do panteísmo transcendental português e "da baralhada de coisas sem sentido e contraditórias de que o futurismo, o cubismo e outros quejandos são expressões ocasionais, embora, para sermos exactos, descendamos mais do seu espírito do que da sua letra" (cf. PESSOA, Fernando - Páginas Íntimas e de Auto-Interpretação, Lisboa, Ática, pp. 134-138). 

Para este movimento, a única realidade em arte é a "consciência da sensação" e baseia-se em três princípios artísticos: 1) o da sensação, 2) o da sugestão, 3) o da construção" (id. ibid., pp.134-138).


Tuesday, May 14, 2013

Os rostos da República: Fernando Pessoa (09)

Quem era Alberto Caeiro? O  autor de “O Guardador de Rebanhos”, heterônimo de Fernando Pessoa, “nasceu” a 16 de Abril de 1889, numa homenagem a melhor amigo de Pessoa: Mário de Sá-Carneiro.
 
O nome Caeiro é Carneiro sem a carne, dado a um "pastor cujas ovelhas foram espiritualizadas em pensamentos” até porque “A minha alma é como um pastor” e “o Rebanho é os meus pensamentos”. O seu amigo do zodíaco ea Carneiro.

Sá-Carneiro suicidou-se antes de completar 26 anos e Alberto Caeiro também morreu jovem, com 26 anos, de tuberculose (a doença que inquietava Pessoa desde a infância, por razões familiares).

Pessoa escreveu sobre ambos “Morre jovem o que os Deuses amam”. Pessoa concebeu Alberto Caeiro como o poeta da Natureza, além de ser um vanguardista multifacetado, cuja “morte” prematura leva Pessoa a transferir as ambições futuristas para Álvaro de Campos, como um rebento de Alberto Caeiro, a partir de 1914. 
 
A relação entre os dois heterônimos reflecte-se nos nomes (Alberto e Álvaro), com semelhança fonética, alem de Álvaro vir dos campos onde Alberto guardava os seus rebanhos imaginários.

Álvaro de Campos nasce em Tavira, em 1890, estuda engenharia naval em Glasgow, viaja pelo Oriente, viveu alguns anos em Inglaterra, onde cortejava rapazes e raparigas por igual, até se fixar em Lisboa.

Dos seu s primeiros poemas, o destaque vi para a Ode Triunfal que celebra as máquinas e a idade moderna com fôlego exuberante.

Com o passar os anos, os poemas de Álvaro tornam-se mais curtos e melancólicos “Na passagem das horas”...

Sentir tudo de todas as maneiras,
Viver tudo de todos os lados,
Ser a mesma cousa de todos os modos possíveis, ao mesmo tempo,
Realizar em si toda a humanidade de todos os momentos
Num só momento difuso, profuso, completo e longínquo.

O que hoje podemos escrever sobre Álvaro e Alberto foi impossível até 1924. Se é verdade que Álvaro teve projecto mediática imediata, só neste ano se conheceram o Alberto e o Ricardo Reis.

Campos assinava cartas para jornais, dava entrevistas e entrava em polémicas, opondo-se muitas vezes às teses do seu criador (Pessoa). Álvaro Campos era tão “real” que intervinha na vida diária do seu criador, substituindo-o em alguns encontros com Ofélia Queiros que não gostava nada do engenheiro nem em pessoa (ou melhor, “em Pessoa” nem nas cartas que dele recebia (cf. ZANITH, Richard, op.cit. pp. 99-108).

Os directores da Presença (Gaspar Simões e José Régio) ficaram desgostosos quando foram ao café Montanha, em Junho de 1930, na expectativa de conhecer o seu mais ilustre colaborador e quem apareceu não foi Pessoa mas o engenheiro Álvaro de Campos. Mera brincadeira ou mecanismo de defesa de Pessoa inseguro perante pessoas desconhecidas? 

Álvaro de Campos existia para alem das páginas por si escritas.

Vamos ao terceiro heterônimo: Ricardo Reis, que surge uns dias após Campos, na personagem de medico que Pessoa define como “Horácio grego que escreve em português”.

Reis era especialista em odes métricas sem rima sobre a futilidade da vida e a necessidade de aceitar o destino, muito contrários, à partida, ao espírito inovador do Álvaro e do Alberto. 

No entanto, este “portuense nascido” em 1887, denotava atenção ao renascimento italiano que revalorizava o legado cultural da antiguidade. Como o apelido sugere é monárquico e tem de exilar-se no Brasil, deixando-nos milhares de papeis com poemas e textos soltos.

O intersecccionismo é um movimento literário de vanguarda criado por Fernando Pessoa e que se caracteriza pela "inclusão alternada no poema de vários níveis simultâneos de realidade: a interior e a exterior, a objectiva e a subjectiva, o sonho e a realidade, o presente e o passado, o eu e o outro" (cf. GUIMARÃES, Fernando - O Modernismo Português e a sua Poética , Lello, Porto, 1999, pp.71-72).

O poema "Chuva Oblíqua", de Fernando Pessoa (in "Orpheu" n.º 2, 1915), é o exemplo mais significativo deste novo processo, porque nele se cruzam a paisagem presente e ausente, o actual e o pretérito, o real e o onírico: 

Ilumina-se a Igreja por dentro da chuva deste dia
E cada vela que se acende é a chuva a bater na vidraça...

No entanto, os três heterônimos são a expressão do “sensacionismo”, um movimento nascido do interseccionismo, que Pessoa define: “Caeiro tem uma disciplina: as coisas devem ser sentidas tais como são. Para Ricardo Reis, as coisas devem  ser sentidas, não só como são, mas de modo a integrarem-se num certo ideal de medida e regra clássicas
Em Álvaro de Campos, as coisas devem ser simplesmente sentidas”. Este último é quem melhor exprime o sensacionismo mas cabe a Caeiro chefiar o movimento...em 1916.

O sensacionismo deriva de três movimentos: do simbolismo francês, do panteísmo transcendental português e "da baralhada de coisas sem sentido e contraditórias de que o futurismo, o cubismo e outros quejandos são expressões ocasionais, embora, para sermos exactos, descendamos mais do seu espírito do que da sua letra" (cf. PESSOA, Fernando - Páginas Íntimas e de Auto-Interpretação, Lisboa, Ática, pp. 134-138). 

Para este movimento, a única realidade em "arte é a consciência da sensação" e baseia-se em três princípios artísticos: 1) o da sensação, 2) o da sugestão, 3) o da construção" (id. ibid., pp.134-138).

Nota: quadro "Guardador de rebanhos", de Ricardo Alves